Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Abril/2018, Frágil

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“Tem horas que é caco de vidro
Meses que é feito um grito
Tem horas que eu nem duvido
Tem dias que eu acredito.”
(Paulo Leminski)

Como criar nesse mar de sangue que vivemos no Brasil? Pensei na vida e lembrei do vidro, da beleza e da fragilidade desse material que vem da areia e vira tudo. Fiz o calendário e reencontrei o poema do Leminski. Caco, grito, dúvida, acredito.

Que dor esse país despedaçado, em que a vida da maioria da população não vale nada… Temos que seguir acreditando, protestando, achando um jeito de nos engajar, por todos que ainda estão vivos, pelas crianças que não pediram para nascer, pelos idosos que nos deram a vida, pela natureza, pelos animais, por nós. As lutas justas são muitas. Desdenhar dos que estão lutando ou ficar parado assistindo é que não dá.

Por falar nisso, hoje, dia 2/04/2018, tem o evento “Luzes para Marielle e Anderson”, às 19h. Onde você estiver, acenda uma vela ou luz, sinalizando às autoridades que não esqueceremos. Para confirmar ou se engajar em algum evento presencial, veja as opções na página Marielle Franco e compartilhe imagens e mensagens com a hashtag #LuzesParaMarielleEAnderson.

E para os pós-graduandos e professores que me escrevem, duvidando de suas escolhas: nosso trabalho tem valor sim. Fazer pesquisa, ensino e extensão com consciência, seriedade e ética para com seus interlocutores e a sociedade em geral é uma forma de contribuir para um mundo melhor, mesmo que os resultados sejam a longo prazo. Vamos continuar comparecendo, lendo, escrevendo, desenhando, pesquisando, publicando, produzindo, compartilhando — só não esqueçamos de respirar, nos abraçar e nos cuidar pelo caminho.

Força pra todos nós. Bom abril: tem feriado no Rio de Janeiro dias 21 e 23. ♥

Sobre o calendário:  Foi um desafio criar algo leve como vidro e ao mesmo tempo colorido o suficiente para escanear e imprimir. Espero que tenha dado certo. Para imprimir, abram o .pdf aqui. Desculpem o atraso!

Outros posts: Fiquei com vontade de indicar os posts “Um Matisse para Maria Eduarda” e “Mortos pelo Rio“, algumas das homenagens que escrevi às vítimas da violência na história do blog, tão atuais e antigas, sobre tudo isso.

Sobre o poema: O trecho citado é do poema “Passe a expressão“, do livro Distraídos venceremos, republicado na coletânea Toda Poesia — Paulo Leminski, pela Companhia das Letras, p.183.

Sobre o desenho: Desenhei as coisas de vidro com canetinha Pigma Micron 0,05; depois colori com lápis de cor Polychromos, da Faber-Castell e alguns Prismalo da Caran D’Ache; tudo em papel comum A4 90gr. Comecei com cores individuais, mas depois cheguei a essa mistura de verde, amarelo e rosa para dar uma certa unidade ao conjunto. No final, utilizei uma caneta pincel cinza quente (warm grey) Pitt Faber Castell para fazer as sombras embaixo dos objetos.

Você acabou de ler “Abril/2018, Frágil“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Abril/2018, Frágil”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3DN. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Marielle, Presente!

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Há dez dias Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes foram assassinados. Dor,  desilusão, raiva, é muito sentimento misturado. Estivemos nas manifestações, ouvindo, andando, gritando as palavras de ordem, nos emocionando, seguindo. Penso em todas as pessoas que perderam seus filhos, companheiros, representantes, amigos… mais uma tragédia no Brasil; e são tantas.

Ao invés de escrever, preferi desenhar. Tentei trazer alguns dos símbolos que ela representava: mulher, negra, favelada (por isso deixei as sobreposições) e bissexual (o lilás), sem deixar de ser sua própria, alegre, mistura. (Os detalhes sobre o desenho estão no final do post.)

Queria também compartilhar com vocês algumas palavras das pessoas que registraram esse momento ao longo desses tristes dias:

Flávia Oliveira, jornalista, n’ O Globo:

“São tantas camadas. Cada tiro atingiu uma pele. A pele da mulher negra. A pele da mãe. A pele da favelada. A pele da socióloga. A pele da defensora dos direitos humanos. A pele da representante eleita para a Câmara Municipal de uma cidade tomada pela brutalidade e pelo medo (…) Seu corpo está morto. Suas ideias hão de sobreviver.” (Flávia Oliveira)

Teve o vídeo com os poemas “Terra Fértil” e “Rosa de Sangue” de Carolina Rocha/Dandara Suburbana, com performance de Rosa de Sangue Movimento Artístico, direção de Emy Lobo, no canal Sobre Elas. Vejam até o final — a voz da multidão gritando #MariellePresente traz muito da emoção dos eventos para quem não pode estar lá.

Foi emocionante o post da Priscilla Brito citando Audre Lorde, poeta negra, ativista LGBT:

“Destas semanas de medo agudo nasceu o conhecimento – a partir desta guerra que todas estamos lutando contra as forças da morte, sutis ou não, conscientes ou não – de que eu não sou apenas uma baixa, sou também uma guerreira. Quais são as palavras que você ainda não possui? O que você precisa dizer? Quais são as tiranias que você engole diariamente e tenta tornar suas, até que você adoeça e morra delas, ainda em silêncio?” (Audre Lorde)

Dos relatos pessoais sobre Marielle, a carta de Vanessa Berner foi linda… Um trechinho:

“Afeto era seu nome do meio, Mari. E foi por causa dele que você se tornou essa gigante que hoje o mundo todo conhece. (…) Você sempre foi boa nisto, Mari, em fazer as pessoas se sentirem melhor. Na vida cotidiana, na política. E é a soma dessas pequenas coisas que te tornou a pessoa que nós sempre amamos. A solidariedade, amora: eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor! (…) Isto acontece porque você fez tudo certo. Desde o princípio. Você sempre investiu na formação política das mulheres, seu discurso sempre foi sua prática. Uma linda prática coletiva, amorosa, responsável. Você investiu na utopia feminista, em uma nova ética. (…) Nem uma menos! Você nos acolhia a todas, abraçava todas nós, se solidarizava com a dor do mundo. Por isto nos reconhecíamos em você: um mútuo reconhecimento tão evidente que cada tiro que te atingiu, doeu profundamente em todas e em cada uma de nós.” (Vanessa Berner)

Lembro também da dura verdade dita por Luciana Nepomuceno, que escreveu e fez uma bonita compilação de vídeos sobre Marielle para o blog Biscate Social Club:

“Que lutemos as lutas de Marielle. Que apoiemos outras mulheres negras na política. Que não esqueçamos sua morte. Que balancemos suas bandeiras. Que sonhemos, juntos, seus sonhos. Mas Marielle, mesmo, nunca mais.” (Luciana Nepomuceno)

Compartilho ainda a matéria que só o talento de Mário Magalhães poderia produzir, no The Intercept. Honrada de participar da indignação, como diz a senhora reportagem –aquela coisa meio esquecida em que um jornalista entrevista pessoas, lê ou vê fontes com todo cuidado, mesmo com pouco tempo, traz novas informações, busca sentido no que não tem sentido:

“E quando chegar a noite cada estrela parecerá uma lágrima”, poetou o Renato Russo. Se a cada lágrima corresponde uma estrela, raras vezes o céu do Rio esteve tão estrelado. (…) As estrelas choram, mas iluminam e inspiram caminhos.” (Mário Magalhães)

Para terminar com um pouco de esperança, assistam o “50 mães, 50 e muitas crianças – 1 cromossomo”,  linda homenagem ao dia da Síndrome de Down (21/03) criada por um grupo de mães inspiradas na organização Singing Hands do Reino Unido. Impossível não sorrir e se emocionar! Um detalhe bonitinho: o uso da música “A Thousand Years” foi autorizado pela autora, Christina Perri, via seu marido, Paul Costabile, contatado pelas mães pelo Twitter e ele próprio apoiador da causa.

“Como ser corajoso | Como posso amar quando eu estou com medo de cair” (Christina Perri)

Sobre o desenho: Foi muito difícil, fiz várias tentativas… Nessa versão, que sobreviveu, desenhei com caneta de nanquim permanente (Pigma Micron 0,2) olhando para uma foto tipo selfie da Marielle na Câmara dos Vereadores. Não é a foto mais bonita dela, mas é uma das poucas em que ela não está com seu largo sorriso lindo. (Quem desenha rostos, sabe como é quase impossível registrar sorrisos de uma forma que não fique horrível.)  Estava preto e branco, sem a menor graça. Aí lembrei de uma página de estudo em que pintei só misturas de aquarelas roxas, lilases e rosas. Escaneei, editei tudo no Photoshop e saiu assim. Depois escrevi o Marielle, presente! e encaixei na imagem. Fiquem à vontade para usar.

Editado para correções em 24/3/2018. 

Você acabou de ler “Marielle, Presente!“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Marielle, Presente!”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3DF. Acesso em [dd/mm/aaaa].