Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Uma cidade, duas cidades

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Nosso gato Ulisses ficou doente essa semana. Entra na caixa, sai da caixa, agonia, miado. A veterinária é certeira: o problema é no intestino. Segunda-feira, às 8h da manhã eu já estava na porta da clínica de ultrassom em Ipanema (“a única que serve”, diz a vet-super-exigente; e quem sou eu pra contestar…) Cheguei cedo nesse pedacinho da cidade que quase não frequento desde a morte do Gilberto (Velho)…

Que conforto achar um banco de madeira na calçada! Entre a clínica e a loja de suco, sento-me com a caixa-e-o-gato-dentro. Ao meu lado, um senhor forte, pelos oitenta anos. Aos poucos, várias pessoas param para falar com ele. Oferecem suco, conversam sobre os filhos, falam mal da política… Todos o chamam de “sensei” — e me dou conta de que ele deve ser um mestre de artes marciais de alguma academia ali perto.

Durante os vinte minutos de espera, desenho as pessoas que vão passando. Sinto saudades de Lisboa, do Eduardo Salavisa a desenhar no Parque da Estrela, dos eventos da comunidade de desenho urbano.

“To know one town, you really need two towns.”

A frase é do artista Jonathan Twingley na sua aula na Sketchbook Skool dessa semana. A “arte”, ele diz, “é sobre tudo que está vivo”. Precisamos de liberdade (e prática, muita prática) para criar.

A orla, as montanhas e as lagoas do Rio são lindas, sim; mas conhecendo a vida em outras cidades é que sentimos o quanto vivemos apertados, cansados e estressados aqui. No ponto, no ônibus, no metrô, na faculdade, nas papelarias, na cobal: a expressão de fadiga é democraticamente distribuída. Que sorte a minha ter uma caneta e um caderno nessas horas!

6 Coisas impossivelmente-legais-inusitadas-interessantes-engraçadas-difíceis-ou-dignas-de-nota da semana:

* Alice toda feliz na volta da escola: “Mãe, hoje aprendemos matéria nova em português! Porque, por que, porquê, que, quê com acento!”

* Ouvir a voz de Mário de Andrade! Descobri a gravação de 1940 graças ao link enviado pelo querido André Botelho que compartilha comigo a paixão por esse escritor-músico-poeta-artista-tudo.

* Aula de espaço negativo e modelo-vivo no IFCS: palmas para a turminha nota mil desse semestre de Antropologia e Desenho!

* Fiz um novo sketchbook sozinha, com cadernos costurados, guarda de craft e capa-envelope… tudo nos moldes do que aprendemos na Palmarium, mas com tamanho 19,5 x 17,5. Papel de aquarela encomendado na Dritter: Conqueror Connosseur Soft White 300gr 100% algodão. Custo total com 48 páginas: menos de R$ 20,00 reais!

* Sorvete no feriado com as crianças… passam vários meninos e meninas vendendo balas e pedindo sorvete também. Meus filhos conversam comigo sobre a situação, falam que trabalho infantil é proibido, pensam nas alternativas e na falta delas. “Para onde poderiam ir, mãe?” “Será que não poderiam denunciar a tia (que os coloca pra trabalhar) na delegacia?” [Suspiro.] Vou comprar um picolé para os dois que nos pediram. O pequeno é tão pequeno que não sabe que sabor quer. Eu digo que manga é bom, mas ele se diverte pedindo cada hora um diferente. Depois se conforma com o de abacaxi, igual ao da irmã/prima. Apesar da tristeza da situação, me conforta saber que meus filhos, mesmo muito jovens, não são alienados ao mundo que os rodeia.

* E porque às vezes é preciso esquecer disso tudo: dia-de-correio-feliz ontem! Chegou um romance novo-usado por R$14,90 via Estante Virtual! (Se for bom, depois indico.)

E a semana de vocês?

Sobre o desenho: Canetinha Pigma Micron 0.8 (estava com saudade das linhas mais largas!) em caderninho Canson pequeno (A6). Adicionei as cores com aquarela mais tarde em casa.


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Reflorestamento interior

Reflorestamento

“E a nossa amizade é uma bela coisa, meu amigo. Forte, correta, desinteressada nos sentidos práticos do interesse. Interessadíssima, no sentido de… reflorestamento do ser interior. Talvez seja exatamente pela diferença de idade que milhor nós nos podemos replantar um ao outro em nossas ilusões e esperanças dizimadas.” (Mário de Andrade, em carta para Murilo Miranda, de 10 de janeiro de 1940)

Quando leio Mário, fico com mais saudades ainda dos meus livros e de todos os Mários que tenho lá no guarda-móveis.

A amizade é um dos temas frequentes na obra do poeta. É vivida com uma paixão e uma delicadeza que dói de tão bonita. Tenho também guardada uma transcrição de outra carta, desta vez para Carlos Drummond de Andrade, em 1925:

“Você me desculpe eu falar tanto de mim. Mas eu não posso tirar exemplo da vida dos outros. E também por vaidade não gosto de fazer proselitismo. Então pros mais amigos me conto. Eles que meçam a alma deles pela minha. E se eduquem e se engrandeçam mais do que eu. Sem humildade: isso é uma coisa bem fácil. E depois com os da nossa casa eu não sou o escritor Mário de Andrade. Sou o aluno Mário que também aprendo. Como sou mais velho resolvi já algumas equações. Então mostro não o resultado, mas como fiz elas. E depois, Drummond, quando a gente se liga assim numa amizade verdadeira tão bonita, é gostoso ficar junto do amigo, largado, inteirinho nu. As almas são árvores. De vez em quando uma folha da minha vai avoando pousar nas raízes de você. Que sirva de adubo generoso. Com as folhas da sua, lhe garanto que cresço também.”

Aprender, adubar, crescer, reflorestar por dentro: isso é tudo que estou precisando nesse momento. E também o que mais desejo para meus filhos, amores e amigos.

A esse encontro com o outro, que nos aduba, nunca é demais acrescentar o encontro com nós mesmos, esses inimigos interiores que carregamos por aí… Por isso, fiquemos com a espertíssima definição de amizade da portuguesinha Clara, filha do meu namorado, aos 7 anos — com um detalhe: é uma garotinha extremamente sociável e cheia de amigas e amigos na escola:

Pai: — Clarinha, quem é a sua melhor amiga?

Clara: — Minha melhor amiga? Melhor, melhor, melhor?

Pai: — Sim, sua melhor amiga!

Clara: — Ah, papai, essa é fácil: eu mesma!

Sobre os livros: Há dezenas de livros com correspondências de Mário de Andrade, todos maravilhosos (ops, eu já disse na semana passada que Mário e maravilhoso são redundâncias…). Citei acima a p. 52 de “Cartas a Murilo Miranda (1934-1945)”, ed. Nova Fronteira, e um trecho (não tenho aqui a página) de “Carlos & Mário”, uma lindeza da ed. Bem-Te-Vi.

Sobre o desenho: Nunca tive paciência para desenhos repetitivos, mas de repente aprendi o prazer de me perder nesse tipo de traço… Quem me ensinou foi o Antônio (meu filho), inspirado nas aulas da Lisa Congdon que fizemos juntos (curso online) e nas dezenas de vídeos que ele acha no YouTube. Há qualquer coisa de meditação em desenhar assim. E descobrimos também uma forma gostosa de fazer algo juntos enquanto conversamos sobre a vida. Abaixo um desenho feito a quatro mãos (na verdade só nossas duas mãos direitas!), num caderno Canson A4 (papelaria Brinquelândia) e duas canetinhas Unipin 0.1:

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Continua, Nora!

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Noralóide querida,

bons ventos trouxeram teu livro às minhas mãos na semana passada. E já vou dizendo que adorei, amei, casei! Todos os livros autobiográficos deveriam ser assim: com história, humor, emoção, aventura e um bem-vindo bom-senso. Concordo com tudo, Nora. Você me devolveu a esperança de que o humanismo faz sim muito sentido.

Meu avô também achava a maior bobagem esse papo de ser melhor do que os outros porque nasceu na Europa. Como você bem escreveu: por que se orgulhar de algo que “não passa de um acidente biológico-geográfico”? Ele adorava mesmo era ser brasileiro.

Quando eu era pequena, mas já grande o suficiente para saber do Holocausto, não entendia porque as famílias judias (ou apontadas como judias) não tinham simplesmente ido embora. Levou um tempo para o meu avô me contar que teve que fugir deixando para trás seus pais, seu irmão e muitas pessoas queridas. No caso dele, foi a única fuga possível. Não havia rota, transporte nem vistos, como você contou tão bem. Fugiram apenas os que tiveram sorte e, mais raramente, algum dinheiro.

Foi com muita emoção que li sobre a sua chegada solitária em Lisboa. Que linda imagem a das calçadas de pedras portuguesas iluminadas pelos candeeiros em contraste com o mundo escuro e bombardeado que ficou pra trás. E foi com mais emoção ainda que imaginei o navio te trazendo para a Baía de Guanabara, onde meu avô aportava dois anos antes. Quando vocês chegaram, em 1941, veja só, ele já tinha arranjado uma namorada brasileira e casado! Pode ser que, no caminho para a pensão, vocês tenham cruzado com minha vó passeando grávida da minha mãe.

Adorei cada pedacinho do seu texto — dos primeiros tempos às terras cariocas. Vi um toque gostoso de Mário de Andrade, um não-sei-o-quê que escreve rindo, sem medo das próprias fraquezas e forças. A cena da estufa explodindo é quase uma versão feliz de “O Peru de Natal”:

“Mamãe trouxe a sopa, serviu e, de repente, pum! A estufa caprichou mesmo. Lá estávamos nós que nem fantasmas após a erupção do Vesúvio de Pompéia, todos cobertos de cinzas. As sopas e o resto da mesa também, tudo em volta era um cinzume só. // Pela primeira vez, mamãe desandou a rir toda contente porque finalmente papai havia tido uma demonstração prática do que vinha acontecendo há tempos.”

E seguimos com vocês, do riso ao choro… Mesmo no meio da tragédia, nos encantamos com suas dúvidas sobre estar ou não “autorizada a se considerar adulta”. E veja a coincidência: enquanto você escrevia para a Rainha da Inglaterra pedindo ajuda, minha avó escrevia para o Getúlio Vargas para salvar a família do seu marido que não conseguia sair de Berlim. Ela até subiu de joelhos a escadaria do Palácio do Catete para pedir uma audiência! Minha bisavó alemã era como você: obstinada. Rapidinho aprendeu português, a ponto de escrever cartas lindas que hoje são um tesouro na nossa família. Infelizmente eles não conseguiram dinheiro suficiente para os vistos e “tudo-o-mais”, como você explicou tão bem.

Termino esta carta te dizendo, Nora: foi pouco! Vamos lá, você mesma admitiu no final. Tem muito mais história para escrever. Em nome de todos os seus leitores, te imploro que continue! A Zélia Gattai começou assim, lembra? Do divertido “Anarquistas Graças a Deus” para uma prateleira cheia.

Um abraço muito abraçado,

Karina

Sobre o livro: Lindo volume, numa edição caprichada, com muitas fotos e delicados desenhos da autora, além de posfácios escritos por suas filhas Laura e Cora. E tudo isso impresso em papéis criativos e fonte legível! Corram pra ler: Memórias de um lugar chamado onde, de Nora Rónai, ed. Casa da Palavra, 2014. A citação do caso da estufa está na página 85. A abertura e o final desta carta foram copiadas do Mário, claro, de Andrade, por causa de um volume que me caiu nas mãos há poucos dias: Cartas a Murilo Miranda (1934-1945), ed. Nova Fronteira, 1981. Como disse-me um amigo, ser fã de Mário exige cuidado. É um vício e não há estante que chegue… “O Peru de Natal” é um conto de Mário incluído no livro Contos Novos, de 1946. Eu ia escrever que o livro é maravilhoso e tal. Mas fica desde já definido nesse blog que Mário-de-Andrade e maravilhoso são sinônimos.

Sobre o desenho: Ilustração feita a partir de fotos do livro, com canetinha Bamboo na App Procreate no Ipad. Depois organizei no Photoshop. Quando já estava quase pronto, senti falta de algo branco. Daí surgiu a ideia do barco se sobrepondo na imagem. Achei que encaixava na travessia oceânica narrada no livro e no intenso amor da Nora pela água… (As cores foram inspiradas numa imagem que achei há tempos no Pinterest, mas, infelizmente, perdi a referência à fonte original.)