Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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No que acredito

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“A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento.”

“Duas pessoas entre as quais haja amor perseveram ou fracassam juntas, mas quando dois indivíduos se odeiam, o êxito de um constitui o fracasso do outro.”

“Não há atalho para uma vida virtuosa, seja ela individual ou social. Para construir uma vida virtuosa, precisamos erigir a inteligência, o autocontrole e a solidariedade.”

“Mas nada se poderá conseguir procurando garantir a segurança de uma parte da humanidade à custa de outra (…). Somente a justiça pode conferir segurança; e por ‘justiça’ me refiro ao reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os seres humanos.”

Bertrand Russell, No que acredito, 1925

Essas frases saíram de um livrinho que caiu no meu colo essa semana. Ia dar só uma olhada, mas acabei lendo o pequeno volume inteiro! Que sabedoria a desse filósofo que escreve sobre temas complexos de uma forma tão clara e fácil.

3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Começou o primeiro semestre da UFRJ, e tenho duas turmas. Senti as mesmas apreensões de sempre: não vou dar conta, estou muito cansada, não tenho mais nada para dizer… Mas o encontro com os alunos e alunas reais foi ótimo. Propus exercícios novos em sala de aula (tanto para a Antropologia II quanto para a turma de Antropologia e Desenho) e acho que deu para nos divertirmos bastante! Depois conto mais aqui, se vocês quiserem — será que alguém tem esse interesse?

* Alice foi eleita representante de turma, junto com uma amiga. Fiquei feliz por ela. Por experiência (Antônio também já foi representante), sei que vai ser um caminho de muito aprendizado. Não é fácil.

* Antônio se apresentou com a peça Vida Severina, do grupo de teatro da escola. Foi lindo, emocionante, surpreendente! E claro que sou totalmente isenta para elogiar. No palco ele nem parecia meu filho!

Sobre o livro: Bertrand Russell, No que acredito, LP&M Pocket (tradução de André Godoy Vieira). Depois fiz uma rápida pesquisa no blog Brain Pickings e achei vários posts legais sobre o autor.

Sobre o desenho: Aquarela feita a partir de uma foto que tirei numa rua perto de casa. A árvore estava linda, toda colorida nesses tons. Estou tentando ser mais consistente no uso do meu diário gráfico, fazendo pelo menos um desenho por dia. Para não ficar de cerimônia, comecei essa nova série no final de um caderno Laloran antigo, detonado, pois tinha sido encharcado de água pelas patinhas do Ulisses… Assim não tem como ter pena de errar ou gastar.  A data no canto direito foi feita com um carimbo muito legal: “mini dater”. Não lembro de onde é o meu, mas consegui comprar com facilidade o refil da almofada de tinta. Para as flores, pintei direto com caneta pincel waterbrush e tintas Winsor & Newton. Estou tentando ser mais solta do que nos meus últimos desenhos com contorno. Aproveitei o momento de uma conversa telefônica matinal para pintar, e acho que a leveza refletiu as palavras sábias da minha amiga parteira: “penso, logo existo; penso demais, logo desisto”!

 


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Artista, bicho, jardim

vangogh

“O artista é um bicho assim: a dor dá cor ao seu jardim…” (Juva Batella, em Do gato Ulisses as sete histórias, p.38)

Pela coragem de atravessar a cidade, pela paciência de encarar a fila, pelos sorrisos, pelos abraços, pelas flores, pelos carinhos, pelos compartilhamentos, pelas mensagens dos que não puderam ir, e pelos quase 150 Ulisses que vocês levaram para passear… muito obrigada!

Queria escrever sobre os livros que estou lendo, mas não terminei nenhum dos dois ainda… Também estou em crise de decidir o que quero desenhar, mas tanto os diários da Margaret Mee quanto as cartas do Van Gogh me levam em direção às plantas. Na falta de um jardim de verdade, fui para um imaginado (acima) e para um pequeno parque perto de casa (abaixo).

Sempre leio que o artista cria a partir das suas “referências de infância”. Tipo José Lins do Rego escrevendo sobre a vida no sítio do pai — história aliás lindamente transformada no livro “O menino que virou escritor” de Ana Maria Machado (ilustrada por Ciro Fernandes, ed. José Olympio).

Mas menina urbana tem lá referência?

Pensa daqui, pensa dali, chego à conclusão de que tenho umas memórias de coisa verde sim. As plantas da escola onde estudei até os 12 anos ocupavam a nossa falta-do-que-fazer nos anos 1970. Na hora do recreio, uma das minhas atividades preferidas era arrancar essa florzinha vermelha do pé, despetalar e sugar o miolo! É uma eca, eu sei… mas não tinha celular nem mp3 naquele tempo. E o ser humano gosta de fazer besteira.

hibiscos

Uma coisa divertida dessa busca pelo jardim perdido é usar o Google para descobrir o nome das plantas. Essa aí de cima é uma “Malvaviscus arboreus”, também chamada de hibisco-colibri pelos especialistas (porque não acredito em “nome popular” de planta).

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Uma amiga leu o post sobre os 3 Ps (paixão, paciência e prática) e me mandou de presente a linda ideia dos três Cs: Coragem, Coração e Consciência!

* Apesar da resistência, reli com a Alice “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof, e ela teve que admitir que achou muito engraçado.

* Um tio-cunhado leu o post sobre as críticas e me mandou de presente a história de quando ele entrou para a família. Depois de se hospedar na casa da minha tia-avó, ele ouviu-a ligar sorrateiramente para a futura sogra: — “Dida, tu sabes que ele tomou banho e deixou tudo impecável, como se o banheiro não tivesse sido usado!”

* A Cora Rónai fez uma foto incrível e escreveu um perfil muito simpático de um dos meus heróis no Rio de Janeiro: o Tony, que resgata, protege e doa animais abandonados, com a ajuda da Marluce, sua companheira.

* Participei a convite da Daniela Manica e da Marina Nucci de uma roda de conversa emocionante no IFCS com alunos e funcionários, sobre gênero, corpo e trabalho. Foi um momento marcante nesses quase dez anos de UFRJ, que me lembrou o amor por tudo que aprendi na escola das Amigas do Peito.

* Achei por acaso (e comprei por um preço ótimo!) o lindíssimo livro “Usos e circulação de plantas no Brasil”, organizado pela Lorelai Kury (ed. Andrea Jakobson).

* Três crianças disseram que leram de uma vez e adoraram o nosso “Do gato Ulisses as sete histórias”!

* Sobre os desenhos: Desenhos feitos no caderninho Laloran com aquarelas Winsor & Newton e lápis de cor Carand’Ache aquarelável. No primeiro, o jardim foi de imaginação, exceto pelo passarinho inspirado numa imagem do livro-fofo The Summer Book, da Susan Branch, que ganhei de presente há seculos da Dri. A frase à direita é de uma das cartas de Van Gogh para seu irmão Theo. Para o segundo desenho, colhi algumas flores de verdade caídas no chão, já bem murchas, coitadas, pois não tive coragem de arrancar do pé onde um beija-florzinho tomava seu café-da-manhã.


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Ensinando antropólogos a desenhar

Foto01Sei que ninguém está interessado em antropologia numa sexta-feira à noite, véspera das eleições presidenciais mais disputadas dos últimos tempos. Então aceitem minhas desculpas pelo “intervalo intelectual”: é que só hoje consegui cumprir o compromisso de publicar o post da semana!

Saiu o artigo sobre o curso de desenho e antropologia que criei no IFCS/UFRJ! A experiência começou no primeiro semestre de 2013 e já está na terceira turma. Nesse texto, explico de onde veio a ideia do projeto e como desenvolvi algumas das oficinas propostas. Um resumo do resumo do artigo:

Apresento neste trabalho os resultados de uma experiência de ensino chamada “Laboratório de Antropologia e Desenho”, que propõe o desenho como ferramenta central para a pesquisa etnográfica. Alunos sem formação prévia na área foram apresentados ao ato de desenhar como uma forma de se conhecer o mundo.

Através de aulas práticas, as convenções em torno do desenho acabaram desconstruídas para, em seu lugar, reencontrarmos novas formas narrativas capazes de evocar graficamente ideias, encontros, diálogos, observações e percepções sobre a vida social. Por meio de exercícios, tratamos da formação dos pesquisadores aos dispositivos de diálogo e troca com o universo pesquisado, passando pelo processo de registro dos dados e da divulgação dos resultados.

Buscamos explorar as consequências, perguntas e soluções que emergem do ato de se ensinar a desenhar e construir narrativas gráficas no (e sobre o) trabalho de campo.

Na publicação, faço os muitos agradecimentos necessários e cito os autores que me ajudaram a pensar e planejar essa aventura. Mas queria deixar registrado um <<muito obrigada>> especial aos estudantes (bolsistas e alunos) que colaboraram ao longo do curso e que cederam seu tempo, suas imagens e seus textos para a pesquisa.

Espero que gostem!

O artigo completo pode ser lido aqui: Ensinando antropólogos a desenhar: uma experiência didática e de pesquisa. Foi publicado como parte do dossiê “Imagem, pesquisa e antropologia”, organizado por Andréa Barbosa (Unifesp), para a revista Cadernos de Arte e Antropologia, v.3, n.2. Vale a pena ver também os outros textos desse excelente volume.

Cordeiros da Bahia

Em breve, brevíssimo, uma versão em inglês do meu artigo estará disponível. E para quem tiver interesse em ler outros textos que escrevi sobre o tema: estão aqui.

Planos!

Agora – Estou escrevendo um artigo sobre os resultados dos trabalhos finais dos alunos (buscando incluir o material das três turmas que já passaram pelo curso).

No horizonte – Publicar online os destalhes de todas as oficinas (que se renovaram bastante desde o primeiro curso) para alunos e professores que queiram experimentar os exercícios em suas aulas.

Para 2015 – Começa uma outra fase da pesquisa. O tema é… surpresa!

Sobre o desenho inicial desse post: A imagem foi feita por mim num Ipad (App Adobe Ideas, caneta Bamboo) a partir de uma fotografia das alunas Poema Eurístenes (desenhando) e Bárbara Machado (sendo desenhada) tirada em sala de aula, no IFCS/UFRJ, durante uma das oficinas do curso.


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Atenção: obras pedestres

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Há semanas, meses, anos, a rua onde moro vive em obras. Dizem que aqui passava um rio, e por isso todos os fios entram em curto e todas as manilhas se rompem. As britadeiras começam às 8 horas da manhã, mesmo aos domingos. As crianças e os gatos sufocam com o barulho.

Tento consolá-los dizendo que os operários lá embaixo estão sofrendo mais. Além da obra-em-si e seus ruídos, os motoristas se atracam às buzinas e os funcionários de trânsito bufam nos apitos, ambos numa ansiedade insana.

Fujo do caos, a pé, rumo ao metrô para dar aula no IFCS. Converso com os alunos, vemos juntos Debrets e Salavisas antes de partirmos para a rua. Nos abrigamos num pequeno largo dentro do Largo da Carioca para observar os passantes. Ficamos noventa minutos em paz. Exercícios fáceis com lápis de cor: acompanhar o movimento, riscar o papel. Sem modelos, sem compromissos. Depois desafios, formas, volumes, tempo livre. Voltamos para admirar os cadernos, beber água e conversar.

Saio do metrô com o céu já escuro para atravessar os 750 metros que faltam até a minha casa. Vejo um guarda municipal chutando cones e explodindo contra os carros que avançam na contramão. Quero rir, mas tenho pena.

E então vejo aqueles velhos baldes da obra se transformando em luminárias; as faixas dos tapumes brilhando no escuro. Meus olhos estão com as lentes dos desenhos da tarde.

Isso nunca me acontece — porque sempre morro de preguiça — mas aconteceu: resolvi pegar o caderno em casa e voltar para desenhar a cena. Achei um cantinho, encostada na grade de um prédio. Tentei calcular os espaços dos tapumes e agradeci por serem seis: três para cada lado do caderno, ufa.

As placas me comovem. Os pedestres são jogados para o nada: não há passagens, só asfalto e carros zunindo. Para onde vai aquela seta? Lembro do operário com quem conversamos outro dia. Há algo de surrealista na placa amarela: uma obra “a 20 mts” grudada nela mesma. E aquele quinto tapume, o único pichado? Foi Banksy quem mandou colocar?

Tudo isso junto foi a metáfora perfeita para a minha vida atual: em obras, a passo de pedestre, um dia de cada vez.

Sobre o desenho: Desenhei por observação com uma canetinha de nanquim permanente Micron 0.05 num caderno Molesquine formato paisagem. Já em casa, acrescentei as cores com aquarela e lápis de cor. Não tive coragem de fazer a noite por trás de tudo… Talvez por isso os baldes do desenho não cheguem nem perto do brilho que tinham os observados. Mas, fazer o que? Ainda estou em obras… Escaneei cada uma das páginas do caderno e depois juntei pelo meio com Photoshop. Como não tenho muita paciência, cortei as margens, que denunciavam a montagem tosca.