Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Fugas literárias e Lisboa 2017!

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Minhas fugas têm sido ler e pintar miniaturas. Ganhei “Stoner” da minha irmã, com a missão de “ler rápido” porque ela queria logo emprestado! É um hábito de família: damos livros umas para as outras já pensando nos empréstimos futuros, o que se encaixa no meu conceito de presente perfeito: dar aquilo que eu amaria receber. Há um quê de egocentrismo nessa afirmação, mas veja pelo lado bom: não estou a me livrar da tarefa. Invisto meu coração, penso afetuosamente, empenho-me. E o ponto de vista do outro? Será que conseguimos sair de nós mesmos?

“Não”, responderia secamente Stoner. O personagem do romance de 1965, de John Williams, nasce num ambiente rural, apaixona-se pela literatura, torna-se professor e morre melancolicamente aos 60 e poucos anos. Não se preocupem com spoilers: somos informados de tudo isso nas primeiras 5 linhas do livro. A ironia desse começo é nos alertar que não importa saber o que aconteceu, mas como.

Li as 314 páginas admirada pela escrita impecável, criadora de um mundo interno denso. Só não me apaixonei. Minhas leituras preferidas têm humor, vocês sabem. Lendo Williams, lembrei-me de Hemingway e de homens sofridos pelas pressões sociais, incompreendidos ou incapazes de compreender — talvez seja o meu cansaço antecipado com personagens escritores e professores. As crianças reclamam que eu vivo dizendo que os filmes, séries ou livros que vemos são mais do mesmo. Não que não sejam bons, mas sinto um já-cansei-desse-tipo-de-bom.

Revendo o livro para esse post, no entanto, percebo que mexeu comigo ver a opressão cotidiana da vida universitária tratada com tanta precisão. O universo da sala de aula, das bancas e das brigas de departamento é de um realismo impressionante. Reconheço ali alguns de meus próprios alunos, colegas e aflições:

“tivera consciência do abismo que havia entre o que sentia pela sua matéria e o que conseguia comunicar em sala de aula. Esperava que o tempo e a experiência preenchessem tal abismo, mas isso não aconteceu.” (p.124)

Em outra passagem:

“Uma espécie de letargia se abateu sobre ele. Trabalhava o melhor que podia, mas a contínua rotina de aulas para o primeiro e o segundo ano exauria seu entusiasmo e o deixava no fim do dia, exausto e entorpecido.”

Apesar da dor, há sutis pontos de beleza nesse mundo: o conforto das estantes, dos livros; os raros momentos de criação, o amor.

Por acaso, logo em seguida ganhei este outro livro (de Elle Luna) de um amigo querido:

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A leitura é rápida (2 a 3 horas, no máximo) porque as 162 páginas são todas ilustradas com cores, desenhos e fotos da autora. O ambiente gráfico é simpático e bonito, entremeando textos e citações, numa linguagem de quase-quadrinhos. É uma auto-ajuda alegre para a vida criativa, com um princípio que não poderia ser mais contrastante com o de John Williams (autor de Stoner): está nas nossas mãos escolher o caminho de nossas vidas. O título original é  The Crossroads of Should and Must. Como encontrar um espaço para viver aquilo que nos apaixona em meio às pressões do que devemos e do que temos que fazer?

Não, a autora não é tão ingenua como o título brasileiro sugere. Ela sabe que precisamos trabalhar, comer, habitar, amparar nossas famílias etc. Mesmo em condições adversas, porém, a leitura faz pensar até que ponto nos deixamos levar por automatismos e noções hegemônicas de conforto-sucesso-trabalho em detrimento de uma vida mais criativa e simples. (O resultado é fofo, gente; eu realmente não estou fazendo uma boa resenha, desculpem!)

No fundo os dois livros só viraram post porque fiz os desenhos, e não o contrário. Agora estou me cercando de mulheres pioneiras e inovadoras. Comecei 2017 com novos contrastes, lendo Jane Austen e Chimamanda Ngozi Adichie. Depois conto!

No momento, me equilibro também entre as crianças de férias e os preparativos para uma aventura na desenholândia: vou a Lisboa como convidada de um projeto coordenado pelos queridos Nelson Paciência e Eduardo Salavisa na Casa Atelier Aspad Szenes Vieira da Silva e com apoio dos Urban Sketchers Portugal. Haja coragem e emoção para estar em meio a artistas que admiro tanto! Torçam por mim. ♥

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Sobre os desenhos: Miniaturas com cerca de 7cm feitas num caderninho moleskine pequeno com papel de aquarela. Desenhei um rascunho suave a lápis grafite primeiro e depois pintei com aquarela. Para as letras brancas sobre fundo colorido (tanto na capa do Stoner quando na lombada do livro da E.Luna) utilizei tinta guache branca com um pincel bem fino (000 sintético estudante da Winsor & Newton). Para o contorno do rosto de Stoner ficar bem definido, apliquei máscara-fluida em volta e um pouquinho na barba. A máscara é uma espécie de cola líquida que se utiliza para preservar o branco do papel em alguma área da pintura. Depois de seca sai facilmente com borracha.

Sobre os livros: Stoner, de John Williams, ed. Radio Londres (2015, tradução de Marcos Maffei). Eu sou as escolhas que eu faço, de Elle Luna, ed. Sextante (2016, tradução de Ana Ban).

 


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Janeiro/2017!

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Queridos, fico feliz de vir aqui no último dia do ano desejar um “Bom 2017” para todos! Não, não esqueci de escrever “Feliz 2017”. Desejo a vocês e a mim mesma:

Que 2017 seja um ano bom, com momentos felizes;
que tenhamos força para sobreviver aos dias difíceis;
que a calma prevaleça para enfrentar as situações estressantes;
que doses de energia nos ajudem a criar, cantar, tocar, desenhar, ler, escrever, suar;
que possamos sentar no chão e montar uma cabana com as crianças;
que as frutas, os legumes e as folhas coloram nossas geladeiras;
que o amor seja potente e suave;
que o sol brilhe, que a chuva refresque;
que a solidariedade e o afeto sejam maiores;
que tenhamos sabedoria para dar um passinho, que seja,
em direção a um Brasil menos injusto;
que todos vocês-que-estão-escrevendo-teses encontrem concentração e fôlego para continuar até o feliz dia de escrever os agradecimentos!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-hilárias-ou-dignas-de-nota das últimas semanas, com a colaboração da Alice e do Antônio:

* Abolimos os presentes de Natal na minha família, exceto para as crianças. Não fazemos nem mais amigo oculto. Esse ano, no entanto, agradecida por ter um emprego e um 13○, resolvi incentivar a leitura. Comprei livros de presente para todos (um por casal em alguns casos), aproveitando que tenho 40% de desconto nas editoras Companhia das Letras e Zahar. A listinha foi: A elefantinha que queria dormir (C. Ehrlin), Você conhece a Píppi Meialonga? (Astrid Lindgren), Segredo de família (Eric Heuvel), O livro das ignorãças (Manoel de Barros), O  livro sobre nada (Manoel de Barros), A resistência (Julián Fuks), Mansfield Park (Jane Austen), Galveias (José Luís Peixoto), O frango ensopado da minha mãe (Nina Horta), Percatempos (Gregorio Duvivier), Alucinações musicais (Oliver Sacks), Trinta e poucos (Antonio Prata), Sejamos todos feministas (Chimamanda Ngozi Adichie), A utilidade do inútil (Nuccio Ordine), Escritos de Artistas (G. Ferreira e C. Cotrim, orgs.). Gastei cerca de 400,00 reais com tudo. (Em 2015 gastei um pouco menos comprando — também livros — no sebo Luzes da Cidade; mas só para as crianças e jovens.)

* Alice e Antônio me ajudaram a fazer os embrulhos, já que os livros vêm pelo entregador da editora, sem embalagem. Compramos envelopes de papel pardo, 50 cm de papel adesivo vermelho (tipo Contact) e um pacotinho de etiquetas brancas A4 para computador. Encomendei para o Antonio desenhos de leitores. Em meia hora ele me veio com essas (abaixo) quatro criaturinhas lindas!

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Imprimimos nas folhas de etiquetas e colamos para enfeitar os envelopes. Alice coloriu alguns detalhes feitos pelo Antonio na hora. O Contact vermelho serviu de fita para fechar. Há muito tempo eu não me divertia tanto fazendo presentes de Natal.

* A prova de que não precisamos gastar muito para agradar: minhas prendadas sobrinhas nos brindaram com lembrancinhas feitas por elas (ganhei dois mini-caderninhos) e foram super criativas nos presentes para as crianças maiores: miçangas e fios comprados na Saara para brincar de fazer bijuterias.

* Meu último compromisso no IFCS foi 22/12. No mesmo dia comecei a ler o meu próprio presente de Natal: Mansfield Park, de Jane Austen (ed. Companhia das Letras/Peguin). Que delícia mergulhar num romance! Pena que já acabou… Agora estou curtindo o Prefácio e a Introdução que, sabiamente, deixei para ler por último, pois ambos estragariam o suspense da história.

* Nesses mesmos dias, Antônio pintou um quadro, terminou a biografia da Marina Abramovic e começou a do Matisse. Comemoro secretamente: uma pessoa nunca estará sozinha em meio à arte e aos livros.

* No dia 25 lemos o presente da Alice: Segredo de família (Eric Heuvel), uma publicação em quadrinhos apoiada pela Casa Anne Frank. É uma história difícil, do tempo da segunda guerra mundial, contada pelos olhos de uma menina holandesa. Agora vamos encomendar A fuga, outro volume da mesma série.

* Aflita por decidir seus presentes, minha mãe aceitou a sugestão do professor de violão da Alice. A missão era comprar um Songbook, desses com letras, cifras e acordes. Mas quem disse que as livrarias comuns vendem esse tipo de livro? Felizmente, pergunta daqui, pergunta dali, a intrépida avó descobriu uma ilha musical na nossa cidade: Livraria Bossa Nova & Companhia, em Copacabana. Saiu de lá com o Songbook Bossa Nova vol.2, que já está sendo devidamente estudado e tocado. Fico quietinha, me beliscando para aceitar que não estou num sonho: minha filha tocando, cantando e se maravilhando com Tom Jobim! É muita felicidade. Nesse exato momento, enquanto escrevo, ela ensaia Águas de Março para cantarmos hoje à noite.

Até semana que vem!

Sobre o desenho: O emoji de sol é um dos meus preferidos do Whatsapp. Daí tive a ideia de fazer esse calendário só com sóis de variadas intensidades. Minha meta em 2017 é estar mais ao ar livre, andar e correr mais, levando as crianças para esse caminho. Cada solzinho foi feito com caneta Pigma Micron 0,05 e depois colorido com vários tons de amarelo, laranja e vermelho de lápis decor aquarelável Caran D’Ache.

Para imprimir: versão em pdf (ou clique na imagem no início do post em .jpg).


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Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg

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“A vida não é ordeira. Por mais que tentemos pô-la em ordem, bem no meio dela morremos, perdemos uma perna, nos apaixonamos, derrubamos um pote de geléia.”

Assim Natalie Goldberg começa seu Mente selvagem. O dragão da imagem me fez puxar esse livro da estante. Estou assustada com a falta de confiança dos meus alunos em escrever. Não se reconhecem como autores. Repetem as frases que os professores querem ler nas provas. É um bom truque aprender a escrever aquilo que seus avaliadores desejam, mas é também uma armadilha.

“Confiar em nossa mente é essencial para escrever”, diz Natalie, antes de apresentar seus 7 conselhos para o ofício:

  1. “Mantenha sua mão em movimento.” Estabeleça um tempo e não pare. Deixe que a mão criativa assuma o controle, impedindo a mão editora-crítica de interferir.
  2. “Descontrole-se. Diga o quer dizer.”
  3. “Especifique-se. Não carro, mas Cadillac. Não fruta, maçã.”
  4. “Não pense. (…) Limite-se a treinar e esqueça todo o resto.”
  5. “Não se preocupe com pontuação, ortografia e gramática.”
  6. “Esteja livre para escrever o pior lixo das Américas.”
  7. “Ataque a jugular. Se alguma coisa apavorante surgir, vá em frente. É ali que está a energia.”

“Estamos sempre recomeçando”, ela escreve. “É como beber água. Não bebemos um copo uma vez e nunca mais temos de tornar a beber. Não terminamos um poema ou um romance e nunca mais temos de escrever outro. Estamos sempre recomeçando. Isso é bom. É bondade.”

“Mantenha-se simples”, afunde-se em si mesmo e escreva naquele lugar tranquilo de igualdade e verdade, segue Natalie.

“Somos lentos em nos dar conta da grandeza que há em nós.”

“Escrever é a brecha pela qual podemos nos esgueirar para um mundo maior, para nossa mente selvagem.”

“Se quer escrever, escreva. Essa é sua vida. Você é responsável por ela e não vai viver para sempre. Não espere. Arranje tempo agora, mesmo que dez minutos por semana.”

“Muitas vezes, quando está sendo difícil escrever, digo a mim mesma: ‘não existe fracasso’. O único fracasso de quem escreve é parar de escrever. (…) Não faça isso. Deixe que o mundo lá fora grite com você. Crie um mundo íntimo de determinação.”

“É bom experimentar coisas diferentes, mas eventualmente temos que escolher uma coisa e assumir um compromisso. Do contrário estaremos sempre à deriva e não teremos paz. (…) a capacidade de se concentrar é de onde vêm o contentamento e o amor.”

Adorei reler essas frases que sublinhei na época da leitura, nos anos 1990. Quem sabe ressoem em vocês.

Sobre o livro: Goldberg, Natalie. Mente Selvagem: como se tornar um escritor. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994. (Tradução de Tati Moraes.) Da mesma autora, recomendo Writing Down the Bones, que não sei se tem em português.

Revistas acadêmicas! A seguir um presentinho preparado pela querida Daniela Manica (obrigada! ♥) a partir de um post que publiquei no Facebook pedindo sugestões de revistas que aceitam trabalhos de alunos de graduação. A Dani também é professora de oficinas de escrita no IFCS e faz um trabalho incrível com os alunos, de pesquisa e preparação de textos para publicação. Aí vai a listinha completa das revistas indicadas:

Revista Habitus (IFCS/UFRJ)
http://www.habitus.ifcs.ufrj.br/index.php/ojs

Cadernos de Campo (FFLCH/USP)
http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/index

Ponto Urbe (FFLCH/USP)
https://pontourbe.revues.org/

Revista Três Pontos (FAFICH/UFMG)
https://seer.ufmg.br/index.php/revistatrespontos/index

Revista Ensaios (UFF)
http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/ensaios

Revista Todavia (UFRGS)
http://www.ufrgs.br/revistatodavia/

Revista Florestan (UFSCAR)
http://www.revistaflorestan.ufscar.br/index.php/Florestan/index

Revista Textos Graduados (UNB)
http://periodicos.unb.br/index.php/tg

Revista Primeiros Estudos (USP)
http://www.revistas.usp.br/primeirosestudos/index

Revista Pensata (Unifesp)
http://www2.unifesp.br/revistas/pensata/

Revista Escrita da História – REH
http://www.escritadahistoria.com/

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts com 25 dicas de edição de textos, sobre brincar de pesquisar, sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre o desenho: Dragão feito por observação na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, de São Paulo, durante uma aula de desenho da Fernanda Vaz Campos, que gentilmente me convidou para participar. Foi uma festa estar na terra da garoa por quatro dias, mas sobre isso escrevo mais em outro post. O desenho foi feito num moleskine pequeno com canetinha Unipin 0.2 e  aquarelado no local, do jeito que deu. Passei um pouquinho de lápis-de-cor branco antes de escanear para tentar marcar os brilhos na fórmica preta, mas acho que não deu muito certo.


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Os bichos do meu pai e o talento de Roberto Negreiros

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Quando nasci, meu avô gritou pela janela de um prédio da Rua Buenos Aires: — É menina! Em frente trabalhava meu pai, já cansado de ter filhos e dos alarmes falsos do bebê. Eu estava dividida: será que valia a pena vir para esse mundo? Até que não pude hesitar mais, vocês sabem como é.

Minha primeira lembrança é a de morder a minha amiga Adriana e ficar de castigo, chorando e tentando fazer um som alto que pudesse ser ouvido tanto como “mãããe” ou “pãããe”: quem sabe um dos dois vinha? Graças a esse dia, aprendi que era melhor não gritar, não morder e ir cuidar da minha vida.

Não me lembro de brinquedos preferidos: o que eu mais gostava era de bicho. Tinha um cachorro maior do que eu no apartamento. O amor pelo cão era do meu pai, mas quem cuidava era minha mãe. Taí a metáfora do casamento patriarcal. Que bom que a minha mãe se separou. A culpa não era do animal, mas sua presença deixou sequelas: nunca mais minha mãe aceitou bicho em casa. Até hoje tenho o sonho de ter um cachorro grande. Em 2009, aplaquei um pouco a vontade adotando dois gatos.

Depois de separado, meu pai continuou insistindo em ter bichos, e para isso precisava achar mulheres para cuidar deles. Ou era ao contrário? Foram vários: gatos estrangeiros, cachorros histéricos, gigantes, minúsculos, todos com problemas de comportamento vocês-sabem-porque. Minha favorita foi a gatinha Nívea, importada junto com a namorada americana que gostava de andar pelada pela casa (anos 1970, perdoem a moça). A falta de roupa era compensada por cílios postiços imensos (imaginem meu susto a primeira vez que vi a mulher puxando os olhos com uma pinça!) e o excesso de pelos da gatinha, uma persa que precisava ser escovada duas vezes por dia e cuja pelagem a dona usava para cobrir as partes.

Um dia, essa namorada foi embora e abandonou os gatos lá com meu pai, coitados. Caíam da janela (por sorte um segundo andar), passavam fome (acostumados com ração de primeira) e os pelos embolavam tanto que tinham que ser tosados por falta de escova. Decidido a mudar e ser responsável, meu pai arranjou outra namorada. Ela até gostava de bichos — disso não podemos acusá-la — mas cuidar dos gatos da americana plastificada? Aí já era demais.

Sabendo do coração mole do parceiro, a moça veio com um (ou dois?) cachorros a tiracolo, os “seus”, naturalmente — ou foram adotados como símbolo do enlace, sei lá. O caso é que os gatos passaram do semi-abandono ao purgatório. Nívea tentou fugir tanto que conseguiu e morreu atropelada. Fuzi, seu par lindo e gigante, vivia apavorado e escondido, ao ponto que não se notava mais sua existência. Acabou sendo doado para a moça da faxina, com certeza a melhor coisa que aconteceu na sua vidinha sofrida.

Essas lembranças foram inspiradas num livrinho delicioso que li essa semana: “Com a palavra o ilustrador Roberto Negreiros” (editora Mandacaru, SP). É um pequeno volume (62 páginas) de uma coleção de três, com imagens e textos autobiográficos de ilustradores. Além dos traços leves e divertidos (a la Sempé), Roberto Negreiros é um narrador fantástico, desses que te levam, de sorriso em sorriso, até a última página, onde a única tristeza é que a história acabou…

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Da origem como “artista egípcio” aos domingos como “oficial arrancador de pelos das orelhas” do tio Ruy, o autor desfia uma coleção de personagens da sua infância, sempre com aquela mistura de humor e compaixão que tanta falta fazem na internet de hoje. Meu capítulo favorito é o da bicicleta que o menino não queria saber de aprender. Com a desculpa de embelezá-la, dava seguidas mãos de tinta na bichinha, alegando que precisavam de uma semana para secar bem.

De pintor de bicicletas a aluno do Externato Paulista, cujo lema ele diz que era “entra burro e sai artista”, o pequeno Roberto já se fazia admirado pelo talento com que desenhava em calçadas, murais e cadernos. Que bom que não se tornou farmacêutico, como seu pai queria. Sorte nossa e da arte! Sua obra pode não solucionar, mas certamente torna a realidade menos “rude, injusta e aborrecida”, como um dia ele a julgou, apaixonado diante de uma tela de cinema.

* Sobre a imagem inicial do post: Não tem muito a ver com o tema do texto, mas foi uma mistura de desenho, pintura e colagem que fiz nos últimos dias. Começou com dois passageiros observados no metrô (canetinha Pitt S Faber-Castell). Depois colei o pássaro, recortado de um folheto do Jardim Botânico. Por último, catei folhas no Parque Lage para inspirar as pinturas (contorno a lápis primeiro, seguido de água e aquarela). Estava melhor (e mais leve) com menos folhas, mas isso eu só descobri quando coloquei as outras! O suporte foi um caderninho novo (15 x 15 cm) que fiz com costura simples a partir de folhas de papel Fabriano antigas. Agora, pensando bem, o pombo olhando o casal separado até que se encaixa na primeira parte do post; as folhas parecem o tempo e, viajando um pouco, tudo lembra a vida rude e aborrecida da qual Roberto Negreiros nos ajuda a escapar.

* Links e coisas dignas-de-nota da semana:

. O livrinho mencionado vem numa caixinha chamada “Com a palavra, os ilustradores”. É difícil de achar, mas tem aqui e na estante virtual tinha também.

. Para ver um pouquinho do Roberto Negreiros, tem uma página no Facebook e um blog, (ambos sem atualização recente, já vou avisando).

. Para quem quer dar um passeio pela obra de Sempé, achei dois pequenos vídeos: um com o artista no seu estúdio desenhando; outro com uma coleção de imagens. É pena que não exista um site a altura da sua obra (se existe, não achei).

. Ainda para deixar a vida menos chata, um texto do Umberto Eco, “Por que as universidades?”, traduzido por Marco A. Nogueira. De 2014, é leitura indispensável nesses tempos difíceis por que passamos, não só os colegas professores das universidades estaduais do Rio de Janeiro, mas todos que acreditam que só a educação muda o mundo pra melhor.

. Sobre a promessa de dieta eletrônica do post da semana passada, me dou nota 6,0. O critério de autocorreção foi o seguinte: perdi quatro pontos porque, em vários momentos, peguei o celular (ou abri o notebook) achando que ia encontrar ali alguma resposta; mas ganhei seis pontos porque lembrei de ler, desenhar, escrever, conversar e até de tocar um pouco de violão com a Alice.

. Queria terminar agradecendo as mensagens de incentivo de vocês! Não estou dando conta de responder com calma, desculpem. Mas cada comentário e likes me alegram e me animam a continuar. Obrigada! ♥

 


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Fup: amor, diferenças e defeitos

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“Suas diferenças, apesar de numerosas, eram superficiais; suas semelhanças eram poucas, mas tinham um alicerce: eram ligados pelo espantoso amor que tinham um pelo outro, uma amabilidade que ia além da mera tolerância, uma compreensão sanguínea daquilo que movia seus corações.” (Jim Dodge)

Era uma vez um avô imortal (Jake), um neto órfão (Miúdo) e uma pata gorda (Fup). Esse é o trio de personagens improváveis de um dos meus livros preferidos: Fup, de Jim Dodge. A cada vez que releio essa pequena obra, mais acredito na possibilidade desse “espantoso amor”, com a ternura de cada um poder ser o que é, de estar sozinho mas também acompanhado.

Vovô Jake é imortal, dado a excessos e vícios. Miúdo é um tranquilo construtor de cercas; Fup é uma pata esfomeada como um “aspirador empenado”, que gosta de uísque e de perseguir porcos. Os três se espezinham e se amam, na mesma medida. São poços de defeitos que o autor nos apresenta de forma sutil e bem humorada, como nesse trecho em que Fup reage à tentativa de ser educada por Jake:

“Se abrisse o bico sem fazer som algum, gesto mais ou menos entre um bocejo entediado e uma tentativa de vômito, significava discordância profunda; se isso fosse acompanhado de um som baixo e sibilante, com a cabeça abaixada e as asas levemente abertas, indicava discordância profunda e ataque iminente. Se enfiasse a cabeça debaixo da asa, você, o assunto e o resto do mundo enfadonho estavam dispensados.” (p.58)

As razões das coisas são complicadas, sente Jake. Às vezes só nos resta aceitar. Um de seus amigos nos emociona quando explica que mantém seu nome feio (escolhido por ele próprio em outra época da vida; como alguém que faz uma tatuagem e se arrepende depois) porque… “mantenho para me lembrar que a gente precisa viver com os próprios erros”. (p.73)

Pra seguir em frente sem saber direito o que está fazendo, Jake aconselha: intuição, razão, desespero. A intuição falha muito, mas quando funciona economiza um tempo enorme, dá um salto no espírito! A razão é “fidedigna, mas lenta”, há que ter paciência. (E o desespero?, deixo para quando vocês lerem a história.)

São três personagens doces e potentes, capazes de jogar damas 999 vezes; de serem ao mesmo tempo imortais e desimportantes — como nós!

3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota da semana:

* Meu Photoshop é vintage, ano 2002. Instalei num notebook novo e continua funcionando!

* Comecei a abrir as 65 caixas da biblioteca do Gilberto Velho que herdei em 2012, mas que levei dois anos para reunir no seu local de destino: a linda sala-reserva da biblioteca do IFCS/UFRJ. Preciso da sorte e da imortalidade do vovô Jake. É muita emoção. Estou fazendo um diário para contar mais pra vocês.

* Ontem, último dia de aula do semestre 2015-2, os alunos se despediram de mim desejando “Feliz Natal, Feliz Ano Novo”. Vou sentir saudades dessa turminha de tão longa e boa convivência!

Sobre o desenho: Minha tentativa de desenhar as aventuras da Fup aprendendo a voar! Desenho com canetinha descartável 0.1, aquarelado com tintas Winsor & Newton em papel Canson Aquarelle 300gr.

Sobre o livro: Fup, de Jim Dodge, com tradução de Melany Laterman, publicado pela José Olympio (2007, 2ª edição), com apresentação de Marçal Aquino, na linda coleção Sabor Literário.


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Prazeres secretos e Março/2016

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Alice está com uma nova rotina em 2016. Agora as aulas começam às 7:20 da manhã. Voltando para casa da escola, ela me disse: “Mãe, só agora entendi porque as pessoas ficam felizes quando chega a sexta-feira. A gente comemora porque pode acordar tarde no dia seguinte!”

Semana passada ela também estreou o uso do armário na escola — um locker de metal, desses que a gente vê em filme de adolescente americano. E pela primeira vez na vida, ela me pediu: “Mãe, cadê aquela sua coleção de adesivos?” Fiquei tão feliz de sentarmos juntas para ela escolher os que quisesse colar no armário novo.

Tenho uma caixinha onde guardo adesivos desde os doze anos. Com desenhos do Snoopy (Peanuts), a caixa está se desfazendo, mas é um dos meus objetos preferidos de memória da adolescência. Meus primeiros desenhos eram imitações desses adesivos, das coleções de amigas ou de personagens de revistinhas que eu mais gostava. Depois de desenhar, era só colar um contact transparente por cima e criar um adesivo novo. Assim, eu fazia de graça os “colantes”, como chamávamos, pois os originais eram caros e importados.

Durante a infância do Antônio e da Alice, começaram a aparecer no Brasil livros inteiros com dezenas, até centenas de adesivos. Imagina a minha felicidade! Antônio chegou a brincar muito com eles, mas a Alice nunca curtiu. Então fui esquecendo desse mundo.

Nesse mês de fevereiro, com volta à escola, e mais horário novo das aulas, entrei numa onda de reorganizar nossa vida e a da casa. Limpamos armários e estantes, doamos muitas roupas, brinquedos e livros, e providenciamos consertos que estavam pendentes desde o final de 2014. Tudo no espírito zen: manter apenas o que realmente usamos ou amamos.

No meio das arrumações, achei um livro de 1000 adesivos praticamente nunca usado! A Alice foi logo dizendo, meio marota: “Pode ficar pra você, mãe!”

Então cá estou, curtindo e compartilhando esse pequeno prazer secreto com vocês no calendário de março, cheio de adesivos do livrinho que a Alice me doou. É o único mês com desenhos que não são meus. Também estou usando os bichinhos para alegrar as minhas listas de tarefas do dia. Pela primeira vez na vida, estou “gastando” adesivos sem economizar! Vai entender, é um amor.

Uma das coisas mais legais de ser criança é que a gente pode gostar do que gosta sem dar explicações. Quando viramos adultos, tudo tem que ter justificativa. E se não tiver? E se pudermos aceitar?

* 7 Números impossivelmente-legais-interessantes-inúteis-ou-dignos-do-Lattes de fevereiro:

. Meu filho Antônio fez 15 anos!

. Atingi a marca de 32 mil e-mails enviados pelo Gmail, desde 2005.

. Levei três dias para agendar, mas apenas 12 minutos para fazer a vistoria do carro velhinho no Detran-RJ.

. Dois defeitos da casa que nos incomodavam por um ano custaram apenas R$25,00 cada para serem resolvidos (acendedor do fogão e fechadura da porta).

. 3 alunas novas fofas começaram a trabalhar como bolsistas no LAU.

. O blog chegou a 134 mil visitas e 80 mil visitantes.

. Hoje cortei 30 unhas humanas e 54 unhas felinas!

* Sobre o desenho: Como pode o mês mais curto do ano não acabar nunca? Meu fevereiro está assim! E o de vocês? Para ajudar, aí vai o calendário de março em .jpg  e em .pdf. As imagens desse mês não são minhas! São adesivos retirados do livro “1000 Bichos Adesivos”, da editora Usborne. O site da editora tem uma versão em português que traz um catálogo em PDF de todos os seus livros de adesivos disponíveis no Brasil.

Sobre o blog: Estou com algumas ideias e metas para o blog em 2016. Uma delas é voltar à pontualidade dos posts de quarta-feira (ou no máximo quinta de manhã, que não sou de prometer ser perfeita). Outra é melhorar a organização, criando um sumário de assuntos, livros e nomes citados. Também queria atualizar com mais frequência as respostas aos comentários e até responder perguntas de vocês em novos posts. O que acham? Têm alguma pergunta para me mandar? Podem enviar por e-mail se não quiserem ser identificados: karinakuschnir [at] gmail.

 


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A importância de não ser perfeito

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Bom dia! Meu desejo para todos nós hoje é simples: ânimo! Um monte de cor para quem acordou melancólico e para quem acordou alegre e bem disposto. A humanidade, apesar de tudo, está vivendo mais e melhor.* Não podemos nos esquecer disso. Força para todos que estão aflitos com qualquer coisa — da vida cotidiana e das injustiças sociais, aos prazos para escrever trabalhos, projetos, dissertações, teses e artigos. Estou nesse barco também.

Nunca é demais lembrar que muita perfeição atrapalha. Como escreveu Oscar Wilde nesse diálogo:

— A senhorita é absolutamente perfeita, senhorita Fairfax.
— Ah, Espero não ser. Assim não haveria espaço para desenvolvimento, e eu pretendo me desenvolver em muitas direções.

E nada como rir de si mesmo, como nos lembram as frases de Lorde Goring, outro personagem de Wilde:

— Que pena que não me atrasei mais então. Gosto que sintam minha falta.
— [Meus defeitos] são terríveis! Quando penso neles à noite, durmo na mesma hora.
— Eu adoro falar sobre coisa nenhuma, meu pai. É o único assunto sobre o qual sei alguma coisa.
— Sempre distribuo bons conselhos. É a única coisa que se pode fazer com eles. Nunca têm serventia alguma para nós próprios.
— Tudo é perigoso, meu caro amigo. Se não fosse assim, a vida não valeria a pena…
— A vida nunca é justa, Robert.
— Sempre vale a pena perguntar, embora nem sempre valha a pena responder.
— …existe uma moda para passados, assim como existe uma moda para vestidos.
— Ah, a verdade é uma coisa da qual eu me livro assim que possível. O que é um péssimo hábito, aliás.
— É o amor, e não a filosofia alemã, a verdadeira explicação para este mundo, qualquer que seja a explicação para o outro. […] Mas já passa das sete, meu pai, e o médico diz que não posso ter nenhuma conversa série depois das sete.

Bom trabalho para todos nós!

3 Coisas impossivelmente-animadoras-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Hans Rosling mostra os avanços na vida humana em 200 países, por 200 anos, em 4 minutos: https://youtu.be/jbkSRLYSojo

* A artista Eva Furnari tem um site maravilhoso e fala de sua carreira e dos seus desenhos nesse mini-doc (20min.) produzido pelo site Esconderijos do Tempo: https://youtu.be/Fwv3zaDhpNc. Eu estava guardando esse link para fazer um post inteiro sobre ela, mas não resisto a compartilhar logo essa lindeza com vocês. Os personagens de Eva são perfeitamente imperfeitos!

* E para quem acompanha a carreira musical da Alice: já temos uma violonista tocando Bob Dylan em casa! 🙂

Sobre os trechos de Oscar Wilde: O primeiro diálogo é entre Jack e Gwendolen, personagens da peça “A importância de ser prudente”. As falas de Lorde Goring estão na peça “Um marido ideal”. Os trechos foram tirados de “Oscar Wilde — A importância de ser prudente e outras peças”, traduzido por Sônia Moreira, com introdução e notas de Richard Allen Cave, para a editora Penguin/Companhia das Letras. Esse volume é uma pequena joia para qualquer biblioteca. Merece ser lido da introdução até a última notinha na página 415. Lá, o editor cita um trecho excluído por Wilde: Jack perguntando ao seu interlocutor se seu nome é Grubsby ou Parker. E ouve: “– Sou ambos, senhor. Sou Gribsby quando estou tratando de assuntos desagradáveis e Parker em ocasiões de natureza menos grave.” Jack responde: “– Na próxima vez que o encontrar, espero que o senhor seja Parker.”

Acho que todos nós temos esses lados, concordam? Espero na próxima semana voltar aqui mais Karina e menos Kuschnir!

Sobre o desenho: Brincadeira de aquarela com as misturas que fui encontrando no meu godê. Minha regra foi trabalhar cada bolinha com tons claros e escuros da mesma cor, tentando fugir das combinações que costumo utilizar. A ideia surgiu do aprendizado de desenhar o calendário de setembro, com nuances apenas em azul. O resultado, principalmente ao vivo, é cheio de imperfeições. As bolinhas não são bem redondas e os traços não estão uniformes… mas, como vocês já sabem, meu lema é o da vovó Trude e do vovô Steinbeck: “feito é melhor que o perfeito”.