Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


66 Comentários

Doze (ou treze) lições para ajudar a terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 2)

escrevendo fimp

“Existem dois tipos de teses, as perfeitas e as defendidas.”

Continuando o post da semana passada, trago a colaboração de colegas professores que me responderam como ajudar a terminar TCCs, dissertações e teses. Seguem as últimas seis dicas (que viraram sete). As fontes estão indicadas no texto, mas a responsabilidade por tudo que houver de errado é minha, claro.

Começo lembrando rapidinho as lições da primeira parte do post: 1. Não esquecer do sonho por trás do trabalho; 2. Concentrar-se no processo: desligar das redes sociais; 3. Curtir a escrita; 4. Cercar-se de pessoas que te ajudem; 5. Ler autores e livros que te inspirem; e 6. Visualizar a tese pronta. Aí vão as próximas!

7. Ter paciência, respeito ao próprio tempo e humildade

escrevendo paciencia

O depoimento da professora Andréa Moraes me emocionou. Ela conta que seu principal trabalho de orientação é nos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) numa área com pouca tradição de pesquisa. Sua maior preocupação é que os alunos não desanimem. É comovente ver que há professoras tão comprometidas com o percurso acadêmico, em especial, dos que chegam à universidade menos preparados.

“O desafio é gigantesco: alunos sem preparo têm que enfrentar uma exigência colossal: escrever pelo menos 50 páginas de um tema de investigação. É um suplício. O TCC tem duração de um ano, mas poucos conseguem concluí-lo nesse prazo. Desistem, voltam, desistem, voltam, o TCC vira um grande fantasma. (…)

Gosto que os alunos de graduação aprendam sobre autonomia e sobre criatividade, sobretudo. Mas, não creio que sejam coisas que conquistamos de uma vez, elas vêm aos poucos. Escrita e pensamento requerem paciência, respeito ao próprio tempo e uma dose de humildade. A humildade é amiga das boas perguntas. São coisas preciosas que aprendemos ao longo da vida.

Nada está pronto, nunca, tudo está ainda por fazer. O trabalho escrito pode vir assinado por um autor, mas é sempre fruto dos encontros e das oportunidades que aquela pessoa teve ao longo da vida. Pensar nisso é ter compromisso com uma orientação (acredito na orientação como processo pedagógico) mais compassiva e mais amorosa. Eu acredito nisso e acho que é necessário nos tempos que correm. A escrita é sempre criação e violência, precisamos de calma com ela.” (Andrea Moraes)

8. Perceber que a escrita se faz escrevendo

escrevendo editandop

O professor Christiano Tambascia mandou uma ideia em que acredito demais: o trabalho se faz trabalhando, no processo.

“A dica que eu dei recentemente, para alguém que não estava conseguindo fazer as pazes com o Word: o mais importante é contar sobre o seu trabalho. Se for teclando um pouco, desenhando um pouco, falando um pouco, fotografando um pouco, ou tudo isso em doses variadas, não importa tanto num primeiro momento. Depois que tudo começar a andar, o trabalho de burilar, mexer e refazer se torna um pouco mais tranquilo e saudável.” (Christiano Tambascia)

Esse comentário me lembra de algo que já contei aqui: quando eu era pequena, achava que existia uma estante com todas as ideias do mundo, prontinhas para serem utilizadas pelas pessoas sábias. Mais crescida, passei a achar que os argumentos tinham que estar completamente elaborados antes de começar a escrever. Isso me causava um sofrimento enorme porque as minhas ideias nunca estão acabadas quando começo um texto. É o contrário: a escrita é que me ajuda a entender o que estou pensando!

9. Afastar os fantasmas

escrevendo fantasma

Como bem disse a Andréa, TCCs, dissertações e teses vão se tornando verdadeiros fantasmas na nossa cabeça. O Chris Tambascia fala sobre isso também, lembrando que a escrita também pode ser uma aventura, como dito na Parte 1 desse post:

“Há casos em que a pessoa sabe direitinho o que quer dizer, até mesmo como quer construir o texto, mas termina por ficar angustiada e triste na frente de uma tela em branco. Uma das coisas que acaba travando a escrita é o medo de não produzir um texto que corresponda ao que temos na nossa cabeça; que faça jus a uma espécie de texto fantasmagórico, que só nos resta digitar.

Nos esquecemos que uma tese ou uma dissertação, no fundo, é um bom projeto de uma ideia que então pesquisamos e depois comunicamos para o mundo (um mundo bem pequeno, mas que amedronta e que tememos muito que vá nos julgar).

O exercício da autoria pode ser empolgante, quando começamos a lidar melhor com essa paralisia. E, vai saber, o texto não vai ser aquele da cabeça (porque ele é formado justamente no processo, que inclui bater algumas teclas por algum tempo) e pode ficar ainda melhor do que antecipado! Vai ficar aquém e além do planejado – e tudo bem!

Claro, faz parte da formação acadêmica aprender a produzir num certo formato. Mas parece que isso vem à custa do esquecimento de que, afinal de contas, queremos contar sobre o trabalho que fizemos. Tenho convicção de que não há uma tese ou uma dissertação definitiva. Elas são o que fazemos delas.” (Christiano Tambascia)

10. Lembrar que uma tese é só uma tese

escrevendo bicho

A professora Julia O’Donnell foi na mesma direção do Chris apontando que precisamos olhar o projeto de escrita numa perspectiva menos grandiosa:

“A coisa mais verdadeira e a mais difícil de introjetar: É só uma tese! Passamos anos dedicados a esse bicho-tese, que suga nossas energias, compromete nossa saúde e nossa vida social, nos faz sentir burros(as) 30 vezes por dia (nos bons dias) e por todo esse tempo parece que a vida é a tese. E, por incrível que pareça, não é – ainda bem!

Então meu mantra era: ‘É só uma tese!’. Claro que, nos momentos de desespero (que eram quase todos os momentos na fase de escrita), eu nem ligava pro mantra. Mas de vez em quando eu me permitia repeti-lo e levá-lo a sério. Isso me ajudava a pôr os pés no chão e me reconectar com aquilo que realmente importa: o mundo-além-da-tese.” (Julia O’Donnell)

Concordo com tudo, inclusive com a parte de que é muito difícil colocar essa dica em prática em meio à ansiedade escrever. Só quando fiquei mal de saúde é que me dei conta de que não podia deixar a tese engolir todas as esferas da minha vida. De que adianta terminar a tese, acabando com o próprio corpo junto?

11. Não se apavorar com a defesa

escrevendo tim

Diante dos fantasmas da defesa, a professora Maria Claudia Coelho mandou uma mensagem tranquilizadora:

“Uma coisa que digo sempre aos meus orientandos, quando recebo aquele inevitável e-mail, um ou dois dias antes da defesa, apontando um problema terrível que acabaram de constatar (geralmente ‘grave’ como uma data errada na bibliografia) e que, naquele momento, têm certeza de que os fará serem reprovados: a angústia recrudesce imediatamente antes da defesa, é o pior momento, todos temos isso, porque é quando os fantasmas vêm nos atormentar.

É a proximidade da defesa que acorda os fantasmas. Essa data errada na bibliografia (ou o que for, varia muito a natureza do ‘problema-grave-que-causará-a-reprovação’) é apenas a sua versão de uma angústia pela qual passamos todos. Pare de ler e reler a tese, vá ao cinema, vá tomar um chope, vá à praia, enfim, relaxa, a tese está entregue.” (Maria Claudia Coelho)

Ai, como eu queria ter recebido esse recadinho antes do meu dia-D!! Meu orientador não era desses de mandar relaxar… Ele era capaz de pedir para eu repassar a apresentação por telefone, isso sim! Agora acho graça desses excessos, mas na época eu tinha muitos pesadelos, como já contei aqui.

12. Lembrar que tudo tem começo, meio e fim

escrevendo maca

Retomo a mensagem enviada pela professora Andréa Moraes para falar de como é importante colocar um ponto final no processo de escrita e seguir adiante:

“Ajudar a encerrar o percurso é tão importante quanto ajudar a começar. A hora de acabar é a hora de constatar que o autor ou autora caminhou o melhor que pôde até aquele momento.

Encerrar para começar coisas novas a partir dali. Dar um ponto final em uma etapa da vida, a graduação, no caso. Uma etapa que em um país tão profundamente desigual e injusto como o nosso é ainda exclusividade de poucos. Ter um TCC escrito e apresentado é uma vitória por si só, na minha opinião.” (Andrea Moraes)

Como lembrou a professora Yvonne Maggie, sua máxima predileta na hora de escrever é “tudo tem começo, meio e fim”! Prazos podem ser tirânicos, mas também nos trazer tranquilidade: uma hora a tese tem que acabar! Precisei muito me embalar com esse mantra não só durante o doutorado, mas desde quando enfrentava os trabalhos de curso da graduação e do mestrado. Até hoje uso essa ideia para as escritas com datas de entrega apertadas.

13. Não existe trabalho perfeito

escrevendo meu

Bora teorizar e demonstrar: aqui está um post de doze lições que viraram treze! Ao invés de espremer o texto nas ideias previstas, resolvi terminar errando a conta! Tudo porque a última liçãozinha é uma pérola que merece o seu item próprio:

“Existem dois tipos de teses, as perfeitas e as defendidas.”

A frase faz parte das lembranças do doutorado da professora Daniela Manica:

“Aquilo tocou fundo para mim num momento em que eu precisava terminar, mas não conseguia, pensando que, se eu tivesse mais um mês (um semestre, um ano), eu chegaria mais perto daquilo que queria fazer. Aprendi que, na maioria dos casos, ainda mais com tanta pressão que temos para produzir muito, e rápido, a tese é um ponto final no meio da conversa.

Mesmo assim, faltando só a introdução e a conclusão do texto eu, grávida de 20 e poucas semanas, entrei em trabalho de parto prematuro e tive que parar tudo. Exercício difícil para quem estava querendo concluir logo o trabalho e poder curtir o bebê! Mas não teve outro jeito. Assim que tive condições, depois dele nascer, terminei o que precisava, e finalmente defendi a tese quando meu filho estava com quatro meses. Aí aprendi que nossa vida pessoal, e nossa saúde, importam mais do que qualquer outra coisa.” (Daniela Manica)

Nossa, Dani, muito obrigada por compartilhar sua história. Fiquei emocionada pensando em você e em milhares de mulheres que vivenciaram situações semelhantes… Eu mesma passei a licença-maternidade da Alice estudando para o concurso de professora. Felizmente acabei entrando, mas até hoje me sinto culpada como mãe por esse momento!

Espero que essas treze lições-dicas-sugestões, ajudem vocês a enfrentar as dificuldades nos processos de escrita. Não tem fórmula, mas há qualquer coisa mágica na hora em que paramos de nos questionar e simplesmente fazemos o melhor que nos é possível.

Parafraseando os conselhos da Adriana Facina, na Parte 1 desse post: TCC, dissertação ou tese são trabalhos que exigem disciplina, foco e seriedade; mas sua escrita também pode ser uma arte que dá sentido às nossas vidas.

Meu muito obrigada a todos que colaboraram nessa série-saga; e a todos que leram, comentaram e compartilharam. Até semana que vem!

Sobre os desenhos: Fiz as linhas com uma canetinha japonesa preta (Muji hexagonal gel ink 0,25) e as cores com canetinhas hidrocor (Staedtler triplus color), tudo num papel comum (A4, 90gr).

Você acabou de ler “Doze (ou treze) lições para ajudar a terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Doze (ou treze) lições para ajudar a terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3CU. Acesso em [dd/mm/aaaa].


32 Comentários

Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 1)

escrevendop

“A intermitência do sonho é que nos permite suportar os dias de trabalho”. (Pablo Neruda)

Pela primeira vez aqui no blog, resolvi pedir a colaboração de colegas professores. Perguntei quais conselhos eles dariam para ajudar os estudantes a terminar seus trabalhos de conclusão de curso de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado. O resultado foram doze carinhosas lições e dicas – as seis primeiras seguem abaixo.

Minha gratidão e abraço apertado a Aparecida Fonseca Moraes e Adriana Facina, que colaboram neste post. As fontes estão ao lado de cada citação, mas a responsabilidade pela edição, curadoria e eventuais erros de interpretação é minha.

1. Não esquecer do sonho por trás do trabalho

escrevendo tcc diss tesep

A professora Aparecida Fonseca Moraes fez um relato sobre seus tempos de mestrado que me emocionou:

Lembro-me que trabalhava tão arduamente na escrita da dissertação que não tinha interesse nem nas necessidades físicas mais básicas, como dormir ou comer. Uma coisa, porém, me relaxava e oferecia ânimo novo: os poemas e outros escritos de Pablo Neruda. Foi por isso que, até o final do mestrado, me acompanhou uma frase do livro autobiográfico do autor, ‘Confesso que vivi’:

“A intermitência do sonho é que nos permite suportar os dias de trabalho”.

Parafraseando Neruda: confesso que assim sobrevivi. (Aparecida F. Moraes)

Amei a frase! Fui até procurar “intermitência” no dicionário, para ter certeza de que tinha entendido. 😉 Mas depois desencanei, porque o sentido do verso foi o conforto que a Aparecida encontrou para escrever, não esquecendo dos sonhos que a moveram para escrever um trabalho acadêmico.

Achei aqui uma versão inteira do poema de Neruda; e achei aqui vários outros textos e vídeos do poeta para inspirar.

2. Concentrar-se no processo: desligar das redes sociais

escrevendo redesp

Adriana Facina escreveu três conselhos simples e profundos, que me tocaram muito! Desdobrei em quatro para dar destaque a cada passo descrito por ela. O primeiro:

Escrever, especialmente trabalhos de grande monta como dissertações e teses, exige foco, disciplina e um certo desligamento do mundo. Meu conselho número 1 a todas e todos que estão nesse processo é: saia das redes sociais.

Aqui você encontrará problemas políticos que vão te preocupar e te trazer incertezas sobre o futuro, debates estéreis (tretas) nos quais você vai querer opinar e que vão sugar suas energias, um monte de gente aproveitando as férias e lugares maneiros aonde você queria estar, eventos que você gostaria de frequentar etc.

Tudo isso rouba seu tempo e sua capacidade de trabalho. Acredite: nós escrevemos mesmo quando não estamos escrevendo. Ainda que nos momentos em que estamos distantes da tela do computador, nossa cabeça está funcionando no modo escrita, elaborando ideias e formatos que se tornarão textos. É muito importante a gente se concentrar nisso. Se divertir, se distrair é importante, mas procure aquelas atividades que te refazem e reenergizam, não as que desgastam e dispersam. (Adriana Facina)

Nossa, esse conselho vale para a vida, a qualquer momento, não apenas para quem está escrevendo tese, concordam? Eu teria naufragado se tivesse que fazer pós-graduação num mundo com redes sociais.

3. Curtir a escrita

escrevendo bebidasp

Mais um conselho perfeito da professora Adriana Facina:

[Meu] conselho número 2 é: aproveite a escrita. É difícil. Por vezes, solitário. No entanto, é um processo desafiador, instigante, cujos resultados podem ser muito prazerosos (ainda que dificilmente o processo em si o seja).

Faça bons cafés, beba um drink de cara pro computador se isso te ajudar, ouça música ou prefira o silêncio. É a sua arte. Se dedique a ela. Encontre sentido. É sua escolha. É você se inscrevendo no mundo. É o seu pensar autônomo. Não deixe que nada te roube essa experiência tão forte e especial. (Adriana Facina)

Fiquei tão feliz de ler isso! A Adriana tocou num ponto fundamental para mim. É uma delícia quando a gente consegue engrenar no fluxo da escrita, aquele que desliga os sentidos para o mundo lá fora. Vivo para isso. Taí, inclusive, a razão desse blog existir.

4. Cercar-se de pessoas que te ajudem

escrevendo maozinhap

A quarta lição, e o conselho número três da Adriana:

Procure ajuda se precisar. Se a relação com orientador não estiver fluindo bem (ou mesmo que esteja, mas que não seja o suficiente pra você), procure amigos, pessoas de confiança afetiva e/ou intelectual, parentes. Peça que leiam. Discuta seu trabalho com elas. Mergulhe nisso. Fique obsessiva. Quanto mais a gente mergulha e vive nosso tema, mais insights de escrita surgem. (Adriana Facina)

Esse trecho me lembrou de uma história. No auge do meu sofrimento no doutorado, com o orientador pressionando para que eu defendesse no prazo mínimo, uma das coisas que mais me ajudou foi dar um telefonema. Liguei para a Myriam Lins de Barros, uma das professoras que iria participar da minha banca, e expliquei como estava me sentindo: cheia de dores, ansiosa e fraca, fisica e emocionalmente. Ainda hoje me lembro da voz dela, calma e serena, me tranquilizando de que não havia qualquer problema em adiar a defesa por quatro meses e que ela se dispunha a ligar para o meu orientador para me dar apoio. Nossa, que bálsamo ouvir aquilo! Foi a partir desse dia que consegui retomar a escrita e seguir em frente. Obter apoio de pessoas significativas, que nos afetam, seja no plano pessoal ou acadêmico, tem um valor imenso na conquista da estabilidade necessária para produzir!

5. Ler autores e livros que te inspirem

escrevendo claricep

A quinta lição, e última parte dos conselhos da Adriana Facina:

Por fim, nas horas de descanso, recomendo que leia textos que inspiram a escrever. A hora da estrela, da Clarice Lispector, tem uma linda introdução falando sobre escrita. Mas existe muita coisa disponível, inclusive um blog bem bacana: https://comoeuescrevo.com/. Isso ajuda no compartilhamento dessa experiência incrível que é escrever. Bom trabalho! (Adriana Facina)

Não sei vocês, mas eu vou procurar o meu exemplar de A hora da estrela. Não lembrava que havia uma introdução sobre escrita nesse livro! Sobre o blog “Como eu escrevo”, estou devendo uma entrevista lá! É um site cheio de escritores e professores contando seus rituais e métodos de escrita.

Também nunca é demais recomendar a leitura dos Anexos de A sociedade de esquina (William Foote Whyte), do apêndice “Algumas reminiscências e reflexões sobre o trabalho de campo” do livro Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (E. Evans-Pritchard), a obra Truques da escrita (Howard S. Becker), além da lista incrível sobre escrita acadêmica compilada pela Eva Scheliga em seu blog …E ETC. *

Claro que, como sugeriu a Adriana Facina, literatura inspira e muito! Meus autores favoritos nessas horas são Mário de Andrade, Eça de Queirós, Virginia Woolf, Oscar Wilde, Anne Lamott, Umberto Eco, Agatha Christie… Na verdade, qualquer texto que me traga bom humor e inspiração já é um grande estímulo!

6. Visualizar a tese pronta

escrevendo tese prontap

Para encerrar as dicas de hoje, retomo a palavra da professora Aparecida Fonseca de Moraes sobre suas memórias de escrita:

Lembrei de outra que adoro contar.  No período de árduo trabalho de escrita da dissertação, meu filho, com mais ou menos dez anos, desenhava esplendidamente e montava algumas estórias em quadrinhos (não foi à toa que acabou trabalhando com cinema).

Bem, um dia chego em casa e encontro um desenho incrível sobre a minha mesa de trabalho. A cena: Um computador grande, como aquele que eu usava para trabalhar, com um personagem ao lado que apertava apenas uma tecla. Do aparelho saíam folhas de um documento onde se lia: “tese pronta”!  Claro que ri muito, mas fiquei imaginando a ansiedade dele para que esse “rival” saísse logo de nossas vidas… rs (Aparecida F. Moraes)

Que delícia de história, que vontade de apertar esse menino nos braços! Queria ter uma super memória para me lembrar de todas as situações desse tipo que já me contaram. Se vocês souberem de alguma, escrevam nos comentários por favor! No meu caso, só tive filhos depois de terminar o doutorado… Por isso, a marca do excesso de trabalho não ficou tão forte nas crianças. Para todos que estão escrevendo: lembrem da delícia que será cumprir as promessas sobre a vida pós-tese que vocês estão fazendo para os amores e família!

[Continua na Parte 2 aqui.]

Um bom Carnaval a todos, com descanso, trabalho e folia, conforme a dose recomendada!

Sobre os desenhos: Fiz as linhas com uma canetinha japonesa preta (Muji hexagonal gel ink 0,25) que ganhei do Juva, no final de janeiro, vinda da Muji, de Lisboa. Estou apaixonada por essa  caneta e suas irmãs azul, azul escura e vermelha. Como queria utilizar papel comum (A4, 90gr), colori com canetinha hidrocor (Staedtler triplus color). (Sobre todos os materiais que utilizo, ver aqui.)

* Os links para a editora Zahar foram indicados apenas como referência aos livros citados. Não recebo nada por compras dessas obras feitas no site deles.

Você acabou de ler “Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 1)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 1)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Cz. Acesso em [dd/mm/aaaa].


9 Comentários

Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)

arvoreifcsp.jpg

Ser professora, para mim, é viver numa eterna dúvida: será que tenho conseguido afetar positivamente meus estudantes? De vez em quanto a fortuna responde: sim! Pois imaginem minha felicidade quando um ex-aluno veio me pedir dicas para reproduzir uma aula do ano passado na turma em que é monitor. Como eu ainda não tinha escrito sobre essa atividade, pedi um tempinho para me organizar. Segue o plano para vocês (e para ele)!

Objetivos da aula:

. Produzir registros gráficos sobre o entorno do campus universitário, feitos pelos estudantes que o frequentam.

. Refletir (através dessa prática) sobre como lidamos com os espaços e caminhos por onde passamos cotidianamente, promovendo um debate sobre as várias dimensões de olhar, ver, enxergar, distinguir, conhecer, apreender, memorizar, registrar.

. Compreender que os mesmos espaços são percebidos e significados de formas diferentes pelos indivíduos, embora também possamos encontrar padrões mais coletivos de percepção.

. Empreender uma experiência de aula que gere conhecimento e transforme, nos fazendo sentir que aprendemos algo a partir de uma prática associada à reflexão.

. Lembrar que uma atividade de pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material que precisa ser preparado antecipadamente:

. Antes da aula, é preciso tirar as fotografias que serão mostradas na segunda parte do exercício. No meu caso, fui com dois alunos de iniciação científica fazer o percurso no entorno do prédio onde trabalhamos. Tiramos 60 fotografias, procurando mostrar tudo que solicitamos aos estudantes que se lembrassem (ver a lista abaixo). Essa etapa de registro é por si só muito interessante. Mesmo que você não tenha alunos de iniciação científica, aconselho chamar dois ou três estudantes (ou colegas professores) para participar dessa etapa, pois a percepção de várias pessoas tornará mais instigante decidir o quê, e como, registrar. É importante que esse grupo não compartilhe a experiência com os demais alunos antes da atividade.

. Solicite aos alunos que levem lápis de cor ou canetinhas para a aula, mas não explique qual será a atividade. Bastam algumas cores básicas.

Material necessário para a aula:

. Canetas para quadro branco (ou giz, em caso de lousa tradicional).

. Fita adesiva ou fita crepe.

. Papeis A4 brancos. (Se possível, levar 1 folha para cada aluno.)

. Lápis de cor ou canetinhas. (É sempre bom ter um pequeno estoque de lápis-de-cor e canetinhas para os alunos que esquecem de trazer o material.)

. Notebook e Projetor de datashow.

. Pen drive com o conjunto de fotos preparado antecipadamente.

Dinâmica – Como conduzo a aula:

. Entrego uma folha de papel A4 para cada aluno. Peço que separem o material de desenho (canetas comuns e lápis de cor).

. Explico que o trabalho não tem certo ou errado e só conta como participação (ou seja, não é para nota!).

. Abordo o tema da aula: como lidamos com as informações visuais no nosso cotidiano? O que vemos? O que memorizamos?

. Escrevo no quadro o nome de 5 logradouros (o prédio da universidade e cerca de 4 a 5 ruas, praças, avenidas à sua volta). Peço aos alunos para desenharem, com caneta preta, um mapa contendo esses locais. A ideia é ocupar a folha A4 inteira.

. Não especifico como devem desenhar; deixo por conta da interpretação de cada um. Tento criar um clima de brincadeira, mas explicando que o trabalho é individual; o aluno não deve consultar os colegas.

. Em seguida, peço aos estudantes que comecem a registrar graficamente as informações listadas abaixo. É fundamental indicar 1 item de cada vez, esperando que todos tenham terminado de desenhar antes de anunciar o próximo. (Ou seja, os itens não devem ser escritos na lousa todos de uma vez.) A lista de temas e cores deve ser adaptada conforme o espaço onde a aula esteja sendo dada.

. Solicito aos alunos que registrem onde existem…

  • árvores e/ou plantas, utilizando a cor verde.
  • lixeiras, utilizando a cor laranja.
  • hidrantes, utilizando a cor vermelha.
  • monumentos ou estátuas, utilizando a cor rosa.
  • bancas de jornal e orelhões, utilizando a cor azul.
  • postes, fradinhos, bancos e mobiliário público em geral, utilizando a cor cinza.
  • grades, utilizando a cor marrom.
  • calçadas e texturas de pisos, utilizando a cor preta.
  • animais, música, comida etc. (A lista continua até esgotar os temas registrados nas fotos.)

. Divirtam-se com as expressões de desespero! Tem um lado muito engraçado de perceber o quanto somos cegos visualmente para coisas que sabemos que estão lá, mas não distinguimos exatamente onde estão, nem como são.

Vejam um exemplo de resultados baseados na memória de alunos, com o prédio do IFCS ao “centro”:

. Quando todos terminam, sugiro que guardem as canetas, para não ficarem na tentação de acrescentar algo. Em seguida, apresento as fotos dos espaços no Datashow. Primeiro, as mais gerais, depois, as imagens específicas dos itens da lista (árvores, lixeiras, monumentos etc.). Esse é outro momento de diversão geral, com muitos ah! e oh!, devido à comparação: fotografias x registros gráficos x memórias. Vejam o exemplo abaixo do registro do Tomás Meireles, um aluno experiente em desenho (à esquerda) junto a algumas fotos (à direita).

Além de adorar o desenho do Tomás, acho fascinante a comparação: a humanização da estátua (da figura e da escala),  a sensação de espaço ampliado (no desenho, por contraste com a foto), a presença do camelô de comida, a padronagem do chão, a posição da lixeira invertida (no desenho, à esquerda, na foto, à direita). Como nesse exemplo, muitos estudantes não registraram as duas grandes árvores que cobrem a fachada do prédio! Revejam: dos seis mapas mostrados acima, dois marcam com clareza a presença das árvores, dois trazem pontos verdes tímidos e dois não apontam árvore alguma na frente do edifício que frequentam cotidianamente.

Se tenho tempo, reúno todos os desenhos no quadro (colando com a fita adesiva) e peço aos alunos que venham à frente observar, comparar, percebendo as semelhanças e diferenças. É bem instigante comparar não só a presença ou ausência de elementos, mas também as proporções, formas e modos de ocupação dos espaços e dos registros.

Avaliação:

. No final da aula, solicito que todos escrevam na parte de trás do seu mapa uma pequena avaliação da experiência. A maioria registra que foi “difícil lembrar” dos lugares onde passam todos os dias. Uma aluna escreveu que ficou “surpresa” com a sua percepção “superficial” da cidade; o que outra estudante chamou de “olhar sem ver”. A bolsista de iniciação científica afirmou que, mesmo participando da sessão de fotos, esqueceu um monte de coisas na hora de desenhar. “A memória tem vazios” e “hierarquiza” a forma como lembramos,  escreveu outra aluna.

Acho que todos concordaram que “conhecer” é diferente de “saber que existe”, na expressão serena de um aluno, por contraste com a estudante que escreveu: “muito louco esse exercício, professora!” Um aluno explicou que conseguiu registrar os dados que se relacionavam com a bicicleta que usa para ir ao local, o que facilitou na lembrança dos pisos e equipamentos públicos, por exemplo. Vários apontaram essa característica: lembramos mais das coisas (e pessoas) que nos afetam diretamente. Um estudante anotou: “é impossível registrar a realidade em toda a sua complexidade; de forma que toda representação ou teorização é uma redução”. Sim, lembramos de “Funes, o memorioso“, famoso conto de Jorge Luís Borges.

Concluo com o texto do Tomás Meireles, o aluno que desenhou a estátua cor-de-rosa:

“Ao desenharmos a partir das nossas lembranças, temos a oportunidade de extrair um coeficiente estético de uma relação vivida. Desse modo, podemos traçar um contraste entre aquilo que sabemos e aquilo que achamos saber. Ao transportar isso para a antropologia, percebemos como podemos nos enganar a respeito da realidade que nos envolve constantemente.”

Espero que tenham gostado. Experimentem, mandem comentários, sugestões e notícias!

Ah, importante: a referência que me inspirou para construir esse exercício foi o texto abaixo. Coloquei no título um link para o PDF que fiz pois é um artigo difícil de achar. Boa leitura!

NIEMEYER, Ana Maria. “Indicando caminhos: mapas como suporte na orientação espacial e como instrumento no ensino de antropologia”, in: Além dos territórios: para um diálogo entre a etnologia indígena, os estudos rurais e os estudos urbanos. (Niemeyer e Godoy, Emília, orgs.). Campinas, SP, Mercado de Letras, 1998, p. 11-40.

Esse é o quarto post de uma série:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

Sobre o desenho: Depois de várias semanas, me aventurei a desenhar a árvore de que mais gosto do Largo de São Francisco de Paula, praça em frente ao IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ). É uma lindeza, magrela e gigante (quase da altura da igreja). Fiz parcialmente de memória, parcialmente olhando no Google Street View. Ontem voltei a olhá-la ao vivo e me admirei ainda mais com a sua leveza imponente. Sim, os pombinhos ficam minúsculos e até as pessoas ficam mínimas perto dela. Desenhei com uma canetinha Graphik Line Maker 0.1 Sépia, da Derwent, numa folha que ainda está vazia do caderno Stillman & Birman, Delta Series 8 x 10 polegadas.

Você acabou de ler “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-297. Acesso em [dd/mm/aaaa].


7 Comentários

Mensagem fotográfica – Ideia para aula lúdica (3)

2004_fotop

Post útil, pra variar, pessoal! Quem não está cansado de ministrar (ou assistir) aulas burocráticas sobre textos, autores e correntes de pensamento? Eu fico, muito! Para fugir um pouquinho da rotina, gosto de pensar em ideias para começar a aula de forma mais lúdica, já que nem sempre dá para fazer uma atividade longa (como já registrei aqui e aqui). Essas aberturas são uma espécie de aquecimento para entrar nos temas centrais, ajudando a “acordar” os alunos e a mim mesma. São super úteis naquelas aulas de tempos de mais de 3 horas e buscam um dos meus principais objetivos como professora: fortalecer a autonomia e a criatividade de pensamento dos próprios alunos.

Segue abaixo uma dinâmica que fiz nesse primeiro semestre de 2017, com uma turma de laboratório audiovisual. Espero que inspire os colegas de todos os níveis de ensino. Nosso trabalho é desgastante, sofrido… mas, por algum mistério, torna-se uma experiência maravilhosa quando ativamos uma energia positiva de trocas e descobertas.

Análise de fotografias dos alunos

Uma semana antes, solicitei que os alunos trouxessem para a aula seguinte uma fotografia tirada por eles (podia ser com celular) impressa em uma folha A4 (retrato ou paisagem) em preto e branco. Pedi que não identificassem nem mostrassem aos colegas. No dia da aula, recolhi as imagens e redistribui 3 ou 4 delas por grupos  (de 3 ou 4 alunos), variando os tipos de conteúdos e evitando que o grupo recebesse fotos de sua autoria.

Expliquei que não havia “certo ou errado” e que o conteúdo não era para nota. (Às vezes, atribuo uma nota de participação, mas acho importante não avaliar as interpretações para que eles se sintam confiantes em falar e pensar por conta própria.) Em seguida, pedi que analisassem as imagens livremente. Fui passando de grupo em grupo, escutando os debates, fazendo algumas perguntas para instigá-los, provocando comparações. Após vinte minutos, solicitei que cada grupo apresentasse os pontos principais discutidos. À medida que falavam, fui anotando no quadro.

O resultado é que eles próprios deram uma aula: tiraram conclusões, complementaram-se uns aos outros, fizeram pontes entre as observações e as imagens, encontraram perguntas novas. Parecia que tinham estudado profundamente o Roland Barthes, autor que usei para preparar o conteúdo e as imagens da segunda parte da aula (tendo como referência principal o texto “A mensagem fotográfica”). Por sorte, nesse dia, eu estava numa sala com quadro-negro à moda antiga, com giz e tudo. Aí vai uma foto dos temas levantados pela turma:

azul quadro.jpg

Quadro/foto Karina Kuschnir – IFCS 2017

Já fiz uma variante dessa dinâmica projetando as fotos dos alunos com datashow. Nesse caso, é preciso pedir as imagens por e-mail antes. Há vantagens (todos veem bem o material discutido), mas também desvantagens, pois demora muito, não dá para analisar as fotos de todos e não promove o diálogo mais aprofundado intra-grupos.

A opção por imprimir as fotografias em P&B e em tamanho A4 acabou sendo bem interessante. Eles se surpreenderam, enxergaram com novos olhos e valorizaram a ausência de cor como algo que permitiu que comparassem melhor e vissem mais elementos nas fotos do que julgavam presentes. Disseram que a “cor distrai” o olhar… Taí uma conclusão que o historiador Michel Pastoureau e tantos fotógrafos e cineastas concordariam!

Outro dia perguntei para uma turma o que eles acharam de um desses exercícios e fiquei feliz com a avaliação bem positiva. Assim como vocês, também tenho um diabinho no meu ombro sussurrando que “professor bom é aquele erudito, que entope os alunos de conteúdo”. Mesmo sabendo que as pesquisas pedagógicas já provaram que aprendizado precisa de afeto e envolvimento, a gente insiste com esse mito de achar que uma aula vai “ensinar” alguém. Podemos informar, inspirar, estimular, apoiar, instigar, semear ideias? Sim, acho que sim. Mas só vai aprender quem estiver aberto pra isso, para se afetar, se envolver, escutar, retrucar, pensar.

Comecei esse post com a ideia de escrever sobre várias pequenas aulas desse tipo que tenho experimentado em 2017, mas essa primeira acabou tomando o post todo! Então, prometo que volto ao formato se vocês tiverem interesse.

Esse post é o terceiro da série:

 

5 Felicidades-possíveis-das-últimas-semanas:

* A tristeza e as saudades do Ulisses foram aplacadas pelo apoio carinhoso que chegou nos comentários, e-mails e mensagens de vocês. Muito, muito obrigada. Está difícil demais viver sem nosso furacãozinho de pelo, mas estamos lambendo as feridas e cuidando dos que ficaram. Como vários disseram, ele viajou, virou livro, viveu intensamente, e isso é motivo para celebrar.

* Quando você vai numa missa de sétimo dia e, ao invés de apenas cumprir um dever social, se vê emocionada com as homenagens a uma vida rica, amorosa, delicada, frutífera. Lembrei das despedidas à minha avó, chorei à vontade, voltei mais sábia de ônibus.

* Chegar no trabalho e encontrar bilhetinho e presente feito-em-casa de um ex-aluno querido… ♥ ♥ ♥  Só tenho a agradecer e me desculpar. Estou em falta com ele e com tanta gente por conta dos meus problemas na retina. O pior já passou. Agora, o único inconveniente é que, toda vez que vou ao oftalmologista, pingam colírios de dilatação que me deixam sem enxergar direito. A outra sequela é que o olho direito (onde a rutura foi mais grave) não voltou ao normal, de modo que estou desanimada para desenhar e pintar. Mas vai passar.

* Desligando das redes sociais: desde o calendário de abril, estou sem repassar o blog para as redes sociais (Facebook e Instagram). Não desativei meus perfis lá; só deixei de usar. É uma experiência — não sei por quanto tempo –, mas estou gostando. Para completar o ciclo, nesse final-de-semana, cancelei as notificações do Whatsapp e tirei o ícone da tela principal do meu celular. A tentativa é retomar o meu tempo, escolher quando quero olhar as mensagens, ao invés de ser dragada por elas a qualquer segundo. Em relação às crianças, combinei que elas precisam me telefonar (!) em situações realmente importantes. A ideia é diminuir os estímulos do cérebro com micro-conteúdos e alongar os momentos de concentração. Podem deixar que vou contando aqui se continuo firme na experiência.

* Um dos incentivos para pensar sobre tudo isso veio desse post, sincero e engraçado da Val, autora do blog “Uma pedra no caminho”. Val, escrevi uma mensagem de parabéns pelo texto e pelo aniversário do seu blog, que acabou apagada naquele vácuo-sugador que são as páginas de login de comentários no celular. Era para te dizer que seu post me fez rir e me fez pensar também. O que eu quero, para onde vou, qual o valor das horas que dedicamos aos nossos blogs? Pra mim, o projeto nunca foi ter renda ou seguidores, mas também não ousaria dizer que sou imune ao efeito dos likes. Por isso, nada mais libertador do que simplesmente se livrar deles!

Sobre o desenho: Desenho feito por mim, em 2004, a partir da observação de uma fotografia de William Klein (NY, 1954), impressa em papel A4, dobrada, disposta na horizontal com um lápis de coração jogado por cima. Feito em grafite sobre papel Canson. O exercício foi proposto por um professor de desenho de observação da PUC-Rio, onde assisti a algumas aulas na época em que eu era professora lá, no Departamento de Comunicação.

Você acabou de ler “Mensagem fotográfica — Ideia para aula lúdica (3)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Mensagem fotográfica – Ideia para aula lúdica (3)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-1Kf. Acesso em [dd/mm/aaaa].


7 Comentários

A vida simbólica dos objetos – ideia para aula lúdica (2)

objects2p

Hoje compartilho um outro plano de aula lúdica com vocês, inspirada pelo retorno tão positivo que venho recebendo do post anterior. É um exercício simples que junta afeto e aprendizado coletivo, as duas coisas que mais prezo dentro de uma sala de aula.

Tive a ideia dessa proposta numa oficina noturna de Antropologia e Desenho, mas tenho experimentado e dá muito certo nas turmas de teoria antropológica também. Os objetos e o tempo dispendido podem ser adaptados conforme a situação e o público (que pode ser de pessoas de qualquer escolaridade, de 9 a 99 anos).☺

Objetivos da aula:

. Criar um ambiente de curiosidade e desafio na sala de aula, que fuja da rotina e estimule a criatividade. (Ou, como já escrevi:  Mostrar que uma pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.)

. Exercitar a paciência e o foco no processo de observação, com objetivo de “treinar” o rendimento do olhar para o trabalho de campo etnográfico.

. Explorar a capacidade de imaginação e interpretação dos aspectos materiais, visuais e sociais dos objetos.

. Perceber que aprendemos a partir de uma pesquisa, pois há camadas de sentido na vida social que exigem tempo e convívio para serem compreendidas, isto é, não estão acessíveis num contato superficial.

. Compreender que os objetos são carregados de valores simbólicos, socialmente construídos, como escreveu Marshall Sahlins*: “Nenhum objeto, nenhuma coisa é ou tem movimento na sociedade humana, exceto pela significação que as pessoas lhe atribuem.”

. Promover um ambiente descontraído de trocas, afetos e risadas, gerando aproximações e conexões entre os participantes.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material necessário:

. Folha de caderno comum e caneta. (Ou folha de papel A4 liso e material de desenho, se for uma aula com interesse na produção gráfica.)

. Objetos comuns presentes na sala de aula (Ou objetos trazidos de casa, se quiserem explorar histórias mais pessoais.)

Dinâmica – Como conduzir a oficina:

Preparação:

. Pedir para os alunos saírem da sala levando apenas um caderno (ou folha de papel) e uma caneta (ou material de desenho).

. Com os alunos ausentes da sala, o professor coloca objetos que estejam no ambiente perto do quadro da sala, no tablado (se houver) ou no centro da sala (a depender do tamanho da turma, da sala etc.). No caso de objetos pequenos ou trazidos de casa, é bom apoiá-los em folhas de papel Kraft grandes ou em cartolina branca. As mochilas e bolsas dos alunos são ótimos objetos para esse exercício (ver imagem abaixo). É importante selecionar menos objetos do que estudantes (por exemplo, 10 objetos para 30 alunos).

mochilas

Parte 1 – Observação:

. Chamar os alunos de volta à sala, avisando que eles não devem identificar se o seu objeto foi selecionado. (Lembrar também que  o trabalho não é para nota e não tem certo ou errado.)

. Pedir que os alunos se sentem de modo que possam escolher um objeto para observar, em silêncio, por cinco minutos. A escolha é livre e não deve ser compartilhada em voz alta. Ao final do tempo, explicar as tarefas abaixo que devem ser feitas na mesma folha.

. Desenho: cada aluno deve fazer um esboço do objeto escolhido com toda calma, prestando o máximo de atenção possível tanto à forma geral quanto aos pequenos detalhes.

. Texto: cada aluno deve inventar um nome próprio para o objeto escolhido (Maria, João, Ariel etc.) e escrever uma pequena história como se este objeto fosse o personagem nomeado, usando a primeira pessoa do singular (exemplo abaixo).

doris.jpg

Parte 2 – Compartilhando as histórias

. Selecionar um objeto e chamar os alunos que o escolheram para dizer o nome, contar a história e mostrar o desenho. Eles podem ir pra frente da turma ou compartilhar na roda no chão, dependendo de como vocês estiverem organizados. Se a turma for pequena, cada aluno pode ler toda a sua história mas, se o grupo for grande, é melhor que leiam apenas uma ou duas frases. Esse é um momento para deixar todos à vontade, curtindo as histórias criadas; por isso, é bom pedir a um aluno mais extrovertido que comece. (À medida que o exercício avança, os demais vão se tranquilizando e se divertindo.)

. Depois que as histórias do primeiro objeto escolhido são compartilhadas, é o momento de trocar ideias. Quais foram os nomes atribuídos? Houve um gênero? Quais foram os pontos em comum das histórias? E os diferentes? Quais aspectos do objeto (ou do observador) levaram às narrativas e interpretações?

. Para continuar, peço que o dono do objeto se identifique. É sempre com um sorriso que a pessoa levanta a mão! Acho que é um momento em que eles se sentem presentes, para além do seu papel de alunos. Perguntamos então o que ele/ela achou dos nomes e das histórias; e se pode contar um pouco da vida do objeto, se tem um nome, de onde veio, por onde andou etc.

. Nesse processo, todas as pessoas envolvidas vão se conectando por meio das narrativas e dos significados que os objetos suscitaram. Vamos aprendendo sobre os laços afetivos, as redes de sociabilidade, as singularidades individuais e os comportamentos compartilhados (ou não).

. O exercício vai se repetindo com os demais objetos, até que todos os alunos tenham participado.

. Um aspecto relevante numa turma com jovens universitários é que a grande maioria dos objetos foi presente de alguém afetivamente próximo. Essa constatação abre para um debate mais amplo sobre como os objetos “falam” de valores (padrões de gostos, visões de mundo etc.) e indicadores sociais (ocupação, geração, gênero, nacionalidade etc.) das pessoas envolvidas.

Desdobramentos

. Para além dos objetivos da aula, listados acima, já propus dois tipos de exercícios decorrentes dessa experiência, em ambos retirando o lado ficcional da narrativa:

. Um deles é repetir em casa o trio “observação, desenho e escrita” com um objeto que o aluno considere especial na sua história de vida. Na aula de entrega desse material, colocamos todos os trabalhos no quadro para a turma observar e debater. (Geralmente, só faço essa proposta em oficinas de antropologia e desenho.)

. O segundo exercício é levar essa experiência para o trabalho de campo. O objetivo é explorar a habilidade para detectar objetos significativos para o campo escolhido, exercitando a análise de seus aspectos simbólico-sociais. Geralmente, em turmas de pesquisa etnográfica, peço que façam isso com dez objetos (imagens e textos) para depois selecionarem alguns para uma análise mais aprofundada.

Eu poderia passar a noite contando mil histórias que surgiram desse exercício, mas o post já está muito longo. Tivemos choros, risadas, abraços, descobertas, análises filosóficas e antropológicas intermináveis… Muita coisa pode surgir dessa dinâmica, das acadêmicas até as inusitadas: uma vez, sem combinar, três pessoas que nunca tinham se visto antes nomearam uma bolsa com o mesmo nome: Matilde!

Deixo agora por conta de vocês: experimentem e me digam como foi, tá?

* O trecho citado está em SAHLINS, Marshall. “La pensée bourgeoise: a sociedade ocidental como cultura”, In: Cultura e razão prática. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003 [1976], p.170.

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts com meu último artigo sobre antropologia e desenhodicas de escrita da Natalie Goldberg,  25 dicas de edição de textos, sobre brincar de pesquisar, sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre os desenhos: Objetos que são parte da minha história, da esquerda para a direita: chocalho marajoara que foi do Antônio bebê (ganho em Belém-PA), porta-coisinhas de louça que foi da minha avó Lydia, minha caneca preferida (de Oxford, UK), bonequinha de pano que a Alice mais amava quando era pequena. Todos foram desenhados para um projeto de troca de desenhos num caderninho Laloran com canetinhas de nanquim e coloridos com aquarela. Depois conto mais sobre o projeto!

Agradeço aos alunos pela cessão dos desenhos das bolsas e mochilas!

Você acabou de ler “A vida simbólica dos objetos – ideia para aula lúdica (2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2016. “A vida simbólica dos objetos – ideia para aula lúdica (2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/s42zgF-objetos“. Acesso em [dd/mm/aaaa].  

 


14 Comentários

Brincando de pesquisar – Ideia para aula lúdica

paletatorta

Como prometi, hoje vou explicar a brincadeira que fiz com a turma de Antropologia II logo na primeira semana do semestre. Acho que o exercício vale para ensino médio, graduação ou até pós, por que não? Resolvi postar aqui no formato de “plano de aula”. Assim, fica mais fácil para quem quiser experimentar com seus alunos. Depois me contem!

Objetivos da aula:

. Compreender que os indivíduos são diferentes e levam essas diferenças consigo, para além das diferenças nos seus aspectos visuais, que impactam no nosso primeiro contato.

. Compreender que os indivíduos são semelhantes dentro de certas condições sociais; e isso fica claro quando os comparamos sob certos critérios.

. Compreender que precisamos levar em conta essas duas dimensões (acima) para conhecermos a nós mesmos e aos outros.

. Uma pesquisa deve gerar conhecimento e nos transformar. O papel começa em branco, mas deve ser preenchido por algum conteúdo. Precisamos aprender algo a partir de uma pesquisa.

. Uma pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material necessário:

. Canetas para quadro branco

. Papeis A4 para cortar em 6 (É melhor o professor levar 1 folha para cada aluno)

. 6 pedaços de papel com números grandes de 1 a 6 para classificar as respostas sobre uma mesa

Dinâmica – Como foi feita a aula:

Avisar que: As respostas são anônimas; não é para nota; não tem resposta certa ou errada; conta como participação. Pedir que tentem ser bem específicos na resposta.

Preparação: Pedir para os alunos cortarem o papel em 6 pedaços e numerar. (Desenhei um papel com divisão em 6 no quadro)

Quadro: Escrevi as perguntas abaixo no quadro.

Alunos escrevendo: Pedi que os alunos respondessem nos pedaços de papel numerados (cada papel recebeu duas respostas, por ex., 1a. e 1b.), dando aproximadamente 1 minuto para resposta (sem precisar copiar as perguntas).

1) Desde que me entendo por gente, tenho…
a. dificuldade com..
b. facilidade com…

2) Na minha vida…
a. a maior tragédia é…
b. o maior privilégio é…

3) Meu traço mais marcante para…
a. os outros é…
b. para mim é…

4) Hoje em dia…
a. meu maior medo é…
b. minha maior coragem é…

5) Se eu pudesse, gostaria de…
a. aprender a…
b. viajar para …

6) O que me faz…
a. mais feliz é…
b. mais infeliz é…

Após as respostas:

. Cada aluno colocou suas respostas na mesa de acordo com o número correspondente. Ou seja, ficamos com pilhas de respostas 1, 2, 3 etc.

. Cinco alunos voluntários vieram, um de cada vez, ler 6 respostas aleatórias, uma para cada número, formando assim um  “personagem”. Foi emocionante, engraçado, estranho, surpreendente, interessante! Em muitos casos, percebemos repetições/padrões, mas também diferenças, distâncias e individualidades.

. Pedi para eles escolherem um número para eu ler todas as respostas. Eles escolheram o número 6 (Feliz/Infeliz). Achei bem significativo, pois foi nesse item que apareceram algumas imagens mais subjetivas. Li as respostas para a pergunta 6B (motivos de Infelicidade) e fui dividindo em dois grupos (em quantidades quase iguais). Perguntei: “Com qual critério eu dividi essas respostas?”. Eles responderam corretamente que foi “infelicidade social” (por ex. desigualdade social) ou “infelicidade individual” (por ex. terminar um romance). Peguei o grupo “social” e li as respostas da questão 6A (motivos de Felicidade). Muitos papéis foram parar na pilha “individual” nessa questão. Ao final, restaram apenas 4 papéis na resposta 6A do tipo “social”! A turma foi me ajudando a interpretar as respostas binariamente, mas acabamos decidindo criar uma categoria meio-termo para respostas com a palavra Arte e Amor em geral. O restante ficou no grupo “individual”. Todo o processo gerou bastante diversão geral, e também um material para debater sobre diferenças, semelhanças e possibilidades de classificação, como era o objetivo da aula desde o início.

. Fui ao quadro novamente e tentamos classificar as perguntas (da 6ª para 1ª) em tipos de informação. Com a ajuda dos alunos, decidimos que cada dupla de perguntas correspondeu aos seguintes recortes mais gerais: 1-Aptidão/Personalidade; 2-Realidade/Sociedade; 3-Personalidade/Identidade; 4-O que nos move/Atitude; 5-Desejos/Sonhos/Futuro; 6-Gostos/Sentimentos/Aspectos sociais vs. psicológicos. (Os termos são deles!)

. Fiz uma observação de que não coloquei nenhuma pergunta relacionada a aspectos visuais das pessoas de propósito, para não criar constrangimentos (por ex. risos da turma diante de alguma resposta), mas que eles precisariam ser levados em conta também. Expliquei que as perguntas foram apenas pretextos para mostrar como é interessante conhecer as pessoas e seus projetos… Falei da importância de sairmos do piloto automático (na vida e no pensamento) para podermos aprender e gerar conhecimento.

Nossa avaliação:

. A turma riu em vários momentos (de leituras das respostas, especialmente). Achei que criamos um ambiente de atenção, respeitoso e divertido, bem favorável à proposta. Notei um sinal positivo nos tempos de hoje: ninguém saiu mais cedo ou pareceu estar no celular!

. Fiquei com vontade de reproduzir aqui um monte de respostas legais, mas o post ficaria ainda mais enorme… Se ficaram curiosos, façam a experiência e vejam o que acontece.

. A monitora Aimée Weiss fez uma avaliação por escrito que me deixou muito feliz (obrigada, Aimée!). Um trechinho para vocês:

“O exercício foi bastante interessante justamente pela necessidade de autoanálise dos alunos em relação a sentimentos, personalidade, isto é, aspectos interiores, não externos, e que, por isso, precisam de maior reflexão para serem constatados. Não se trata de características dadas, evidentes/visíveis, mas sim que, para percebemos, faz-se necessário olhar e observar a nossa vivência pessoal. Foi muito interessante perceber a grande quantidade de pessoas que se diziam tímidas ou com dificuldades de contato social. Acho que as tarefas desenvolvidas durante a aula incentivam uma participação e construção coletivas. Este aspecto, juntamente com o exercício de etnografia, será muito importante como desafio para essas pessoas, de maneira a sair de suas zonas de conforto para se comunicar. Ao mesmo tempo, os alunos mais extrovertidos vão precisar de mais cautela para a atividade de observação, contemplação, sem necessariamente recorrer à imediata comunicação verbal. […] A atividade também comprovou a importância da nossa autonomia, da colocação das nossas impressões e observações para alcançarmos conclusões numa pesquisa. Mostrou também aos alunos que qualquer tema pode ser usado para pesquisa, desde que demonstremos que temos algo a conseguir captar, uma descoberta a fazer. […]  Pude observar um grande interesse e concentração dos alunos com a atividade, justamente por ela sair do padrão acadêmico. Esses exercícios tornam a aula muito mais leve, prazerosa e divertida. Também notei que eles não ficaram vidrados no celular. :-)”

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender adesescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota da semana passada:

. Agruras de hospital: caí na mão de um técnico de enfermagem que mais pareceria um carcereiro! Ele me examinou (39,3 graus de febre, pressão baixa, desidratada) e, ao invés de ajudar, começou a me dar bronca: “bota a máscara porque tá dando muito H1N1” (a máscara me sufocando), “por que você não tomou remédio pra febre?” (eu tomei, moço); e depois de me furar várias vezes, ele não desistia: “a culpa é da sua veia que não tá aparecendo”! Ainda bem que minha sobrinha surgiu com a Wilma (outra técnica de enfermagem) e me salvou!

. Alice se recuperou das contusões e está apaixonada por tocar Lisbela no violão. Sei que elogio de mãe não vale, mas está lindinha demais! Pena que essa semana foi a vez dela ficar resfriada…

. Começamos maio com um plano familiar bem modesto: ler uma página de “Viagem ao centro da terra”, de Julio Verne, todos os dias. É o mesmo exemplar que li quando tinha a idade deles.

. Antônio, apesar da exaustão do ensino médio, está pintando e desenhando muito!

. Descoberta culinária da semana, nessa vida pós-açúcar: nibs de cacau orgânico. Uma delícia pra jogar em cima de qualquer fruta! Tem em qualquer loja de produtos naturais.

. Assisti a palestra TED “Uma história visual do conhecimento humano“, do pesquisador Manuel Lima. Além do conteúdo lindo e interessante, olha a coincidência: ao mandar o link para um amigo querido, ele me responde que tem o livro do autor sobre o tema! Peguei emprestado, claro. 🙂

. E outra palestra TED, essa para se divertir, sobre procrastinação, com o Tim Urban.

Sobre o desenho: Paleta de cores que fiz em 2015, no início do meu curso de aquarela no Atelier Chiaroscuro, da professora Chiara Bozzetti. Achei que dava uma boa ilustração para essa aula em que produzimos um monte de papeizinhos. As manchas foram feitas a partir das três cores primárias (as primeiras à esquerda) com todas as outras cores da minha paleta na época. É sempre um exercício válido. Recomendo!

Você acabou de ler “Brincando de pesquisar – Ideia para aula lúdica“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2016. “Brincando de pesquisar – Ideia para aula lúdica”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-lx . Acesso em [dd/mm/aaaa].