Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Fugas literárias e Lisboa 2017!

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Minhas fugas têm sido ler e pintar miniaturas. Ganhei “Stoner” da minha irmã, com a missão de “ler rápido” porque ela queria logo emprestado! É um hábito de família: damos livros umas para as outras já pensando nos empréstimos futuros, o que se encaixa no meu conceito de presente perfeito: dar aquilo que eu amaria receber. Há um quê de egocentrismo nessa afirmação, mas veja pelo lado bom: não estou a me livrar da tarefa. Invisto meu coração, penso afetuosamente, empenho-me. E o ponto de vista do outro? Será que conseguimos sair de nós mesmos?

“Não”, responderia secamente Stoner. O personagem do romance de 1965, de John Williams, nasce num ambiente rural, apaixona-se pela literatura, torna-se professor e morre melancolicamente aos 60 e poucos anos. Não se preocupem com spoilers: somos informados de tudo isso nas primeiras 5 linhas do livro. A ironia desse começo é nos alertar que não importa saber o que aconteceu, mas como.

Li as 314 páginas admirada pela escrita impecável, criadora de um mundo interno denso. Só não me apaixonei. Minhas leituras preferidas têm humor, vocês sabem. Lendo Williams, lembrei-me de Hemingway e de homens sofridos pelas pressões sociais, incompreendidos ou incapazes de compreender — talvez seja o meu cansaço antecipado com personagens escritores e professores. As crianças reclamam que eu vivo dizendo que os filmes, séries ou livros que vemos são mais do mesmo. Não que não sejam bons, mas sinto um já-cansei-desse-tipo-de-bom.

Revendo o livro para esse post, no entanto, percebo que mexeu comigo ver a opressão cotidiana da vida universitária tratada com tanta precisão. O universo da sala de aula, das bancas e das brigas de departamento é de um realismo impressionante. Reconheço ali alguns de meus próprios alunos, colegas e aflições:

“tivera consciência do abismo que havia entre o que sentia pela sua matéria e o que conseguia comunicar em sala de aula. Esperava que o tempo e a experiência preenchessem tal abismo, mas isso não aconteceu.” (p.124)

Em outra passagem:

“Uma espécie de letargia se abateu sobre ele. Trabalhava o melhor que podia, mas a contínua rotina de aulas para o primeiro e o segundo ano exauria seu entusiasmo e o deixava no fim do dia, exausto e entorpecido.”

Apesar da dor, há sutis pontos de beleza nesse mundo: o conforto das estantes, dos livros; os raros momentos de criação, o amor.

Por acaso, logo em seguida ganhei este outro livro (de Elle Luna) de um amigo querido:

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A leitura é rápida (2 a 3 horas, no máximo) porque as 162 páginas são todas ilustradas com cores, desenhos e fotos da autora. O ambiente gráfico é simpático e bonito, entremeando textos e citações, numa linguagem de quase-quadrinhos. É uma auto-ajuda alegre para a vida criativa, com um princípio que não poderia ser mais contrastante com o de John Williams (autor de Stoner): está nas nossas mãos escolher o caminho de nossas vidas. O título original é  The Crossroads of Should and Must. Como encontrar um espaço para viver aquilo que nos apaixona em meio às pressões do que devemos e do que temos que fazer?

Não, a autora não é tão ingenua como o título brasileiro sugere. Ela sabe que precisamos trabalhar, comer, habitar, amparar nossas famílias etc. Mesmo em condições adversas, porém, a leitura faz pensar até que ponto nos deixamos levar por automatismos e noções hegemônicas de conforto-sucesso-trabalho em detrimento de uma vida mais criativa e simples. (O resultado é fofo, gente; eu realmente não estou fazendo uma boa resenha, desculpem!)

No fundo os dois livros só viraram post porque fiz os desenhos, e não o contrário. Agora estou me cercando de mulheres pioneiras e inovadoras. Comecei 2017 com novos contrastes, lendo Jane Austen e Chimamanda Ngozi Adichie. Depois conto!

No momento, me equilibro também entre as crianças de férias e os preparativos para uma aventura na desenholândia: vou a Lisboa como convidada de um projeto coordenado pelos queridos Nelson Paciência e Eduardo Salavisa na Casa Atelier Aspad Szenes Vieira da Silva e com apoio dos Urban Sketchers Portugal. Haja coragem e emoção para estar em meio a artistas que admiro tanto! Torçam por mim. ♥

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Sobre os desenhos: Miniaturas com cerca de 7cm feitas num caderninho moleskine pequeno com papel de aquarela. Desenhei um rascunho suave a lápis grafite primeiro e depois pintei com aquarela. Para as letras brancas sobre fundo colorido (tanto na capa do Stoner quando na lombada do livro da E.Luna) utilizei tinta guache branca com um pincel bem fino (000 sintético estudante da Winsor & Newton). Para o contorno do rosto de Stoner ficar bem definido, apliquei máscara-fluida em volta e um pouquinho na barba. A máscara é uma espécie de cola líquida que se utiliza para preservar o branco do papel em alguma área da pintura. Depois de seca sai facilmente com borracha.

Sobre os livros: Stoner, de John Williams, ed. Radio Londres (2015, tradução de Marcos Maffei). Eu sou as escolhas que eu faço, de Elle Luna, ed. Sextante (2016, tradução de Ana Ban).

 


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Alergia aos imperativos

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Não sei bem como começou a minha alergia aos imperativos. Talvez com a mania da minha avó de ir a videntes, que ela chamava carinhosamente de “pitonisas”. Ciganas, mães de santo, leitoras de cartas e de borras de café; mas também padres, rabinos, monges, budistas e médiuns. Todos tomavam café com ela.

Era uma espécie de novela. Você sentava e ouvia a previsão dos negócios, das doenças, dos casamentos, da chegada do sucesso ou das viagens. Tinha suspense, intervalos e próximos capítulos. Às vezes ela brigava com um deles, decepcionava-se. Ou ao contrário: elegia um guru, virava macrobiótica ou crente do dia para a noite. Ninguém se metia. “Coisas da vovó”. Duravam pouco e ela logo voltava para seu mix místico.

Eram gentes de todos os tipos, que nos levavam a visitar bairros longínquos, onde entrávamos nas suas casas ou templos, com respeito, fossem pretos, brancos, pobres, ricos, velhos, jovens, simples ou complexos. Alguns viravam conselheiros, confidentes, e até os melhores amigos pela vida toda.

Eu adorava minha avó, e me apaixonei pelo seu sonho de prever o futuro. Acompanhava suas excursões e, mais crescida, comecei a arriscar algumas visitas sozinha. Lembro de uma cigana, no alto da ladeira dos Tabajaras — olha o João do Rio aí — numa casa surpreendentemente branca e cheia de tapetes. Ela foi firme: eu ia “casar com um estrangeiro, que gostava de papéis e tinha olhos azuis.” Outra vez, fui numa senhorinha muito distinta que lia borras de café. E lá vinha o futuro: era certo o meu casamento com um homem alto, “estrangeiro e de muito estudo.” Variava a ordem, mas a previsão era consistente! Fazer o que? Cliente meio loira, com sobrenome estranho e cara de boa aluna (já de óculos desde cedo)…

Só que não. Eu não queria casar: queria ser grande (para bater nos meus irmãos) e fugir de casa para escrever e desenhar (lembram?).

Admito: ganhar na loteria não era uma má ideia. Será que elas não poderiam ver os números para mim? Não era para isso que serviam as numerólogas, tão na moda nos anos 1980? Não. Elas serviam para dizer que você deveria mudar de nome. Era só eu me chamar “Karynnah” e tudo ia dar certo.

Até que caiu a ficha. Nada mais de videntes e bilhetes da sorte. Confesso que pensei em casar com o meu primeiro namorado, bem moreninho, de olhos pretos e péssimo aluno. (Se eu não confessar, minha irmã vai me delatar nos comentários…) Felizmente acordei a tempo e acabei casando com um ator de teatro no Circo Voador.

Foi assim que peguei alergia aos imperativos. Não, não por culpa do ator; e nem do pai, nem da mãe! Meu pai não estava nem aí (literalmente). E minha mãe foi revolucionária à sua moda nos anos 1970. Acreditava no construtivismo e seu lema estava mais para “se vire” do que “me obedeça”.

A alergia veio mesmo é das previsões de pitonisas e dos manuais de auto ajuda ruins. Eles te dizem: “leia, cuide, seja, trabalhe, estude, corra, compre, medite, tome, faça”. Fico logo empolada: — “Ah, vão se catar. Vão mandar na vovozinha, que eu odeio que mandem em mim.” E também não mandem na minha falecida avó, pois no fundo ela ouvia a todos, mas só fazia o que queria.

(Ok… Não fica bem uma antropóloga escrever isso… Afinal, nas ciências sociais passamos metade das nossas vidas falando para os alunos sobre o poder da “coerção social” ou das “leis de ferro da oligarquia” — que eram de bronze, no original, mas o tradutor deve ter achado o material fraquinho, e pôs logo o ferro para assustar. Mas, convenhamos, se estamos ensinando sobre essas forças “invisíveis” há mais de um século, elas não são tão invisíveis assim, né? Até minha filha de oito anos sabe que o Obama lê o Facebook dela.)

Quando se liga o “radar anti-imperativos”, é como tomar uma vacina. Nenhum salvador de plantão te pega; nem vidente que quer te casar com turista, nem jogos de azar, nem anúncio da coca-cola, nem filósofo francês que descobriu o Graal, nem autor da moda que anuncia a solução final da antropologia.

Não é desacreditar de tudo. É tomar distância de quem profetiza que agora “o mundo tem que ser assim”.

Prefiro desenhar, contar histórias… e, principalmente, não mandar na vida de ninguém. 

Sobre os desenhos: Pedacinhos de um caderno de campo feito em Lisboa em 2013, para homenagear meu namorado, o homem mais gentil, doce, alegre, criativo e lindo da face da terra; e também muito, muito alérgico, como eu, a todos os imperativos e vontades de comandar as pessoas. Utilizei canetinhas Unipin 0.2, aquarela e lápis de cor, num caderninho de papel comum, mas com capa linda, e que agora só é vendido na Inglaterra… Aliás, se alguém tiver um endereço UK para me ajudar a comprar outros, agradeceria muito! *__*  (Para todos com mais de 18 anos: essa carinha à esquerda foi sugerida pelo Antônio. É um emoticon que significa “olhinhos brilhando”. Eu tinha digitado outro que, segundo ele, era impublicável… Vai saber!)

Agradecimentos: Na semana passada tive os meus cinco-mil-cliques-de-fama… Agradeço a gentileza dos que leram, likearam, compartilharam, comentaram. Prometo que não vou sucumbir ao sucesso, nem tentar postar coisas interessantes por várias semanas, de modo que possamos voltar aqui aos trinta e dois leitores e às bobagens de sempre. Lições demais também atrapalham!