Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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A terra é redonda!

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Conhecer gente doida é uma das coisas mais divertidas de se mergulhar no mundo do desenho. Tem gente que passa oito horas por dia desenhando, gente que desenha tudo que vê, gente que desenha dezenas de páginas em poucos segundos, gente que leva seis horas desenhando uma só imagem, gente que desenha por onde anda, gente que usa os mesmos tipos de cadernos há décadas, gente que vai toda semana ao mesmo lugar desenhar, gente que desenha tudo que come ou bebe, gente que viaja para desenhar ou desenha viajando… E ainda: gente que vê tudo quadrado e gente que vê tudo redondo!

Em Paraty, conheci de perto um desses doidos que já acompanhava na internet: Paul Heaston, professor do workshop Wide Angle Perspectives. Estão aqui os desenhos que fiz durante as três horas que passamos juntos. Como já expliquei, fico paralisada de desenhar sob pressão. Vocês precisariam ver o trabalho dos outros participantes do workshop para entender a ingenuidade dos esboços que consegui fazer. (Vejam um exemplo fantástico da Lynne Chapman! E também vários do Flávio Ricardo!)

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Mesmo assim, valeu! O Paul é de uma modéstia incompatível com o próprio talento; e ainda totalmente franco para dizer que não sabe direito como ensinar o tipo de desenho que sabe fazer tão bem. Eita, como seria bom se todos os intelectuais partissem desse patamar! Quanta gente talentosa não tem noção de como dividir seu talento com os outros…

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Fiquei feliz de conseguir documentar um pouco do que o Paul compartilhou com a gente. A ideia é tentar se colocar na superfície ou no interior de um balão de gás, como nas tentativas dos sketches abaixo.

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Nesse último desenho, desenhei o Paul desenhando (sim, ele é duplamente doido: vê tudo redondo e não pára de desenhar um minuto). Tanto é assim que a Linda, mulher dele, sucumbiu ao destino e resolveu passar a desenhar também… (e bem!) Eu, que não chego nem perto da doidice deles, acabei perdendo o foco e fiz esse desenho (abaixo) sem coerência nenhuma…

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Sabedorias da Alice:

Alice, num fim-de-noite de sábado — Mãe, bora brincar de alguma coisa?

Eu — Mas, Alice, querida, você já foi à piscina, já jogou futebol, já brincou com os amigos a tarde toda!

Alice — Ah, e daí? Por acaso existe cota pra brincar?

Sobre os desenhos: Todos os desenhos foram feitos no caderninho Laloran que levei para Paraty com uma caneta maravilhosa marca Super 5, com nanquim cinza, que ganhamos como brinde do evento http://paraty2014.urbansketchers.org/.Acrescentei as cores com aquarela depois, já em casa.


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Paraty em quadrinhos

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Era uma vez um professor discreto, tímido, amável e talentoso: William Cordero. Antes de Paraty eu nunca tinha ouvido falar dele. Mas bastou uns poucos minutos ao seu lado, e diante de seus desenhos, para me apaixonar! (Paixão artística, pessoal.) Ele é daquelas pessoas que parecem fazer tudo sem esforço, num raro encontro de delicadeza de personalidade e obra. E ainda tem o charme de ser recém-casado, morar numa casa feita por ele próprio, na Costa Rica, e gostar de cachorros! No penúltimo dia do evento, passou quatro horas trabalhando num desenho, como se não existisse mais nada no mundo para fazer, e o resultado foi um arraso… Linhas leves como se tivessem sido feitas em poucos minutos… Quero ser assim quando eu crescer.

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Foi no seu workshop que fiz esses desenhos-em-quadrinhos. A proposta era narrar o dia-a-dia misturando diferentes escalas. A sugestão dele foi que trabalhássemos com “caixas” feitas de linhas para enquadrar pessoas, coisas, falas e movimentos. Os trabalhos dos colegas ficaram incríveis!

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No meu caso, levei um tempo para achar que esses desenhos tinham um destino melhor que o fundo da gaveta… Nesse dia, eu tinha acabado de dar minha segunda palestra — estava feliz, mas exausta! Só quando voltei para casa (oopss… que casa?) é que tive coragem de adicionar as cores. Tudo começou como um grande pretexto para tentar imitar o céu do Tommy Kane. 🙂 No fundo, o que me diverte mesmo é copiar o desenho dos outros! (Pelo menos, dou as fontes para vocês conferirem.)

100 anos! Hoje, 10/09/2014, minha avó querida faria 100 anos… Passei o dia pensando em desenhar esse bolinho para ela (abaixo), que acabou saindo mais com cara de chapéu do que de bolo! Mas ela nem ia ligar. Acharia lindo!! Ela adorava amarelo, adorava rosas e todas as flores. Adorava viver bem e com festa. Gosto de lembrar de como às vezes eu tinha medo de contar alguma coisa pra ela, tipo uma decisão arriscada ou difícil na minha vida. Receava que ela fosse me dizer (por ser mais velha): “fique onde está, permaneça, conserve.” Mas ela quase sempre dizia: “Que bom, isso mesmo, vá em frente! Viver empacada não vale a pena!” E é desse espírito de coragem que gosto de lembrar. “Que você nos inspire e viva pra sempre na nossa memória, vó.”

 

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Sobre os desenhos: Utilizei os mesmos materiais de sempre: canetinhas de nanquim descartável Unipin e Pigma Micron 1.0, 0.1 e 0.05. A cor foi feita com aquarela Winsor & Newton e um pincel Pentel waterbrush. No primeiro desenho, o céu dos quadradinhos ficou pesado (com waterbrush); daí troquei para um pincel de pelo (no quadro maior do lado direito) e achei que funcionou melhor. Meu sonho era fazer aquarelas leves mas com cores intensas. Ô coisa difícil!  Daqui a alguns anos a gente conversa…

Leitura da semana: Não levei livro pra Paraty, mas li uma crônica do Arthur Dapieve que lavou a alma: “Saudades do Rio“. É daqueles textos pessoais e ao mesmo tempo universais para todos nós, cariocas, do tempo em que domingo era dia de passear de carro com a família…

 

 


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Drawing Land

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Imaginem um lugar onde todos andam a olhar para cima e para baixo ao mesmo tempo; onde as pessoas se sentam em banquinhos minúsculos, munidas de seus cadernos e de instrumentos delicados e coloridos. Um lugar onde se pode ficar horas a fio numa atividade silenciosa, sob o sol ou sob a chuva, na calçada, na mesa ou no chão, e ninguém acha estranho. Um lugar em que se pode estar só, mas também se comunicar com facilidade, ainda que não se fale a mesma língua. Um lugar onde cadernos, papéis e cartões passam de mão-em-mão; onde se compartilham técnicas, materiais e ferramentas.

Imaginem um lugar onde não importa a idade, a cor, a religião, o sexo, a renda ou a nacionalidade. Um lugar onde um caderno é o passaporte; onde todos são iguais, mas ao mesmo tempo únicos, com direito a expressar seu olhar íntimo sobre o mundo, com suas cores, sua voz, seu ritmo…

Vocês podem não acreditar, mas esse lugar existe: é a terra do desenho! E eu estive lá na semana passada. Nosso encontro foi em Paraty, cidade histórica do Rio de Janeiro, durante o 5o. Simpósio Internacional dos Urban Sketchers. Foi mágico passar seis dias nessa pequena “Drawing Land” com seus adoráveis 243 habitantes.

Vai demorar para eu processar tudo que aprendi nessa semana. E mais ainda para acreditar na incrível recepção que recebi ao apresentar o projeto sobre antropologia e desenho que venho desenvolvendo. Acho que nunca estive diante de uma platéia que compartilhasse tão intimamente das mesmas motivações.

Aos poucos, prometo que vou publicando aqui no blog mais desenhos e anotações que produzi antes, durante e depois do evento! Abaixo, as primeiras páginas de anotações da excelente atividade de mapeamento gráfico ministrada por Richard Alomar.

richardalomar

Novas da Alice

Eu [brincando de jornalista] — Alice, como você se sente tendo uma mãe que dá palestra em inglês em Paraty?

Alice — Ah, mãe, legal. Mas eu preferia que fosse em Nova Iorque!

E na terça à noite:

Alice — Mãe, preciso faltar a escola amanhã!

Eu — Por que, Alice?

Alice — Ah, porque sim!

Eu [naquele tom de conta-outra] — A-li-ce…

Alice — É o meu Neuer, mãe!!! Ele vai jogar contra a Argentina!

Sobre o desenho: Na parte de cima do calendário de setembro, redesenhei coisinhas que vi em Paraty durante a já mencionada atividade proposta por Richard Alomar. Para a parte de baixo do calendário, fui atrás das portinhas de Paraty que registrei em fotos e achei na internet. Tudo feito com canetinha Pigma Micron 0.05 e colorido com aquarela e lápis de cor Prismacolor.