Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Viagem anti-inveja (Parte 2)

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Continuando a saga anti-inveja-viajante, narro para vocês minhas agruras na terra onde o verão dura alguns dias e é um pouco mais frio do que o inverno carioca. Dá gosto de ver as carinhas felizes das pessoas no parque, aproveitando umas nesguinhas de sol! Como em todo lugar, as almas se dividem entre as sonhadoras, otimistas, com vestidos leves e bermudas, e as realistas e previdentes, enroladas em mantas e lenços, pois a chuva e o vento hão de surgir. Eu estava em qual turma, adivinhem?

Começando pelo fim, porque foi tanta informação, que já não sei se me recordo do início:

* Cuidado quando comprarem passagem barata pela British Airways: vocês podem acabar correndo os 1000 metros rasos no aeroporto de Madri para entrar num avião da Iberia cheio de aeromoças raivosas porque os passageiros não falam espanhol. A comida e o pãozinho são atirados no seu colo, é pegar ou largar. E eu ainda morrendo de sede porque, depois de jogar a garrafinha de água fora para passar no Raio-X, me dei conta de que só tinha libras num mundo de euros. Probleminhas insignificantes quando o principal acontece: pouso seguro, malinha velha carcomida rolando na esteira, ufa.

* Aliás, foi uma aventura feita de ufas, porque meu eu-anti-viagens boicotou meu eu-planejativo. Imaginem que eu ia ficar 4 dias no bem-bom-0800 da casa de uma amiga querida, e na hora de entrar, o que acontece? A chave não funciona. Quem lembrou de testar a chave quando a amiga gentil lhe entregou? Foi pro brejo o meu post onde eu ia ensinar vocês a viajarem em libras com uma conta bancária em reais… Mas viva a internet: arranjei um quarto no Airbnb em menos de  30 minutos, pois era o máximo de tempo que eu podia gastar antes de voltar para a biblioteca. Pelo menos, pensava eu, minha amiga chegaria das suas mini-férias e me mandaria uma mensagem explicando o problema da fechadura. Oops, só que não: com ela, a chave funcionou perfeitamente! Como diria Alice-no-país-das-maravilhas, o coelho passou por aquela portinha, eu não!

* Feliz ou infeliz, a grande vantagem de não entender o que os taxistas estrangeiros-como-você falam é que basta murmurar “ok, ok”, “yes, yes”, Brazil, Rio, Olympics. Encerrada a conversa. Mas no único transporte possível às 3:30 da madrugada, o motorista falava pelos cotovelos, e acabei entendendo que ele tinha 12 filhos, 10 netos e não sei quantos bisnetos; detestava a internet e o Facebook, morou na Holanda muitos anos, mas gostava mesmo era da Inglaterra. Ok, seu moço, obrigada, me deixa quieta, são três e meia da manhã!

* O quarto alugado às pressas até que era legalzinho. Só um detalhe: no alto de uma ladeira! Gente, porque não pintam essas armadilhas de vermelho nos mapas? Nem num super street-Google a gente vê direito quando a rua sobe. E lá vou eu, morro acima, ter um “lovely view” de um bairro na zona 2… Então, aviso-útil para futuros usuários de Airbnb: desconfiem quando um anúncio diz que seu quarto terá uma vista linda. Se não for de frente para a praia… só pode ser porque é morro acima!

É isso por hoje! Foi só o finzinho da viagem mas, se vocês estiverem se divertindo, prometo que continuo a série.

E para alguns que me escreveram preocupados, como dizem os ingleses, numa gramática duvidosa: “no worries!”. Ou, como disse melhor o Caetano, “é tudo só brincadeira e verdade”.

Este é o segundo post da viagem que fiz a trabalho em jul-ago/2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

Sobre o desenho: Aquarela feita num caderninho tipo japonês com papel comum, depois com alguns traços em lápis de cor. Foi uma tarde ensolarada (e cheia de vento) no Regent’s Park, com uma turminha simpática de mulheres que participaram do Simpósio dos Urban Sketchers em Manchester. Pintei sem linhas a lápis ou canetas, tentando sair um pouco do meu jeito habitual.


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Os bichos do meu pai e o talento de Roberto Negreiros

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Quando nasci, meu avô gritou pela janela de um prédio da Rua Buenos Aires: — É menina! Em frente trabalhava meu pai, já cansado de ter filhos e dos alarmes falsos do bebê. Eu estava dividida: será que valia a pena vir para esse mundo? Até que não pude hesitar mais, vocês sabem como é.

Minha primeira lembrança é a de morder a minha amiga Adriana e ficar de castigo, chorando e tentando fazer um som alto que pudesse ser ouvido tanto como “mãããe” ou “pãããe”: quem sabe um dos dois vinha? Graças a esse dia, aprendi que era melhor não gritar, não morder e ir cuidar da minha vida.

Não me lembro de brinquedos preferidos: o que eu mais gostava era de bicho. Tinha um cachorro maior do que eu no apartamento. O amor pelo cão era do meu pai, mas quem cuidava era minha mãe. Taí a metáfora do casamento patriarcal. Que bom que a minha mãe se separou. A culpa não era do animal, mas sua presença deixou sequelas: nunca mais minha mãe aceitou bicho em casa. Até hoje tenho o sonho de ter um cachorro grande. Em 2009, aplaquei um pouco a vontade adotando dois gatos.

Depois de separado, meu pai continuou insistindo em ter bichos, e para isso precisava achar mulheres para cuidar deles. Ou era ao contrário? Foram vários: gatos estrangeiros, cachorros histéricos, gigantes, minúsculos, todos com problemas de comportamento vocês-sabem-porque. Minha favorita foi a gatinha Nívea, importada junto com a namorada americana que gostava de andar pelada pela casa (anos 1970, perdoem a moça). A falta de roupa era compensada por cílios postiços imensos (imaginem meu susto a primeira vez que vi a mulher puxando os olhos com uma pinça!) e o excesso de pelos da gatinha, uma persa que precisava ser escovada duas vezes por dia e cuja pelagem a dona usava para cobrir as partes.

Um dia, essa namorada foi embora e abandonou os gatos lá com meu pai, coitados. Caíam da janela (por sorte um segundo andar), passavam fome (acostumados com ração de primeira) e os pelos embolavam tanto que tinham que ser tosados por falta de escova. Decidido a mudar e ser responsável, meu pai arranjou outra namorada. Ela até gostava de bichos — disso não podemos acusá-la — mas cuidar dos gatos da americana plastificada? Aí já era demais.

Sabendo do coração mole do parceiro, a moça veio com um (ou dois?) cachorros a tiracolo, os “seus”, naturalmente — ou foram adotados como símbolo do enlace, sei lá. O caso é que os gatos passaram do semi-abandono ao purgatório. Nívea tentou fugir tanto que conseguiu e morreu atropelada. Fuzi, seu par lindo e gigante, vivia apavorado e escondido, ao ponto que não se notava mais sua existência. Acabou sendo doado para a moça da faxina, com certeza a melhor coisa que aconteceu na sua vidinha sofrida.

Essas lembranças foram inspiradas num livrinho delicioso que li essa semana: “Com a palavra o ilustrador Roberto Negreiros” (editora Mandacaru, SP). É um pequeno volume (62 páginas) de uma coleção de três, com imagens e textos autobiográficos de ilustradores. Além dos traços leves e divertidos (a la Sempé), Roberto Negreiros é um narrador fantástico, desses que te levam, de sorriso em sorriso, até a última página, onde a única tristeza é que a história acabou…

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Da origem como “artista egípcio” aos domingos como “oficial arrancador de pelos das orelhas” do tio Ruy, o autor desfia uma coleção de personagens da sua infância, sempre com aquela mistura de humor e compaixão que tanta falta fazem na internet de hoje. Meu capítulo favorito é o da bicicleta que o menino não queria saber de aprender. Com a desculpa de embelezá-la, dava seguidas mãos de tinta na bichinha, alegando que precisavam de uma semana para secar bem.

De pintor de bicicletas a aluno do Externato Paulista, cujo lema ele diz que era “entra burro e sai artista”, o pequeno Roberto já se fazia admirado pelo talento com que desenhava em calçadas, murais e cadernos. Que bom que não se tornou farmacêutico, como seu pai queria. Sorte nossa e da arte! Sua obra pode não solucionar, mas certamente torna a realidade menos “rude, injusta e aborrecida”, como um dia ele a julgou, apaixonado diante de uma tela de cinema.

* Sobre a imagem inicial do post: Não tem muito a ver com o tema do texto, mas foi uma mistura de desenho, pintura e colagem que fiz nos últimos dias. Começou com dois passageiros observados no metrô (canetinha Pitt S Faber-Castell). Depois colei o pássaro, recortado de um folheto do Jardim Botânico. Por último, catei folhas no Parque Lage para inspirar as pinturas (contorno a lápis primeiro, seguido de água e aquarela). Estava melhor (e mais leve) com menos folhas, mas isso eu só descobri quando coloquei as outras! O suporte foi um caderninho novo (15 x 15 cm) que fiz com costura simples a partir de folhas de papel Fabriano antigas. Agora, pensando bem, o pombo olhando o casal separado até que se encaixa na primeira parte do post; as folhas parecem o tempo e, viajando um pouco, tudo lembra a vida rude e aborrecida da qual Roberto Negreiros nos ajuda a escapar.

* Links e coisas dignas-de-nota da semana:

. O livrinho mencionado vem numa caixinha chamada “Com a palavra, os ilustradores”. É difícil de achar, mas tem aqui e na estante virtual tinha também.

. Para ver um pouquinho do Roberto Negreiros, tem uma página no Facebook e um blog, (ambos sem atualização recente, já vou avisando).

. Para quem quer dar um passeio pela obra de Sempé, achei dois pequenos vídeos: um com o artista no seu estúdio desenhando; outro com uma coleção de imagens. É pena que não exista um site a altura da sua obra (se existe, não achei).

. Ainda para deixar a vida menos chata, um texto do Umberto Eco, “Por que as universidades?”, traduzido por Marco A. Nogueira. De 2014, é leitura indispensável nesses tempos difíceis por que passamos, não só os colegas professores das universidades estaduais do Rio de Janeiro, mas todos que acreditam que só a educação muda o mundo pra melhor.

. Sobre a promessa de dieta eletrônica do post da semana passada, me dou nota 6,0. O critério de autocorreção foi o seguinte: perdi quatro pontos porque, em vários momentos, peguei o celular (ou abri o notebook) achando que ia encontrar ali alguma resposta; mas ganhei seis pontos porque lembrei de ler, desenhar, escrever, conversar e até de tocar um pouco de violão com a Alice.

. Queria terminar agradecendo as mensagens de incentivo de vocês! Não estou dando conta de responder com calma, desculpem. Mas cada comentário e likes me alegram e me animam a continuar. Obrigada! ♥

 


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As cores de cada dia

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“O tolo pensa que é inteligente, mas o homem inteligente sabe que é tolo.” (Shakespeare*)

Há alguns anos vi num filme uma cena que me tocou: uma família reunida para jantar começa um jogo. Cada um deve falar o que aconteceu de pior e de melhor no seu dia. Adotei a brincadeira aqui em casa com as crianças; e aos poucos fomos criando nossa própria forma de jogar.

Primeiro, fazemos uma rodada com o “pior do dia” de cada um. Adotamos o princípio de nunca usar uma situação entre nós como a pior coisa. É uma auto-censura amigável que acabou preservando o momento do jogo.

Em seguida, fazemos uma nova rodada onde cada um fala sobre o que foi o “melhor do seu dia”. Logo nas primeiras semanas percebemos que não valia dizer que o “melhor do seu dia” estava sendo o momento do jogo. Já estava perdendo a graça ouvir o mesmo “melhor do dia” todos os dias! Mas isso só confirmava a delícia de ter esse momento de jogar/conversar.

Com o tempo, surgiram outras regrinhas. Resolvemos que não vale falar algo abstrato, como “fiquei triste” ou “o dia foi animado”. E também não valem os desastres do mundo lá fora. Queremos ouvir: o que aconteceu que te fez desanimar ou se alegrar? Em que situação, com quem? E cada um dá os detalhes que quiser ou puder.

Quando estamos empolgados, fazemos uma rodada extra de escolher quem teve o “pior pior do dia” e quem teve o “melhor melhor do dia”. Daí criamos compensações para o mais sofrido ou festejamos o mais feliz.

Em algum momento, resolvemos que não vale “não ter um pior” ou “não ter um melhor”. Isso gera coisas engraçadas como o “pior do dia” ser só um garfo que caiu no chão. Mas gera também um esforço para encontrar uma pontinha de alegria naquele dia em que a alma está nublada (o melhor desse dia pode ser “eu apertei o gato Charlie”. Esse é um velho truque nosso para ter sempre uma coisa boa no dia ruim. Revezamos os gatos, mas o Charlie é imbatível como a melhor fonte de conforto da casa.)

A Alice também inventou de fazer algumas rodadas com perguntas diferentes, como: “Qual foi a coisa mais engraçada do seu dia?” ou “qual foi a mais estranha?” e assim por diante. E adoramos quando temos visitas para participar. Uma vez, na nossa fase sem-casa, convidamos uma amiga da vovó para a conversa. Ela estranhou muito ser chamada a “falar”! Mas foi tão bonito, porque o pior do dia dela tinha sido fazer um “molho que deu errado” e o melhor foi o “bolo de cenoura da Jô” que trouxemos de presente! Tudo girou em torno das comidas, e pudemos conhecê-la mais de perto. (Ah, e o bolo de cenoura da Jô é sempre o melhor do dia de quem prova!)

Uma das supresas dessa brincadeira é ver que frequentemente o pior e o melhor do dia são parte da mesma situação. Como em: “O pior do meu dia foi brigar com a minha amiga”; e o melhor foi “fazer as pazes com a minha amiga”. Ou em: “o pior do dia foi ter que escrever um trabalho longo”; e o melhor do dia foi “ter terminado o trabalho longo!”. Ou “o pior do dia foi ficar muito tempo na internet” e “o melhor do dia foi um poema que li na internet na timeline do Carlito Azevedo”.

Se machucar/se curar; chorar/ser consolado; ter preguiça/se levantar; sofrer/melhorar; viver algo difícil/superar. Parece que esses contrastes andam mais juntos do que a gente pensa.

E o melhor de falar-confiar-ouvir é a imensa intimidade que surge entre a gente, devagarinho, sem pressão, com choro e com risada.

E já que estamos falando de intimidade, e as crianças hoje não estão aqui comigo para jogar, aí vai o meu pior e o meu melhor do dia:

O pior — Saber que pessoas muito queridas estão sofrendo. E pra elas eu cito “E nem tente levar em seus ombros a sua sorte: não queira carregar os seus sofrimentos sozinha, deixando-me de fora. Por este céu, que agora empalideceu diante da nossa dor, me diz o que tu queres e eu vou estar ao teu lado.” (Shakespeare**)

O melhor — Como diz a Alice, foram dois “melhores”, então vou ter que roubar hoje. O primeiro foi ouvir as apresentações dos alunos sobre as suas etnografias na nossa última aula antes do recesso de final de ano! O segundo é estar aqui escrevendo esse 100º post! Mas o momento do jogo não vale, né? 😉

Sobre as citações: A epígrafe é uma fala do personagem Touchstone (o bobo-da-corte) da peça Como gostais, de Shakespeare, na tradução de Millor Fernandes, para a edição de bolso da LP&M. A segunda citação é da personagem Celia, amiga da mocinha Rosalinda, da mesma obra. Adoro essa peça! Não citei muito porque fica difícil entender as falas sem os contextos.

Sobre o desenho: Semana passada, relendo um texto do antropólogo Edmund Leach, percebi uma frase que nunca tinha me chamado atenção antes. Ao falar das variedades do comportamento humano, ele diz: “são como as cores do arco-íris; as aparências são enganadoras; quando se olha de perto para a imagem, as descontinuidades desaparecem”. E essa metáfora das cores-sem-fronteiras ficará gravada para sempre na minha memória! Queria ter feito uma ilustração especial para o post, mas essa já estava no caderninho pronta. Fiz os contornos com canetinha Unipin 0.05 e as cores são das variadas aquarelas que tenho na minha paleta atual. (A frase do Leach está no livro A diversidade na antropologia, das Edições 70, de Lisboa.)

 

 


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Artista, bicho, jardim

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“O artista é um bicho assim: a dor dá cor ao seu jardim…” (Juva Batella, em Do gato Ulisses as sete histórias, p.38)

Pela coragem de atravessar a cidade, pela paciência de encarar a fila, pelos sorrisos, pelos abraços, pelas flores, pelos carinhos, pelos compartilhamentos, pelas mensagens dos que não puderam ir, e pelos quase 150 Ulisses que vocês levaram para passear… muito obrigada!

Queria escrever sobre os livros que estou lendo, mas não terminei nenhum dos dois ainda… Também estou em crise de decidir o que quero desenhar, mas tanto os diários da Margaret Mee quanto as cartas do Van Gogh me levam em direção às plantas. Na falta de um jardim de verdade, fui para um imaginado (acima) e para um pequeno parque perto de casa (abaixo).

Sempre leio que o artista cria a partir das suas “referências de infância”. Tipo José Lins do Rego escrevendo sobre a vida no sítio do pai — história aliás lindamente transformada no livro “O menino que virou escritor” de Ana Maria Machado (ilustrada por Ciro Fernandes, ed. José Olympio).

Mas menina urbana tem lá referência?

Pensa daqui, pensa dali, chego à conclusão de que tenho umas memórias de coisa verde sim. As plantas da escola onde estudei até os 12 anos ocupavam a nossa falta-do-que-fazer nos anos 1970. Na hora do recreio, uma das minhas atividades preferidas era arrancar essa florzinha vermelha do pé, despetalar e sugar o miolo! É uma eca, eu sei… mas não tinha celular nem mp3 naquele tempo. E o ser humano gosta de fazer besteira.

hibiscos

Uma coisa divertida dessa busca pelo jardim perdido é usar o Google para descobrir o nome das plantas. Essa aí de cima é uma “Malvaviscus arboreus”, também chamada de hibisco-colibri pelos especialistas (porque não acredito em “nome popular” de planta).

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Uma amiga leu o post sobre os 3 Ps (paixão, paciência e prática) e me mandou de presente a linda ideia dos três Cs: Coragem, Coração e Consciência!

* Apesar da resistência, reli com a Alice “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof, e ela teve que admitir que achou muito engraçado.

* Um tio-cunhado leu o post sobre as críticas e me mandou de presente a história de quando ele entrou para a família. Depois de se hospedar na casa da minha tia-avó, ele ouviu-a ligar sorrateiramente para a futura sogra: — “Dida, tu sabes que ele tomou banho e deixou tudo impecável, como se o banheiro não tivesse sido usado!”

* A Cora Rónai fez uma foto incrível e escreveu um perfil muito simpático de um dos meus heróis no Rio de Janeiro: o Tony, que resgata, protege e doa animais abandonados, com a ajuda da Marluce, sua companheira.

* Participei a convite da Daniela Manica e da Marina Nucci de uma roda de conversa emocionante no IFCS com alunos e funcionários, sobre gênero, corpo e trabalho. Foi um momento marcante nesses quase dez anos de UFRJ, que me lembrou o amor por tudo que aprendi na escola das Amigas do Peito.

* Achei por acaso (e comprei por um preço ótimo!) o lindíssimo livro “Usos e circulação de plantas no Brasil”, organizado pela Lorelai Kury (ed. Andrea Jakobson).

* Três crianças disseram que leram de uma vez e adoraram o nosso “Do gato Ulisses as sete histórias”!

* Sobre os desenhos: Desenhos feitos no caderninho Laloran com aquarelas Winsor & Newton e lápis de cor Carand’Ache aquarelável. No primeiro, o jardim foi de imaginação, exceto pelo passarinho inspirado numa imagem do livro-fofo The Summer Book, da Susan Branch, que ganhei de presente há seculos da Dri. A frase à direita é de uma das cartas de Van Gogh para seu irmão Theo. Para o segundo desenho, colhi algumas flores de verdade caídas no chão, já bem murchas, coitadas, pois não tive coragem de arrancar do pé onde um beija-florzinho tomava seu café-da-manhã.


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O gato que virou livro

junho2015

Imaginem uma família crítica, agora multipliquem e elevem ao quadrado… É mais ou menos de onde eu vim. A tia mais fofinha era do tipo que olhava seus dentes antes de te dar bom dia. A avó pegava no colo e contava histórias, mas ai se você estivesse mais gorda. A redação da escola vinha com nota dez, ufa, parabéns; mas o filho da fulana escreveu uma com 60 linhas — quantas linhas tinha a sua mesmo?

A pessoa não sai ilesa vivendo 20 anos nessa espécie de bancada-Roda-Viva constante. Vira crítica também; ao cubo, três vezes. Isso não garante que vai ser boa em alguma coisa, mas até que favorece a profissão acadêmica… Adquire-se uma imaginação infinita para antecipar críticas.

Agora, joguem essa pessoa no mundo da arte? Ferrou. Num universo de parâmetros tão subjetivos, de mestres tão obsessivos, de imagens tão encantadoras… Como a pessoa pode se achar no direito de bater à porta? Não, de jeito nenhum. Me deixem aqui no meu cantinho rabiscando no caderno, que é melhor. Assim eu pensava.

Mas uma rede de amigos e até muitos da família (!) me empurraram porta adentro… Manoel, Nathalia, Arthur, Manya, Mário, Gilberto, Eduardo S., Clau, Bel, Mari, Ale, Robs, Joana, Malu, Sofia, Susi, Andrea, Hanny, Dady, Ronald, Elisa, Celina, Antônio, Alice, Vera, Cilene e, claro, o Juva, que escreveu, esperou, ouviu, aturou, incentivou, acolheu, elogiou, amou… Taí a coragem que vocês me ajudaram a ter! Meus agradecimentos infinitos também para os leitores desse blog, e aos amigos do Facebook, por tantas gentilezas, incentivos e apoios, principalmente em 2014, um dos anos mais difíceis da minha vida.

E um pote de sachê para o Charlie, a Lola e o Ulisses, meus gatos amados que aceitaram virar livro-de-verdade! (E não levem atum, porque a Lola é membro dos Atumhólicos Anônimos.)

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Se estiverem fora do Rio, podem pedir online na Vieira & Lent !


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Um caderno não é só um caderno

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A primeira vez que participei de um evento dos Urban Sketchers, em Lisboa, em 2011, fiquei maravilhada com a quantidade de desenhos que passavam de mão em mão. Todo mundo se cumprimentava assim: “Posso ver o seu caderno? Quer ver o meu?”

Já conhecia várias daquelas pessoas por blogs, flickrs e pelo livro Diário de Viagem de Eduardo Salavisa, mas nada se comparava a folhear os caderninhos pessoalmente. Um dos primeiros que vi ao vivo foi o de Richard Câmara, começando com uma sequência de imagens feitas através das janelas do avião (a pousar em Lisboa), seguida por dezenas de páginas com animais do zoológico. “Em quanto tempo você desenhou tudo isso?”, perguntei. “Ontem e hoje”, ele respondeu, sem nenhuma afetação; e ainda fazendo questão de me explicar que a ideia das janelas tinha sido inspirada no desenho de fulano-de-tal (infelizmente não lembro o nome).

“Como assim???”, pensava eu com minhas canetinhas… Desde 2004, eu tinha voltado a desenhar, mas nenhum dos meus cadernos se comparava àquelas páginas intensas e coloridas. Era como saber tocar “Gente Humilde” com três cifras no violão e encontrar pela frente a galera que toca “Brasileirinho” com os olhos vendados.

Felizmente, a essa altura da vida, eu já tinha aprendido que adoro aprender. Gosto de ser aluna, de enfrentar desafios, de descobrir uma montanha de coisas que ainda não sei. Amo legos e quebra-cabeças (os de verdade e os metafóricos).

É claro que morro de preguiça muitas vezes, e também já desisti de aprender a tocar Brasileirinho (o de verdade e os metafóricos) em várias oportunidades. Larguei pelo caminho um monte de coisas; e não sou nenhuma miss-certinha. (Os mais de quinze dias de atraso nesse blog são uma boa prova do meu sistema “bom mas nem tanto”, “bem feito, mas com defeito” ou o melhor, da vovó Trude: “só erra quem faz”. )

Então, bora comemorar! Muitas e muitas páginas e canetas depois daquele evento de 2011, até a imersão na Drawing Land do ano passado, agora já tenho coragem de perguntar: “Posso ver o seu caderno? Quer ver o meu?”

Sobre os desenhos: Quase todos os desenhos foram feitos com canetinhas de nanquim descartáveis (as minhas preferidas são as Pigma Micron da Sakura) e coloridos com aquarela, lápis de cor e vários tipos de canetas hidrocor (no momento estou apaixonada pelas Tombow e em vias de me apaixonar pelas Koi watercolor brush, da Sakura, que acabaram de chegar graças a uma amiga que foi aos EUA.) Estou sem tempo de escrever sobre cada imagem, mas se tiverem alguma dúvida ou curiosidade me escrevam nos comentários que eu respondo!

O caderninho é um Laloran com lombada de tecido Tais timorense feito pelas mãos talentosas de Ketta Linhares. Essa minha versão é com papel mais fino do que o ideal (de 220gr que usei no #UskParaty2014). Ainda por cima, o bichinho tomou um banho d’água logo no segundo dia de uso (daí as ondulações sombreadas em várias das páginas abaixo).

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Cores de março

mar2015g

Não sei se já comentei aqui, mas um dos desafios da minha vida foi assumir que adoro ser útil e fazer trabalhos manuais.

Comecei a ter noção de que tinha vergonha disso na faculdade de jornalismo. Amava as aulas de teoria, filosofia, história, cinema etc… Mas secretamente continuava querendo ajudar o meu avô a lavar selos.

Um dos professores que eu mais admirava era o Wagner Teixeira (agora já falecido). Ele escrevia divinamente, contava histórias incríveis sobre reportagens heróicas, publicava livros, um sábio. Ficamos amigos porque eu falei para ele: — Professor, me desculpe, mas vou ter que trancar a sua disciplina para fazer um curso de cinema no Estação Botafogo com o Luiz Vieira (da UFF). Ele ficou impressionado de eu dizer isso no meio do semestre ao invés de tentar enrolar para ver se colava. (E não conto isso para posar de certinha: é claro que enrolei vários dos meus professores, mas não ele.)

Não sei bem como foi, mas a partir daí começamos a marcar conversas e ficamos amigos. Ele era da velha guarda, adorava beber, fumar, e tinha uma barriga imensa… e era uma figura adorável e humana. Ia direto ao ponto, sem papo furado. Me indicava livros, me ajudou a sobreviver ao tédio do meu primeiro estágio e me fez ter confiança para tentar o mestrado.

Um dia marcamos um encontro no Centro, na Rua da Quitanda. Ele estaria no escritório de uma associação de aficcionados por dicionários (ele próprio era um). Aficcionados é pouco: eram estantes e mais estantes só de dicionários e obras de referências de todos os tipos. Um lugar incrível! (Pena eu não me lembrar do nome.)

Pois bem. Quando eu chego lá, vejo o seguinte: o professor Wagner Teixeira com tesoura e cola na mão, cortando e colando etiquetas de remetente nos envelopes de correspondência da associação. E ainda escrevendo cada endereço dos destinatários à mão, com caneta e letra caprichada.

Ele me viu chegar e foi logo dizendo: — Quer me ajudar? Adoro fazer esse tipo de trabalho manual. Me acalma. E você?

Eu — Sim! Também adoro!

E ficamos lá, um tempão, naquele silêncio delicioso de quando nos sentimos bem acompanhados, preenchendo papéis que muito provavelmente iam parar no lixo.

Esse momento ficou na minha memória. Sei que é banal… Mas foi mágico saber que uma pessoa que eu admirava tanto intelectualmente também gostava de tesoura e cola; e de fazer coisas práticas e úteis. (Nessa época eu tinha sublimado o desejo de desenhar.)

Queria também dizer obrigada pelos comentários tão gentis aqui e no Facebook sobre o post da semana passada. Foram quase 10 mil visualizações — não que eu esteja contando… imagina! 😉 Mas esse tipo de repercussão ajuda a achar que um blog também pode ser útil!

Sobre o desenho: Amo listras! O calendário de março foi inspirado nas cores de um potinho de porcelana portuguesa (moderna) que tenho aqui em casa; e também na lateral de um livro sobre teoria da cor que vi no atelier da Chiara Bozzetti, com quem estou começando um curso de aquarela. Fiz as linhas com canetinha Pigma Micron 0.2 e as cores com lápis de cor. Comecei usando os aquareláveis, mas depois troquei para o Prismacolor Premier que se mostrou realmente muito superior para cores chapadas e fortes como essas. Acrescentei um pouquinho de Abril porque nunca é demais lembrar que tem feriado no final do mês!