Karina Kuschnir

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Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2)

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Em 1962, Agatha Christie foi convidada de honra para a festa de dez anos de encenação de sua peça A Ratoeira, em Londres. Conforme o combinado, chegou ao teatro com antecedência, mas foi barrada na recepção: “Ninguém pode entrar, no momento, minha senhora. Faltam vinte minutos.”

Sua reação surpreende: “Então saí.”, ela conta. Não conseguiu explicar que era a senhora Christie devido à enorme timidez. Ficou vagando pelos corredores até ser salva por uma assistente da direção que riu muito quando a reconheceu, assim como o diretor, que dava gargalhadas. Ela já era, então, a autora mais lida do mundo.

Escrita e insegurança  — Essa pequena história ilustra um aspecto que me parece comum na vida acadêmica e fora dela: mulheres inseguras em ser quem são, especialmente no mundo público. A própria Agatha comenta que não consegue se “comportar como uma escritora”, porque se sente “fingindo ser alguém que na verdade não é”. Ela acha que muitos autores se sentem assim, precisando se reafirmar. Compara essa sensação com o dia em que viu seu neto descendo as escadas dizendo para si mesmo: “Este é o Mathew descendo as escadas!” Na festa no teatro, ela precisou pensar:

“Esta é Agatha, fingindo ser uma escritora renomada, indo para a grande recepção oferecida em sua homenagem. Ela tem que parecer alguém, tem de fazer um discurso que não sabe fazer, tem de ser um personagem que não sabe interpretar.” (Agatha Christie, Autobiografia, p. 523)

Quantas de nós já não nos sentimos assim em salas de aula, eventos, numa defesa de tese ou em qualquer situação em precisamos parecer inteligentes?

Uma das delicadezas da Autobiografia de Agatha Christe é que ela se mostra como uma pessoa comum, cheia dúvidas e incertezas, ao mesmo tempo em que narra feitos extraordinários.

Escrita e coragem — Em 1928, depois da morte de sua mãe e da traumática separação do primeiro marido, a escritora reuniu forças para realizar uma viagem. Mulher, divorciada, com uma filha, escolheu um destino nada óbvio: pegaria o Expresso do Oriente, passando por Turquia, Síria e Iraque. Ela reflete:

“Agora eu estava viajando sozinha. Agora, eu devia descobrir que tipo de pessoa eu era — se me tornara completamente dependente dos outros como eu temia. (…) Às vezes, pensava que minha natureza era como a de um cachorro: cachorros não saem para passear, a não ser que alguém os leve. Talvez eu fosse assim. Esperava que não.” (Agatha Christie, Autobiografia, p. 364)

Esse paradoxo me fascina na narrativa da escritora: humilde, a ponto de se comparar a um cachorro obediente, mas corajosa a ponto de se lançar numa viagem solitária, naquela época e lugar. A despeito de todos os conselhos negativos, maravilhou-se por atravessar desertos e dormir ao relento, relevando desconfortos materiais em nome de conhecer pessoas e paisagens. Dessa e de outras viagens surgiram muitas das suas histórias e o segundo casamento, com o arqueólogo Max Mallowan.

Pensando bem, talvez humildade e coragem não sejam tão paradoxais como escrevi acima. A gente precisa de coragem para ser humilde (“Só sei que nada sei”, disse o audacioso Sócrates). Será que desse patamar não pode florescer uma escrita menos sofrida, mais valente, da nossa parte?

Escrita com diálogos e personagens — Num dia triste de inverno, a mãe da entediada Agatha sugeriu: “Por que não escreve uma história?” A filha achou que não conseguiria, mas a mãe foi insistente: “Você não sabe se pode ou se não pode, porque nunca tentou.”

Ao mandar essa primeira história a um editor, amigo da família, recebeu uma carta com boas críticas e conselhos: “Você tem um grande talento para os diálogos.” Insista naquilo que você faz bem! O mesmo editor escreve um maravilhoso conselho, que vale também para autores de textos etnográficos:

“Experimente eliminar todas as considerações morais de seus romances; (…) não existe coisa mais maçante de se ler. Tente dar liberdade a seus personagens, deixando-os falarem por si próprios, em vez de se apressar para dizer a eles o que deveriam dizer, ou para explicar ao leitor o que eles querem dizer com suas palavras. Cabe ao leitor julgar por si mesmo.” (Eden Philpotts, em carta a Agatha Christie, Autobiografia, p.198)

Escrita, satisfação interior e cotidiano — Para Agatha, a escrita é um impulso criativo, tão valioso quanto qualquer outro, como bordar, costurar, tocar, cozinhar, pintar flores em porcelana. “A satisfação interior do artista é essencialmente a mesma.” A única diferença, ela escreve, “é que algumas dessas ocupações conferem mais status do que outras”.

“O que existe de melhor na carreira de escritor é que podemos trabalhar a sós e dispor de nosso tempo.” Mas escrever também cansa, gera mau humor, ela reconhece. Empacada no meio de um livro, recebeu o conselho de sua mãe: vá para um lugar “sem nada que a perturbe”.

Embora apreciados, esses tempos de foco e reclusão eram raros na vida de Agatha Christie. Sua prática de escrita se deu quase sempre misturada com a vida cotidiana: filha para cuidar, contas a pagar, cartas a responder. Gostava mais de arrumar a casa: “Existe uma monotonia nas tarefas domésticas — e suficiente atividade física, de modo a liberar a mente, permitindo-lhe ganhar espaço e construir seus próprios pensamentos e invenções”.

Escrita e independência — Uma das coisas mais surpreendentes na leitura da Autobiografia de Agatha Christie, para mim, foi a rápida independência financeira que a escrita lhe proporcionou. Após uns poucos livros, por volta de 1924, aos 34 anos, ela recebe uma oferta de 500 libras para uma história a ser publicada em capítulos num periódico. (Para vocês terem uma ideia, o antropólogo Bronislaw Malinowski vivia com um orçamento apertado de 150 libras por ano nos seus tempos de trabalho de campo entre a Austrália e a Papua Nova Guiné.)

Ao contrário de muitos escritores, o trabalho de Agatha vai lhe render uma fortuna, feito notável para uma mulher cuja família havia perdido quase tudo por volta da primeira guerra mundial e que, dali a uns anos, estaria divorciada, com uma filha, sustentando-se sozinha. Aliás, falando sobre a filha, ela nos deixa entrever o quanto aprendeu a valorizar o amor com independência e liberdade:

“Acho que não existe nada de mais empolgante neste mundo do que ter um filho, só seu, e que ainda assim é misteriosamente um estranho. Você é a porta por onde ele ingressa no mundo, e lhe será permitido cuidar dele por um tempo: depois disso, ele vai deixá-la para desabrochar para a liberdade de sua própria vida (…). É como uma semente desconhecida que você trouxe para casa, plantou e mal pode esperar para ver que tipo de planta será.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.333)

Escrita profissional — “Não é um bom começo julgar-se um gênio nato”, aconselha Agata Christie. Ela própria demorou muitos anos para se perceber como escritora profissional, papel que não deixa de ser o de todos os acadêmicos, em especial das áreas de humanas. Ela diz:

“Foi então que assumi o peso de uma profissão, que é escrever mesmo quando não se está com vontade, quando não se está gostando do que se está escrevendo e quando não se está produzindo algo especialmente bom.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.360)

Em vários momentos do livro, ela afirma que foi criada por uma mãe da era vitoriana, aprendendo desde cedo que, diante de uma ordem ou um dever,  “aceitava-se o fato”. Diante das dificuldades (não só emocionais, mas de duas grandes guerras), repetia para si mesma os conselhos de um amigo que considerava como pai: “O que quer que aconteça, aceite-o e siga em frente. Você é forte e corajosa. Ainda tem muito sentido a dar à sua vida.” Aceitar aqui não era passividade, mas encarar os acontecimentos e achar forças para superá-los. Foi a partir desse conselho que decidiu rumar sozinha ao Oriente (história que contei acima).

Escrita e crises — Apesar da progressiva segurança, Agatha também passava por crises de criatividade que às vezes duravam semanas. Nessa hora, ela lembra, precisava aguentar firme:

“É uma angústia inigualável. Sentava-se na sala, mordendo o lápis, olhava para a máquina de escrever, caminhava pelo quarto ou jogava-me em cima de um sofá, com vontade de chorar! Depois saía, interrompia alguém que estava trabalhando (…) e dizia: — É terrível, Max. Acho que esqueci como se escreve um livro! Simplesmente não consigo. Jamais vou escrever um livro novo!” (Autobiografia, Agatha Christie, p.479)

Max, seu marido, respondia: “Ah, claro que vai!” E ela teimava: “desta vez é diferente”, mas não era. Sempre esquecia que já havia sentido antes o “desespero, a infelicidade e o sentimento de impotência para fazer algo com um mínimo de criatividade”. No entanto, conclui que a “crise de infelicidade” precisa ser vivida:

“É como se só depois de muita reviravolta interna, depois de horas de tédio profundo, é que nos sentíssemos normais. (…) Ficamos, enfim, tomados por um sentimento de desesperança paralisante. De repente, por alguma razão desconhecida, uma espécie de fagulha faz com que comecemos a agir. Compreendemos que o livro está começando a nascer, que a neblina está se dissipando.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.480)

Acho que este é (neste momento) o meu trecho favorito da obra! Em agosto de 2017 passei por essa sensação de que jamais iria conseguir escrever algo de bom ou achar um caminho para a minha pesquisa. Que alívio ler uma escritora tão produtiva me ajudando a entender que esse sentimento faz parte.

Livros-tesouros — “A cada ano torna-se mais difícil encarar o futuro. Nada parece valer a pena”, escreve Agatha, referindo-se tanto ao presente (1965, contexto da guerra fria), quanto ao trauma da segunda guerra mundial. No entanto, ela afirma: “A esperança é a virtude que mais deveríamos cultivar hoje e sempre”.

A escritora enfrentou as duas guerras como voluntária em hospitais, onde aprendeu enfermagem e a manipular remédios. Na segunda guerra, além desse serviço, manteve-se escrevendo. A essa altura, seus livros já valiam tanto que ela providenciou um “seguro” para seus familiares. Escreveu uma aventura de Poirot para sua filha Rosalind e uma de Miss Marple para seu marido Max e depositou os dois manuscritos em um cofre num banco, a salvo de destruições por bombardeio!

Agatha considera a “sorte” como principal fator de seu sucesso. Eu acrescentaria a despretensão, a imaginação, a alegria de viver e de escrever:

“De repente, senti que estava me divertindo: o maravilhoso instante na vida de um escritor que, embora seja muito breve, o impele a se entregar totalmente a uma obra tal como ser apalhado por uma boa onda no mar (…). ‘Que maravilha, estou conseguindo! É o meu ofício. O que vem a seguir?’” (Autobiografia, Agatha Christie, p.521)

Obrigada a todos que chegaram até aqui!! Que esse texto traga um pouquinho de esperança para nós, que estamos precisando tanto. ♥

Esse post é uma continuação do anterior: Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 1)

Sobre o livro: Autobiografia, Agatha Christie. Porto Alegre, L&PM, 2015. (Tradução de Bruno Alexander). Queria só avisar a todos que se empolgaram em comprar e ler: é muita responsabilidade indicar um livro tão grande e que tem alguns pontos sensíveis, aos olhos de hoje.

Outros livros: Leitores do post da semana passada me indicaram dois livros que complementam essa autobiografia, ambos com versões em português. “Na Síria” (título original Come, Tell Me How You Live) que narra os tempos de Agatha Christie junto ao projeto de arqueologia de seu marido naquele país; e “Ausência na primavera” (título original Absent in the Spring), publicado sob o pseudônimo de Mary Westmacott, sobre uma mulher que se vê sozinha, questionando sua própria identidade. Ela fala com muito carinho de ambos os livros, especialmente do segundo, do qual os editores não gostaram nem um pouco, mas ela sim:

“Pode até ser que seja bobo, mal escrito, que não preste para nada. Entretanto, foi escrito com integridade, com sinceridade; foi escrito como desejei que fosse escrito, e esse é o maior orgulho que um escritor pode ter.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.506)

Isso deveria valer para todas as nossas teses e artigos, concordam? Podem não ser perfeitos, mas nem por isso devemos valorizá-los menos, principalmente pelo tanto que contribuem para nosso aprendizado.

Sobre o desenho: Na falta de uma ilustração (sem tempo para desenhar!!), utilizei esse carrinho, desenhado no Museu da Ciência em Manchester, Inglaterra, em agosto de 2016, porque ele se parece muito com o Morris-Cowley, primeiro carro que Agatha Christie comprou e que a fez se sentir livre e independente. O desenho foi feito num caderno com papel de aquarela, desenhado com canetinha de nanquim permanente descartável (não me lembro o número) e colorido com aquarela (aumentei o contraste com Photoshop depois de escanear). A proposta do workshop era deixar algumas partes sem terminar mesmo, do tipo “menos é mais”.

Você acabou de ler “Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-agatha2. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 1)

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“Creio que não há ninguém no mundo mais inadequado para representar o papel de heroína do que eu eu. ” (Agatha Christie)

Imaginem uma menina nascida em 1890 na Inglaterra, tímida, reservada, lenta, sem escolaridade formal, criada para servir o marido. Agora, me digam: vocês acreditariam que essa pessoa se tornaria a escritora que mais vendeu livros em todo o mundo? Pois foi, ela mesma, Agatha Christie!

Passei o feriado lendo as 545 páginas da sua autobiografia, me divertindo e me impressionando com a falta de pompa e de pose dessa mulher que tinha tudo para ser esnobe, mas não é. O livro traz suas memórias familiares e afetivas, os momentos difíceis e os empolgantes, as muitas casas e viagens da autora, do seu nascimento aos 75 anos (ela viveu até os 85).

Os processos de criação não são o foco principal da autobiografia. Mas pesquei algumas lições de escrita que me estimularam a compartilhar com vocês. Aí vai a primeira parte.

Solidão e imaginação — Desde muito pequena, sendo uma filha temporã numa casa afastada da cidade, Agatha Christie era uma criança que brincava sozinha. O conceito de educação da sua família era bastante simples: entretenha-se! O jardim virava sua terra encantada, os bichos seus personagens, brinquedos se transformavam em carruagens, navios ou locomotivas. Estava tão acostumada a inventar as próprias histórias que contava para suas amigas, tendo o cuidado de mentir que tinha lido em algum lugar (já que não acreditariam se dissesse que eram pura invenção).

Isso me fez pensar no quanto atrapalhamos nossa imaginação consumindo conteúdos demais, quando o mais simples está bem à mão. Nossa própria imaginação pode ser uma fonte inesgotável de ideias. Claro que nem todo mundo tem essa facilidade — anos mais tarde, a própria Agatha viria a se espantar com a dificuldade de sua filha para brincar sozinha. Mas será que não vale a pena estancar o fluxo de estímulos e ver o que acontece?

Aprendizado sem professores — Agatha Christie nunca foi à escola. Sim, vocês leram certo: nunca foi a uma escola! Aprendeu a ler sozinha por volta dos 4 anos, apesar das contra-indicações da mãe, que achava a leitura nociva antes dos 9 anos. Mesmo nessa idade, continuou sem frequentar salas de aula. (Só aos 19 foi para uma escola de moças, onde as aulas eram de música e canto, e, mais tarde, fez uma formação em farmacologia.) Escrevia mal e com erros ortográficos, na sua própria avaliação, mas lia muito, principalmente contos de fada e livros para crianças. Sua primeira história escrita foi para a irmã, com objetivo de encenarem para a família. Desde essa época, gostava de de sentir medo e criou uma vilã “sanguinária”, palavra que provocou risos, mas gerou a crítica da mãe (que, mais tarde, seria sua grande incentivadora).

Avaliando essa época, Agatha acha que sua criatividade foi fortalecida por não ter ido à escola, onde tudo vinha “preparado demais”, gerando crianças dependentes dessa estrutura, sem conseguir pensar por si próprias. Será que essa ideia pode se aplicar ao mundo acadêmico? Ao enfatizar demais a importância dos autores e professores, será que não enfraquecemos nossa capacidade (e confiança!) de pensar por nós mesmos?

Cultivar suas paixões infantis — Em sua autobiografia, Agatha Christie escreve:

“Aquilo com que gostava de brincar quando criança é o mesmo com que sempre gostei de brincar vida afora. […] O que nos dá mais prazer na vida? […] parece-me que são sempre os momentos tranquilos que preenchem o cotidiano.”

Para ela, esses momentos eram os de inventar histórias, ouvir as leituras em voz alta de sua mãe, brincar de casinha e com os animais, viver em família. Nada indicava que se tornaria uma autora. Seria tão mais interessante, Agatha reflete, se pudesse “afirmar que sempre quis ser escritora” e que estava “determinada a ser bem-sucedida um dia”, mas isso jamais lhe passou pela cabeça. Até que aconteceu.

Acho essa dissociação boa para pensar. Agatha foi vivendo um dia de cada vez, sentindo-se como alguém que não se “destacava em nada”. Tentou guiar seus talentos para a música e para o canto, mas o que prevaleceu (e rendeu) foi sua capacidade de criar personagens e contar histórias, algo que desde muito cedo fazia parte da sua personalidade.

Penso que muitos de nós temos consciência desses amores infantis; daquilo que nos emociona desde muito cedo. Hoje, escrevendo esse blog, vejo o quanto ele reflete meu amor pelos livros ilustrados. Nunca imaginei que esse gosto iria me trazer até aqui e que um dia eu fosse ousar sonhar com uma vida de escrita e ilustração.

E vocês? Quais são os seus amores de infância? Eles estão esquecidos ou guiando suas ações em alguma direção?

Esse post continua na próxima semana!

Sobre o livro: Autobiografia, Agatha Christie. Porto Alegre, L&PM, 2015. (Tradução de Bruno Alexander). Comprei na Estante virtual! A ideia de ler esse livro veio de uma citação no Facebook do mural do poeta Carlito Azevedo. Infelizmente, não consegui localizar novamente. Só me lembro que gostei!

Sobre o desenho: Imagem feita a partir da fotografia da capa do livro (créditos Getty Images). Utilizei o mesmo processo descrito aqui para traçar um esboço a lápis. Depois fiz as linhas com diversas canetinhas de nanquim descartável Pigma Micron (0,4, 0,1 e 0,05). Colori com marcadores cinzas Tombow, num papel 180gr, bem ruinzinho, da marca Spiral (desses blocos de desenho baratos que vendem em qualquer papelaria). Infelizmente não consegui dar ao rosto dela a expressão marota da fotografia original. Ficou tudo meio pesado, mas o post tem que sair; então vai de qualquer jeito!

Você acabou de ler “Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 1)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 1)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-agatha1. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Setembro/2017 – Pensando em desistir

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Querida amiga,

toda força do mundo pra você. Eu também já quis desistir muitas e muitas vezes. Agora em agosto, inclusive, quase joguei meu projeto no lixo. Os prazos deixam a gente em dúvida de tudo, até do sentido do nosso próprio trabalho. Já aconselhei aqui o truque de produzir um texto como se estivesse escrevendo uma carta para uma pessoa querida. Conta a tua história, de vez em quando mete uma piada no meio. Tenta rir de si mesma. Esse é o único atenuante que funciona, pelo menos pra mim.

Às vezes, essas paralisias são fruto do excesso de importância que damos ao nosso mundinho. Melhor pensar como você mesma disse outro dia: trabalho acadêmico pode ser como lavar louça. Podemos seguir acumulando pratos, conhecimentos, palavras e deixando o mundo girar aos pouquinhos. A experiência de fazer um mestrado é só para você ter uma experiência de fazer um mestrado. Não é para revolucionar a ciência. Aliás, que bom! Pensa nas pessoas que querem “revolucionar” alguma área e veja como muitas delas se tornam arrogantes e messiânicas!

Quanto a passar um mês sem conseguir escrever, bem-vinda ao clube, querida. Você, Weber, Malinowski, eu, Chris, Dani, todos já passamos por isso e nos martirizamos. Escreve um diário, junta com a escrita da dissertação, mistura tudo isso, depois edita. Às vezes a gente precisa de 29 dias sem escrever uma linha e depois um dia escrevendo tudo — era assim que o Oliver Sacks produzia! Vários escritores já passaram por isso. é humano. A gente não é computador que realiza x tarefas por dia.

Uma coisa que faz falta no ensino da pós-graduação é mostrar aos alunos que as leituras e conhecimentos que aprendemos precisam de tempo para amadurecer. Nosso pensamento é que nem fruta. Pode parecer bonito, mas não estar maduro. Pensar sobre as coisas e escrever sobre elas demanda da gente uma energia enorme; tipo gravidez, amamentação, sexo, necessidades fisiológicas, sono… nada disso é simples nem automático, embora seja “natural”. Precisamos de um tempo, um ritmo, um calor, uma música, um bem-estar qualquer dentro da gente que impulsione.

Abraça teus amores, humanos e bichos, dá uma volta no parque. Escreve primeiro, desiste depois. Pensa assim: vou me livrar logo dessa dissertação e depois vou desistir da vida acadêmica. Só o fato de decidir desistir já vai tirar um peso enorme (tipo, vale qualquer coisa, certo?). Daí, quando acabar a dissertação, você pensa se quer desistir mesmo. Se sim, ok. Terá encerrado um caminho com a sensação de dever cumprido. Se não, ok também. Irá partir para o doutorado com uma experiência diferente pra te apoiar nos momentos difíceis. No entanto, se estiver impossível continuar do jeito que está, pede uma pausa, tranca, respira, busca ajuda, porque tudo tem um custo, e você é que sabe o seu. Só não se machuca no caminho, porque sua vida é muito, muito,mais importante do que qualquer trabalho.

♥ te admiro,

K.

Agosto foi mês de voltar de férias, sentir frio, ficar deprimida e cumprir prazos chatos. Felizmente, setembro chegou! Descobri que 21 é o dia da árvore, daí o tema do calendário.

A inspiração inicial para as formas veio dessa ilustração. A qualidade não está muito precisa porque usei marcadores em papel comum. A vantagem é que é bem mas rápido de colorir do que o lápis-de-cor. Esses desenhos têm me feito sonhar com um estojo gigante de Copic markers — é baratinho… quase o preço de um notebook!

Aí vai o calendário para imprimir: tem versão grande em .pdf ou em .jpg (cliquem na imagem acima). Depois me digam se a impressão em casa melhorou com o arquivo maior!

Sobre o desenho: Fiz primeiros as manchas de cores com marcadores Tombow brush e Sakura Koi Brush. Apenas o verde claro foi feito com lápis-de-cor Primalo Caran D’Ache. As linhas foram feitas com canetinhas Staedtler triplus fineliner e Graphik line maker da Derwent.

Você acabou de ler “Setembro/2017 – Pensando em desistir“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Setembro/2017 – Pensando em desistir”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-set2017. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Escrita Diária – Dez dicas para curtir e manter o hábito de escrever

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“Se lhe ocorrer um argumento brilhante, uma réplica vitoriosa que mude o rumo da conversa, não ceda à tentação de brilhar, mantenha o silêncio; as pessoas finas verão sua inteligência nos seus próprios olhos. Você terá tempo de se mostrar inteligente quando for bispo.” (A cartuxa de Parma, Stendhal)

Lendo Cervantes, Rabelais, Stendhal, Eça de Queirós, sinto-me no mais feliz dos mundos, feito de pessoas que não se levam tão a sério mas, ao mesmo tempo, trabalham a sério. E não são só os clássicos que fazem isso, claro. Minha lista de imperfeitos-perfeitos vai de Carlito Azevedo, Anne Lamott, Juva Batella, Ana Paula Lisboa, Marjane Satrapi — tem um monte de escritores maravilhosos que sabem rir de si e de nós, escrevendo com falhas, ironias e pérolas, tudo numa página só.

Essa é a minha base para escrever todos os dias:

1) Escrevo sem querer brilhar ou parecer inteligente — Pode parecer bobagem, mas não é. Muitos alunos (e eu mesma) empacam na hora de escrever porque querem produzir textos fantásticos. Não é um bom caminho. Aliás, agora mesmo não estou sendo nada brilhante, pois já dei essa dica aqui no blog! Prefiro escrever muito, qualquer bobagem, e depois, com o tempo e alguma sorte, peneirar boas ideias.

2) Escrevo 300 palavras no mínimo todos os dias — Assim que ligo o computador de manhã, a primeira coisa que faço é abrir um arquivo de escrita diária no meu editor de texto. Coloco data, dia da semana, hora e escrevo até contar 300 palavras, o que dura em torno de 11 a 15 minutos (sim, eu medi!). Em alguns dias, fico mais tempo, empolgada com alguma ideia que tenha surgido ou escrevendo algo que possa virar um post, ou até registrando uma atividade da aula do dia anterior, por exemplo. Muitas vezes, porém, fico só nas 300 e poucas palavras mesmo, mal-humorada e irritada com os rituais que invento para mim mesma. Pelo menos já começo sabendo que consigo terminar em 11 minutos. Já é uma vitória escrever algo em dias assim. O saldo é o que vale, tanto pelo aspecto mecânico, de acostumar o corpo e a mente a sentar e escrever todos os dias, quando pelo conteúdo produzido: no meio de um monte de bobagens e reclamações, acabo escrevendo ou anotando coisas que me ajudam a pensar, viver e trabalhar.

3) Escrevo para me manter saudável — Quando estou numa boa fase, só sento para escrever depois de fazer alguma atividade física. Evito abrir o navegador e até ver e-mails antes da escrita e de fazer aquilo que considero o mais importante para o meu dia (ver item 6 abaixo). Mas eu estaria mentindo se dissesse que consigo fazer isso sempre. Há épocas melhores, outras piores. Nesse ano (2017), consegui ficar bem de março a início de junho. De lá para cá, andei doente algumas vezes, perdi o ritmo, voltei, mas acabei decretando férias de mim mesma por duas semanas, no final de julho, e me permiti ficar bastante com as crianças e ler dois livros inteiros.

4) Escrevo sobre o que quero escrever ou realizar — Escrever logo de manhã é ótimo para organizar o pensamento sobre o que considero mais relevante para o dia que está começando. Uma dica que já li em vários lugares na internet é tentar responder à pergunta: quando o dia terminar, o que eu gostaria de ter escrito/realizado? O hábito vai mostrar que nossa ambição inicial é fantasiosa, tipo querer correr 5 km, escrever 10 páginas, arrumar a casa, dar atenção às crianças e dormir cedo, tudo num dia só. É frustrante ter tantas expectativas. Esses excessos acabam me dando uma sensação de fracasso, que afogo navegando nas redes sociais. Hoje em dia me contento em planejar duas ou três coisas, bem modestas, como: ir à academia (só de pisar lá já está bom!); dar ou preparar uma aula (o que sempre leva o triplo de tempo imaginado) e desenhar algo (como tocar um instrumento, desenhar é prática, mesmo que por 5 minutos!).

5) Escrevo o que estiver na pauta do dia, da semana ou do mês — Após o momento diário-de-300-palavras, tenho que voltar à realidade: preciso olhar a agenda e a lista de tarefas. Se houver algo importante, tento me forçar a começar logo, sem responder a e-mails nem ver redes sociais antes das 16:00 horas (ver item abaixo). Com a prática cotidiana de escrever 300 palavras, começar um outro trabalho de escrita deixa de ser tão assustador. Se for algo que já iniciei, releio o que produzi no dia anterior e sigo em frente, parando aqui e ali para consultar algumas fontes, mas tomando cuidado para não me perder nessa tarefa. Se for para escrever algo novo, meu principal truque mental é imaginar que estou escrevendo uma carta para uma amiga querida, explicando o assunto de que quero tratar. (Como já fiz vários posts sobre isso, não vou me deter nessa parte criativa; os links seguirão no final.)

6) Escrevo com as redes sociais desligadas — Nem preciso dizer que isso é mais um desejo do que uma prática… mas continuo buscando estar no fluxo criativo offline. Coisas que tenho feito nessa direção: desligar notificações no celular para aplicativos de redes sociais ou e-mail. Andei radicalizando (em março) e tirei até os avisos sonoros de todas as mensagens do Whatsapp, mas não deu para manter. Consegui, desde então, ficar sem Facebook no celular e, mais recentemente, sem Youtube. De vez em quando, não resisto e vejo ambos no navegador, mas o Messenger não funciona, ainda bem. Uma dica de auto-sabotagem é limpar o cache do Chrome, de modo que, para navegar nesses sites, dá muito trabalho lembrar da senha, o que me lembra de não navegar. Mantenho o Twitter porque não acho muita graça. Também estou com o Instagram instalado, onde sigo alguns artistas. Quando percebo que estou vendo muito as Stories, desinstalo por uma semana. Também só sigo artistas e ilustradores, tentando não repetir as mesmas pessoas que já acompanho pelo Fb.  (Ufa. Fiquei cansada de descrever essa lista toda… E pensar que, até outro dia, esses portais infinitos não existiam! E a gente vivia, viu?)

7) Escrevo sobre o que escrevi — No final do dia, abro novamente o arquivo de escrita diária (deixo um link com o atalho no desktop) para escrever mais um pouquinho. Nessa etapa, utilizo uma listinha de perguntas, sem metas de quantidade de palavras. Respondo objetivamente, sem me alongar muito, questões sobre criatividade: O que escrevi, desenhei ou pintei hoje? Outras coisas que terminei ou avancei hoje? Alguma coisa legal que Ouvi/Li/Assisti?

8) Escrevo sobre o que aprendi — Em seguida ao que descrevi acima, escrevo um pouquinho sobre como estou me sentindo, sobre minhas relações afetivas, as dificuldades e alegrias do dia: O que aprendi hoje? Como ajudei alguém? Qual foi o pior do dia / ou O que foi difícil? Qual foi o melhor do dia / ou Pelo que estou grata hoje?

9) Escrevo sobre o amanhã — Para terminar, tento responder à pergunta: Como posso fazer/ter um dia bom amanhã? Aqui vale qualquer coisa, até escrever que preciso descansar, ir ao médico, conversar com uma amiga, me concentrar mais (ou menos) etc. Esse amanhã também pode se transformar numa reflexão sobre o futuro de médio ou longo prazo.

10) Leio — Querer escrever sem ler é como querer comer sem comida! Ler é um dos maiores prazeres da minha vida — é o que me alimenta, me faz pensar, rir, agir. Nada do que faço, nem minha própria existência, seria possível sem a leitura. Leio muito mais livros e textos do que consigo contar, e cada um deles me norteia em tudo que escrevo.

Obrigada a todos que me leram até aqui. ♥ Se vocês forem obsessivos como eu quando gostam de um tema, aí vão alguns outros posts sobre o assunto escrita:

Dez truques da escrita num livro só
Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg
25 dicas para revisar textos acadêmicos (de trás pra frente)
Os bastidores do blog
Carta a um jovem doutorando
Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado

Além desses, vocês podem ver todos das tag mundo acadêmico, escrita, ou livros. Esse sistema de tags não está super organizado mas é o que temos no momento. Ah, e tem posts de que gosto muito sobre o Carlito Azevedo e vários com a tag Juva Batella.

Por falar no Juva, ele fez a revisão da minha tese de doutorado e está aceitando trabalhos de revisão de texto! O Lattes dele aqui e o contato é juvabatella [@] gmail.com. Fico até sem palavras para elogiar… Ele é autor do único livro que ilustrei, é meu melhor amigo, meu amor, meu tudo. ♥

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Sobre o desenho: Desenho do meu notebook feito com canetinha Pigma Micron (tamanhos 0,2, 0,1 e 0,05), depois colorido com aquarelas variadas, num papel solto (não lembro a marca). Foi complicadinho, mas me diverti criando uns cinco ou seis tons de cinza para as diferentes áreas do desenho. Não sei se dá para ver na versão eletrônica.

Sobre a citação: A epígrafe do post está na página 171 do livro A cartuxa de Parma, de Stendhal. (Tradução de Rosa Freire D’Aguiar, Editora Penguin/Companhia das Letras). Li este livro por recomendação do Carlito Azevedo, quando comentei que tinha adorado O vermelho e o negro, do mesmo autor. A cartuxa… é um romance fantástico que merece um post próprio, mas não resisti começar a citar logo.

Até semana que vem e boas escritas!

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Escrita Diária – Dez dicas para curtir e manter o hábito de escrever”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2yd. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Minhas memórias do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política

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Pessoas queridas, essa semana participei de um evento em comemoração aos 20 anos do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política. Compartilho com vocês as memórias que escrevi para apresentar lá que são, sobretudo, uma homenagem ao professor Moacir Palmeira.

Espero que gostem! Com o desejo de um final de semana tranquilo para todos nós.

Minhas memórias do NuAP  – Karina Kuschnir

“Começo agradecendo ao convite dos professores Moacir Palmeira e Marcos Otávio Bezerra para participar desse evento, assim como a John Comerford e a todos do NuAP, de ontem e hoje.

Queria dizer logo o mais importante: participar do NuAP foi um sonho para mim, uma alegria enorme, um privilégio. E não digo isso porque estou fazendo um balanço 20 anos depois. Não. Desde o momento em que fui convidada a participar, pensei no quanto eu estava tendo uma oportunidade especial e rara, tipo, eu era feliz e sabia!

Explico melhor. Foi uma chance inacreditável nos meios acadêmicos. E por quê? Porque eu era uma aluna de pós-graduação e não estava vinculada como orientanda a nenhum dos professores do NuAP. Minha participação se deu em nome da produção de conhecimento, pela afinidade temática das pesquisas.

Em 1992, quando o professor Moacir Palmeira publicou “Voto: racionalidade ou significado?”, o que acredito ser o primeiro dos seus artigos no campo da antropologia da política, num dossiê da Revista Brasileira de Ciências Sociais, eu estava fazendo trabalho de campo entre os parlamentares na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Tanto esse artigo de 1992, quando o texto “Política, facção e compromisso”, também de Moacir, de 1991, apresentado no “Encontro de Ciências Sociais do Nordeste” estão na bibliografia da minha dissertação, defendida em 1993, no PPGAS/Museu Nacional/UFRJ.

Fiquei fascinada e influenciada por esses trabalhos pois, até então, a única tese de antropologia sobre políticos que eu conhecia era a da Cecília Costa, feita basicamente por meio de entrevistas em 1980.

Não por acaso, quando decidi pelo tema da política, num mestrado de antropologia, fui fazer cursos optativos em outras pós-graduações: na Ciência Política, do Iuperj, com o prof. José Murilo de Carvalho, e no programa de pós em História da PUC-Rio, com a professora Margarida Neves. Essas duas interlocuções – com a bibliografia e os amigos cientistas políticos e historiadores – foram bem importantes para mim.

No mestrado e no doutorado, fui orientanda do professor Gilberto Velho, de quem também fui assistente de pesquisa por vários anos. O Gilberto sempre teve um trabalho muito intenso de reunir seus alunos, estimulando nossas trocas e colaborações, mas não havia no grupo ninguém trabalhando com política além de mim.

Portanto, desde 1993, comecei a participar e trocar com colegas que viriam a formar o NuAP alguns anos depois (1997). Essas eram as interações mais importantes e significativas para mim, ansiosa por me sentir “antropóloga de verdade”.

Isso foi tão forte, que a memória prega peças. Eu achava que minha primeira comunicação num congresso acadêmico tinha sido na Reunião da ABA de Niterói, em março de 1994, porque nessa ocasião eu e várias pessoas do grupo que formou o NuAP estávamos num GT assistido e comentado pela Mariza Peirano. Fiquei tão nervosa e, ao mesmo tempo, feliz, que esse evento ficou um marco. Revendo um currículo antigo, porém, de antes do Lattes, percebi que não, essa não foi a minha primeira comunicação científica. Eu já tinha apresentado trabalhos na Anpuh e no Iuperj!

Nesse mesmo ano, de 1994, entre agosto e setembro, ocorreu o primeiro evento de antropologia e eleições, que muitos aqui certamente participaram. Mais uma vez, tive o privilégio de falar, ainda iniciante, num ambiente de pesquisadores que eu admirava, com interesses tão próximos aos meus. Nessa mesma época, também tive a sorte de entrar para o doutorado no PPGAS, em agosto, na mesma turma que Marcos Otávio Bezerra, cujo trabalho tanto admiro.

Logo no semestre seguinte, em 1995, vivi um dos grandes momentos da minha vida acadêmica: fiz o meu primeiro curso com o professor Moacir Palmeira, intitulado: “Poder, dominação e política nos estudos de comunidade”. Posso dizer sem sombra de dúvida que foi uma experiência fantástica, que só aumentou a admiração pelo autor, professor, pesquisador. Realmente não tenho palavras suficientes para elogiar suas aulas e o tanto que aprendi nesse semestre, com ele e com os colegas, como o Marcos, Gabriela (Scotto), Renata (Menezes), entre outros. E pela primeira vez tive um professor que anotava o que eu falava!

Ali também se configurava para mim uma lição do melhor da antropologia: a leitura de autores de diferentes correntes teóricas (tanto da sociologia quanto da antropologia) e nacionalidades, pesquisando em várias partes do mundo, selecionados pelo professor em prol do livre debate de ideias, sem visões salvacionistas, sem ceder aos modismos.

Em 1996, vieram os primeiros eventos do futuro NuAP – que se forma oficialmente em 1997 – e a oportunidade de irmos a Fortaleza e trocarmos de modo mais próximo e intensivo.

Intensidade acho que é a palavra ótima para definir esses primeiros anos do NuAP. Nós trabalhávamos tanto que fui a Fortaleza e voltei duas vezes sem sequer pisar na areia da praia! E, pensando bem, assim eram as aulas do Moacir também: começavam um pouquinho atrasadas mas não tinham hora para terminar.

Eu vivia entre dois mundos, como vocês já podem estar imaginando. Precisava acordar às 6 da manhã, para estar às 7:30 no Museu no horário do Gilberto. Mas fazendo pausas para muitos pães de queijo, que o Gilberto não ficava sem comer de jeito nenhum.

Na parte da tarde, nas aulas do Moacir, ai de quem pensasse em comer ou parar de discutir teoria antes das 7 da noite! Haja amor pela antropologia!

Nos eventos de pesquisa, havia um contraste parecido. Gilberto era sincrético, eclético, social, extremamente produtivo e obsessivo, mas sempre querendo chegar na parte dos salgadinhos e do vinho!

Moacir me parecia o oposto: metódico, focado, intenso, seríssimo. Ao ponto que um dos eventos do NuAP foi marcado num convento em Santa Teresa – nada de distrações, nem álcool!

Pelo menos essa era a visão de uma jovem pesquisadora, não-orientanda dele, que o via como um dos grandes sábios, junto, é claro, com Mariza Peirano, Beatriz Heredia, a Irlys e o Cesar Barreira, o Odaci Coradini e todos os demais colegas com quem tive o privilégio de conviver, principalmente nos primeiros dez anos do Núcleo.

A Mariza, de quem depois daquela ABA conheci a delicadeza, foi autora muitos artigos e livros (como A favor da etnografia e Teoria vivida) que me marcaram, e organizadora de “O dito e o feito”, assim como orientadora de vários trabalhos importantíssimos do acervo do NuAP.

Em 2006, quando entrei para o IFCS, tive a sorte de passar a conviver e oferecer cursos em colaboração com a professora Beatriz Heredia, autora e co-autora com Moacir dos trabalhos seminais da área de Antropologia da Política que vieram a ser reunidos no volume Política Ambígua, certamente um marco na história da antropologia brasileira.

Aliás, tenho falado de aulas, eventos e convívio, mas talvez não tenha enfatizado o principal. Para mim, tudo começou com a leitura de dois artigos do Moacir… e foi se tornando uma grande bibliografia de textos, dissertações, teses, capítulos e livros que geraram um conhecimento enorme sobre a sociedade brasileira, em toda a sua complexidade.

Do candidato que abre a panela de feijão, passando pelo eleitor que faz suas apostas e se diverte no tempo da política, ao debate com a literatura nacional e internacional, sempre privilegiando o etnográfico e o comparativo como eixos centrais. Tudo isso está analisado, discutido e registrado nas páginas do selo NuAP, formando um capítulo importante da teoria antropológica brasileira.

É, sem dúvida, um grande legado, e agora acessível online. Nossas conversas continuaram acontecendo no papel, nas citações mútuas, nos enormes aprendizados que tivemos uns com os outros e que passamos para os nossos alunos e orientandos. Nesse último semestre, uma turma de alunos de graduação do IFCS ficou encantada ao descobrir e escrever trabalhos baseados nas publicações do NuAP. É tão bom ver tudo isso vivo e circulando entre as novas gerações.

Só tenho a agradecer por ter feito parte dessa história. Muito obrigada.”

Comunicação apresentada na mesa: Antigas colaborações, novos debates. Vinte anos do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política. Rio de Janeiro, Museu Nacional, Auditório do Horto Botânico, em 7/07/2017.

Sobre os desenhos: Páginas do caderninho que levei para anotar durante o evento. Utilizei uma canetinha Bic comum, colorindo com algumas canetas pincel Tombow das cores azul escuro e cinza, além de uma Koi Sakura brush azul clara. O caderno é um Cícero pautado, A5, folha bem comum, 75gr., daí as canetas vazarem de uma página para a outra.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Minhas memórias do NuAP”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-nuap. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Sete coisas invisíveis na vida de uma professora

estojokkpEsse post não é uma obra de ficção: todos os fatos relatados abaixo aconteceram (e acontecem) comigo, professora universitária desde 1992, e com todas as professoras que conheço. Dedico esse texto às colegas da UERJ e das instituições do Estado do Rio de Janeiro em geral, trabalhando em condições aviltantes, há vários meses sem salário.

Dando aula sobre a obra “A representação do eu na vida cotidiana”, de Erving Goffman, sempre me sensibilizo com o exemplo das enfermeiras. O autor utiliza essa profissão para ilustrar um tipo de atividade que precisa encontrar estratégias para tornar seu trabalho visível, já que boa parte de suas tarefas e habilidades técnicas passa despercebida pela maioria das pessoas.

Me espanta que o Goffman não tenha usado o caso dos professores, esses seres que só parecem trabalhar quando estão diante de alunos numa sala de aula, algumas horas por semana. Opa, que beleza de emprego, né? Só que não! Aquela horinha diante dos estudantes é uma ínfima parte de trabalho na representação cotidiana da nossa vida.

Para sanar esse problema, aí vão os bastidores da vida de uma professora, atividade que adoro exercer, mas que me faz acordar todos os dias pensando: como vim parar aqui?

1) A aula em si — Para cada 50 minutos de aula ministrada com entusiasmo, passo umas 3 horas estatelada de exaustão depois. Se a aula foi ruim, me torturo pela minha incompetência. Se foi boa, fico feliz e mais cansada ainda, porque dar uma aula boa significa empenhar mais o corpo, a emoção e a voz. Como a maioria das aulas é de dois ou três tempos seguidos, de até 3 horas e 30 minutos, multipliquem o tempo de “estatelamento” proporcionalmente. Ou seja, uma manhã dando aulas é um dia inteiro perdido. Um amigo meu chama esse cansaço pós-aula de “estado vegetativo”. É bem por aí.

2) Antes da aula (1) — Retrocedendo um pouco. Antes de dar uma aula, é preciso prepará-la, certo? Na minha prática, pelo menos, sim. Não confio na memória, muito menos na ideia de que os alunos lerão todo o material didático e terão perguntas capazes de me ocupar por um tempo inteiro. Portanto, só me resta preparar. Para 50 minutos de aula sobre um autor, digamos que eu tenha sugerido um texto de 50 páginas. Para reler esse texto com calma, anotando um resumo com seus pontos mais importantes, levo de duas a três horas. Para ler material de apoio e, em alguns casos, preparar um datashow, mais duas ou três horas. Agora multipliquem novamente para as 8 horas semanais em sala de aula. Numa semana dando aula terça e quinta, por exemplo, a segunda e a quarta estão perdidas nisso.

3) Antes da aula (2) — Ok, vocês devem estar pensando, mas você não repete os cursos de um semestre para o outro? Sim, às vezes. Por isso escrevi acima que iria “reler” um texto. Dificilmente coloco um material num programa de curso que eu nunca tenha lido antes. É muito arriscado. Por outro lado, se quero ser uma boa professora, vou ficar repetindo eternamente os mesmos autores, textos e aulas? Não dá. Preciso ler coisas novas, acompanhar debates interessantes na área e, no meu caso, principalmente, estou sempre me desafiando a planejar uma aula, não apenas um monólogo. Portanto, seja relendo, seja ampliando meus conhecimentos, seja planejando coisas novas, para cada hora em sala de aula, gasto pelo menos o triplo para me preparar.

4) As bombas de efeito moral — A sobrevivência ao looping preparação-aula-cansaço-preparação-aula-cansaço até que vai bem por umas seis ou sete semanas. O problema é que na oitava semana existem as bombas de efeito moral: corrigir a primeira leva de provas e trabalhos. Pelo menos na universidade, ainda não inventaram um sistema de dar aulas sem avaliar. Para corrigir bem cada prova levo cerca de 15 minutos. Se tenho 100 alunos num semestre, são 1500 minutos ou 25 horas. Ok, vocês vão dizer que estou exagerando. Não estou, mas darei um desconto. Digamos que eu não tenha tantos alunos assim, ou que eu leve apenas 8 minutos por prova (considerando que algumas são muito curtas ou inacabadas): ainda seriam quase 14 horas de correção. Como sou humana, o máximo que consigo me concentrar nesse tipo de atividade num dia é 5 ou 6 horas, o que, contando os intervalos para comida e cafeína, somam três dias inteiros só para as primeiras provas do semestre. Multipliquem pelas duas ou três avaliações seguintes… Isso sem falar na hipótese de ter que ficar verificando no Google se o estudante copiou um texto da internet. Quando acontece, volto três casas no video-game, porque preciso ligar para uma amiga professora, pedir um ombro para desabafar e me convencer de que nem tudo está perdido.

5) Como tudo aconteceu — Se vocês leram até aqui esse post, devem ter simpatia pelos professores ou, quem sabe, querem até exercer o ofício, certo? Pois então… como alguém se torna professor(a)? Nossa-senhora-do-tempo-de-estudo te abençoe, meu filho. São meses estudando para concurso, anos fazendo doutorado, mestrado, especialização e mais alguma coisa. Não vou entrar nas minúcias dessas pedreiras… Só façamos as contas. Nos tempos atuais, são uns dois anos de mestrado, mais 4 de doutorado, e pelo menos 1 ou 2 anos de dedicação (e um pouco de estado vegetativo, claro) antes ou depois disso tudo, o que dá fácil uns 8 anos estudando, escrevendo e outras coisinhas.

6) A vida paralela — Essas “outras coisinhas” que mencionei acima acontecem todas fora da sala de aula, e não são detalhes. Sempre que uma professora entra em uma sala de aula, dezenas de outras professoras estão: realizando pesquisas, dando palestras, orientando alunos (um mundão à parte!), participando de bancas e concursos de seleção, escrevendo pareceres e cartas acadêmicas, colaborando em comissões de inúmeros tipos, atuando junto às agências de fomento, implementando projetos de extensão, assumindo cargos administrativos, criando programas de pós-graduação, mestrados e doutorados, editando revistas científicas, gerindo grupos de pesquisas e entidades da área, preenchendo formulários, editais, relatórios e prestações de contas, lendo, escrevendo, publicando. O tempo nunca é o suficiente, porque a produção de conhecimento da humanidade é infinita — e esta é a matéria-prima de todos esses trabalhos, das aulas inclusive.

7) E a vida não-paralela — Ah, sim, e eu já ia esquecendo: também temos uma vida não acadêmica para viver. Nos apaixonamos, casamos, descasamos, sofremos, envelhecemos, temos filhos, doenças, famílias, casas, mudanças, paixões, histórias, atividades políticas, práticas e lúdicas. Tudo isso e mais um pouco.

Com certeza, esqueci de um monte de coisas, pessoal. Mas tudo bem. Que esses bastidores da nossa vida cotidiana sejam mais visíveis para que, além de faltar salário, não falte o reconhecimento de vidas inteiras dedicadas a esse ofício tão essencial a todos os outros.

Outros posts sobre esses assuntos podem ser lidos seguindo a tag mundo acadêmico. Gosto especialmente de um antigo, que escrevi sobre o Paulo Rónai.

Me contem nos comentários se tudo isso faz sentido para vocês.

Pós-escrito 1 (22/06) – Pessoal, muito obrigada! Não imaginava que tanta gente ia se identificar… Juro que acordei pensando que devia ter agradecido mais e enfatizado como gosto de ser professora etc. Felizmente, uma amiga querida me escreveu no Whatsapp: não precisa agradecer mais não! Fui rever o texto e vi que, afinal, já estava escrito que “adoro exercer” a profissão. O que me faz perceber o quanto de culpa todos carregamos por ter uma ocupação privilegiada sim (por nos permitir estudar e ler coisas maravilhosas), mas que nem por isso deixa de nos exigir sangue, suor e lágrimas quase todos os dias. Como não gosto de alimentar a cultura do sacrifício, o que tenho feito é abrir mão de muitas das coisinhas paralelas que listo no texto… Também queria agradecer especialmente aos professores não universitários que têm escrito e compartilhado… Tenho uma admiração infinita por vocês . E a todos que estão começando: espero que o texto não seja para desanimar e sim para perceber o tanto de planejamento e cuidado consigo próprio que um professorx precisa ter… O que não dá é para aceitar tudo, nem passar por cima, nem achar que é normal viver esgotado, tomando remédios para dormir e acordar, sem vida pessoal. E viva a chegada das férias 🙂 — só precisamos sobreviver às bombas de efeito moral antes!! 😉

Pós-escrito 2 (22/06) – Gente, a coisa mais linda de ter escrito esse post é ver centenas de professores sendo elogiados em público! Nos compartilhamentos no Facebook, tem montes de alunos fazendo declarações de amor às suas professoras e professores. Só isso já vale tanto! No arte, se fala às vezes da ressaca da vulnerabilidade, quando você lança sua obra ao mundo e fica um vazio, porque nunca se tem bem a certeza de como vai ser recebida. Agora, multiplica isso por todas as aulas que já demos… é muita sensação de vulnerabilidade junta. Aliás, voltando ao Goffman, ele acerta de novo quando diz que a plateia (alunxs) tem uma vantagem enorme sobre o ator; ela não está lá se expondo… nós sim. Multiplico tudo isso por milhões para os colegas do ensino básico, para os horistas das faculdades privadas (já dei 26 horas de aula como horista por semana, em 3 empregos; e grávida). Obrigada por essa onda maravilhosa de energia a todos que comentaram aqui também. 

Sobre o desenho: Professora que é professora tem que ter um estojinho na bolsa, né? Aí vai o meu atual, com post-it, marcador amarelo, caneta, elástico, pen drive, lápis-borracha, canetinha roxa e marcador de quadro branco. Só esqueci da lapiseira! Desenhei direto com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron 0.1. Depois pintei com aquarela e pincéis diversos. Utilizei um pouquinho de lápis-de-cor e uma canetinha de tinta branca Gelly Roll 0.8, da Sakura, para fazer o xadrez do estojo da marca Yes.

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Você acabou de ler “Sete coisas invisíveis na vida de uma professora“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Sete coisas invisíveis na vida de uma professora”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2lk. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)

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Ser professora, para mim, é viver numa eterna dúvida: será que tenho conseguido afetar positivamente meus estudantes? De vez em quanto a fortuna responde: sim! Pois imaginem minha felicidade quando um ex-aluno veio me pedir dicas para reproduzir uma aula do ano passado na turma em que é monitor. Como eu ainda não tinha escrito sobre essa atividade, pedi um tempinho para me organizar. Segue o plano para vocês (e para ele)!

Objetivos da aula:

. Produzir registros gráficos sobre o entorno do campus universitário, feitos pelos estudantes que o frequentam.

. Refletir (através dessa prática) sobre como lidamos com os espaços e caminhos por onde passamos cotidianamente, promovendo um debate sobre as várias dimensões de olhar, ver, enxergar, distinguir, conhecer, apreender, memorizar, registrar.

. Compreender que os mesmos espaços são percebidos e significados de formas diferentes pelos indivíduos, embora também possamos encontrar padrões mais coletivos de percepção.

. Empreender uma experiência de aula que gere conhecimento e transforme, nos fazendo sentir que aprendemos algo a partir de uma prática associada à reflexão.

. Lembrar que uma atividade de pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material que precisa ser preparado antecipadamente:

. Antes da aula, é preciso tirar as fotografias que serão mostradas na segunda parte do exercício. No meu caso, fui com dois alunos de iniciação científica fazer o percurso no entorno do prédio onde trabalhamos. Tiramos 60 fotografias, procurando mostrar tudo que solicitamos aos estudantes que se lembrassem (ver a lista abaixo). Essa etapa de registro é por si só muito interessante. Mesmo que você não tenha alunos de iniciação científica, aconselho chamar dois ou três estudantes (ou colegas professores) para participar dessa etapa, pois a percepção de várias pessoas tornará mais instigante decidir o quê, e como, registrar. É importante que esse grupo não compartilhe a experiência com os demais alunos antes da atividade.

. Solicite aos alunos que levem lápis de cor ou canetinhas para a aula, mas não explique qual será a atividade. Bastam algumas cores básicas.

Material necessário para a aula:

. Canetas para quadro branco (ou giz, em caso de lousa tradicional).

. Fita adesiva ou fita crepe.

. Papeis A4 brancos. (Se possível, levar 1 folha para cada aluno.)

. Lápis de cor ou canetinhas. (É sempre bom ter um pequeno estoque de lápis-de-cor e canetinhas para os alunos que esquecem de trazer o material.)

. Notebook e Projetor de datashow.

. Pen drive com o conjunto de fotos preparado antecipadamente.

Dinâmica – Como conduzo a aula:

. Entrego uma folha de papel A4 para cada aluno. Peço que separem o material de desenho (canetas comuns e lápis de cor).

. Explico que o trabalho não tem certo ou errado e só conta como participação (ou seja, não é para nota!).

. Abordo o tema da aula: como lidamos com as informações visuais no nosso cotidiano? O que vemos? O que memorizamos?

. Escrevo no quadro o nome de 5 logradouros (o prédio da universidade e cerca de 4 a 5 ruas, praças, avenidas à sua volta). Peço aos alunos para desenharem, com caneta preta, um mapa contendo esses locais. A ideia é ocupar a folha A4 inteira.

. Não especifico como devem desenhar; deixo por conta da interpretação de cada um. Tento criar um clima de brincadeira, mas explicando que o trabalho é individual; o aluno não deve consultar os colegas.

. Em seguida, peço aos estudantes que comecem a registrar graficamente as informações listadas abaixo. É fundamental indicar 1 item de cada vez, esperando que todos tenham terminado de desenhar antes de anunciar o próximo. (Ou seja, os itens não devem ser escritos na lousa todos de uma vez.) A lista de temas e cores deve ser adaptada conforme o espaço onde a aula esteja sendo dada.

. Solicito aos alunos que registrem onde existem…

  • árvores e/ou plantas, utilizando a cor verde.
  • lixeiras, utilizando a cor laranja.
  • hidrantes, utilizando a cor vermelha.
  • monumentos ou estátuas, utilizando a cor rosa.
  • bancas de jornal e orelhões, utilizando a cor azul.
  • postes, fradinhos, bancos e mobiliário público em geral, utilizando a cor cinza.
  • grades, utilizando a cor marrom.
  • calçadas e texturas de pisos, utilizando a cor preta.
  • animais, música, comida etc. (A lista continua até esgotar os temas registrados nas fotos.)

. Divirtam-se com as expressões de desespero! Tem um lado muito engraçado de perceber o quanto somos cegos visualmente para coisas que sabemos que estão lá, mas não distinguimos exatamente onde estão, nem como são.

Vejam um exemplo de resultados baseados na memória de alunos, com o prédio do IFCS ao “centro”:

. Quando todos terminam, sugiro que guardem as canetas, para não ficarem na tentação de acrescentar algo. Em seguida, apresento as fotos dos espaços no Datashow. Primeiro, as mais gerais, depois, as imagens específicas dos itens da lista (árvores, lixeiras, monumentos etc.). Esse é outro momento de diversão geral, com muitos ah! e oh!, devido à comparação: fotografias x registros gráficos x memórias. Vejam o exemplo abaixo do registro do Tomás Meireles, um aluno experiente em desenho (à esquerda) junto a algumas fotos (à direita).

Além de adorar o desenho do Tomás, acho fascinante a comparação: a humanização da estátua (da figura e da escala),  a sensação de espaço ampliado (no desenho, por contraste com a foto), a presença do camelô de comida, a padronagem do chão, a posição da lixeira invertida (no desenho, à esquerda, na foto, à direita). Como nesse exemplo, muitos estudantes não registraram as duas grandes árvores que cobrem a fachada do prédio! Revejam: dos seis mapas mostrados acima, dois marcam com clareza a presença das árvores, dois trazem pontos verdes tímidos e dois não apontam árvore alguma na frente do edifício que frequentam cotidianamente.

Se tenho tempo, reúno todos os desenhos no quadro (colando com a fita adesiva) e peço aos alunos que venham à frente observar, comparar, percebendo as semelhanças e diferenças. É bem instigante comparar não só a presença ou ausência de elementos, mas também as proporções, formas e modos de ocupação dos espaços e dos registros.

Avaliação:

. No final da aula, solicito que todos escrevam na parte de trás do seu mapa uma pequena avaliação da experiência. A maioria registra que foi “difícil lembrar” dos lugares onde passam todos os dias. Uma aluna escreveu que ficou “surpresa” com a sua percepção “superficial” da cidade; o que outra estudante chamou de “olhar sem ver”. A bolsista de iniciação científica afirmou que, mesmo participando da sessão de fotos, esqueceu um monte de coisas na hora de desenhar. “A memória tem vazios” e “hierarquiza” a forma como lembramos,  escreveu outra aluna.

Acho que todos concordaram que “conhecer” é diferente de “saber que existe”, na expressão serena de um aluno, por contraste com a estudante que escreveu: “muito louco esse exercício, professora!” Um aluno explicou que conseguiu registrar os dados que se relacionavam com a bicicleta que usa para ir ao local, o que facilitou na lembrança dos pisos e equipamentos públicos, por exemplo. Vários apontaram essa característica: lembramos mais das coisas (e pessoas) que nos afetam diretamente. Um estudante anotou: “é impossível registrar a realidade em toda a sua complexidade; de forma que toda representação ou teorização é uma redução”. Sim, lembramos de “Funes, o memorioso“, famoso conto de Jorge Luís Borges.

Concluo com o texto do Tomás Meireles, o aluno que desenhou a estátua cor-de-rosa:

“Ao desenharmos a partir das nossas lembranças, temos a oportunidade de extrair um coeficiente estético de uma relação vivida. Desse modo, podemos traçar um contraste entre aquilo que sabemos e aquilo que achamos saber. Ao transportar isso para a antropologia, percebemos como podemos nos enganar a respeito da realidade que nos envolve constantemente.”

Espero que tenham gostado. Experimentem, mandem comentários, sugestões e notícias!

Ah, importante: a referência que me inspirou para construir esse exercício foi o texto abaixo. Coloquei no título um link para o PDF que fiz pois é um artigo difícil de achar. Boa leitura!

NIEMEYER, Ana Maria. “Indicando caminhos: mapas como suporte na orientação espacial e como instrumento no ensino de antropologia”, in: Além dos territórios: para um diálogo entre a etnologia indígena, os estudos rurais e os estudos urbanos. (Niemeyer e Godoy, Emília, orgs.). Campinas, SP, Mercado de Letras, 1998, p. 11-40.

Esse é o quarto post de uma série:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

Sobre o desenho: Depois de várias semanas, me aventurei a desenhar a árvore de que mais gosto do Largo de São Francisco de Paula, praça em frente ao IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ). É uma lindeza, magrela e gigante (quase da altura da igreja). Fiz parcialmente de memória, parcialmente olhando no Google Street View. Ontem voltei a olhá-la ao vivo e me admirei ainda mais com a sua leveza imponente. Sim, os pombinhos ficam minúsculos e até as pessoas ficam mínimas perto dela. Desenhei com uma canetinha Graphik Line Maker 0.1 Sépia, da Derwent, numa folha que ainda está vazia do caderno Stillman & Birman, Delta Series 8 x 10 polegadas.

Você acabou de ler “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-297. Acesso em [dd/mm/aaaa].