Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Tem uma esperança ali

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“Aqui em casa pousou uma esperança.” (Clarice Lispector)

Já fiz 35 sessões de fisioterapia no ombro esse ano, o que significa ficar conectada em maquininhas com nomes de ficção científica: microondas, laser, ultrassom, corrente galvânica. Os fisioterapeutas apertam botões, colocam fios ou, no máximo, deslizam as ferramentas sobre o local afetado. Na sala de espera cheia, todos parecem conformados e até um pouquinho felizes, já que é o plano de saúde que paga.

Há duas semanas, me puseram pela primeira vez na “GAL”, apelido de corrente galvânica. Segundo me explicaram, faz um aquecimento tão profundo que “você não sente nada”. São vinte minutos da pessoa espremida numa cadeira pequena, com o ombro cheio de fita crepe, sentindo nada. Nada. Quando vem um pequeno choque, e você pensa “que bom, vou melhorar”, logo apertam um botão e tudo volta ao zero. Eu costumava ler, mas não dá nem para segurar um livro sem acotovelar a vizinha. As pessoas com dores são muitas.

Como diz o povo, “cabeça vazia, oficina do diabo”. Olhei pro lado. Logo à minha esquerda havia uma sala, mais reservada, onde os doentes estavam recebendo massagens. Massagens de verdade, com mãos humanas, óleos, cremes! Por que eu estava condenada àqueles fios? A inveja é horrível.

Essa semana, porém, o fisioterapeuta-chefe me disse: você vai para a “Cinesio”! Opa, Cinesioterapia? Será o paraíso-das-massagens?

No dia seguinte, chego às 7:45 da manhã, pronta pro sonho. Chamam meu nome e me indicam uma maca: “pode deitar”. Mal comecei e o fisioterapeuta me corrigiu: “é de barriga para cima”. Puxa… Pelo menos estou deitada. Já é um progresso depois de 33 dias em cadeiras duras. Ele manda eu levantar o braço até onde sinto dor, nas três direções. Depois aperta, puxa, sacode um pouquinho, solta. Repete. Manda eu mexer de novo. Repete. Fim. Duas macas à minha direita, uma senhora geme de prazer com os apertos nas costas; à esquerda, mais outra.

Já sem esperanças de massagem ou cura, puxo conversa com o fisioterapeuta que ama samba. Pergunto se na faculdade ensinam a lidar com as reclamações dos pacientes:

— Como vocês mantêm o espírito tão positivo em meio a tanta dor?

— A gente sabe que o mal-estar é passageiro; que a pessoa vai ficar bem.

— Quer dizer que você acredita que todo mundo vai melhorar?

— Sim. Quase sempre, sim. Mas a pessoa tem que acreditar também.

Como disse um amiga ontem: “tem uma esperança ali”. Ela falava sobre tudo que há de bom na universidade: ensino, relações positivas com os alunos, nossos amados livros, debates, aprendizados, trocas…

Talvez nesse ambiente possamos todos aprender com o fisioterapeuta simpático: bora acreditar, cuidar e curar. ♥

Sobre a citação: A epígrafe de Clarice Lispector é do conto “Uma esperança“. Os diários da semana passada me lembraram das leituras de escola.

Infinitas coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-esperança:
Não tenho colocado muitos links aqui no blog para não sobrecarregar vocês de informação, mas acho que esses valem a pena:

* Google Arts and Culture – Já conhecem? É uma página de arte e cultura que mostra conjuntos temáticos de imagens, textos e filmes, além de apresentar os Museus e Instituições culturais que permitem uma visita interna, tipo “Google street view” só que por dentro de um prédio de exposições. A pesquisa pode ser por palavra chave ou simplesmente por tipo de material (por exemplo, tecido), cor, suporte, técnica etc. Tudo isso sem anúncios! Essa página tem sido minha navegação preferida, ao invés das redes sociais. Há conteúdo em português também. Algumas sugestões para vocês:

* No mundo da miçanga – exposição do Museu do Índio, organizada por Els Lagrou e Marco Antônio Gonçalves.

* Panos e tapas – um fantástico conjunto dentro do Museu Afro Brasil

* Mulheres na Índia – histórias e imagens incríveis, com dezenas de links, como este.

* As aparências enganam – sobre o guarda-roupa de Frida Khalo, do Museu Frida Khalo.

* Civil Rights Photography e muitas histórias maravilhosas no tema Black History.

Sobre a imagem que abre o post: Verdes de aquarela, todos partindo de um amarelo da Schmincke que ganhei de brinde (por isso não sei exatamente qual é o nome), misturado com todos os azuis da minha paleta. Feitos no verso de um bloco de papel Canson XL Mix Media (de espiral e capa azul marinho).

Desculpem a demora pelo post da semana. Graças à Net, fiquei com uma internet intermitente (perto de zero) por vários dias essa semana…

Você acabou de ler “Tem uma esperança ali“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Tem uma esperança ali”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3E7. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Sem açúcar, sem cérebro

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Queridos, vale presente de Natal atrasado? Eu tinha preparado esse desenho para vocês, mas meu final de 2015 foi tão atordoante que esqueci! (Os links para imprimir a imagem estão no final do post.)

Falta de foco. É assim que a gente esquece das coisas importantes, concordam? Estou há algumas semanas me sentindo numa estrada lateral, daquelas bem esburacadas e sem sinalização. Será que vou dar no meu destino ou num lixão abandonado?

Ou será falta de açúcar? Resolvi parar de comer doces no dia 5/10/2015. Sei que não devia contar isso aqui, mas agora já foi. Estou tentando ser blasé quanto a essa pequena decisão, e nem vou escrever que já se passaram 108 dias, tipo tenho-coisas-muito-mais-importantes-para-me-preocupar. Mas algo me diz que meu cérebro entrou num sistema de protesto próprio. Achou que eu ia desistir logo, só que não!

Há alguns anos, li num livro sobre o funcionamento da mente que cada pessoa tem uma “cota de concentração” diária. Então, segundo o autor, se o seu projeto é escrever uma tese de doutorado, não convém querer virar atleta e aprender mandarim ao mesmo tempo. E se você resolver que não vai comer mais doces? Melhor não fazer mais nada na vida, né?

Brincadeira, pessoal, também não é pra tanto! Já estou acostumando. Não é dieta. É tipo pra-vida-toda.

O corpo deu uma pifada geral por motivos de ser corpo; porque sim. Escrevo sobre isso justamente para rir e me convencer de que preciso aceitar, me escutar, me cuidar e ter paciência. Já já passa.

Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Alice está usando óculos! É só um pouquinho de astigmatismo mas, ao primeiro olhar, ela foi categórica: “– Mãe, eu estava vendo tudo em 640px, agora tá em HD!”
* Meu remédio tem sido ler, ler, ler. Taí a única coisa que não me cansa, nem doente. Não vou citar tudo aqui de uma vez, mas indico Jack & Alice, despretensiosa novela de Jane Austen, com a divertida e irônica protagonista Lady Williams. Livrinho lindo com ilustrações da Andrea Joseph (cujo blog acompanho há alguns anos), tradução de Christine Röhrig e edição da Martins Fontes.
Sobre o desenho: Aqui vai a imagem do post em boa resolução para imprimir em PDF ou em .JPG! Aprendi esse lema — “Paixão, Paciência, Prática” — numa aula online com o artista indiano-canadense Prashant Miranda. Me identifiquei tanto que adaptei essas ideias para um post sobre projetos acadêmicos, de maio/2015. A graça desse desenho é que foi feito a partir de ramos de verdade, presente de uma amiga querida. Vendo nosso fascínio pelo pacotinho de pimenta rosa do supermercado, ela disse: “tá cheio disso na Baixada: é aroeira!” E no dia seguinte recebi uma caixa cheia. Para pintar a guirlanda, desenhei primeiro com lápis e depois passei uma canetinha de nanquim 0.05 bem velhinha (daí que a linha ficou quase invisível de tão fina). Depois fui pintando com as tintas e materiais que vocês já sabem, num papel de aquarela que não estou me lembrando qual foi (mas algum de algodão e 300gr).