Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Ulisses (2009-2017), despedida

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“Esta é a história dum gato com sete vidas — cada vida com sua graça, sua dor e suas medidas. Em todas as histórias o gato lutou, e quase nunca desanimou. Apaixonado e perdido o bichinho cresceu: apaixonadamente perdido pelas vidas que a vida lhe deu.”

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“Mas nosso Ulisses gostava era de gente; gostava de festinhas, atenção e presente. Decidiu, então, que sairia do solo; pularia, sem vergonha, direto prum colo. Mas o colo deveria ser quente, ou, se preferisse (e foi o que a si mesmo disse), o primeiro colo que surgisse à sua frente.”

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“‘Atira-te ao mundo, até o fundo; atira-te à vida, não tens saída.’ Era este o conselho materno, lá de longe e sempre eterno. Dando suas voltas em torno do umbigo, sentia-se da gata [Penélope] muito mais que um amigo. E os felinos pegaram a estrada; caíram na vida, esta grande charada.”

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“Quanto ao nosso gato, o que dizer de fato? Sua sétima vida começa agora, e lá está ele olhando para a aurora. entrou na canoa conversando com o mar, e é hora de nos afastarmos devagar. É hora de dizer que tudo valeu a pena, sim — uma forma de dizer que chegamos ao fim.”

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Ulisses morreu hoje de manhã (10/04/2017) e nos deixou de corações despedaçados… Isso de partir subitamente combina bem com o jeito dele: adoecer era uma humilhação para seu orgulho de gato. Sua vida era miar alto, exigir petiscos, colos e carinhos, fugir porta afora, pular nos teclados, rosnar para os pombos, lamber a banheira e depois desmaiar de tanto dormir. Ele ficou doentinho na segunda-feira passada, foi piorando, piorando, e nem a melhor veterinária, e nem a melhor clínica de gatos conseguiram salvá-lo.

Está difícil de escrever…  por isso recupero aqui os posts com a tag Ulisses para lembrar dos nossos momentos felizes:

7/08/2014 – Ulisses em fuga

30/04/2015 – Gato sarado, dona arranhada, calendário de maio

04/06/2015 – O gato que virou livro

10/06/2015 – Faz logo o meu autógrafo!

17/06/2015 – Artista, bicho, jardim

09/09/2015 – Empurrão de flor

09/12/2016 – Três anos e sete coisas impossíveis

10/04/2017 – Ulisses (2009-2017), despedida

Sobre os trechos e desenhos: As passagens e as imagens foram retiradas do livro “Do gato Ulisses, as sete histórias”, escrito por Juva Batella (quem primeiro adotou Ulisses em Portugal, 2009), e ilustrado por mim, Karina Kuschnir (que adotei o Ulisses em 2011, dando a ele dois irmãos humanos e dois felinos); edição Vieira & Lent, 2015.

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Vida, modo de usar — Doze lições de Oliver Sacks

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Sacks — Você disse a ele que eu era um bom homem. Como pode ser bom alguém que dá a vida… apenas para tirá-la novamente?
Eleanor — A vida é dada e tirada de todos nós.
Sacks — Por que isso não me conforta?
Eleanor — Porque você é um bom homem.
(Diálogo do filme Tempo de Despertar, 1990)

1) Viver intensamente. “Sacks vai longe, se não for longe demais” – a frase consta no relatório escolar do jovem Oliver (aos doze anos) e sintetiza bem a vida intensa e inovadora que ele nos conta em seu décimo quarto livro e autobiografia, publicada cerca de um ano antes da sua morte (e antes que ele soubesse que ia morrer).

2) Viver, apesar de. “Você é uma abominação. […] quisera que você nunca tivesse nascido” — isso foi o que ele ouviu aos 18 anos, quando sua mãe soube de suas preferências sexuais por meninos (1951). Sofremos com ele, para rir em seguida, da aventura forçada pela família junto a uma prostituta parisiense. A moça, ele conta, “parecia uma das minhas tias”, e logo entendeu que o programa seria uma boa xícara de chá.

3) Viver e aprender a se conhecer. Sacks é três vezes reprovado no exame de anatomia na faculdade de medicina, logo ele, o quinto Sacks-médico! Mas pouco tempo depois ganha um prêmio importantíssimo na mesma área. “Sou péssimo em exames factuais e em perguntas sim-não, mas crio asas na dissertação”, observa (p.24). Décadas mais tarde, fica fascinado pelas teorias neurocientíficas e pela pessoa de Gerald M. Edelman, expressando sua inveja por aquele cérebro com uma capacidade de “concentração feroz”. Mas reflete, bem humorado: “a vida não devia ser muito fácil com um cérebro daqueles”, e talvez fosse melhor se contentar com seus “próprios dotes, mais modestos” (p.305).

4) Viver com compaixão. O fascínio de Sacks pelo singular em cada ser humano (inclusive nele) é encantador! Suas descobertas do sexo, das drogas, das viagens, dos parentes e dos pacientes são narrativas sobre pessoas, seus cérebros, seus corpos, seus medos e afetos. Ele não está preocupado com quem-fez-o-quê-onde, mas com quem-sentiu-o-quê-como-e-com-quem. Ao invés de se afastar, Sacks se aproxima dos males dos pacientes, mostrando as necessidades deles e a sua de construir narrativas sobre a vida. A infinita demanda de “compor a si mesmo”, recriando incessantemente a si e seu mundo, é humana (e iluminada pela intensidade nos casos de amnésia).

Ele fica maravilhado com uma visita a Guam, na Micronésia, onde os pacientes com doenças mentais fazem parte da sociedade, colocando em evidência (por comparação) a “barbárie da nossa medicina […] do mundo civilizado onde afastamos e tentamos esquecer os doentes ou os dementes.” (p.279)

5) Viver com encantamento, com criação. É comovente perceber que ele investiga tanto os dramas dos pacientes quanto os seus próprios, narrando ora o efeito de uma droga, ora o efeito da escrita na sua vida:

“[Escrevendo,] era como se o tempo tivesse parado, com um halo de encantamento, um ponto privilegiado atemporal, longe da agitação do cotidiano, um tempo especial consagrado à criação. (…) Tenho a impressão de que os meus pensamentos se revelam pelo ato de escrever, no ato de escrever.” (p.160-2)

Seu editor lhe diz: “Oliver, você é capaz de qualquer coisa para ter uma nota de rodapé!” (p.205). Quando passou 30 dias num hotel para escritores, dos quais 29 sem escrever uma linha, teve apenas um só dia “magnificamente produtivo” (p. 217). Sacks duvida, a ponto de debater um ponto-e-vírgula num telefonema internacional com seu editor no meio da madrugada. Ele está em busca da prosa científica bem escrita (p.236), e da concentração do processo de escrever (“tão eficaz quanto a morfina” e “sem efeitos colaterais”, p. 323).

6) Viver no mundo. Ao receber uma carta elogiosa de um de seus ídolos, o neurologista-psicólogo Alexander Lúria, Sacks fala de sua profunda alegria e da sensação de sentir “uma espécie de tranquilidade intelectual que jamais sentira”. (p.173) E ele irá precisar desse aval porque, ao se tornar um autor “popular”, sente o peso de não “ser levado a sério” por seus colegas neurologistas. Diante de seus ídolos brilhantes, como Edelman, aprende a dar valor ao seu gosto pelas pessoas: afinal, alguém precisa fazer o “trabalho de campo” necessário às formulações teóricas gerais (p.313).

7) Viver e sobreviver. Tendo sido uma criança que foi evacuada de Londres durante a Segunda Guerra Mundial, separada de sua família, ele se emociona quando houve no rádio que os veteranos dessa mesma época sobreviveram, sim, mas com sequelas. E se identifica com o depoimento de um deles: “até hoje tenho problemas com os três Bs: bonding, belonging and believing [criar laços, me sentir parte integrante e acreditar]”. Mas é comovente como, aqui e ali, vai se reconciliando com seus pais e até percebedo neles muito de seu próprio modo de ser. Sobre a prática de seu pai, clínico estimado por todos até os 94 anos, ele lembra: “conhecia o interior da geladeira dos pacientes tão bem quanto o interior do corpo deles.”

8) Viver e aprender a perceber. Um tema central em toda a sua narrativa é o da percepção (visual ou não) do mundo. Da percepção da própria existência, que Sacks explorará através do conceito de “propriopercepção” às percepções clínicas que adquire (por meio da análise de seus pacientes), que por sua vez mudam sua percepção do mundo à volta. Por exemplo, quanto mais tempo ele passa e estuda seu paciente com síndrome de Tourette, mais “calibra o seu olho neurológico” para enxergar a síndrome em outras pessoas. Tudo isso vai culminar na ideia de que a experiência do indivíduo “molda” o seu cérebro. É fascinante como ele explora os casos de alterações visuais (desde a ausência da percepção de cor e variantes do daltonismo, à perda da visão binocular estéreo, entre outras) e conclui: “Toda percepção é um ato de criação” (p. 310).

9) Viver e saber mudar. Sacks fala abertamente de depressão, de deslocamento, de se sentir inadequado, de ser desleixado, lento, de fazer digressões mentais esdrúxulas… de voltar atrás, de mudar de ideia, de não ter certeza. Elogia um de seus ídolos, Jerome Bruner, que podia parar no meio de uma frase e refletir: “Não acredito mais no que eu estava para dizer”. (p.229)

10) Viver com desapego. Sacks ama a obra de seu amigo poeta, Thom Gunn, com seus versos que celebram as plantas que nascem em terrenos baldios e rachaduras (p.234). Louva o desprendimento financeiro do autor, sua dedicação e o progressivo desapego à busca da beleza e da perfeição formal, em nome de uma obra mais livre e terna. Thom, numa carta citada, escreve da importância dos “empréstimos maciços” que faz das suas leituras e se encanta quando Eliot diz que “a arte é a fuga da personalidade” (p.238).

Empatia, espírito livre, sem-julgamento, simplicidade: essas são as qualidades das pessoas que admira. Cita o caso de seu tio que visitou Einstein em Princeton e espantou-se quando o genial cientista foi para a cozinha lhe fazer um café.

11) Viver com amor. Desenvolver novas habilidades o leva de volta às aulas de música e piano aos 75 anos, mas tudo se torna um desafio com a perda da visão do olho, devido a um câncer, em 2005 (p.323). No meio de sua batalha com a dor, encontra um novo “analgésico”: se apaixona por aquele que foi o seu único companheiro e com quem viveu os últimos 7 anos de sua vida. “Seria o próprio enamoramento que inundava o corpo de opioides, de canabinoides ou qualquer coisa assim?” O amor, ele escreve, é uma “dádiva grandiosa e inesperada na minha velhice, depois de toda uma vida me mantendo à distância.” (p.326-7)

12) Viver e morrer. Em janeiro de 2015, poucas semanas depois de entregar à editora o manuscrito de sua biografia, Sacks descobre que o câncer havia voltado agressivo e lhe dando poucos meses de vida. Ao invés de se recolher, ele escreve ao mundo no New York Times quatro comoventes cartas de despedida, a última publicada poucas semanas antes de sua morte, em 30 de agosto de 2015. Na primeira delas, ele diz:

“Eu tenho que viver da maneira mais rica, mais profunda, mais produtiva que posso. (…) Sinto-me intensamente vivo, e quero e espero que, no tempo que resta, possa aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar e, se tiver forças, alcançar novos níveis de entendimento e novas ideias. (…) Não posso fingir que não tenho medo. Mas o meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado;  recebi muito e dei algo em troca; li e viajei, pensei e escrevi. Interagi com o mundo (…). Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal que pensa, neste belo planeta, e isso foi em si mesmo uma enorme aventura e privilégio.” (tradução livre minha)

Escrevi a maior parte desse post quando Sacks ainda estava vivo, e fiquei abalada, sem conseguir terminá-lo, quando soube de sua morte. Felizmente, agora presto essa homenagem. As crônicas do New York Times estão disponíveis online — My own life, MishearingsMy Periodic TableSabbath — e há um mundo de informações a explorar em seu site http://www.oliversacks.com/.

Sobre o livro: “Sempre em movimento: uma vida”, de Oliver Sacks (Ed. Companhia das Letras, 2015, tradução de Denise Bottmann, 354p.).

Sobre o filme: Tempo de Despertar (Awakenings, no original) é de 1990, dirigido por Penny Marshall, com base no livro do mesmo nome de Oliver Sacks e roteiro de Steven Zaillian. Tem atuações brilhantes de Robert De Niro (o paciente Leonard), Robin Williams (Oliver Sacks) e Julie Kavner (enfermeira Eleonor), assim como de todo o elenco.

Sobre o desenho: Fiz esse retrato de Sacks a partir da foto da capa do livro, com aquarela sobre papel. O scanner sabotou todas as sutilezas das cores, mas o principal problema do resultado, na minha opinião, é a falta de expressão no olhar. No original, ele nos sorri com os olhos! Taí mais um segredo da pintura a ser desvendado…

 


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Morte desenhada

choro

 

O gatinho chora pelos mortos e feridos no atentado em Paris hoje, 7/01/2015, e por todos os crimes contra a vida humana por motivações religiosas. (Não custa lembrar que todas as grandes religiões já motivaram assassinatos em nome do seu ‘deus’.)

Parafraseando Dom Quixote: que não sobre nos tinteiros dos cartunistas nem um pontinho de tinta! Que os desenhos possam ser desenhados, que todas as histórias possam ser contadas.