Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Empurrão de Flor

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Muitas vezes na vida precisei de um empurrão. Não que me falte energia ou interesse pelas coisas. Adoro aprender, me envolver e fazer, mas… a coragem de mostrar pro mundo… essa é escassa na minha receita interna. Por isso gosto e dependo tanto das pessoas que me dão um tranco, e dos bem fortes, tipo me-jogar-na-piscina-com-roupa-e-tudo.

Um dia eu estava quieta no meu canto, feliz de desenhar em caderninhos para o resto da vida, quando ela me ligou. “Quero que você escreva um artigo para o Prosa sobre desenho e antropologia. Vamos publicar uma página com seus textos e desenhos?” Fiquei super lijongeada com o convite — era elogio, né? — mas totalmente descrente da minha possibilidade de atendê-lo. Eu só consegui responder: “Não, imagina, você está confundindo. Desenho é uma coisa, antropologia é outra.” E ela, que é muito mais inteligente e esperta do que eu: “Não é não, frô. Mistura que dá certo! Bora, faz aí.” [E ela não escreveu assim, curtinho, não. Gastou um tempão me dando coragem, pessoalmente e por escrito.]

E foi esse empurrão da querida Mànya Millen, então editora do caderno literário Prosa, do jornal O Globo, que mudou a minha vida de 2011 pra cá. Fiquei quase um ano enrolando para entregar o material. Mas foi ao longo desse ano que tomei o rumo apontado por ela, juntando meu mundo acadêmico e criativo num só. Em janeiro de 2012, a página com textos e desenhos foi finalmente publicada e, não por acaso, foi também esse material que, algum tempo depois, gerou a ideia de criar este blog (como vocês podem ler aqui).

Na semana passada, a Mànya e o Prosa saíram do Globo. Fiquei de luto como leitora do caderno literário. Aqui em casa temos pilhas de Prosas históricos, porque a Mànya nunca fez jornal de embrulhar peixe. Ela fez arte, opinião, reportagem, imagem. Fez todo esse universo mágico dos livros circular para um mundo com horizontes mais amplos e reflexões mais profundas — justamente o tipo de conteúdo de que mais precisamos nesse brasil tão depenado…

Para a Mànya, o meu desejo é que tudo isso seja um grande empurrão, igual ao que um dia ela me deu. Que seja um tranco, daqueles que nos levam para um lugar mais interessante, mais feliz, mais perto de nós mesmos e das pessoas que amamos.

Nos últimos dias, tanta gente escreveu coisas lindas sobre ela… Queria compartilhar especialmente as lindas palavras de sua filha, Julia Millen:

“Desde que me entendo por gente sabia que minha mãe era jornalista. Desde novinha eu sabia o que era pauta, lead, diagramação, subir matéria, fechamento de caderno, plantão -conhecido também como: “quinta feira mamãe chega de madrugada”, ou também: “mamãe trabalha esse fim de semana”. Desde muito pequena eu sabia que ela trabalhava no Globo. Desde sempre eu sabia que ela fazia parte do Prosa & Verso. Desde pequena eu sempre senti um orgulho inexplicável, mesmo quando ainda nem sabia ao certo o que ela fazia, mas só por saber que minha mãe era jornalista cultural e que trabalhava no Prosa. Desde pequena eu aprendi que esse orgulho surgia por saber o quanto ela amava aquilo. Desde pequena eu aprendi que o jornalismo é só para quem o ama loucamente. E desde muito pequena ela me ensinou a amar as palavras e os livros como ninguém. Desde não tão pequena, porém, ela me ensinou o quanto esse mesmo jornalismo era difícil, o quanto sobreviver de jornalismo era complicado, e o quão saturado e instável era o mercado do impresso, o jornalismo de discussões infinitas que rodavam pelo tema: “será que com a internet o jornal irá acabar? ”. Por muito tempo me forcei a acreditar que não. Hoje eu tenho certeza que sim. Hoje, após 20 anos, o Prosa vai deixar de existir. Hoje, o jornal perde o seu caderno mais bonito. Hoje, o Globo só perde. Os tempos estão difíceis para as palavras, mas o orgulho e a gratidão por compartilhar tanta informação, permanecem. Muito obrigada, mãe, Manya Millen. Dias mais bonitos virão.”

Muito obrigada, Mànya! Que muitas flores estejam no teu caminho, frô.

* 3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-hilárias-difíceis-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Na sexta passada, eu e o Juva demos duas palestras para os alunos do 9o. ano do Colégio Andrews sobre “Processo criativo” (ou como fizemos o livro “Do gato Ulisses as sete histórias”). Fui com medo de decepcionar meu filhote, que estaria numa das turmas… Mas ele adorou e nos contou depois que seus amigos amaram, ufa!

* Até a véspera da palestra, passei dias trabalhando num artigo em co-autoria com o Vinícius Moraes de Azevedo, meu bolsista de iniciação científica no IFCS. E não foi nada chato, porque o material etnográfico da pesquisa dele é muito engraçado. As crianças vieram até ver porque eu estava rindo tanto. E agora preciso convencer a Alice de que ela não pode falar em “xarpi”!

* Mas a escrita acabou me afastando dos pincéis… Mesmo por poucos dias, fui ficando inquieta e desanimada. Felizmente, ontem consegui sentar e recomeçar. E registro aqui, para não esquecer: basta recomeçar. (Seja o que for que esteja nos fazendo bem: andar, escrever, pintar, desenhar, cantar, tocar, até o temido “terminar a tese”!)

Sobre os desenhos: Flores de uma árvore jasmim-manga que fica na Praça Nelson Mandela, na saída do metrô de Botafogo (zona sul do Rio). Fotografei com o celular e depois desenhei em casa. Na imagem à esquerda, fiz primeiro com lapiseira, depois pintei com aquarela, buscando dar volume (com várias camadas finas, sempre esperando secar entre elas). À direita, fiz direto o contorno com canetinha de nanquim, pintando depois só com algumas pinceladas. Ambas no caderninho Laloran de sempre. Os materiais são os mesmos registrados aqui.


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Artista, bicho, jardim

vangogh

“O artista é um bicho assim: a dor dá cor ao seu jardim…” (Juva Batella, em Do gato Ulisses as sete histórias, p.38)

Pela coragem de atravessar a cidade, pela paciência de encarar a fila, pelos sorrisos, pelos abraços, pelas flores, pelos carinhos, pelos compartilhamentos, pelas mensagens dos que não puderam ir, e pelos quase 150 Ulisses que vocês levaram para passear… muito obrigada!

Queria escrever sobre os livros que estou lendo, mas não terminei nenhum dos dois ainda… Também estou em crise de decidir o que quero desenhar, mas tanto os diários da Margaret Mee quanto as cartas do Van Gogh me levam em direção às plantas. Na falta de um jardim de verdade, fui para um imaginado (acima) e para um pequeno parque perto de casa (abaixo).

Sempre leio que o artista cria a partir das suas “referências de infância”. Tipo José Lins do Rego escrevendo sobre a vida no sítio do pai — história aliás lindamente transformada no livro “O menino que virou escritor” de Ana Maria Machado (ilustrada por Ciro Fernandes, ed. José Olympio).

Mas menina urbana tem lá referência?

Pensa daqui, pensa dali, chego à conclusão de que tenho umas memórias de coisa verde sim. As plantas da escola onde estudei até os 12 anos ocupavam a nossa falta-do-que-fazer nos anos 1970. Na hora do recreio, uma das minhas atividades preferidas era arrancar essa florzinha vermelha do pé, despetalar e sugar o miolo! É uma eca, eu sei… mas não tinha celular nem mp3 naquele tempo. E o ser humano gosta de fazer besteira.

hibiscos

Uma coisa divertida dessa busca pelo jardim perdido é usar o Google para descobrir o nome das plantas. Essa aí de cima é uma “Malvaviscus arboreus”, também chamada de hibisco-colibri pelos especialistas (porque não acredito em “nome popular” de planta).

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Uma amiga leu o post sobre os 3 Ps (paixão, paciência e prática) e me mandou de presente a linda ideia dos três Cs: Coragem, Coração e Consciência!

* Apesar da resistência, reli com a Alice “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof, e ela teve que admitir que achou muito engraçado.

* Um tio-cunhado leu o post sobre as críticas e me mandou de presente a história de quando ele entrou para a família. Depois de se hospedar na casa da minha tia-avó, ele ouviu-a ligar sorrateiramente para a futura sogra: — “Dida, tu sabes que ele tomou banho e deixou tudo impecável, como se o banheiro não tivesse sido usado!”

* A Cora Rónai fez uma foto incrível e escreveu um perfil muito simpático de um dos meus heróis no Rio de Janeiro: o Tony, que resgata, protege e doa animais abandonados, com a ajuda da Marluce, sua companheira.

* Participei a convite da Daniela Manica e da Marina Nucci de uma roda de conversa emocionante no IFCS com alunos e funcionários, sobre gênero, corpo e trabalho. Foi um momento marcante nesses quase dez anos de UFRJ, que me lembrou o amor por tudo que aprendi na escola das Amigas do Peito.

* Achei por acaso (e comprei por um preço ótimo!) o lindíssimo livro “Usos e circulação de plantas no Brasil”, organizado pela Lorelai Kury (ed. Andrea Jakobson).

* Três crianças disseram que leram de uma vez e adoraram o nosso “Do gato Ulisses as sete histórias”!

* Sobre os desenhos: Desenhos feitos no caderninho Laloran com aquarelas Winsor & Newton e lápis de cor Carand’Ache aquarelável. No primeiro, o jardim foi de imaginação, exceto pelo passarinho inspirado numa imagem do livro-fofo The Summer Book, da Susan Branch, que ganhei de presente há seculos da Dri. A frase à direita é de uma das cartas de Van Gogh para seu irmão Theo. Para o segundo desenho, colhi algumas flores de verdade caídas no chão, já bem murchas, coitadas, pois não tive coragem de arrancar do pé onde um beija-florzinho tomava seu café-da-manhã.


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Faz logo o meu autógrafo!

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Alice, ontem à noite: — Mãe,  me dá o livro. Vou ler. Não posso chegar no lançamento sem ter lido né? ?

Eu: — Ok, filha, claro, tá aqui.

Alice, na página 42: — Mãe, adorei o Gatovsky. Ele é bem legal. Estão querendo comprar ele. Mas porque o Juva usa aspas ao invés de travessão?

Eu: — Os dois são certos… Ele preferiu aspas por causa das rimas.

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Alice, aos prantos, invade meu quarto: — Mãe!!! A Babi morreu… a Babi morreu…

Eu, tentando consolá-la: — Eu sei, filha… Mas, pensa bem, agora a Babizinha que você tanto ama está para sempre no livro…

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Alice, ao terminar: — Mãe, adorei!

Eu: — Que bom, querida!! De qual parte você mais gostou?

Alice: — De quando o Ulisses conheceu a Penélope!

Eu: — Esse também é meu capítulo preferido, filha!

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Alice: — Gostei do livro, é bem legal. E é melhor do que “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof. [Implicando, porque ela sabe que eu amo esse livro.]

Eu: — Ai, filha, não fala isso! Eu adoro o livro do Ulisses, mas a Sylvia é imbatível!

Alice: — Mãe, pára de ser velha. Os desenhos dos bichos desse livro [da Sylvia] são horríveis. E faz logo o meu autógrafo!

[E mais não falei; porque os desenhos do Gê Orthof são maravilhosos… É só a minha filha sendo filha… heart]

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Sobre os desenhos: Fiz a imagem que abre o post a partir de uma foto da Alice que tirei ontem mesmo. Desenhei com canetinha 0.05 e fiz umas aguadas de aquarela sobre papel A4 comum. O gatinho é o Charlie, que toda a noite faz companhia para a Alice ler. Depois de pronto, fui no Photoshop e encaixei no desenho uma imagem escaneada da capa do livro! Todas as outras imagens são ilustrações do livro novo. Abaixo, mostro pra vocês algumas ideias que tive antes de resolver qual seria o tipo de ilustração final — e isso levou mais de um ano!

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Sobre o livro: O lançamento é quinta-feira, 11/junho, na livraria Argumento, a partir das 19h. Para quem não puder ir ou estiver fora do Rio, todas as informações estão no site da editora Vieira & Lent. Na semana passada, esqueci de publicar pelo menos um pequeno trecho da quarta capa:

“Ulisses viajou o mundo inteiro, um mundo de aventura, um mundo de cheiro. Foi bailarino, músico e marinheiro; foi artista de rua e gato em cativeiro. Também se apaixonou, e o nome dela é bonito. A fera se chama Penélope — como no mito.

Viaje com este gato, ao longo de sua estrada. Vamos repensar a vida, esta grande, grande charada.”

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O gato que virou livro

junho2015

Imaginem uma família crítica, agora multipliquem e elevem ao quadrado… É mais ou menos de onde eu vim. A tia mais fofinha era do tipo que olhava seus dentes antes de te dar bom dia. A avó pegava no colo e contava histórias, mas ai se você estivesse mais gorda. A redação da escola vinha com nota dez, ufa, parabéns; mas o filho da fulana escreveu uma com 60 linhas — quantas linhas tinha a sua mesmo?

A pessoa não sai ilesa vivendo 20 anos nessa espécie de bancada-Roda-Viva constante. Vira crítica também; ao cubo, três vezes. Isso não garante que vai ser boa em alguma coisa, mas até que favorece a profissão acadêmica… Adquire-se uma imaginação infinita para antecipar críticas.

Agora, joguem essa pessoa no mundo da arte? Ferrou. Num universo de parâmetros tão subjetivos, de mestres tão obsessivos, de imagens tão encantadoras… Como a pessoa pode se achar no direito de bater à porta? Não, de jeito nenhum. Me deixem aqui no meu cantinho rabiscando no caderno, que é melhor. Assim eu pensava.

Mas uma rede de amigos e até muitos da família (!) me empurraram porta adentro… Manoel, Nathalia, Arthur, Manya, Mário, Gilberto, Eduardo S., Clau, Bel, Mari, Ale, Robs, Joana, Malu, Sofia, Susi, Andrea, Hanny, Dady, Ronald, Elisa, Celina, Antônio, Alice, Vera, Cilene e, claro, o Juva, que escreveu, esperou, ouviu, aturou, incentivou, acolheu, elogiou, amou… Taí a coragem que vocês me ajudaram a ter! Meus agradecimentos infinitos também para os leitores desse blog, e aos amigos do Facebook, por tantas gentilezas, incentivos e apoios, principalmente em 2014, um dos anos mais difíceis da minha vida.

E um pote de sachê para o Charlie, a Lola e o Ulisses, meus gatos amados que aceitaram virar livro-de-verdade! (E não levem atum, porque a Lola é membro dos Atumhólicos Anônimos.)

ulissesconvite

Se estiverem fora do Rio, podem pedir online na Vieira & Lent !


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Viva o tio João

JUR

Como contei no post sobre as dez lições da vida acadêmica, meu primeiro trabalho no mestrado foi sobre João Ubaldo Ribeiro. Era centrado no livro Viva o povo brasileiro, cujas quase 700 páginas li apaixonadamente em 1990.

Com a morte do João, deu tanta saudade dos seus romances… Li todos (até então publicados) de uma vez só!

Foi assim. Um belo dia, entrei numa sala de aula da PUC (era meu último semestre no curso de jornalismo) e conheci um aluno três anos mais jovem que se dizia “sobrinho do João Ubaldo Ribeiro”. Um cara incrível, engraçado, poético, falante e bonito. Ficamos amigos. Éramos ambos apaixonados por literatura, por cartas e por escrever. Ele provou que era sobrinho do João mesmo! Toda semana me dava um romance do tio. E ao invés dos textos do curso (de Psicologia da Comunicação), conversávamos horas e horas sobre os livros, as cartas, os artigos, o humor e as ideias do Ubaldo!

O ápice da minha febre-ubaldina foi quando terminei meu sofrido trabalho (já  no mestrado) e mandei para o “tio João”. Depois, fui finalmente conhecê-lo em pessoa. Tivemos uma conversinha… Ele ali, naquela simplicidade, na casa da sogra, de chinelos, sem ares de fama. Dei boas risadas. A gente não se deve levar muito a sério, ele disse.

O sobrinho dele também passou a escrever livros, tem vários romances lindos. Fez até uma tese de doutorado sobre o tio (que vai virar livro) e guardou com carinho o presente histórico: a máquina de escrever Remington — exatamente a máquina onde foram datilografadas as páginas mágicas de Viva o povo brasileiro e que vai desenhada aí em cima.

E como consegui desenhar essa máquina para o blog? Porque tenho fotos — ela está na casa portuguesa deste que muitos anos e perdas de cabelo depois se tornou meu namorado…

Deixo com vocês a homenagem que ele escreveu para o jornal O Público (Portugal) na semana da morte de João Ubaldo.

Cartas ao jovem sobrinho

Juva Batella

Quando publiquei o meu primeiro livro entreguei um exemplar ao velho tio e, ansioso como um jovem autor não deveria ser, não esperei passarem-se 24 horas e já o procurei, batendo-lhe à porta, para saber o que havia afinal achado do meu primeiro romance, e ele me puxou para dentro com veemência, como se fugíssemos de repórteres, e me aconselhou aos cochichos a jamais perguntar a opinião de alguém acerca de um livro que se tenha escrito. “Deixe que o leitor se manifeste, querido sobrinho. Jamais pergunte uma coisa dessas!” E me disse meses depois, numa carta, que eu arranjasse, por amor a todos os santos da Bahia, uma ocupação decente, “que não se aproximasse tão perigosamente do ofício de seu tio”. E as inúmeras cartas que recebi dele começavam sempre assim: “Irrepreensível e inadmoestável sobrinho”. E me aconselhou a ler Shakespeare. “Basta isso, sobrinho! E que Deus tenha pena de sua alma jovem! Basta ler Shakespeare, ainda há tempo!, e todo o resto virá naturalmente. E se você me disser que não lê em inglês aí eu deixo de me dar com você, vá ler inglês urgentemente, conselhos do velho tio: há que ler os clássicos! Os clássicos não são clássicos à toa. O que se deve evitar é ler o que escreveram sobre os clássicos, a não ser que o autor do clássico sobre o clássico seja também um clássico, coisa rara, mas encontradiça.” Também me aconselhou a ler Homero, “principalmente A Ilíada, é claro”, e me sugeriu que evitasse as traduções em versos, porque os pés gregos são inimitáveis. E numa das cartas, a maior e a mais divertida de todas, simulou uma entrevista que eu daria, anos mais velho, à revista Fortune, onde, acendendo o meu charuto com uma nota mil dólares, relataria ao curioso e assustado repórter as origens do meu sucesso capitaneando um império editorial sem tamanho. “Mas vê-se que o senhor não é um fumante de charutos…”, assim disse eu, como personagem de João Ubaldo, ao estupefato repórter que me entrevistava para a Fortune. “Qualquer fumante de charutos sabe que o charuto aceso com uma nota de mil dólares tem um sabor inigualável.” E em todo os momentos da minha vida o velho tio praticamente me obrigou a prosseguir em minha “trilha triunfal e adotar como lema Audaces fortuna juvat, que calha muito com o seu nome: a sorte sorri aos audazes! Em frente! Eia Sus!”, escreveu ele, que sempre assinava assim: “Misteriosamente, João Ubaldo Ribeiro”.

Hora de reler o velho tio, linha a linha, e refazer esse traçado que já faz parte de mim.

Ah!, e de vez em quando ele assinava assim: “Do seu velho tio, Ubaldão, o Cruel”.

Alice News:

Eu — Alice, como você está? Ainda com “zero problema”?

Alice — Não… essa semana estou com problemas.

Eu — Ah, é? Quais?

Alice — Estou… pro-fun-da-men-te precisando de uma coisa.

Eu — O quê?

Alice — Eu me obsessei pelo Felipe Lahm.

Eu — Como assim, filha?

Alice — Eu preciso conseguir um card dele, e dos brilhantes!

Sobre o desenho: Fiz o desenho sobre a foto da máquina original com uma canetinha para Ipad (genérica, que o Antônio comprou no Japão por 5$) na app Procreate. Depois imprimi, colori com lápis de cor para que a fita da máquina ficasse verde e amarela, e scaneei de novo. Levei quase duas horas para desenhar a máquina e todos os seus detalhes. A melhor parte foi observar com calma cada pedacinho, cada desgaste, e ainda os símbolos antigos de cruzeiro, de libra, de parágrafo… É bem clichê dizer isso, mas… saber que uma peça tão simples produziu uma obra tão gigante me faz lembrar de consumir menos & produzir mais.

Imperdível: No Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, exposição com obras (e até inéditos) de J.Carlos! Curadoria Julieta Sobral; iluminação impecável do Ronald Cavaliere.