Karina Kuschnir

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Caderninho bom, bonito e barato

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Queria dividir com vocês uma pequena grande alegria da minha semana: estão à venda na Papelaria Botafogo meus amados caderninhos Hahnemühle. Taí um raro item importado que se encaixa na categoria bbb (bom, bonito e barato)! Por 16,00 reais, leva-se para casa um kit de 2 cadernos, cada um com 40 páginas de papel marfim (claro) 125 gr, costura na lateral e uma etiqueta de brinde para identificar.

Aprendi a amar esses caderninhos super leves, com folhas que aguentam bem uma ou duas camadas finas de aquarela. Comprei os primeiros em Lisboa e me apaixonei. Parece bobagem, mas quem adora desenho sabe como é difícil não sair de casa com dois quilos extras de material na mochila. Claro que meu pequeno estoque (de 6) terminou logo.

Para minha felicidade, essa semana fui bater ponto na Papelaria Botafogo e lá estavam não só esses caderninhos maravilhosos, como uma enorme variedade de papeis Hahnemühle de todos os tipos. Fiquei tonta.

Só quem ama material de artes sabe o sofrimento de tentar comprar alguma coisa no Rio de Janeiro. Aqui era preciso escolher entre a falida Casa Cruz (que nos deprimia mais a cada visita, até fechar), o tumulto impessoal da Caçula (com suas filas de supermercado Guanabara) e os poucos produtos e altos preços da JLM.

A paisagem era essa até que o Claudio Lopes, dono da Papelaria Botafogo, começou uma pequena revolução. Foi enchendo sua lojinha de coisas maravilhosas — Sakura, Staedtler, Copic, Faber-Castell, Hahnemühle, Van Gogh, Canson, Posca, Stabilo, Kum –, a maioria inéditas no Rio, com preços mais justos que a concorrência (quando tem).

A Botafogo é uma papelaria-de-raiz, na beira do asfalto, com caneca de Feliz Dia das Mães na vitrine de alumínio, com dezenas de miudezas no balcão e uns trambolhos pendurados aleatoriamente no teto. É a antítese da esnobe Casa do Artista de São Paulo.

Entrar lá é uma viagem às papelarias da infância, daquelas de bairro, onde se parava de bicicleta na porta para comprar um lápis, uma borracha e, de vez em quando, um presente no dia das crianças. Tinha duas dessas perto da casa da minha avó.

Imaginem a sensação de caça-ao-tesouro: você entra na Papelaria Botafogo e acha uma estante de Copics e Hahnemühle. Sim, estou parecendo deslumbrada, né? Tudo bem, me deixa. É tão raro a gente ter uma pequena alegria nessa cidade! E a minha custou apenas 16,00 reais.

Aviso importante: esse não é um texto pago! Só falo aqui no blog de materiais que realmente amo e utilizo. Escrevo porque sou extremamente grata de ver essa loja acreditando tanto nos materiais de arte. Além de ser uma simpatia, o Claudio me dá uns descontinhos, como a todos os clientes frequentes. Ele nem sabe que estou escrevendo esse post. Espero que goste e se sinta homenageado!

Queria agradecer a todos que comentaram o post da semana passada. Hoje e nos próximos dias vou responder os comentários. Foi muito emocionante ler os depoimentos da Deise, da Eunícia, da Marília, da Sarah e de tantas pessoas maravilhosas que abriram o coração. Muito obrigada pelo carinho! ♥

Como disse a Viola Davis, numa entrevista linda à Brené Brown, de 9/5/18, para aguentar as agruras da vida:

“Eles dizem para você desenvolver uma casca grossa, então as coisas não chegam até você. O que eles não dizem é que sua casca grossa impedirá que tudo saia, também. Amor, intimidade, vulnerabilidade.

Eu não quero isso. A casca grossa não funciona mais. Eu quero ser transparente e translúcida. Para que isso funcione, não vou absorver críticas de outras pessoas. Não vou colocar o que você diz sobre mim nas minhas costas.” (Viola Davis)

(Tradução acima do Google, com algumas trocas minhas, especialmente de “thick skin” por “casca grossa” que achei mais usual em português do que a literal pele grossa sugerida. Vale a pena ler a entrevista toda.

Amanhã faz dois meses: bora participar das manifestações #JustiçaParaMarielleEAnderson

Um final de semana com alguma leveza para todos nós!

Sobre o desenho: Caderninhos desenhados com Pigma Micron 0.2, coloridos com aquarelas Winsor & Newton, no verso de um bloco Canson (Mix Media). Utilizei uma canetinha  Gelly Roll 0.8 branca da Sakura para fazer as costuras laterais, uma canetinha Pigma Micron  0.05 cor sienna queimada para os galos do símbolo da Hahnemühle e uma canetinha 0.5 cinza Graphik Derwent Line Maker para fazer as sombras da etiqueta e do símbolo da Papelaria Botafogo.

Você acabou de ler “Caderninho bom, bonito e barato“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Caderninho bom, bonito e barato”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Ev. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Mini paleta de aquarela

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Alguns pesquisadores acreditam que a aquarela existe desde 800 a.c., quando os egípcios coloriam seus papiros com pigmentos naturais misturados com goma arábica, clara de ovo e água. É incrível pensar que essas tintas eram utilizadas nas miniaturas pintadas à mão em livros por gregos, romanos, sírios e bizantinos até o século 9 d.c. Quase todos os livros de história da aquarela dizem que o pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528) foi o primeiro artista (ocidental) a realizar pinturas em aquarela, embora naquele tempo esse material fosse considerado menor, sendo utilizado apenas para croquis, estudos e diários de viagem, por ser de fácil transporte e secagem rápida. Do século 19 em diante, os estojos de aquarela para amadores se tornaram cada vez mais populares e acho que agora, nos anos 2010, estamos vivendo uma valorização enorme dessa mídia.

Todo esse preâmbulo foi para apresentar a vocês o estojinho miniatura que comprei no ano passado no evento dos Urban Sketchers em Manchester, Inglaterra. Numa caixinha igual a um porta-cartão-de-visitas, a empresa Expeditionary Art conseguiu colocar uma base de ímã, uma base branca e 14 recipientes de metal para as tintas. Tive a sorte de ver uma pessoalmente, porque só vendo para acreditar em quão pequena é essa paleta. Não foi barata. Se não me engano, paguei 25 pounds (cerca de 100 reais) na versão vazia, e 35 numa versão já com as tintas, pois queria trazer uma de presente de aniversário para uma amiga.

Foi um investimento maravilhoso. Alguns colegas disseram que iria enferrujar, mas já tenho há quase um ano e não vejo o menor sinal de desgaste. A grande maravilha dessa paleta é poder levá-la para todos os lados sem aquela neura de ficar com a bolsa muito pesada.

Há tempos estava querendo atualizar a seção Materiais aqui do blog. Portanto, aí vai um dos meus itens preferidos!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Minha fonte para essa pequena historinha da aquarela foi o livro The big book of watercolor, do Jose M. Parramón. Gosto da parte histórica inicial, mas não recomendo para quem quer começar na técnica. É um daqueles volumes mais para olhar do que aprender, com um jeito meio tradicional de “como fazer” o céu, o mar etc. Para ver uma aquarela do Dürer de pertinho, achei esse vídeo da Kahn Academy.

* A mini-paleta de aquarela pode ser vista em mais detalhes no site da Expeditionary Art ou nessa resenha com filminho no final do Parka Blogs.

* Continuo lendo artigos ótimos no site da Revista da Fapesp e, embora eu seja super defensora da inbox mínima, recomendo muito que vocês assinem o boletim deles por e-mail.

* Foi justamente dessa fonte que descobri o excelente artigo Bororo na Tela, contando porque o filme “Rituais e festas Bororo”, do major Luiz Thomaz Reis (1879-1940), deve ser considerado o primeiro documentário etnográfico de que se tem conhecimento.

* Outra leitura interessante foi o artigo no blog do Instituto Moreira Salles sobre a fotografia de Antonio Luiz Ferreira, que registrou, em 17 de maio de 1888, a missa campal realizada no Rio de Janeiro para celebrar a Abolição da Escravatura. Só de saber que essa foto existe e que há uma coleção imensa de imagens dessa qualidade disponíveis online já é uma maravilha.

* Outra lindeza foi seguir a dica da Julia O’Donnell e revisitar a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, onde se pode ler online milhares de páginas de jornais históricos brasileiros e de outros países. Só nos últimos 30 dias o site teve mais de 3 milhões e 800 mil páginas visitadas! Esse número nos dá esperança de que nem tudo está perdido , concordam?

* Finalmente, queria compartilhar com vocês que a melhor coisa dessa semana foi receber uma mensagem de uma ex-aluna agradecendo por minhas aulas. Eu que agradeço, querida. Inspirada em você, lembrei de sorrir mais, de me manter forte e determinada, sem esquecer da gentileza. Que seu caminho seja de aprendizado positivo e construtivo. Obrigada por existir, resistir e insistir!

Sobre o desenho: Aquarelinha feita em três etapas. Linhas com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron (0.1) e uma primeira mão de tinta com as próprias aquarelas do kit. No dia seguinte, pintei novamente para dar mais intensidade. E ainda num outro dia (esqueci de escrever a data), reforcei algumas áreas mais escuras e a sombra do objeto no papel. O caderninho é um Hahnemühle A6 chamado Sketch & Note, com um papel comum, mas de gramatura um pouco superior (125gr) à média, que aguenta uma aquarela leve. Descobri esse caderno na Casa do Artista em São Paulo e depois comprei novamente na estadia em Lisboa, na maravilhosa Ponto das Artes do Chiado. É super leve para ter na bolsa. Utilizei vários pincéis, pois fiz o desenho em casa, mas costumo ter no estojo da bolsa uma caneta pincel de água (waterbrush) da Kuretake.

Sobre as tintas: Como comprei o kit com algumas pecinhas já cheias de tinta e outras vazias, não sei todas as marcas, mas vou especificar os nomes, da direita para a esquerda, começando na fileira de cima: 1-Espremi duas cores: Vandyke Brown e Indigo, 2-Ultramarine, 3-Cobalt blue; 4-Violet; 5- Permanent magenta e Opera Rose; 6-Rose de Potter e Ruby Red; 7-Scarlet Red. Na segunda fileira: 8-Turquoise; 9-Cerulean; 10-Perylene Green e Terre verte; 11-Sap Green; 12-Burnt Sienna e Pure Orange; 13-Quinacridone Gold e Raw Sienna; 14-Pure yellow e Lemon yellon. A maioria é da marca Winsor & Newton (algumas artísticas, outras da linha estudante, da Cotman), mas o Pure yellow e o Ruby red são da Schmincke.  Se quiserem mais informações sobre as tintas e cores me avisem! Fico meio preguiçosa de escrever sobre esses detalhes porque acho que a maioria dos leitores que vêm aqui são do meio acadêmico e não estão nem ligando para os materiais de pintura! 😉

Espero que todos estejam aproveitando esse feriado prolongado para descansar ou produzir mais.

Até semana que vem!

Você acabou de ler “Mini paleta de aquarela“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Mini paleta de aquarela”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2gJ. Acesso em [dd/mm/aaaa].