Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Pequeninas verdades

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Essa semana, Elizabeth Gilbert escreveu sobre o amor que sente por sua melhor amiga e nova companheira, Rayya Elias. Em meio a um emocionado post no Facebook, citou uma frase de Rayya sobre a verdade:

A verdade tem pernas; ela sempre fica de pé. Quando tudo o mais parece explodir ou se dissolver, a única coisa que fica inteira é sempre a verdade. Então, já que é onde você vai acabar de qualquer maneira, você pode muito bem começar por aí.*

Parece tão simples: começar de uma vez pela verdade. No entanto, é um caminho fácil de contestar se você é cientista social ou, pior ainda, antropóloga. Verdade? Qual verdade? Verdade de quem? Aos nossos olhos, o mundo é sempre complexo, cheio de versões, nuances e curvas. Por fora ou por dentro, tudo pode ser.

A frase, porém, ficou martelando na minha cabeça. Lembrou-me de uma vez em que eu estava angustiada e cheia de dúvidas diante de uma situação difícil. Até que minha sobrinha disse:

–Tia, pára de ver o ponto de vista dos outros o tempo todo!

Como? Eu? Parar de relativizar tudo?

Sim, ela tinha razão. Foi de longe o melhor conselho que me deram naquele momento. Tem hora pra tudo, até para deixar a teoria para outra hora.

O problema de aceitar a ideia de que a verdade existe é encontrá-la. Para algumas, levamos a vida inteira nessa busca, na esperança de encontrar uma verdadezinha que seja, de pé em algum lugar. Para outras, entretanto, basta coragem; coragem de perceber quando o coração bate mais rápido, quando o tempo parece não passar, quando o sono vem tranquilo e justo, quando a simples ideia de abraçar algo (ou alguém) te transmite paz .

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Não, não estou cheia de grandes decisões para tomar. Ao contrário, escrevo sobre isso porque ando em busca de pequeninas verdades para o cotidiano: que tipo de desenho amo fazer, o que me traz energia, o que me traz serenidade, o que me faz rir, o que preciso evitar.

As imagens desse post fazem parte dessa busca. Na primeira, uma folha caída de Embaúba que encontrei numa visita ao Parque do Martelo, um oásis perto da minha casa. Eu tinha ido algumas vezes ao local (como vocês podem ver pelas flores desse post) quando, por coincidência, minha amiga Nathalia me chamou para um encontro com suas alunas do curso Desenhos do cotidiano. Foi dificílimo ir num dia de semana. Cheguei atrasada, deixei de dar atenção à Alice e aos Milhões-de-Trabalhos-Importantes para fazer, mas fui. Chegando lá, em pleno universo-das-coisas-inúteis-do-desenho, quem eu encontrei?  A dona-verdade, bem em pé na minha frente, desligando o barulho do mundo e me presenteando com uma hora de paz. Sessenta minutos que tantas vezes já perdi vendo o Nada na tv ou na internet.

No segundo desenho, uma outra história. Achei um assento livre no metrô chinês gelado. Tentava desenhar, mas ao meu lado sentou-se um rapaz com música altíssima nos fones de ouvido. A tal ponto que me movi dali, incomodada. Felizmente, sentei adiante e me reconectei com o personagem desenhado. De repente, o rapaz-dos-fones vem para o meu lado e diz: — Nossa, estava vendo você desenhar, que ótimo! O André Dahmer é meu amigo de infância, você conhece o trabalho dele? Digo que sim. E ele fica animadíssimo, parece criança feliz, e só por encontrar alguém que gosta de desenhar. De meu inimigo a meu amigo, pela varinha mágica da caneta.

Sobre os desenhos: Folha desenhada num caderninho Moleskine pequeno de aquarela que achei semi-usado na estante. Linhas com caneta Pigma Micron 0.2 coloridas com waterbrush (caneta pincel de água) e aquarela no local. Senhor com muleta no metrô desenhado com a mesma caneta, só que num caderninho bem pequeno que carrego na bolsa de ir para o trabalho. Gostei que a página escaneada acabou mostrando um pouco do desenho que tinha atrás.

Versão original da citação de Rayya Elias: “The truth has legs; it always stands. When everything else in the room has blown up or dissolved away, the only thing left standing will always be the truth. Since that’s where you’re gonna end up anyway, you might as well just start there.”


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O amor numa banca de jornal

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Dona Teresa mantém uma banca de jornal há mais de vinte anos na esquina da rua Visconde de Caravelas com Capitão Salomão, no Humaitá. Ela diz que é uma “banca das crianças” e acrescento que é também uma banca para pessoas que gostam de receitas e sorvetes. Me senti no lugar certo, como minhas alunas em campo no semestre passado, conseguindo o privilégio de desenhar sentada numa mesinha de plástico do “Bar dos Amigos”, bem em frente. Estava calor, mas a água era gelada e os poucos sons vinham da conversa de alguns bebedores de chope e de um casal tentando ensinar o filho a andar com o patinete ganho no Natal. Ao me entregar à tarefa do desenho, o mundo vai ao mesmo tempo se dissolvendo e tomando forma. Muitos passam para cumprimentar Dona Teresa, dizem que os políticos estão cada vez piores, desejam feliz ano novo, e que teremos sorte se o governo roubar menos; os pais insistem centenas de vezes: se você colocar o pé direito e jogar o peso do corpo pra frente, conseguirá se equilibrar, só que se o calor continuar assim, vamos ter que subir.

Estava ali, desenhando, sem nenhum outro motivo. Não, eu não estava só passando; não estava fazendo hora, à espera de alguém; não, não moro ali perto. Saí de casa com o propósito de desenhar a banca de jornais daquela esquina para talvez colocar aqui neste post. Ainda não sabia que era a banca da Dona Teresa, mas lembrava do seu esplendor, da sua esfuziante mistura.

Como é possível viver para a arte, fazendo algo que não interessa a ninguém? “É um projeto artístico, ou um projeto terapêutico?” pergunta-se um bem humorado Cristóvão Tezza (em O filho eterno), refletindo sobre sua vida até então fracassada de escritor. Escrevo “umas coisinhas”, diz seu personagem, “o álibi de quem se desculpa, de quem quer entrar no salão mas não recebeu convite”. Dizer “eu escrevo” é como revelar sua intimidade, sentir o “peso do ridículo” de ser “alguém que publica livros aos quais não há resposta, livros que ninguém lê”.

Tezza nos conta (em O espírito da prosa) que foi preciso “desembarcar” das suas “próprias nuvens”:  parar de respirar as mensagens políticas e literárias dos outros. Ao reler trabalho anteriores, ele afirma:

“percebo o óvio: eu não estava ali. Um escritor ausente de sua frase é a derrota do texto. Eu continuava obedecendo a uma pauta em grande parte alheia, tateando formas e ideias no escuro.”

Foi preciso aceitar seus desejos mais secretos — o prazer pelas cartas, pelo humor, pelas narrativas  — para se tornar o escritor que queria ser.  Não que tenha passado seu sentimento de inadequação. Afinal, “é simples e cristalino: ninguém pede para você escrever.” Não há anúncios do tipo “procuram-se escritores”, “contratam-se romancistas”, “Poetas, com referências, paga-se bem”.

Gostei de começar 2014 voltando a me reunir com as obras de Cristóvão Tezza que conheci e por quem me apaixonei em 2013. Ele reafirma para mim a ideia de que criar é um “gesto ético de abandono e generosidade”, de tentar se transformar em outra pessoa, de obrigatoriamente tentar “ver o mundo do lado de fora de si mesmo”.

Acho que é um bom começo, talvez até mesmo uma definição perfeita do amor: escutar-se, encontrar-se consigo, mas entregar-se à conexão com os outros, sempre e intensamente.

É o que posso desejar de melhor para tod@s que me acompanharam até aqui. Obrigada, de verdade.

Sobre o desenho: No velho caderninho de sempre, usei canetinha nanquim Pigma Micron 0.05 para o desenho feito no local. Adicionei as cores em casa com aquarela e lápis de cor, com a ajuda preciosa vinda do olhar do meu filho Antônio, e de uma foto tirada com o celular, que não tenho olho nem imaginação biônica…

Sobre os livros de Cristóvão Tezza: O espírito da prosa: uma autobiografia literária (ed. Record, 2012) e O filho eterno (ed. Record, 2010, 9a.ed, lida no Ipad na app Kindle). Não vou indicar todas as páginas, pois foram muitos os trechos que citei. Mas recomendo que leiam, leiam integralmente os dois livros, que são como duas faces da mesma incrível e apaixonante história. Ambos, um prazer do início ao fim.