Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


12 Comentários

Últimas Saudades de Oxford

chuvascontg

** O Humor Britânico **
 Ao iniciar uma refeição, os bons hábitos mandam: na França: “Bon appetit!”; na Alemanha: “Guten appetit!”; na Itália: “Buon appetito!”; na Inglaterra: “Never mind…”

** Atendentes, garçons e que tais **
Como vocês sabem, já quase me expulsaram de um restaurante porque eu pedi “water” com sotaque americano. Agora descobri (em 2005!) um crime ainda mais hediondo: pedir “olive oil”!
— O-li-ve-oiiiil? No, I am afraid we don’t have. (resposta simpática)
— O-li-ve-oiiiil? humpf. (resposta tradicional)
Mesmo com um prato de salada verde na frente, o máximo que você vai conseguir é um pouco de sal.

** A contribuição dos fast-foods para a humanidade **
Banheiros limpos no terceiro andar!

** Palavras que vocês não vão achar no dicionário **
“Top up” – Depois de horas tentando entender a voz eletrônica do outro lado da linha, finalmente compreendi. “Top up” é colocar dinheiro via cartão de crédito na conta do telefone celular, no cartão de ligações interurbanas, na máquina de xerox etc. Coisas da vida eletrônica.
“Engaged” – Se diz também quando a linha de telefone está ocupada.

** “I thought you were a student” **
Coisa boa: pelo menos umas cinco vezes fui barrada aqui nos lugares onde só entram pesquisadores e professores porque me confundiram com uma estudante de graduação! (Bem, vá lá, só “estudante”. Graduação já é fantasia minha.) Mas depois que me dei conta disso, resolvi assumir. Nunca mais paguei ingresso de “adulto” em cinema, museu ou teatro!

** Lavando roupa em oito etapas (ou em apenas 130 minutos) **
Você logo percebe os padrões locais de limpeza quando descobre que o seu College tem uma única lavanderia comunitária de 9 metros quadrados para centenas de moradores.

Etapa 1 – Você reserva uma manhã inteira e vai para a lavanderia ver quantas das quatro máquinas estão funcionando. Na chegada, você lembra que esqueceu o cartão magnético que abre a porta. (7 minutos) Não esqueça de novo: cartão, moedas, sabão, roupa suja e sacola. (5 minutos)

Etapa 2 – Você está com sorte hoje: três máquinas estão funcionando. Só um probleminha: todas estão lotadas. Você logo aprende que seus vizinhos gostam muito de colocar a roupa na máquina e sair para dar uma voltinha de 12 horas. Quando uma das luzes apaga, você tem o direito de usar a máquina. (Espera em torno de 13 minutos)

Etapa 3 – É seu trabalho tirar e jogar a roupa molhada do vizinho em cima da máquina. A tarefa não deixa de ser interessante. Você fica conhecendo o lado “íntimo” das pessoas: as russas e suas calcinhas de sex-shop, os adolescentes e suas bermudas rasgadas, o professor  inglês e suas camisas azuis de gola branca, a nova-iorquina e seus modelitos fashion… (5 minutos, se você não parar para examinar as roupas)

Etapa 4 – Colocar sua roupa, colocar a moeda, ler as instruções três vezes, girar o botão da temperatura (que você pensa que é o botão do tempo), apertar a pré-lavagem, ligar. Ah, não esquecer o sabão. (2 ou 5 minutos) Volte para casa e marque uns 40 minutos no relógio.

Etapa 5 – Duas opções: ou você chega antes do tempo, e tem que ficar esperando a lavagem acabar; ou você chega atrasada e todas as suas roupas estão jogadas em cima da máquina (pode contar que uma meia ficou perdida em algum lugar). (10 minutos)

Etapa 6 – Com sorte, uma máquina de secar está vazia. Esta é facil: colocar moedas (até acertar a quantidade de moedas com a quantidade de roupas, é outra história…), colocar a roupa, desistir de ler as instruções, girar o botão para qualquer lado, ligar. Ouvir o vizinho resmungando porque ele quer usar três máquinas, uma para cada tipo de roupa, “porque assim não amassam muito”, ele explica. Voltar para casa. (30 minutos)

Etapa 7 – De volta à lavanderia. Cenário ideal: sua roupa estará seca e te esperando no mesmo lugar. Cenário deprimente: sua roupa ainda está molhada e jogada num canto. Cenário terrível: suas roupas encolheram! Passei pelos três… (10 minutos)

Etapa 8 – Você chega em casa e descobre que esqueceu o sabão na lavanderia! 😦

** Táxi turbinado **
Desde que cheguei, já peguei taxista grosso, enrolão, simpático, estrangeiro-que-não-sabia-o-caminho, indiferente. Mas o auge foi o último: dirigia calmamente bebendo uma cerveja!

** Sinal de que está na hora de ir embora **
Conversando com um pesquisador novato:
Ele:  “Nossa, que bom, está o maior sol!”
Você: “Ah, nem adianta. Quando a gente terminar de colocar os casacos vai estar chovendo…”

Ele: “Oba, parece uma comida gostosa!”
Você: “Nem tente. Tem gosto de chili ou de leite-sem-sal.”

Ele: “Que máximo, vamos entrar nessa livraria?”
Você: “Nem adianta, o livro mais barato vai custar 24,99 pounds. Só uns 135 reais…”

Bem, relevem… Eu devia estar um pouquinho mau-humorada nesse dia!
Como diz um cartão-postal muito procurado aqui: 

“Apart from… the weather, the food, the acommodation, the countryside, the people and the language… I’m having a great time here!”

Sobre o desenho: A imagem desse post começou a surgir na minha cabeça há alguns dias, quando planejei que o calendário de março tinha que ser com o tema “queremos chuva”! Acabou sendo um dos desenhos mais divertidos e ao mesmo tempo trabalhosos de fazer. Como sou teimosa, usei o mesmo papel ruim do post Modelos vivos ou mortos?, mas dessa vez me preparei melhor. Prendi a folha com fita crepe na bancada da pia da cozinha antes de pintá-lo com água, lápis de cor aquarelável e aquarela. Esperei que secasse até ficar só um pouco úmida e passei a ferro. Dessa vez o papel ficou quase liso! Escaneei essa base pintada e fiz os desenhos no Ipad (app AdobeIdeas) com uma canetinha Bamboo que ganhei da minha mãe <3. Depois voltei tudo para o computador, aumentei o contraste (lembram que o azul sempre fica aguado?) e “recortei” as figuras com o Photoshop. Meu plano inicial era fazer toda essa parte à mão, mas deu preguiça quando percebi que teria que organizar cada pedacinho num outro papel e ainda voltar ao scanner… O calendário fica para amanhã — desculpem o atraso carnavalesco.

Anúncios


15 Comentários

Saudades das Saudades de Oxford 3

chacomleite

** Agruras da Vida Acadêmica **

Você ganha uma bolsa para vir para Oxford e se sente a pessoa mais importante do mundo. Memorize bem esse sentimento, pois quando o diretor do seu centro de pesquisas pedir que você organize um “pequeno workshop internacional”, com apenas 2 meses de antecedência, toda a auto-estima acumulada será necessária!

** O Francês Importante **

Os ingleses acham que é muito fácil organizar um evento, afinal “everybody likes to come to Oxford”! Tente convencer um figurão francês disso… Levei um tremendo bolo na véspera do evento! Um furo à francesa: nem um singelo “je suis desolée…”

** O Inglês Incompreensível **

Você precisa de mais um comentador. Seus colegas sugerem: “chame um inglês de verdade”. Ok, o cara tem vários livros, é reconhecido no meio, parece simpático nos e-mails e aceita! Finalmente, um único participante sobre o qual não precisamos nos preocupar se fala ou não bem inglês.

No dia do Workshop, porém… Ninguém entendeu uma palavra do que o cara disse!! Só rindo pra não chorar. As pessoas se entreolhavam, suspiravam, franziam a testa. Nada. De vez em quando uma palavra ao longe fazia algum sentido. Só não combinava com a palavra seguinte… O problema era uma mistura de tom de voz (variando do inaudível ao operístico), caretas, suspiros, falta de objetividade e uma “malice” congênita!

Além dos comentários no Workshop, ainda tive a “sorte” de sentar do lado dele no restaurante à noite. O cara cheirava a cigarro e falava sem parar sobre a namorada espanhola na Bahia, os pais republicanos, o filho comunista… Bem, só captei esses três assuntos no início — depois não me dei mais ao trabalho… E ele falou a noite toda assim mesmo.

O mais engraçado foi ver o suspiro de alívio dos brasileiros quando eu disse que também não tinha entendido nada do que ele falou. Ainda hoje encontrei uma professora da USP que assistiu o seminário e estava se sentindo péssima, achando que precisava voltar para o curso de inglês!

** Um Senador Italiano **

Tentem visualizar o tipo: terno italiano, cabelo italiano, sapato italiano, cortesia italiana. Um pacote de vaidade. Quando a secretária foi tirar uma foto, ele simplesmente parou de falar para afastar os copos e fazer uma pose! Depois, ainda disse que não havia mais clientelismo na Itália. Imagina se ia admitir essas vulgaridades latino-americanas…

** Um Espanhol e sua Agenda **

Outro convidado sugerido pelo povo daqui. Um espanhol com fama de “excelente”, “fantástico”, “maravilhoso”. Aí o cara se prepara para falar e abre a agenda!!! A agenda!! Sabe aquela coisa com espiral no meio e umas folhinhas miúdas para anotar o dia do dentista? Pois é.

E de lá saíram constituições espanholas do século 18, a legislação eleitoral da Cataluna, a troca de partidos conservadores em 1879… A essa altura, ninguém mais estava prestando atenção.

Bem que desconfiei que a coisa não ia dar certo. A única preocupação dele era saber se poderíamos hospedá-lo no hotel mais caro da cidade. Não, não podíamos. A cada vírgula, repetia que tinha feito doutorado em Oxford. Mas, pelo visto não aprendeu nem o básico, pois saiu para todos os lados com um enorme guarda-chuva e ainda pediu coca-cola na hora do evento!

** A Redenção Latino-americana **

Éramos três brasileiras e um colombiano, seríssimos, falando sobre temas pertinentes, com idéias, começo, meio e fim. Ufa. Fomos os melhores do dia! Mas a concorrência…

** A Plateia **

Muita gente fica nervosa ao ser convidada para Oxford achando que vai falar para grandes plateias. Muito ao contrário. Os eventos tem pouquíssimo público. Quer dizer, meu seminário foi um sucesso: 15 pessoas de fora, sem contar os da casa, amigos e participantes. Com a queda de qualidade da segunda sessão, perdemos metade da plateia. Pra quem gosta de vinho, foi ótimo: sobrou muita bebida no coquetel de encerramento! E mantivemos a tradição: um italiano roncou enquanto uma das brasileiras falava.

Concluindo, o evento foi quase-péssimo, mas felizmente lembrei que teria um ótimo material para esse diário. Afinal, tudo que dá errado é mais engraçado.

** Humor Britânico **

“If you actually look like your passport photo, you aren’t well enough to travel.” (sir V. Fuchs)

** Oxford com Crianças **

As crianças são bem-vindas: a comida é grátis e chega rápido! Mas tem um pequeno detalhe: é tão ruim quanto a dos adultos…

Os museus têm atividades para toda a família e há sempre uma área com avisos de “é permitido mexer, tirar fotos e brincar!”  Fofo.

** Detalhes do Cotidiano **

Todos são a favor de comida em cima do computador, migalhas no teclado, molho nos papéis! Toda mesa de trabalho tem um “cup of tea”, um prato com restos de biscoito, um garfo caído pelo meio, uma garrafa de água com gás quente apoiada em cima do arquivo… Ninguém reclama, ninguém acha estranho. Gostei! Dá um ar de casa bagunçada.

Todas as bicicletas têm uma sacola de plástico enfiada embaixo do assento. No início, não entendi. Mas agora também tenho uma: é para proteger o banco em caso (muito provável) de chuva. Eles não se incomodam com a cabeça, mas andar com a bunda molhada também já é demais!

** Sinais de que está na hora de voltar pra casa **

Já sei de cor o valor de todas moedas.

Minhas mãos estão ficando vermelhas, como as das mulheres inglesas!

Estou começando a gostar de chá com um pouquinho de leite…

Sobre o desenho: Fiz o desenho nos últimos minutos desta quarta-feira a partir de uma foto que tirei do meu café da manhã em Oxford (o pão estava na torradeira, não tive paciência de desenhar tudo, perdoem). A xícara ficou bem fora de proporção e ainda por cima descobri que a canetinha Kuretake nova não é à prova d’água! Mas tudo bem: foi bom lembrar que a louça do meu apartamento era horrível (azul e amarelo-sujo!) e também da minha maluquice de levar um paninho de prato brasileiro, feito com ponto-de-cruz pela querida Maria-de-Itaipava — foi a peça que fez eu me sentir em casa quando estava lá. Resolvi deixar o desenho na folha do caderno inteira porque ficou parecendo um tapete voador… Não custa nada sonhar com um pouco de mágica nos tempos atuais!


20 Comentários

Saudades das Saudades de Oxford 2

jardimbot2014b

Não sei se comemoro os pedidos dos leitores que escreveram “sim, queremos mais diários de Oxford!” ou se choro por achar que minha vida (ou meu texto, que diferença faz?) eram mais divertidos naquela época…

Lá vai um relato que escrevi mais ou menos na terceira semana da viagem, em janeiro de 2005, quando começava a me sentir mais integrada à “sociedade local…” 

**A Dieta Britânica**

A primeira e sem dúvida maior vantagem de vir para a Inglaterra é a oportunidade única de se fazer a “dieta britânica”. É muito simples e eficiente. O sistema funciona em etapas, bem parecido com as dietas tradicionais:

Etapa 1 – Choque de preços: Quando bate a fome, você entra numa lanchonete, olha o cardápio e analisa os preços. Que tal 50,00 reais por um queijo quente? Ou quem sabe 10,00 reais por um pedaço de bolo? Resultado: perda de até um quilo em uma semana.

Etapa 2 – Choque de paladar: Passada a primeira fase, você acaba se acostumando com os preços e resolve encarar. Você pede uma tradicional e simpática batata assada com queijo. Aquela comida quentinha e amiga que seu estômago tanto precisava. A aparência é boa, mas o gosto é indescritível: uma mistura de nada com algo azedo e um tanto amargo (depois você descobrirá que esse é o gosto do “Efeito Cheddar” — mais ou menos equivalente ao “Efeito ketchup” dos americanos). Resultado: perda de até dois quilos em uma semana (pois além de não comer, você ainda passa dias enjoada com o gosto do que comeu).

Etapa 3 – Choque de Supermercados tipo 1: Vencidas as duas primeiras etapas, você já aboliu a idéia de ir a restaurantes. Está feliz com a perda dos famosos três quilos (nada mau, você pensa) mas fraca e desnutrida. É hora de ir ao supermercado! Você entra no primeiro e… epa? não tem comida de verdade. É só comida de restaurante disfarçada: salada para 1, lasanha para 1, chop suey para 1, quiche para 1… Você também se dá conta que todos devem ser terrivelmente solitários nessa terra. A fila só tem 1 moça, 1 rapaz, 1 senhor, 1 adolescente. Nenhum grupinho. Cada um com sua cestinha ou com seus pratos-prontos na mão. Você compra timidamente uma sopa para 1. A embalagem diz que é de legumes, mas o “Efeito Cheddar” é o mesmo de sempre. Resultado: perda de até 1 quilo em três dias. (Isso porque você não aguentará mais uma semana na Etapa 3. Seu organismo está ficando fraco.)

Etapa 4 – Choque de Supermercados tipo 2: Afinal você encontra um supermercado de verdade, que vende arroz, lentilha e alface não lavada! Aqui você percebe que existem famílias nessa terra: e ricas. Para ter direito a usar o carrinho do supermercado é preciso pagar 1 pound! Isso mesmo: quase 6 reais só para usar o carrinho. Bem, você não pode esbanjar. Nada de carrinho. De repente, você se vê até feliz pensando: ah, a cestinha é de graça, que sorte a minha! Você compra então tudo o que consegue carregar na cestinha. Na volta pra casa, vencidas as etapas do fogão, você descobre um pequeno problema: o gosto da sua própria comida não é lá essas coisas… Resultado: perdas oscilantes de até 500 gramas por semana. (Isso porque, mesmo sendo ruim, a sua comida ainda é bem melhor do que qualquer outra).

**Beleza e Moda Britânica em Números**

– Liquidação!! Sapatos: 79 pounds! Casaquinhos Gap: 49 pounds! (multipliquem por 5, se estiverem de bom humor; ou por 6 se estiverem de mau).

– Cortes de cabelo: 67 pounds! Apenas lavar e secar: 30 pounds! (idem acima)

** Sinais de que você está se adaptando (mais ou menos) à vida local **

– Lidando com Máquinas: Aqui a industrialização avançada chegou a todas as esferas da vida humana. Máquinas que fervem café forte com leite fraco e um pouquinho de açúcar, máquinas que lavam e secam roupas em vinte minutos, máquinas que são caixas de supermercados! Todas funcionam à base de dinheiro e falam com você com vozes femininas eletrônicas. O pessoal dos estudos de gênero não ia gostar nada disso… Outro dia, no meu supermercado-restaurante preferido resolvi lutar contra a humilhação de ir para o único caixa-humano do local (para onde vão só os turistas e os velhinhos, claro). Era uma compra simples, pensei: apenas uns 20 reais por um pacote de guardanapos e um rolo de papel plástico. Você chega cheia de confiança, passa o primeiro pacote pelo leitor do código de barras da máquina e… já vai passar o outro quando uma voz soa lá de dentro: “please, put the item in the bag”. Você olha prum lado, olha pro outro… Como é que a máquina sabe que eu não pus o “item” na bolsa? A máquina repete: “pleeease, put the item in the bag”. Você obedece e a máquina agradece: “do you have another item?” Não me perguntem como, mas passei o outro “item”, coloquei os dois na “bag” e enfiei as moedas o mais rapidamente possível. Antes que eu saísse correndo, ainda ouvi: “pleeease, wait for your receipt”. Ai de você, pega o recibo. “Thank you.”

– Maurice (o housekeeper) quis tirar uma foto comigo e colocou a mão na minha cintura! Posso não fazer sucesso acadêmico, mas os trabalhadores me amam…

** Wash your own Mug **

– Coffee and Cake! Em todos os departamentos da Universidade há uma manhã ou tarde reservada para um encontro com café, chá, biscoitos e bolos. Assim, alunos conversam, professores se encontram, secretárias e bibliotecárias se distraem e os bicões como eu se integram à vida local. Até aí, nada extraordinário. O diferente disso tudo são os dois cartazes que você encontrará em todas as salas (os Common Rooms) de convivência: “The coffee and cookies at … costs 0,40p.” (e todo mundo põe os 40 centavos na cestinha); “Please, don’t forget to wash your own mug” (Por favor, não se esqueça de lavar a sua própria caneca!). Aqui não é a terra dos descartáveis como nos EUA. As mugs se multiplicam como filhotes de coelho e se você não lavar a sua pode voltar dali a uma semana que ela estará no mesmo lugar, intacta e suja como você a deixou. (É verdade, aconteceu comigo!) No Centro de Estudos Brasileiros, a diferença é que, ao invés de 1 cartaz, temos quatro ou cinco cartazes espalhados pela cozinha e sala, além de receber pelo menos 2 ou 3 e-mails por semana avisando “wash your own mug”! Adivinhem por que?

** Sinais de que você NÃO está se adaptando à vida local **

– Você continua tomando dois banhos por dia, mesmo com um chuveiro fraco e uma água que parece ter sido misturada com polvilho antisséptico Granado.

– Você continua sentindo falta de dormir com lençol de cima e lençol de baixo ao invés dessa colcha disfarçada de lençol que todos usam por aqui.

– Você continua não entendendo as piadas que os porteiros fazem após o tradicional bom dia! O sotaque é indecifrável. Outro dia, para ter assunto com um dos porters mais empenhados em me alegrar de manhã, tive a infeliz idéia de pedir que ele repetisse a piada, “slowly, please…” Depois de dez minutos de uma conversa de surdos, a única palavra que eu pesquei foi “hedgehog”. Quer dizer, pesquei é modo de dizer: guardei o som e depois fui olhar no dicionário. Era porco-espinho. Alguém nessa terra poderia me dizer se existe uma piada com porco-espinho no meio?

Relendo essas bobagens, fico pensando o que pensarão que eu estava fazendo em Oxford. Será que era mesmo uma viagem acadêmica? Se quiserem, publico o Diário 3, que será a prova de que sim: eu tinha atribuições supostamente intelectuais. Para quem perdeu o Diário 1, está aqui.

Sobre o desenho: Infelizmente meu outro caderno feito Oxford ficou no IFCS, daí que não tive tempo de escanear nada da época para o post. Esse jardim foi feito há duas semanas no Jardim Botânico do Rio, graças à companhia de duas amigas queridas. Nos escondemos no bambuzal, na esperança de que os guardinhas não nos proibissem de estender uma toalha para desenhar. Aí está a prova da nossa proeza! Foi feita numa amostra antiga de papel verde que a Nathalia me deu, e desenhado com minha nova canetinha branca Sakura Gel 0.4 (dica do genial Freekhand/Miguel Herranz). As sombras foram feitas com aguada de nanquim colocada num waterbrush de aquarela. Não estava levando muita fé nesse desenho, mas achei que melhorou um pouco depois de acrescentar contraste no Picasa. Desenhar tanta informação junta me dá uma preguiça danada, mas ao mesmo tempo gera um efeito de auto-hipnose. Se não fossem o calor, os turistas e o medo dos guardinhas, acho que teria conseguido completar a página toda…


17 Comentários

Saudades das saudades de Oxford

Em janeiro de 2005, fiquei três semanas longe do meu filho Antônio, na época com quase quatro anos. Era a primeira vez que nos afastávamos desde que ele tinha nascido. Lembrei desse período porque acabo de voltar do aeroporto, onde fui deixá-lo, junto com a irmã e a avó, para passarem 17 dias de férias nos Estados Unidos com o pai. Já estou com saudades… Sim, sou uma mãe grudenta…

Resolvi recuperar o diário que fiz para ele durante a viagem a Oxford (Inglaterra) em 2005 porque lembrei das saudades imensas que senti e de alguns desenhos e histórias engraçadas, que também contei para alguns amigos por e-mail.

**Aprendendo a Sair de Casa em apenas OITO Etapas**

 desenhos 2005 oxford 1

Etapa 1: Colocar meias, roupa de baixo, calça, blusinha 1, blusinha 2, casaco 1, botas. 

Etapa 2: Colocar o casaco grande, cachecol, colete fosforecente para andar de bicicleta (que é horrível, mas a palpiteira da loja disse que você morreria se não usasse). Não por as luvas ainda!

Etapa 3: Creme no rosto, creme nos lábios, batom, lenço de papel no bolso, 2 moedas de 1 pound no outro bolso, chaves de casa no outro bolso (a calça tem que ter bolso, pois nada disso pode ser misturado, é claro!). Colocar as luvas por cima de tudo nos bolsos do casaco.

Etapa 4: Ainda sem luvas, pegar a mochila, verificar se está com tudo dentro, verificar se está com o cartão que abre as portas do prédio.

Etapa 5: Colocar as luvas de borracha e lavar a louça correndo para Maurice (o housekeeper) continuar achando que você é uma ótima dona de casa. Descobrir que você não deveria ter posto o casacão e o cachecol ainda. Você está suando!

Etapa 6: Colocar a mochila nas costas, colocar as luvas e descer! (só tente essa etapa se você já está com vários dias de prática com luvas). Verificar se você deu o nó no cinto do casacão.

Etapa 6 1/2: Se houver, pegar o saco de lixo para jogar fora. O lixo lixo e o lixo reciclável.

Etapa 7: Tirar as chaves (sem deixar cair nada dos bolsos), abrir o cadeado da bicicleta, colocar o capacete (que vc aprendeu a deixar junto da bicicleta!), conseguir dar o clique no fecho do capacete, colocar os prendedores de barra de calça para sua calça não se prender na corrente da bicicleta (o que você descobriu ser essencial no primeiro dia), colocar o cadeado e a sua bolsa na cestinha da bicicleta.

Etapa 8 no primeiro dia: Ficar olhando para o portão e pensar: como eu abro esse troço?

Etapa 8 no 14o dia: Saber que dá para apertar um longínquo botão cinza parecendo uma descarga na parede com uma mão e abrir o portão com a outra, mesmo em cima da bicicleta!

Mas garanto que andar de bicicleta por essa cidade maravilhosa compensa todo o esforço. … só preciso poupar vocês das 8 etapas que se seguem para tirar essa tralha toda!

**Coisas típicas nas ruas de Oxford**

desenhos 2005 oxford 2

– Chuva: as pessoas não parecem ligar a mínima para a chuva. No meu segundo dia aqui, ainda à pé, começou a chover. Eu era a única criatura do mundo na rua com um guarda-chuva aberto!! Eu olhava, procurava e só via todos andando tranquilamente. Tirava o guarda-chuva e me assegurava: sim, está chovendo! Felizmente, depois de muito procurar, avistei uma longíncua criatura segurando também um guarda-chuva. Com certeza, era uma turista brasileira… Agora, ando pra todo lado, em qualquer tempo, sem guarda-chuva também! A solução é simples: em 5 minutos, você entra num lugar fechado e a calefação seca tudo!

– Luvas: as pessoas perdem muitas luvas… algumas boas de dar pena. Infelizmente, é um pé só e sempre de modelos muito diferentes. São tantas que você passa a temer o dia que perderá a sua!

– Carros fantasmas: todos os dias olho um carro e levo aquele susto: “gente, um carro andando sem motorista; uma crianca dirigindo!” — mas é só a loucura dos ingleses de ter a mão do lado direito.

– Tagarelas: no ponto do ônibus, uma ex-professora contou a vida em 5 minutos e de como gostava quando hospedava estudantes. Na biblioteca, achei uma ex-parteira revoltada com o sistema… No meu prédio, o housekeeper é um francês muito distinto — Maurice — que acho que gostou de mim porque a minha casa é arrumadinha (a vizinha da frente tem que chutar os sapatos e as tralhas do caminho para entrar em casa!). Ele bate aqui quase todos os dias de manhã agora…

– Amantes dos cachorros (e das pulgas!): Nesse meio tempo, arranjei pulgas! Vocês podem imaginar? Havia uma dessas velhinhas que não se separa por nada do seu little dog (“good boy, good boy”, they say all the time) sentada atrás de mim numa palestra. Resultado: passei 4 dias sendo mordida pelas pulguinhas do “little” Chad (esse era o nome do cachorro)! Gracas ao Maurice, fui salva com lençóis limpos, colchão novo, e spray anti-pulgas por todo o apartamento. É muito bom ser amiga do Maurice!

**Os nativos e suas coisas simpáticas**

– Informalidade: as pessoas que encontrei são muito mais informais do que eu pensava. Vocês não imaginam quantas caixas de loja ou atendentes de biblioteca já pararam para bater papo sobre suas vidas pessoais comigo, assim como quem não quer nada… Uma senhora me ensinou tudo sobre segurança em bicicletas e só faltou me levar pra casa dela para eu não ser atropelada.

– Dorminhocos: em cada palestra que vou, há sempre algumas pessoas dormindo e até roncando na platéia!

– A maioria das mulheres tem as mãos vermelhas como pimentão — será do frio ou da água quente? Muitas torneiras não têm misturador: ou jorram água fervente ou congelante!

– Cabelos: numa sala fechada, dá medo ver os cabelos de perto…

– Adolescentes: pra que casacos?: quanto menos roupa melhor! Mesmo num frio de zero grau, as meninas saem de perna de fora, sandália, sem luvas e até barriga de fora. Devem estar assistindo às novelas brasileiras…

**Coisas que me lembram muito o Rio de Janeiro**

desenhos 2005 oxford 3

– A feirante me mostrou cerejas lindas e colocou as podres dentro do um saquinho marrom, pelo qual eu paguei a “pequena” quantia de 5 pounds!

– Avisos contra assaltantes: Por toda parte, há avisos sobre como proteger sua bicicleta de roubo ou como cuidar das suas coisas nas bibliotecas. Infelizmente, não são só avisos. Um dos pesquisadores do Centro de Estudos Brasileiros teve seus 2 laptops roubados.

– As pessoas têm medo dos ônibus e dos carros;

**Coisas que me lembram que eu NÃO estou no Rio de Janeiro**

– Eficiência contra os roubos: A universidade pagou pelos 2 laptops roubados em poucos dias, pois a casa assaltada pertencia ao campus.

– 220 Volts: uma das minhas primeiras aventuras aqui foi queimar o meu secador de cabelos brasileiro (recém-comprado especialmente para a viagem) por causa da voltagem 220 — esqueci de virar a chave, claro!

– Preços: outra furada de principiante: logo ao chegar, comprei um passe de ônibus por 12 pounds (a bagatela de 65 reais!!) e descobri que só valia para uma meia dúzia de linhas por meros 5 dias!! 😦

– Fogões elétricos 1: você coloca a panela numa boca do fogão e acende a outra — depois de 15 minutos, a sua água não ferve e você ainda respira aliviada de não ter queimado a casa toda.

– Fogões elétricos 2: Você tira a comida e deixa a panela vazia em cima da boca do fogão ligada — depois de 15 minutos, a casa inteira exala um cheiro estranho e a panela queima! Maurice não gostará de ver isso…

– Dinheiro perdido TEM dono: outro dia, a máquina de café da universidade estava com um troco sobrando de 0,20p. Eu olhei pras velhinhas atrás de mim, como quem pergunta “e agora?”. Elas disseram: “vamos deixar aqui ao lado. Com certeza, o dono virá buscar!”

– Sol e Frio: você olha o dia lindo pela janela e pensa: “oba, sol!” Quando chega na rua, está -2 graus! Quanto mais céu azul, mais frio. É o que dizem os “locals”…

**Coisas que te lembram que você é uma turista**

– Sotaque: ao menor “hello!” todo mundo te pergunta: “where are you from?”

– Tio Sam: você pede “water” com sotaque americano e as garçonetes ficam olhando para a sua cara como se você estivesse pedindo um mamute assado. Pronuncia-se “uá-tah”. As garçonetes são estrangeiras, mas as principais defensoras do mais verdadeiro e legítimo sotaque britânico.

– Nos pagamentos com cartão de crédito, você ouve: “what a weird card you’ve got!” Eles acham estranhíssimo o nosso cartão. A máquina pergunta para eles “credito ou debito?”, assim mesmo, em português. Depois, a máquina pede a senha e ainda manda assinar! Só faltava aquele clássico brasileiro: “e põe o telefone!”

desenhos 2005 oxford 5

E essa é a capa do caderninho onde fiz o diário dessa viagem. Se vocês gostarem, posto outros trechos depois.

Agora é aguentar 17 dias de saudades não só do Antônio, mas também da minha linda-potência-máxima Alice (que veio na barriga de Oxford… 😉 !