Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Felicidades possíveis

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“You can’t do sketches enough. Sketch everything and keep your curiosity fresh.”*
John Singer Sargent (1856 – 1925) [traduzindo:”Desenhar nunca é demais  Desenhe tudo e mantenha a sua curiosidade sempre acesa.”]

O apartamento onde moro com as crianças é fofo e antigo, mas tem uma disposição esquisita. A melhor (e maior) janela da casa não é a da sala e sim a do quarto do Antônio. Num sábado de fevereiro, achamos uma caixa perdida de lápis de cera e começamos a desenhar juntos. Saiu essa imagem, que postei no Instagram e se tornou a mais curtida do meu perfil. Conclusão: por mais que eu me esforce, o Antônio é o verdadeiro artista plástico da casa! Desenhar com ele é um aprendizado enorme, pelas cores, pela forma de olhar, pela disposição livre das proporções, por ter as possibilidades sempre fluidas. É como se ele me abrisse novas janelas diante desta.

O que me motiva na vida é seguir descobrindo visões novas, aprendendo. Por isso amo tanto ser mãe e estudar: são duas áreas que exigem altas doses de paciência, curiosidade, flexibilidade e adaptação… A recompensa material é pequena, mas a interior é infinita. ♥

Sim, este post é singelo, como definiria um amigo querido. Quis apenas falar da alegria de fazer um desenho com meu filho. Escrever sobre isso é uma forma de reafirmar e ampliar esse tipo de felicidade — possível, cotidiana, gratuita, tranquila.

Outro dia, minha mãe se espantou ao ler no meu caderninho: “dia calmo e pacífico”:
— Quem hoje em dia tem um dia “calmo e pacífico”, filha?

Achei graça, ela tinha razão, mas expliquei que isso era uma forma de valorizar as partes calmas e pacíficas da vida. Não, minha rotina não é um mar de rosas. Nos primeiros dois meses do ano, tivemos aqui em casa: um problema sério no olho (rotura de retina por stress), um assalto de celular, um arrombamento, um diagnóstico de pedra na vesícula, um tombo feio no meio da rua, várias dores de cabeça, infiltrações nos dentes e listas de coisas-a-fazer e deveres-de-casa maiores que uma montanha. Ao longo disso tudo, porém, tivemos muitos momentos felizes, de risadas, abraços, música, arte e criação compartilhada. É nestes que estou tentando focar para começar o ano letivo com otimismo e motivação.

Espero inspirar vocês a seguir nesse caminho. Pra me ajudar, retomei a rotina de andar e pegar um pouquinho de sol odos os dias. Taí uma receitinha grátis de felicidade possível.

7 Felicidades possíveis legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota das últimas semanas:

* A única rede social que tenho frequentado é o Instagram, onde não publico muito mas vejo artistas e ilustradores que admiro. Três mulheres que sempre me trazem alegrias: Lisa Congdon (que também tem um blog com textos ótimos), Holly Exley (que também faz vlogs no Youtube) e Gemma Corell. Preciso colocá-las na lista de inspirações do blog.

* Desde o Natal venho lendo os romances da Jane Austen. Para contextualizar, li um pequeno livrinho sobre a vida dela que é uma graça, indicado pelo blog 1pedranocaminho.wordpress.com, outra leitura frequente.

* Apesar das confusões de saúde, consegui começar março me matriculando numa academia perto de casa. Graças à dica de uma amiga, fui parar numa aula de alongamento maravilhosa. Virou a recompensa ideal depois de suar na seção bicicleta-esteira-transport. Mesmo sem academia, quem quiser se animar pode fazer aulas gratuitas no Youtube. (Aqui uma busca de aulas com músicas legais, em inglês, porque os resultados em português foram um tédio.)

* Duas leituras que me tocaram especialmente nas últimas semanas: as colunas “Duas mulheres, dois tempos” da Dorrit Harazim e a “Restos de Carnaval“, da Ana Paula Lisboa. (Me avisem se não conseguirem abrir, pois o site do Globo é sempre imprevisível.)

* Uma alegria adorável que esqueci de registrar: este blog entrou na lista da Central do Textão, um portal de blogs em português onde sempre descubro ou reencontro maravilhas para ler, como as do pioneiro Duas Fridas.

* Pacotes de livros vindos pelo correio com selos! Amo essa figurinha rara hoje em dia, como já escrevi aqui, que acabou chegando na minha casa em duas entregas recentes: uma da Estante Virtual  e outra da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). A ABA também publicou online o livro inteiro: Trajetórias antropológicas: encontros com Gilberto Velho, organizado por Cristina Patriota de Moura e Lisabete Coradini, disponível aqui.

* Desculpem-me por soterrar vocês de links. Na verdade, uma das melhores felicidades possíveis é não clicar em nenhum deles! 😉

*Sobre a citação inicial: A frase está numa compilação feita pelo blog Making a mark, que sigo no meu Feedly.

Sobre o desenho: Observação do quarto do Antônio feita por ele e por mim com pastel oleoso num caderno A4 fino da Canson. A foto postada no Instagram está aqui.

 


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Sem açúcar, sem cérebro

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Queridos, vale presente de Natal atrasado? Eu tinha preparado esse desenho para vocês, mas meu final de 2015 foi tão atordoante que esqueci! (Os links para imprimir a imagem estão no final do post.)

Falta de foco. É assim que a gente esquece das coisas importantes, concordam? Estou há algumas semanas me sentindo numa estrada lateral, daquelas bem esburacadas e sem sinalização. Será que vou dar no meu destino ou num lixão abandonado?

Ou será falta de açúcar? Resolvi parar de comer doces no dia 5/10/2015. Sei que não devia contar isso aqui, mas agora já foi. Estou tentando ser blasé quanto a essa pequena decisão, e nem vou escrever que já se passaram 108 dias, tipo tenho-coisas-muito-mais-importantes-para-me-preocupar. Mas algo me diz que meu cérebro entrou num sistema de protesto próprio. Achou que eu ia desistir logo, só que não!

Há alguns anos, li num livro sobre o funcionamento da mente que cada pessoa tem uma “cota de concentração” diária. Então, segundo o autor, se o seu projeto é escrever uma tese de doutorado, não convém querer virar atleta e aprender mandarim ao mesmo tempo. E se você resolver que não vai comer mais doces? Melhor não fazer mais nada na vida, né?

Brincadeira, pessoal, também não é pra tanto! Já estou acostumando. Não é dieta. É tipo pra-vida-toda.

O corpo deu uma pifada geral por motivos de ser corpo; porque sim. Escrevo sobre isso justamente para rir e me convencer de que preciso aceitar, me escutar, me cuidar e ter paciência. Já já passa.

Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Alice está usando óculos! É só um pouquinho de astigmatismo mas, ao primeiro olhar, ela foi categórica: “– Mãe, eu estava vendo tudo em 640px, agora tá em HD!”
* Meu remédio tem sido ler, ler, ler. Taí a única coisa que não me cansa, nem doente. Não vou citar tudo aqui de uma vez, mas indico Jack & Alice, despretensiosa novela de Jane Austen, com a divertida e irônica protagonista Lady Williams. Livrinho lindo com ilustrações da Andrea Joseph (cujo blog acompanho há alguns anos), tradução de Christine Röhrig e edição da Martins Fontes.
Sobre o desenho: Aqui vai a imagem do post em boa resolução para imprimir em PDF ou em .JPG! Aprendi esse lema — “Paixão, Paciência, Prática” — numa aula online com o artista indiano-canadense Prashant Miranda. Me identifiquei tanto que adaptei essas ideias para um post sobre projetos acadêmicos, de maio/2015. A graça desse desenho é que foi feito a partir de ramos de verdade, presente de uma amiga querida. Vendo nosso fascínio pelo pacotinho de pimenta rosa do supermercado, ela disse: “tá cheio disso na Baixada: é aroeira!” E no dia seguinte recebi uma caixa cheia. Para pintar a guirlanda, desenhei primeiro com lápis e depois passei uma canetinha de nanquim 0.05 bem velhinha (daí que a linha ficou quase invisível de tão fina). Depois fui pintando com as tintas e materiais que vocês já sabem, num papel de aquarela que não estou me lembrando qual foi (mas algum de algodão e 300gr).