Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Dieta eletrônica

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“Letting go is one of the most difficult of actions, and yet, letting go is one of the great tasks of adulthood, especially as we age.” (Tara Rodden Robinson)

Fugir de todas as tarefas para desenhar e pintar por duas horas: essa tem sido a escolha mais sábia das minhas últimas semanas. No final de maio, fui ao Cactário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro para fazer esse desenho no caderno de uma amiga que mora em Munique, na Alemanha (daí a dedicatória do lado esquerdo). A paz e a lindeza desse espaço são muito maiores do que consegui captar, mas valeu ter enfrentado meus medos e fazer. Desenhei e pintei lá mesmo, só deixando alguns retoques para terminar em casa.

Escrever sobre essa pausa me lembra do meu maior desafio atualmente: estancar o fluxo de informações, demandas, vídeos e junk-coisas que têm inundado meu dia-a-dia eletrônico. Toda vez que salvo um conteúdo novo no Facebook, ele me lembra, irritante: “você tem 11 links salvos e não abertos essa semana”. De que adianta salvar mais e mais coisas interessantes se não as aproveitamos de fato depois?

Montaigne tinha 300 e poucos livros. Quem sou eu para precisar de milhares de links? Taí, depois de 8 meses fiel à minha opção de vida-sem-açúcar (embora ainda sinta falta, não vou mentir), preciso entrar numa dieta de conteúdo. Tenho alma de pessoa-que-se-vicia-em-tudo e por isso minha sobrevivência depende de um eterno esforço auto-disciplinar. Não quero sair do Facebook, pois lá fiz amizades maravilhosas, muitas virtuais e várias que se expandiram para a vida offline. A dieta seria só de navegar “menos”, justamente o equilíbrio de tomar “pequenas doses” que as almas viciadas têm tanta dificuldade para lidar… Bora tentar, que vida sem desafio não tem graça.

Sobre a epígrafe: O texto é desse livro aqui, que li recentemente na app do Kindle para celular. Apesar do título meio cafoninha e enganoso (não, não há nada de sexo no livro), é uma leitura ótima para mulheres em busca de uma vida mais equilibrada e criativa. Recomendei para tantas amigas que vai agora para todas as leitoras do blog. É uma obra simpática para quem está precisando de um incentivo à produtividade, mas o foco é mais no auto-conhecimento e na busca-de-um-caminho-próprio do que no alcance de metas e resultados. Depois me contem o que acharam!

Sobre o desenho: A imagem que ilustra o post foi feita pela observação no cactário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (R$ 10,00 reais a entrada), num domingo, durante cerca de duas horas e meia. Linhas feitas com canetinha Pigma Micron 0,2 num caderno feito à mão pela minha amiga (provavelmente papel 140gr cold press para aquarela). Aquarelas pintadas com vários pincéis e tintas, tendo bastante paciência para deixar secar uma camada antes de começar outra.

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Não passei

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Não passei no vestibular de desenho (duas vezes).

Não passei na prova de estágio da editora Abril.

Não passei na prova de inglês do mestrado.

Não passei na primeira seleção de Prodoc do Museu Nacional.

Não passei no concurso do Departamento de Comunicação da PUC.

Não passei em seleções do CNPq e da Faperj (várias).

Quis registrar esses momentos porque às vezes fico sem palavras quando um amigo ou amiga queridos me dizem: “não passei”.

Para quem faz parte do meio acadêmico, nessa época do ano, o facebook fica cheio de comemorações: “passei no mestrado!”, “passei no doutorado!”, e até “passei na residência” (viva, prima!). E os posts ficam cheios de likes e comentários: é tão fácil e gostoso dar os parabéns!

Mas o que dizer diante dos não-postados: “não passei”, “não foi dessa vez”?

No documentário Vocação do Poder, os diretores Eduardo Escorel e José Joffily acompanham seis candidatos a vereador no Rio num ano eleitoral. Uma das cenas que mais me emociona no filme é quando um candidato começa a verificar os resultados das urnas e descobre que não obteve os votos que esperava. Sem querer acreditar, ele olha uma, duas, três, dez vezes, os boletins impressos das urnas. Passa e repassa aqueles papeis, como se pudesse acontecer um milagre: se ele olhar de novo, só mais uma vez, talvez aqueles números mudem… Mas não; ele não passou também.

Isso de achar ou não achar nosso nome numa lista é forte. Exige uma humildade, a menos que a lista seja uma fraude, o que também acontece sim.

Mesmo com lágrimas e choro, é um pouco mais fácil quando você é pessimista (como eu) e já acha que não vai chegar lá (escrevi sobre isso nesse post). Sempre tenho um plano B. Em algumas dessas situações, foi aquele clichê: “não passar” foi mesmo a melhor coisa que me aconteceu! Certas vezes, a única saída foi me resignar. Em outras, tentei de novo e consegui.

Acho que o desafio é escapar de viver em função de uma definição externa de nós mesmos; e seguir em frente, mesmo quando não temos o “aval do mundo” (aplausos, likes, prêmios, nome no topo da lista).

Taí uma boa meta para 2015!

E um abraço apertado para os meus querid@s que não passaram (e também para os que passaram). Como se diz por aí: tamo junto!

Sobre o desenho: Desenhei essa pontezinha desativada no Jardim Botânico em outubro para um desafio (entre amigas) sobre reflexos. Hoje me lembrei que a frase na plaquinha (“Favor não ultrapasse”) encaixava bem no tema do post. O desenho foi feito no local, num moleskine de aquarela, com canetinha preta de naquim. Aquarela e lápis de cor acrescentados em casa.

Você acabou de ler “Não passei“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2014. “Não passei”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/p42zgF-bJ“. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Saudades das Saudades de Oxford 2

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Não sei se comemoro os pedidos dos leitores que escreveram “sim, queremos mais diários de Oxford!” ou se choro por achar que minha vida (ou meu texto, que diferença faz?) eram mais divertidos naquela época…

Lá vai um relato que escrevi mais ou menos na terceira semana da viagem, em janeiro de 2005, quando começava a me sentir mais integrada à “sociedade local…” 

**A Dieta Britânica**

A primeira e sem dúvida maior vantagem de vir para a Inglaterra é a oportunidade única de se fazer a “dieta britânica”. É muito simples e eficiente. O sistema funciona em etapas, bem parecido com as dietas tradicionais:

Etapa 1 – Choque de preços: Quando bate a fome, você entra numa lanchonete, olha o cardápio e analisa os preços. Que tal 50,00 reais por um queijo quente? Ou quem sabe 10,00 reais por um pedaço de bolo? Resultado: perda de até um quilo em uma semana.

Etapa 2 – Choque de paladar: Passada a primeira fase, você acaba se acostumando com os preços e resolve encarar. Você pede uma tradicional e simpática batata assada com queijo. Aquela comida quentinha e amiga que seu estômago tanto precisava. A aparência é boa, mas o gosto é indescritível: uma mistura de nada com algo azedo e um tanto amargo (depois você descobrirá que esse é o gosto do “Efeito Cheddar” — mais ou menos equivalente ao “Efeito ketchup” dos americanos). Resultado: perda de até dois quilos em uma semana (pois além de não comer, você ainda passa dias enjoada com o gosto do que comeu).

Etapa 3 – Choque de Supermercados tipo 1: Vencidas as duas primeiras etapas, você já aboliu a idéia de ir a restaurantes. Está feliz com a perda dos famosos três quilos (nada mau, você pensa) mas fraca e desnutrida. É hora de ir ao supermercado! Você entra no primeiro e… epa? não tem comida de verdade. É só comida de restaurante disfarçada: salada para 1, lasanha para 1, chop suey para 1, quiche para 1… Você também se dá conta que todos devem ser terrivelmente solitários nessa terra. A fila só tem 1 moça, 1 rapaz, 1 senhor, 1 adolescente. Nenhum grupinho. Cada um com sua cestinha ou com seus pratos-prontos na mão. Você compra timidamente uma sopa para 1. A embalagem diz que é de legumes, mas o “Efeito Cheddar” é o mesmo de sempre. Resultado: perda de até 1 quilo em três dias. (Isso porque você não aguentará mais uma semana na Etapa 3. Seu organismo está ficando fraco.)

Etapa 4 – Choque de Supermercados tipo 2: Afinal você encontra um supermercado de verdade, que vende arroz, lentilha e alface não lavada! Aqui você percebe que existem famílias nessa terra: e ricas. Para ter direito a usar o carrinho do supermercado é preciso pagar 1 pound! Isso mesmo: quase 6 reais só para usar o carrinho. Bem, você não pode esbanjar. Nada de carrinho. De repente, você se vê até feliz pensando: ah, a cestinha é de graça, que sorte a minha! Você compra então tudo o que consegue carregar na cestinha. Na volta pra casa, vencidas as etapas do fogão, você descobre um pequeno problema: o gosto da sua própria comida não é lá essas coisas… Resultado: perdas oscilantes de até 500 gramas por semana. (Isso porque, mesmo sendo ruim, a sua comida ainda é bem melhor do que qualquer outra).

**Beleza e Moda Britânica em Números**

– Liquidação!! Sapatos: 79 pounds! Casaquinhos Gap: 49 pounds! (multipliquem por 5, se estiverem de bom humor; ou por 6 se estiverem de mau).

– Cortes de cabelo: 67 pounds! Apenas lavar e secar: 30 pounds! (idem acima)

** Sinais de que você está se adaptando (mais ou menos) à vida local **

– Lidando com Máquinas: Aqui a industrialização avançada chegou a todas as esferas da vida humana. Máquinas que fervem café forte com leite fraco e um pouquinho de açúcar, máquinas que lavam e secam roupas em vinte minutos, máquinas que são caixas de supermercados! Todas funcionam à base de dinheiro e falam com você com vozes femininas eletrônicas. O pessoal dos estudos de gênero não ia gostar nada disso… Outro dia, no meu supermercado-restaurante preferido resolvi lutar contra a humilhação de ir para o único caixa-humano do local (para onde vão só os turistas e os velhinhos, claro). Era uma compra simples, pensei: apenas uns 20 reais por um pacote de guardanapos e um rolo de papel plástico. Você chega cheia de confiança, passa o primeiro pacote pelo leitor do código de barras da máquina e… já vai passar o outro quando uma voz soa lá de dentro: “please, put the item in the bag”. Você olha prum lado, olha pro outro… Como é que a máquina sabe que eu não pus o “item” na bolsa? A máquina repete: “pleeease, put the item in the bag”. Você obedece e a máquina agradece: “do you have another item?” Não me perguntem como, mas passei o outro “item”, coloquei os dois na “bag” e enfiei as moedas o mais rapidamente possível. Antes que eu saísse correndo, ainda ouvi: “pleeease, wait for your receipt”. Ai de você, pega o recibo. “Thank you.”

– Maurice (o housekeeper) quis tirar uma foto comigo e colocou a mão na minha cintura! Posso não fazer sucesso acadêmico, mas os trabalhadores me amam…

** Wash your own Mug **

– Coffee and Cake! Em todos os departamentos da Universidade há uma manhã ou tarde reservada para um encontro com café, chá, biscoitos e bolos. Assim, alunos conversam, professores se encontram, secretárias e bibliotecárias se distraem e os bicões como eu se integram à vida local. Até aí, nada extraordinário. O diferente disso tudo são os dois cartazes que você encontrará em todas as salas (os Common Rooms) de convivência: “The coffee and cookies at … costs 0,40p.” (e todo mundo põe os 40 centavos na cestinha); “Please, don’t forget to wash your own mug” (Por favor, não se esqueça de lavar a sua própria caneca!). Aqui não é a terra dos descartáveis como nos EUA. As mugs se multiplicam como filhotes de coelho e se você não lavar a sua pode voltar dali a uma semana que ela estará no mesmo lugar, intacta e suja como você a deixou. (É verdade, aconteceu comigo!) No Centro de Estudos Brasileiros, a diferença é que, ao invés de 1 cartaz, temos quatro ou cinco cartazes espalhados pela cozinha e sala, além de receber pelo menos 2 ou 3 e-mails por semana avisando “wash your own mug”! Adivinhem por que?

** Sinais de que você NÃO está se adaptando à vida local **

– Você continua tomando dois banhos por dia, mesmo com um chuveiro fraco e uma água que parece ter sido misturada com polvilho antisséptico Granado.

– Você continua sentindo falta de dormir com lençol de cima e lençol de baixo ao invés dessa colcha disfarçada de lençol que todos usam por aqui.

– Você continua não entendendo as piadas que os porteiros fazem após o tradicional bom dia! O sotaque é indecifrável. Outro dia, para ter assunto com um dos porters mais empenhados em me alegrar de manhã, tive a infeliz idéia de pedir que ele repetisse a piada, “slowly, please…” Depois de dez minutos de uma conversa de surdos, a única palavra que eu pesquei foi “hedgehog”. Quer dizer, pesquei é modo de dizer: guardei o som e depois fui olhar no dicionário. Era porco-espinho. Alguém nessa terra poderia me dizer se existe uma piada com porco-espinho no meio?

Relendo essas bobagens, fico pensando o que pensarão que eu estava fazendo em Oxford. Será que era mesmo uma viagem acadêmica? Se quiserem, publico o Diário 3, que será a prova de que sim: eu tinha atribuições supostamente intelectuais. Para quem perdeu o Diário 1, está aqui.

Sobre o desenho: Infelizmente meu outro caderno feito Oxford ficou no IFCS, daí que não tive tempo de escanear nada da época para o post. Esse jardim foi feito há duas semanas no Jardim Botânico do Rio, graças à companhia de duas amigas queridas. Nos escondemos no bambuzal, na esperança de que os guardinhas não nos proibissem de estender uma toalha para desenhar. Aí está a prova da nossa proeza! Foi feita numa amostra antiga de papel verde que a Nathalia me deu, e desenhado com minha nova canetinha branca Sakura Gel 0.4 (dica do genial Freekhand/Miguel Herranz). As sombras foram feitas com aguada de nanquim colocada num waterbrush de aquarela. Não estava levando muita fé nesse desenho, mas achei que melhorou um pouco depois de acrescentar contraste no Picasa. Desenhar tanta informação junta me dá uma preguiça danada, mas ao mesmo tempo gera um efeito de auto-hipnose. Se não fossem o calor, os turistas e o medo dos guardinhas, acho que teria conseguido completar a página toda…