Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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No que acredito

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“A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento.”

“Duas pessoas entre as quais haja amor perseveram ou fracassam juntas, mas quando dois indivíduos se odeiam, o êxito de um constitui o fracasso do outro.”

“Não há atalho para uma vida virtuosa, seja ela individual ou social. Para construir uma vida virtuosa, precisamos erigir a inteligência, o autocontrole e a solidariedade.”

“Mas nada se poderá conseguir procurando garantir a segurança de uma parte da humanidade à custa de outra (…). Somente a justiça pode conferir segurança; e por ‘justiça’ me refiro ao reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os seres humanos.”

Bertrand Russell, No que acredito, 1925

Essas frases saíram de um livrinho que caiu no meu colo essa semana. Ia dar só uma olhada, mas acabei lendo o pequeno volume inteiro! Que sabedoria a desse filósofo que escreve sobre temas complexos de uma forma tão clara e fácil.

3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Começou o primeiro semestre da UFRJ, e tenho duas turmas. Senti as mesmas apreensões de sempre: não vou dar conta, estou muito cansada, não tenho mais nada para dizer… Mas o encontro com os alunos e alunas reais foi ótimo. Propus exercícios novos em sala de aula (tanto para a Antropologia II quanto para a turma de Antropologia e Desenho) e acho que deu para nos divertirmos bastante! Depois conto mais aqui, se vocês quiserem — será que alguém tem esse interesse?

* Alice foi eleita representante de turma, junto com uma amiga. Fiquei feliz por ela. Por experiência (Antônio também já foi representante), sei que vai ser um caminho de muito aprendizado. Não é fácil.

* Antônio se apresentou com a peça Vida Severina, do grupo de teatro da escola. Foi lindo, emocionante, surpreendente! E claro que sou totalmente isenta para elogiar. No palco ele nem parecia meu filho!

Sobre o livro: Bertrand Russell, No que acredito, LP&M Pocket (tradução de André Godoy Vieira). Depois fiz uma rápida pesquisa no blog Brain Pickings e achei vários posts legais sobre o autor.

Sobre o desenho: Aquarela feita a partir de uma foto que tirei numa rua perto de casa. A árvore estava linda, toda colorida nesses tons. Estou tentando ser mais consistente no uso do meu diário gráfico, fazendo pelo menos um desenho por dia. Para não ficar de cerimônia, comecei essa nova série no final de um caderno Laloran antigo, detonado, pois tinha sido encharcado de água pelas patinhas do Ulisses… Assim não tem como ter pena de errar ou gastar.  A data no canto direito foi feita com um carimbo muito legal: “mini dater”. Não lembro de onde é o meu, mas consegui comprar com facilidade o refil da almofada de tinta. Para as flores, pintei direto com caneta pincel waterbrush e tintas Winsor & Newton. Estou tentando ser mais solta do que nos meus últimos desenhos com contorno. Aproveitei o momento de uma conversa telefônica matinal para pintar, e acho que a leveza refletiu as palavras sábias da minha amiga parteira: “penso, logo existo; penso demais, logo desisto”!

 


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Poesia potente

montanha

“o nosso plano secreto,
secreto até para
nós mesmos,
era procurar
o melhor mirante”
(Carlito Azevedo)

Estou apaixonada por Monodrama, livro de Carlito Azevedo, que li e reli nas últimas semanas. É fresco, bonito, triste, suave, engraçado, apaixonado, sonoro, bom, bom de ler. É cheio de ecos e pequenas histórias, como a

“do místico que dizia
fumar para pôr
um pouco de névoa
entre ele e o mundo”

ou a do escritor que teria nascido com um irmão gêmeo, tão idêntico, ao ponto de, num acidente em que um deles morreu afogado, os pais nunca souberam qual dos dois tinha morrido: “se ele ou eu”.

É também um livro de sons, do “micromundo das vibrações sonoras” que arrepiam; um livro que brilha, “com os seus cem sóis”, que pára o tempo:

“por um segundo
fez todo o sentido do mundo
o nosso absurdo ir e vir”

E nos oferece o silêncio:

“uma pessoa do silêncio,
de sua equipe,
ou melhor,
o silêncio é meu
equipamento.
eu disse:
o silêncio
é meu equipamento”

É também um livro de amor,

“e o fim do amor
e com vontades contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade”

e de um poeta antropólogo:

“Parei um dia em uma dessas
praças e, deitado sobre a
grama, me pus a escutar a
desconexão absoluta de
todas as falas do mundo, de
todos os sonhos do mundo.”

Carlito escreve sobre as nossas “pequenas humilhações diárias”, aquelas que acordam conosco — nossos sinais, nossos vícios –, como na história do pobre homem que sussurra ter parado de tomar o café preto da garrafa térmica verde e, “neste mesmo instante se dá conta perfeitamente de que foi o café preto da garrafa térmica verde que o deixou”.

São poemas e prosas (não, não sei a diferença) em que as histórias parecem caminhar soltas, sem esforço, como os verbos de Rua dos Cataventos: ele estava, ele esteve, ele foi, ele poderia, ele será, ele colaborou, ele podia ter colaborado, ele vai colaborar, ele jogou, ele confirmou, ele fez, ele vai, “ele dançou conforme a música”.

E ainda nem chegamos na melhor parte, “Dois estrangeiros”. Todo o poema “A) Efeito Lupa” é uma delicadeza infinita; e me sinto má de escolher um pedaço para mostrar aqui, mas escolho, com o aviso de que o trecho não faz jus ao corpo inteiro:

“longe daqui
tenho amigos que me amam

e aos meus poemas
e pensam em mim todos os dias

Longe daqui
alguém leva desesperados numa chalana

alguém estuda as temperaturas
supercondutoras

alguém percebe que não
se tornou um gênio do piano

deve haver alguém que chora
quando sua amiga lhe lê

um poema de
seu poeta preferido”

Como todas as obras que amo, Monodrama também é daquelas que ri de si mesma. Tem drama e humor no mesmo parágrafo, com o poeta misturando a si próprio, o livro, a vida, fazendo graça até quando é “difícil encontrar alguma graça”; fazendo poemas para escapar dos “procedimentos”; buscando lembrar, ou não: “Não se lembra de nada? Que sorte a sua, isso é melhor ainda, pois então você pode inventar tudo.”, diz que lhe disse um amigo.

Numa segunda leitura descobri mais um trecho apavorante de tão bonito, do poeta-etnógrafo:

“Ela lhe disse que os poemas são a transparência através da qual ela gosta de ver o mundo e você disse que ela era a transparência através da qual você gosta de ver o mundo e todos os poemas que há dentro dele e ela chorou e disse que ia embora e que não podia mais lhe ver e que não prestava para você.”

Não sei se ele vai concordar comigo (que dificuldade escrever de autores vivos!), mas vi aqui e ali uma admiração dos horizontes e do céu aberto. Da praia, vem as ondas

“que te nutrem
do opaco e do transparente
de que o mundo
é capaz”.

E a menina que

“está fugindo de casa
com toda a sua força
e todas as montanhas”

E um pouco adiante os barcos na marina que

“também pareciam querer fugir de si mesmos”

Receio estreitar os sentidos do livro com tantos recortes, como se estreita o coração do poeta nas páginas de despedida à mãe. E dele pego palavras emprestadas para me despedir também:

“Sinto que se conseguir escrever agora o que se passa comigo estarei salvo, repito isso a mim mesmo algumas vezes, como repito mentalmente o refrão de que onde há obra não há loucura e onde há loucura não há obra e venho escrever.”

Sobre o livro: Monodrama, de Carlito Azevedo, editado pela 7Letras, em 2009, está em 2ª reimpressão. Encontrei o meu exemplar na livraria Travessa de Botafogo. Em 2015, o livro foi traduzido e editado por Aníbal Cristobo para a editora Kriller71, de Barcelona, com uma capa lindíssima da artista Leila Danziger.

Sobre o desenho: Rabiscos no caderno Laloran feitos durante a última aula de aquarela do ano passado, inpirados nas nuvens do Turner. Por algum motivo surgiu um homenzinho a la Tom Gauld diante da montanha. Sem coragem de desenhar algo especial para o Monodrama, achei que dava para misturar aqui. Quem sabe, o poeta diante da tarefa de escrever, escreva mesmo assim. Usei canetinha 0.1 mm e aquarelas Winsor & Newton. O caderninho é novo e as páginas estão enrugando… o scanner não deu conta, pra variar.


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Coragem de escolher

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Nesse final de 2015, tenho uma comemoração muito especial para celebrar: meu filho Antônio, de 14 anos, está se formando no ensino fundamental do Colégio Andrews, um espaço de ensino, reflexão e crescimento coletivo. Depois do trabalho sobre direitos civis e preconceito racial nos EUA, ele escreveu essa redação (abaixo) sobre um romance que leu para a escola. Mais do que a nota dez, me emocionou vê-lo dizer de forma tão simples e clara aquilo que às vezes levamos uma vida inteira para aprender. Não tem festa nem diploma, mas tem esse post de formatura e o desejo de feliz férias, filho amado.

Eis a questão — texto de Antônio Kuschnir Castro

“Durante seu tempo de vida, toda pessoa precisa fazer escolhas, assim como o jovem Pedro, personagem do livro O fazedor de velhos, de Rodrigo Lacerda. Seja essas na vida profissional, amorosa ou emocional, são as escolhas que guiam nossas vidas e futuros. O ‘destino’ não está pré-determinado — são as escolhas que o determinam.

“Conforme a história, no livro, vai se desenvolvendo, Pedro se vê com dúvidas em relação a continuar ou não na faculdade de História. Após diversos caminhos tomados e escolhas feitas, como ter gastado meses realizando trabalhos, literalmente, sem fim, como entender a ‘natureza humana’ ou achar frases que sintetizavam livros inteiros, Pedro finalmente descobriu-se escritor. Assim como Pedro, precisamos tomar escolhas no campo profissional que reflitam nossos reais desejos.

“Outra área em que as escolhas são cruciais é a área amorosa e emocional da vida. No livro, Pedro se vê com um dilema, quando sua amada tem uma proposta de trabalho no exterior. os dois, juntos, acabam escolhendo que ela vá. Na vida real, também é preciso tomar decisões no campo amoroso. Nem sempre as coisas são fáceis, muitas vezes é preciso escolher abrir mão de alguma coisa em troca de outra.

“A vida, constantemente, traz desafios a um indivíduo, traz decisões a serem tomadas. São essas escolhas e decisões que formam nosso futuro e nos formam, como pessoas. Se, com a peça Hamlet, Shakespeare escreveu a famosa frase ‘Ser ou não ser? Eis a questão.’, seria igualmente significativa a substituição do ‘ser’ pelo ‘escolher’. Somos as escolhas que fazemos: ‘Escolher ou não escolher? Eis a questão’.”

É também sobre a coragem de escolher um dos melhores livros que li recentemente: O sol é para todos, de Harper Lee, que tem como protagonista a menina Scout, entre seus seis e oito anos de vida. Através de seus olhos, observamos as preconceituosas e violentas relações sociais de uma cidadezinha do Alabama, nos EUA; e sonhamos em ter a coragem e a sabedoria do seu pai, o advogado Atticus Finch.

Scout é sabida e esquentadinha. Na escola, seu pai é constantemente ofendido por seus colegas por defender os negros nos tribunais. Ela quer revidar, mas Atticus lhe diz: “tente lutar com a cabeça”, querida, “só porque fomos derrotados uma vez não é motivo para não tentarmos novamente”. (p.105) Ela faz promessas para si mesma, mas mantem a “nobreza” por apenas três semanas: acaba dando uns sopapos no primo preconceituoso. Seu tio lhe ofende: você não quer ser “uma dama” quando crescer? Não, ela diz, não faz questão: prefere continuar a vestir macacão e brincar.

Sem entender porque todos odeiam seu pai, Scout pergunta, “Atticus, você deve estar errado. (…) quase todo mundo acha que eles é que estão certos e que você está errado.”

Atticus sendo Atticus: “Bem, eles têm o direito de pensar isso e suas opiniões devem ser respeitadas. Mas antes de poder viver com os outros, eu tenho de viver comigo mesmo. A consciência de um indivíduo não deve subordinar-se à lei da maioria.” (p. 139)

Adiante, Scout volta ao tema: “Você não é realmente um amante de negro, é?”

Atticus: “Sou, sim. Eu faço o possível por amar a todos… Às vezes é bem difícil.. Filha, não se sinta ofendida quando alguém disser uma expressão feia. Isso não deve atingi-la, apenas revela a pobreza de quem falou… (…)” (p.144)

Scout se revolta por ter que ler para uma das senhoras mais racistas da cidade. Após o falecimento desta mulher, Atticus revela que ela lutava contra uma doença terrível, que afetava seu julgamento, e explica porque exigira aquele esfoço da filha:

“Eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isso pode até acontecer.” (p. 148)

Uma das poesias da narrativa é que Scout continua sendo criança. Mesmo ouvindo seu pai, ela joga tudo que a senhora lhe deu no fogo da lareira. Outra hora, saudosa do melhor amigo, comenta: “Senti-me muito infeliz por dois dias”! (p.152)

É nesse misto de ingenuidade e determinação que ela protagoniza uma das cenas mais dramáticas da história, quando consegue impedir a ação de um grupo que pretendia linchar Tom, o acusado. Atticus desabafa com Jem, seu outro filho:

“E foi preciso que uma criança de oito anos os trouxesse à razão. Isso prova uma coisa: uma malta de selvagens pode ser detida porque seus membros ainda são humanos. Hum, talvez precisemos de uma força policial formada por crianças…” (p.203)

Diante da decisão do tribunal, que considera Tom culpado, mesmo com todas as provas de sua inocência, Scout e Jem não se conformam. Atticus também sofre: “Já fizeram isso antes, fizeram esta noite e farão outra vez, e quando isso acontece… parece que apenas as crianças choram.” (p.274)

Ele acreditava que a geração de seus filhos faria um mundo diferente, onde houvesse justiça independente da cor da pele, onde a palavra do branco, ou sua riqueza ou de sua família, não vencesse sempre a de um negro, ou a de uma mulher ou a de um judeu. (p.285 e 317)

Se lutaram do jeito certo ou errado para os anos 1950, não sei dizer. Mas a causa continua mais do que urgente em 2015: os Finch queriam viver num mundo onde só existisse um tipo de gente: gente. (p.293)

Sobre o livroO sol é para todos, de Harper Lee, editado pela José Olympio, com tradução de Maria Apparecida Nóbrega de Moraes Rego, em 2006. A obra foi originalmente intitulada To kill a mockingbird e publicada em 1960.

Sobre o desenho: Flor feita em aquarela com base numa ilustração de um livro (esqueci de anotar a referência, desculpem). Os materiais foram: papel Canson Moulin du Roi e aquarela Winsor & Newton. Algumas pinceladas mágicas da professora Chiara Bozzetti também contribuíram bastante para o resultado. O original será o presente de aniversário (muito atrasado) para minha mãe, leitora e minha incentivadora número um aqui no blog.


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Vida, modo de usar — Doze lições de Oliver Sacks

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Sacks — Você disse a ele que eu era um bom homem. Como pode ser bom alguém que dá a vida… apenas para tirá-la novamente?
Eleanor — A vida é dada e tirada de todos nós.
Sacks — Por que isso não me conforta?
Eleanor — Porque você é um bom homem.
(Diálogo do filme Tempo de Despertar, 1990)

1) Viver intensamente. “Sacks vai longe, se não for longe demais” – a frase consta no relatório escolar do jovem Oliver (aos doze anos) e sintetiza bem a vida intensa e inovadora que ele nos conta em seu décimo quarto livro e autobiografia, publicada cerca de um ano antes da sua morte (e antes que ele soubesse que ia morrer).

2) Viver, apesar de. “Você é uma abominação. […] quisera que você nunca tivesse nascido” — isso foi o que ele ouviu aos 18 anos, quando sua mãe soube de suas preferências sexuais por meninos (1951). Sofremos com ele, para rir em seguida, da aventura forçada pela família junto a uma prostituta parisiense. A moça, ele conta, “parecia uma das minhas tias”, e logo entendeu que o programa seria uma boa xícara de chá.

3) Viver e aprender a se conhecer. Sacks é três vezes reprovado no exame de anatomia na faculdade de medicina, logo ele, o quinto Sacks-médico! Mas pouco tempo depois ganha um prêmio importantíssimo na mesma área. “Sou péssimo em exames factuais e em perguntas sim-não, mas crio asas na dissertação”, observa (p.24). Décadas mais tarde, fica fascinado pelas teorias neurocientíficas e pela pessoa de Gerald M. Edelman, expressando sua inveja por aquele cérebro com uma capacidade de “concentração feroz”. Mas reflete, bem humorado: “a vida não devia ser muito fácil com um cérebro daqueles”, e talvez fosse melhor se contentar com seus “próprios dotes, mais modestos” (p.305).

4) Viver com compaixão. O fascínio de Sacks pelo singular em cada ser humano (inclusive nele) é encantador! Suas descobertas do sexo, das drogas, das viagens, dos parentes e dos pacientes são narrativas sobre pessoas, seus cérebros, seus corpos, seus medos e afetos. Ele não está preocupado com quem-fez-o-quê-onde, mas com quem-sentiu-o-quê-como-e-com-quem. Ao invés de se afastar, Sacks se aproxima dos males dos pacientes, mostrando as necessidades deles e a sua de construir narrativas sobre a vida. A infinita demanda de “compor a si mesmo”, recriando incessantemente a si e seu mundo, é humana (e iluminada pela intensidade nos casos de amnésia).

Ele fica maravilhado com uma visita a Guam, na Micronésia, onde os pacientes com doenças mentais fazem parte da sociedade, colocando em evidência (por comparação) a “barbárie da nossa medicina […] do mundo civilizado onde afastamos e tentamos esquecer os doentes ou os dementes.” (p.279)

5) Viver com encantamento, com criação. É comovente perceber que ele investiga tanto os dramas dos pacientes quanto os seus próprios, narrando ora o efeito de uma droga, ora o efeito da escrita na sua vida:

“[Escrevendo,] era como se o tempo tivesse parado, com um halo de encantamento, um ponto privilegiado atemporal, longe da agitação do cotidiano, um tempo especial consagrado à criação. (…) Tenho a impressão de que os meus pensamentos se revelam pelo ato de escrever, no ato de escrever.” (p.160-2)

Seu editor lhe diz: “Oliver, você é capaz de qualquer coisa para ter uma nota de rodapé!” (p.205). Quando passou 30 dias num hotel para escritores, dos quais 29 sem escrever uma linha, teve apenas um só dia “magnificamente produtivo” (p. 217). Sacks duvida, a ponto de debater um ponto-e-vírgula num telefonema internacional com seu editor no meio da madrugada. Ele está em busca da prosa científica bem escrita (p.236), e da concentração do processo de escrever (“tão eficaz quanto a morfina” e “sem efeitos colaterais”, p. 323).

6) Viver no mundo. Ao receber uma carta elogiosa de um de seus ídolos, o neurologista-psicólogo Alexander Lúria, Sacks fala de sua profunda alegria e da sensação de sentir “uma espécie de tranquilidade intelectual que jamais sentira”. (p.173) E ele irá precisar desse aval porque, ao se tornar um autor “popular”, sente o peso de não “ser levado a sério” por seus colegas neurologistas. Diante de seus ídolos brilhantes, como Edelman, aprende a dar valor ao seu gosto pelas pessoas: afinal, alguém precisa fazer o “trabalho de campo” necessário às formulações teóricas gerais (p.313).

7) Viver e sobreviver. Tendo sido uma criança que foi evacuada de Londres durante a Segunda Guerra Mundial, separada de sua família, ele se emociona quando houve no rádio que os veteranos dessa mesma época sobreviveram, sim, mas com sequelas. E se identifica com o depoimento de um deles: “até hoje tenho problemas com os três Bs: bonding, belonging and believing [criar laços, me sentir parte integrante e acreditar]”. Mas é comovente como, aqui e ali, vai se reconciliando com seus pais e até percebedo neles muito de seu próprio modo de ser. Sobre a prática de seu pai, clínico estimado por todos até os 94 anos, ele lembra: “conhecia o interior da geladeira dos pacientes tão bem quanto o interior do corpo deles.”

8) Viver e aprender a perceber. Um tema central em toda a sua narrativa é o da percepção (visual ou não) do mundo. Da percepção da própria existência, que Sacks explorará através do conceito de “propriopercepção” às percepções clínicas que adquire (por meio da análise de seus pacientes), que por sua vez mudam sua percepção do mundo à volta. Por exemplo, quanto mais tempo ele passa e estuda seu paciente com síndrome de Tourette, mais “calibra o seu olho neurológico” para enxergar a síndrome em outras pessoas. Tudo isso vai culminar na ideia de que a experiência do indivíduo “molda” o seu cérebro. É fascinante como ele explora os casos de alterações visuais (desde a ausência da percepção de cor e variantes do daltonismo, à perda da visão binocular estéreo, entre outras) e conclui: “Toda percepção é um ato de criação” (p. 310).

9) Viver e saber mudar. Sacks fala abertamente de depressão, de deslocamento, de se sentir inadequado, de ser desleixado, lento, de fazer digressões mentais esdrúxulas… de voltar atrás, de mudar de ideia, de não ter certeza. Elogia um de seus ídolos, Jerome Bruner, que podia parar no meio de uma frase e refletir: “Não acredito mais no que eu estava para dizer”. (p.229)

10) Viver com desapego. Sacks ama a obra de seu amigo poeta, Thom Gunn, com seus versos que celebram as plantas que nascem em terrenos baldios e rachaduras (p.234). Louva o desprendimento financeiro do autor, sua dedicação e o progressivo desapego à busca da beleza e da perfeição formal, em nome de uma obra mais livre e terna. Thom, numa carta citada, escreve da importância dos “empréstimos maciços” que faz das suas leituras e se encanta quando Eliot diz que “a arte é a fuga da personalidade” (p.238).

Empatia, espírito livre, sem-julgamento, simplicidade: essas são as qualidades das pessoas que admira. Cita o caso de seu tio que visitou Einstein em Princeton e espantou-se quando o genial cientista foi para a cozinha lhe fazer um café.

11) Viver com amor. Desenvolver novas habilidades o leva de volta às aulas de música e piano aos 75 anos, mas tudo se torna um desafio com a perda da visão do olho, devido a um câncer, em 2005 (p.323). No meio de sua batalha com a dor, encontra um novo “analgésico”: se apaixona por aquele que foi o seu único companheiro e com quem viveu os últimos 7 anos de sua vida. “Seria o próprio enamoramento que inundava o corpo de opioides, de canabinoides ou qualquer coisa assim?” O amor, ele escreve, é uma “dádiva grandiosa e inesperada na minha velhice, depois de toda uma vida me mantendo à distância.” (p.326-7)

12) Viver e morrer. Em janeiro de 2015, poucas semanas depois de entregar à editora o manuscrito de sua biografia, Sacks descobre que o câncer havia voltado agressivo e lhe dando poucos meses de vida. Ao invés de se recolher, ele escreve ao mundo no New York Times quatro comoventes cartas de despedida, a última publicada poucas semanas antes de sua morte, em 30 de agosto de 2015. Na primeira delas, ele diz:

“Eu tenho que viver da maneira mais rica, mais profunda, mais produtiva que posso. (…) Sinto-me intensamente vivo, e quero e espero que, no tempo que resta, possa aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar e, se tiver forças, alcançar novos níveis de entendimento e novas ideias. (…) Não posso fingir que não tenho medo. Mas o meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado;  recebi muito e dei algo em troca; li e viajei, pensei e escrevi. Interagi com o mundo (…). Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal que pensa, neste belo planeta, e isso foi em si mesmo uma enorme aventura e privilégio.” (tradução livre minha)

Escrevi a maior parte desse post quando Sacks ainda estava vivo, e fiquei abalada, sem conseguir terminá-lo, quando soube de sua morte. Felizmente, agora presto essa homenagem. As crônicas do New York Times estão disponíveis online — My own life, MishearingsMy Periodic TableSabbath — e há um mundo de informações a explorar em seu site http://www.oliversacks.com/.

Sobre o livro: “Sempre em movimento: uma vida”, de Oliver Sacks (Ed. Companhia das Letras, 2015, tradução de Denise Bottmann, 354p.).

Sobre o filme: Tempo de Despertar (Awakenings, no original) é de 1990, dirigido por Penny Marshall, com base no livro do mesmo nome de Oliver Sacks e roteiro de Steven Zaillian. Tem atuações brilhantes de Robert De Niro (o paciente Leonard), Robin Williams (Oliver Sacks) e Julie Kavner (enfermeira Eleonor), assim como de todo o elenco.

Sobre o desenho: Fiz esse retrato de Sacks a partir da foto da capa do livro, com aquarela sobre papel. O scanner sabotou todas as sutilezas das cores, mas o principal problema do resultado, na minha opinião, é a falta de expressão no olhar. No original, ele nos sorri com os olhos! Taí mais um segredo da pintura a ser desvendado…

 


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Dez truques da escrita num livro só

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“Para superar a prosa acadêmica, primeiro você precisa superar a pose acadêmica.” (C. Wright Mills, cit. por Becker, em Truques da escrita, p.57)

O melhor livro sobre escrita no mundo das ciências sociais está finalmente publicado em português! Foi uma delícia ajudar na edição do Truques da escrita: para começar e terminar teses, livros e artigos, do Howard S. Becker (editora Zahar, 2015, tradução de Denise Bottmann, e minha revisão técnica). É sempre bom ter uma desculpa para trocar e-mails com o Howie. Ele é desafiador, irreverente e simpático, mas não bonzinho!

Ano passado ele estava bem pessimista com a vida acadêmica… A primeira versão de prefácio para a edição brasileira veio nessa onda… Pedi please, por favor, dá para animar um pouquinho? Os estudantes brasileiros estão precisando de boas vibrações para terminar seus textos, artigos e teses! (E nem estávamos no cenário atual… ) Então veio uma nova versão, bem no tom do restante do livro, cheia de ideias e análises séria-mas-divertidas sobre nosso modo de lidar com a escrita na academia.

Aí vão dez dicas que pincei dentre os muitos segredos e truques apresentados na primeira metade do livro:

1) Você não está sozinho — Isso parece título de seriado de suspense, mas traduz uma ideia forte e simples da obra do Becker: a maioria dos nossos problemas são coletivos e não individuais. Escrever também. Você senta diante do computador e pensa: “Oh, meu deus, por que tudo que eu escrevo é horrível?” Bem-vindo. Todo mundo senta ao computador e escreve seis frases horríveis antes de escrever uma que preste. Você, o professor titular e o aluno brilhante de doutorado também. Perde-se muito tempo sofrendo nessa “privacidade socialmente organizada” da escrita. Melhor aceitar que escrever mal ou truncado faz parte de escrever. Ponto.

2) Rascunho sem censura — Escreva uma primeira versão do seu texto sem se preocupar com o que os outros vão achar, sem medo de rirem de você, sem apagar antes de começar. Querer um texto claro e coerente de primeira é uma das principais armadilhas para acabar não tendo texto algum. Confie, escreva um “rascunho confuso”, pois o objetivo é “fazer descobertas” e não publicar imediatamente (p.40).

3) Uma, duas, três, quatro, cinco revisões — Corte tudo que não sobreviver à pergunta: “Isso é realmente necessário?” Divida frases longas, substitua a voz passiva, simplifique, clareie. É o dever-de-casa básico dos cursos de redação, diz Becker. O problema é que os cientistas sociais se acostumaram a ter que escrever em prazos muito curtos, acabando por aceitar como normais textos que precisariam de várias revisões para serem realmente bons.

4) Crítica-amiga — Nem todo colega é um bom leitor, mas cultivar um círculo de amigos-leitores para suas versões preliminares ajuda a “desemaranhar as ideias”, melhorar a linguagem, incorporar referências, incluir comparações e até cortar mais, se necessário! Quando eles reclamarem que a prosa está confusa, a culpa é sua. Volte ao ponto 3!

5) Complexidade com simplicidade — Muitas pessoas confundem redação empolada e complicada com sofisticação intelectual. Becker abomina. Citando C. Wright Mills, ele defende: é possível ser compreensível e complexo, ser claro e também profundo. Subterfúgios retóricos servem para afirmar superioridade de status por parte dos acadêmicos (e é nesse contexto que aparece a citação do Mills que abre o post), como o sotaque que denuncia uma classe social.

6) O fim no começo — Ao terminar de escrever, pegue o triunfante parágrafo final e coloque-o no início do texto! Ou seja, escreva a introdução por último, quando já tiver clareza de onde seu trabalho irá chegar. Começar de forma evasiva não ajuda. Apresentar de cara as conclusões e o mapa do percurso de sua pesquisa é uma forma mais eficiente de fazer o leitor se interessar. Becker dá um exemplo ótimo de como fazer isso na p.83.

7) Escrever para pensar — Escrever o rascunho-sem-censura da forma mais livre possível, até sem recorrer a notas de campo e bibliografia, te leva a entender as ideias que estão na sua cabeça. É uma maneira de dar uma “forma física” ao seu pensamento! (p.86) Depois, avaliando estas páginas, é o caso de se perguntar: as ideias se repetem?; se complementam?; são frágeis? quantas/quais são realmente importantes?

8) A ordem dos dados importa? — Não há uma maneira única e certa de apresentar os dados de uma pesquisa. Há várias, e quase sempre a conclusão é a mesma, não importando o modo como você organiza os temas. Mas recortar, empilhar, marcar, fichar, fazer diagramas… tudo isso pode ajudar a construir o mapa do seu texto.

9) Falar dos problemas resolve todos os problemas — Em vez de eliminar um problema, escreva sobre ele. Simples assim. Qualquer transtorno ou situação penosa te ensina “algo que vale a pena aprender” (p.96). Mas para falar dos seus problemas, você precisa reconhecê-los… e admitir que o Senhor-Todo-Certinho não existe: “O remédio é experimentar e ver por si mesmo que não dói.” (p.100)

10) O trabalho é seu e o mundo não acabou — O autor existe! Bem-vindo, Você.

“…a solução para escrever algo (…) é escrever mesmo assim e, ao terminar, descobrir que o mundo não se acabou. Uma maneira de fazer isso é iludir a si mesmo e se forçar a pensar que o que você está escrevendo não tem importância e não faz diferença nenhuma – uma carta para um velho amigo, talvez. (…) A única maneira de começar a nadar é entrando na água.” (p. 181)

Essas dez dicas são só das primeiras 100 páginas do livro! (Exceto a última, ok, não reparem.) Como o próprio Becker afirma que é “preguiçoso” e não gosta de trabalhar, também me sinto à vontade para parar no meio. Talvez eu faça um segundo post sobre o livro, talvez não… Falta tanta coisa boa: como editar, como enfrentar a bibliografia, como descobrir que o texto está pronto… Corram pra ler, é muito mais divertido do que eu escrevi!

**Aviso: é correto informar que o livro faz parte da Coleção Antropologia Social (dirigida por mim) e que recebo uma pequenina porcentagem das vendas. Mas não foi por isso que escrevi o post, claro.

** PS: Depois do post publicado, soube dessa resenha muito legal feita pela Julia Polessa, antes da edição brasileira existir. Vejam lá!

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico, o blog tem outros textos sobre minhas experiências… na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

* 5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Descobri o blog A Vida Pública da Sociologia, escrito pelo João Marcelo Maia. Li tudo de uma vez só, adorei e entupi o João com comentários. Um lugar para respirar ar fresco e inteligência na vida acadêmica!

* Médico: — Como vai o Antônio? Teve febre?
Eu: — Não, ao contrário. Estou até preocupada:  o termômetro não ultrapassa 35 graus e pouco.
Médico — Ah, é “febre de sapo”!

* Seriado Elementary (Netflix): o Sherlock Holmes moderno explica: “The danger with rule books, Watson, is that they offer the illusion that leading a moral life is a simple undertaking, that the world exists in black and white. Welcome to the greys!”

* Saiu em português um dos melhores livros autobiográficos que já li: Sobre a escrita: a arte em memórias, de Stephen King.

* Coincidência simpática: este é 80º post e o blog acaba de ultrapassar 80.000 visitas!

* Sobre o desenho: Fiz o desenho achando que ia ser um rascunho, mas acabou virando a versão final. Lápis e caneta nanquim 0.3 Unipin sobre o verso de um papel Canson Aquarelle. Aguadas com waterbrush Kuretake (large) e tintas de aquarela misturando cinzas com as cores Burn Sienna, French Ultramarine, Neutral Tint e um pouquinho de Turquoise para os azuis claros. No chão do escritório imaginário, os rabiscos são as letras e palavras que o Becker nos sugere cortar sem piedade. Quem sabe um dia eu não viro ilustradora de verdade e publico um desses na Piauí?


8 Comentários

Faz logo o meu autógrafo!

aliceulisseslendo

Alice, ontem à noite: — Mãe,  me dá o livro. Vou ler. Não posso chegar no lançamento sem ter lido né? ?

Eu: — Ok, filha, claro, tá aqui.

Alice, na página 42: — Mãe, adorei o Gatovsky. Ele é bem legal. Estão querendo comprar ele. Mas porque o Juva usa aspas ao invés de travessão?

Eu: — Os dois são certos… Ele preferiu aspas por causa das rimas.

03 Gatovski-007

Alice, aos prantos, invade meu quarto: — Mãe!!! A Babi morreu… a Babi morreu…

Eu, tentando consolá-la: — Eu sei, filha… Mas, pensa bem, agora a Babizinha que você tanto ama está para sempre no livro…

05 Fugaz-006

Alice, ao terminar: — Mãe, adorei!

Eu: — Que bom, querida!! De qual parte você mais gostou?

Alice: — De quando o Ulisses conheceu a Penélope!

Eu: — Esse também é meu capítulo preferido, filha!

05 Fugaz-003

 

Alice: — Gostei do livro, é bem legal. E é melhor do que “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof. [Implicando, porque ela sabe que eu amo esse livro.]

Eu: — Ai, filha, não fala isso! Eu adoro o livro do Ulisses, mas a Sylvia é imbatível!

Alice: — Mãe, pára de ser velha. Os desenhos dos bichos desse livro [da Sylvia] são horríveis. E faz logo o meu autógrafo!

[E mais não falei; porque os desenhos do Gê Orthof são maravilhosos… É só a minha filha sendo filha… heart]

06 Oz-006

Sobre os desenhos: Fiz a imagem que abre o post a partir de uma foto da Alice que tirei ontem mesmo. Desenhei com canetinha 0.05 e fiz umas aguadas de aquarela sobre papel A4 comum. O gatinho é o Charlie, que toda a noite faz companhia para a Alice ler. Depois de pronto, fui no Photoshop e encaixei no desenho uma imagem escaneada da capa do livro! Todas as outras imagens são ilustrações do livro novo. Abaixo, mostro pra vocês algumas ideias que tive antes de resolver qual seria o tipo de ilustração final — e isso levou mais de um ano!

2013 10 17 Desenhos Gato Ulisses esboços-001

Sobre o livro: O lançamento é quinta-feira, 11/junho, na livraria Argumento, a partir das 19h. Para quem não puder ir ou estiver fora do Rio, todas as informações estão no site da editora Vieira & Lent. Na semana passada, esqueci de publicar pelo menos um pequeno trecho da quarta capa:

“Ulisses viajou o mundo inteiro, um mundo de aventura, um mundo de cheiro. Foi bailarino, músico e marinheiro; foi artista de rua e gato em cativeiro. Também se apaixonou, e o nome dela é bonito. A fera se chama Penélope — como no mito.

Viaje com este gato, ao longo de sua estrada. Vamos repensar a vida, esta grande, grande charada.”

ulissesconvite