Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Vendo Kombi 96

kombipQuando saí do metrô e me deparei com essa kombi amarela na esquina da rua dos Andradas com Senhor dos Passos, meu coração bateu um pouco mais forte. Eram 7:45h da manhã, mas consegui tirar o caderninho da bolsa e começar a desenhar.

Um carro é um objeto complexo, tão cheio de detalhes, vãos, peças e terceiras dimensões que existe até uma brincadeira no mundo dos desenhadores sobre a fobia de desenhá-los. É como se sua habilidade se dividisse entre antes e depois de conseguir traçar um automóvel no papel.

Nunca tive essa fobia… Sempre preferi nem tentar desenhar um carro inteiro, claro! E ainda sentia um certo desdém sobre alguém se interessar por desenhar um carro… coisa mais chata.

Nesse dia, porém, não pensei em nada disso. A cor amarela envelhecida, a carroceria fechada, o anúncio “Vendo 96″… tudo isso capturou meu coração e me transportou para um mundo onde posso vender o passado, empacotar minhas coisas e pegar uma estrada nova. Tudo bem, vou ficar com marcas de uso, um pouco de ferrugem, partes amassadas e até uns pedaços de arame tentando manter o parachoque traseiro e a placa dianteira no lugar. Mas terei sinaleiras noturnas, trancas fortes e espaço para dar carona.

Nunca fui de sonhar com viagens. Ao contrário de todos os meus alunos. (Se você perguntar para um jovem universitário as três coisas que ele faria se ganhasse na loteria, pode ter certeza de que uma delas será “viajar”. Desde 1992 faço essa pesquisa, nas várias universidades em que trabalhei, e o sonho da viagem está sempre lá.)

Comigo não. Nem hoje nem no tempo que eu tinha vinte e poucos anos eu colocaria viajar na minha lista de desejos. Viajei demais quando era pequena. Tenho a sensação de que vai cair uma bomba no caminho e nunca mais vou poder voltar para casa. Tenho pesadelos frequentes em que estou num carro desgovernado, ou sem faróis, ou onde não enxergo o caminho.

Felizmente, no dia em que vi a kombi amarela, soube escutar uma vontade nova. E lembrei de rir com Sancho: “Quem erra e se emenda a Deus se encomenda!”

Sobre o desenho: Linhas feitas no local em um caderninho com canetas de nanquim Uni-pin 0.4, 0.1 e 0.05mm. (Tirei um foto com celular para lembrar das cores depois.) Pintei em casa com aquarela e caneta-pincel waterbrush da Pentel. A versão original está mais simpática do que essa scaneada… Não consegui dar o tom certo no computador… mas tudo bem. Como diria vovó Trude, o “bom é inimigo do ótimo”.

Sobre a frase de Sancho: está na p. 428 da minha edição de Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes (Ed. Abril Cultural, 1978, trad. dos Viscondes de Castilho e Azevedo). Essa semana tive o privilégio de assistir a palestra da professora Maria Augusta Vieira (USP) sobre a história da recepção desta obra no Brasil, na Casa de Rui Barbosa. Foi o máximo! Mas no final fiquei triste porque ela disse que a minha edição era bem ruinzinha e que eu devia reler tudo no original! Ai ai, como às vezes é melhor a ignorância… (Prometo mais D.Q. em breve!)

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