Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)

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Ser professora, para mim, é viver numa eterna dúvida: será que tenho conseguido afetar positivamente meus estudantes? De vez em quanto a fortuna responde: sim! Pois imaginem minha felicidade quando um ex-aluno veio me pedir dicas para reproduzir uma aula do ano passado na turma em que é monitor. Como eu ainda não tinha escrito sobre essa atividade, pedi um tempinho para me organizar. Segue o plano para vocês (e para ele)!

Objetivos da aula:

. Produzir registros gráficos sobre o entorno do campus universitário, feitos pelos estudantes que o frequentam.

. Refletir (através dessa prática) sobre como lidamos com os espaços e caminhos por onde passamos cotidianamente, promovendo um debate sobre as várias dimensões de olhar, ver, enxergar, distinguir, conhecer, apreender, memorizar, registrar.

. Compreender que os mesmos espaços são percebidos e significados de formas diferentes pelos indivíduos, embora também possamos encontrar padrões mais coletivos de percepção.

. Empreender uma experiência de aula que gere conhecimento e transforme, nos fazendo sentir que aprendemos algo a partir de uma prática associada à reflexão.

. Lembrar que uma atividade de pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material que precisa ser preparado antecipadamente:

. Antes da aula, é preciso tirar as fotografias que serão mostradas na segunda parte do exercício. No meu caso, fui com dois alunos de iniciação científica fazer o percurso no entorno do prédio onde trabalhamos. Tiramos 60 fotografias, procurando mostrar tudo que solicitamos aos estudantes que se lembrassem (ver a lista abaixo). Essa etapa de registro é por si só muito interessante. Mesmo que você não tenha alunos de iniciação científica, aconselho chamar dois ou três estudantes (ou colegas professores) para participar dessa etapa, pois a percepção de várias pessoas tornará mais instigante decidir o quê, e como, registrar. É importante que esse grupo não compartilhe a experiência com os demais alunos antes da atividade.

. Solicite aos alunos que levem lápis de cor ou canetinhas para a aula, mas não explique qual será a atividade. Bastam algumas cores básicas.

Material necessário para a aula:

. Canetas para quadro branco (ou giz, em caso de lousa tradicional).

. Fita adesiva ou fita crepe.

. Papeis A4 brancos. (Se possível, levar 1 folha para cada aluno.)

. Lápis de cor ou canetinhas. (É sempre bom ter um pequeno estoque de lápis-de-cor e canetinhas para os alunos que esquecem de trazer o material.)

. Notebook e Projetor de datashow.

. Pen drive com o conjunto de fotos preparado antecipadamente.

Dinâmica – Como conduzo a aula:

. Entrego uma folha de papel A4 para cada aluno. Peço que separem o material de desenho (canetas comuns e lápis de cor).

. Explico que o trabalho não tem certo ou errado e só conta como participação (ou seja, não é para nota!).

. Abordo o tema da aula: como lidamos com as informações visuais no nosso cotidiano? O que vemos? O que memorizamos?

. Escrevo no quadro o nome de 5 logradouros (o prédio da universidade e cerca de 4 a 5 ruas, praças, avenidas à sua volta). Peço aos alunos para desenharem, com caneta preta, um mapa contendo esses locais. A ideia é ocupar a folha A4 inteira.

. Não especifico como devem desenhar; deixo por conta da interpretação de cada um. Tento criar um clima de brincadeira, mas explicando que o trabalho é individual; o aluno não deve consultar os colegas.

. Em seguida, peço aos estudantes que comecem a registrar graficamente as informações listadas abaixo. É fundamental indicar 1 item de cada vez, esperando que todos tenham terminado de desenhar antes de anunciar o próximo. (Ou seja, os itens não devem ser escritos na lousa todos de uma vez.) A lista de temas e cores deve ser adaptada conforme o espaço onde a aula esteja sendo dada.

. Solicito aos alunos que registrem onde existem…

  • árvores e/ou plantas, utilizando a cor verde.
  • lixeiras, utilizando a cor laranja.
  • hidrantes, utilizando a cor vermelha.
  • monumentos ou estátuas, utilizando a cor rosa.
  • bancas de jornal e orelhões, utilizando a cor azul.
  • postes, fradinhos, bancos e mobiliário público em geral, utilizando a cor cinza.
  • grades, utilizando a cor marrom.
  • calçadas e texturas de pisos, utilizando a cor preta.
  • animais, música, comida etc. (A lista continua até esgotar os temas registrados nas fotos.)

. Divirtam-se com as expressões de desespero! Tem um lado muito engraçado de perceber o quanto somos cegos visualmente para coisas que sabemos que estão lá, mas não distinguimos exatamente onde estão, nem como são.

Vejam um exemplo de resultados baseados na memória de alunos, com o prédio do IFCS ao “centro”:

. Quando todos terminam, sugiro que guardem as canetas, para não ficarem na tentação de acrescentar algo. Em seguida, apresento as fotos dos espaços no Datashow. Primeiro, as mais gerais, depois, as imagens específicas dos itens da lista (árvores, lixeiras, monumentos etc.). Esse é outro momento de diversão geral, com muitos ah! e oh!, devido à comparação: fotografias x registros gráficos x memórias. Vejam o exemplo abaixo do registro do Tomás Meireles, um aluno experiente em desenho (à esquerda) junto a algumas fotos (à direita).

Além de adorar o desenho do Tomás, acho fascinante a comparação: a humanização da estátua (da figura e da escala),  a sensação de espaço ampliado (no desenho, por contraste com a foto), a presença do camelô de comida, a padronagem do chão, a posição da lixeira invertida (no desenho, à esquerda, na foto, à direita). Como nesse exemplo, muitos estudantes não registraram as duas grandes árvores que cobrem a fachada do prédio! Revejam: dos seis mapas mostrados acima, dois marcam com clareza a presença das árvores, dois trazem pontos verdes tímidos e dois não apontam árvore alguma na frente do edifício que frequentam cotidianamente.

Se tenho tempo, reúno todos os desenhos no quadro (colando com a fita adesiva) e peço aos alunos que venham à frente observar, comparar, percebendo as semelhanças e diferenças. É bem instigante comparar não só a presença ou ausência de elementos, mas também as proporções, formas e modos de ocupação dos espaços e dos registros.

Avaliação:

. No final da aula, solicito que todos escrevam na parte de trás do seu mapa uma pequena avaliação da experiência. A maioria registra que foi “difícil lembrar” dos lugares onde passam todos os dias. Uma aluna escreveu que ficou “surpresa” com a sua percepção “superficial” da cidade; o que outra estudante chamou de “olhar sem ver”. A bolsista de iniciação científica afirmou que, mesmo participando da sessão de fotos, esqueceu um monte de coisas na hora de desenhar. “A memória tem vazios” e “hierarquiza” a forma como lembramos,  escreveu outra aluna.

Acho que todos concordaram que “conhecer” é diferente de “saber que existe”, na expressão serena de um aluno, por contraste com a estudante que escreveu: “muito louco esse exercício, professora!” Um aluno explicou que conseguiu registrar os dados que se relacionavam com a bicicleta que usa para ir ao local, o que facilitou na lembrança dos pisos e equipamentos públicos, por exemplo. Vários apontaram essa característica: lembramos mais das coisas (e pessoas) que nos afetam diretamente. Um estudante anotou: “é impossível registrar a realidade em toda a sua complexidade; de forma que toda representação ou teorização é uma redução”. Sim, lembramos de “Funes, o memorioso“, famoso conto de Jorge Luís Borges.

Concluo com o texto do Tomás Meireles, o aluno que desenhou a estátua cor-de-rosa:

“Ao desenharmos a partir das nossas lembranças, temos a oportunidade de extrair um coeficiente estético de uma relação vivida. Desse modo, podemos traçar um contraste entre aquilo que sabemos e aquilo que achamos saber. Ao transportar isso para a antropologia, percebemos como podemos nos enganar a respeito da realidade que nos envolve constantemente.”

Espero que tenham gostado. Experimentem, mandem comentários, sugestões e notícias!

Ah, importante: a referência que me inspirou para construir esse exercício foi o texto abaixo. Coloquei no título um link para o PDF que fiz pois é um artigo difícil de achar. Boa leitura!

NIEMEYER, Ana Maria. “Indicando caminhos: mapas como suporte na orientação espacial e como instrumento no ensino de antropologia”, in: Além dos territórios: para um diálogo entre a etnologia indígena, os estudos rurais e os estudos urbanos. (Niemeyer e Godoy, Emília, orgs.). Campinas, SP, Mercado de Letras, 1998, p. 11-40.

Esse é o quarto post de uma série:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

Sobre o desenho: Depois de várias semanas, me aventurei a desenhar a árvore de que mais gosto do Largo de São Francisco de Paula, praça em frente ao IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ). É uma lindeza, magrela e gigante (quase da altura da igreja). Fiz parcialmente de memória, parcialmente olhando no Google Street View. Ontem voltei a olhá-la ao vivo e me admirei ainda mais com a sua leveza imponente. Sim, os pombinhos ficam minúsculos e até as pessoas ficam mínimas perto dela. Desenhei com uma canetinha Graphik Line Maker 0.1 Sépia, da Derwent, numa folha que ainda está vazia do caderno Stillman & Birman, Delta Series 8 x 10 polegadas.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-297. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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A vida simbólica dos objetos – ideia para aula lúdica (2)

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Hoje compartilho um outro plano de aula lúdica com vocês, inspirada pelo retorno tão positivo que venho recebendo do post anterior. É um exercício simples que junta afeto e aprendizado coletivo, as duas coisas que mais prezo dentro de uma sala de aula.

Tive a ideia dessa proposta numa oficina noturna de Antropologia e Desenho, mas tenho experimentado e dá muito certo nas turmas de teoria antropológica também. Os objetos e o tempo dispendido podem ser adaptados conforme a situação e o público (que pode ser de pessoas de qualquer escolaridade, de 9 a 99 anos).☺

Objetivos da aula:

. Criar um ambiente de curiosidade e desafio na sala de aula, que fuja da rotina e estimule a criatividade. (Ou, como já escrevi:  Mostrar que uma pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.)

. Exercitar a paciência e o foco no processo de observação, com objetivo de “treinar” o rendimento do olhar para o trabalho de campo etnográfico.

. Explorar a capacidade de imaginação e interpretação dos aspectos materiais, visuais e sociais dos objetos.

. Perceber que aprendemos a partir de uma pesquisa, pois há camadas de sentido na vida social que exigem tempo e convívio para serem compreendidas, isto é, não estão acessíveis num contato superficial.

. Compreender que os objetos são carregados de valores simbólicos, socialmente construídos, como escreveu Marshall Sahlins*: “Nenhum objeto, nenhuma coisa é ou tem movimento na sociedade humana, exceto pela significação que as pessoas lhe atribuem.”

. Promover um ambiente descontraído de trocas, afetos e risadas, gerando aproximações e conexões entre os participantes.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material necessário:

. Folha de caderno comum e caneta. (Ou folha de papel A4 liso e material de desenho, se for uma aula com interesse na produção gráfica.)

. Objetos comuns presentes na sala de aula (Ou objetos trazidos de casa, se quiserem explorar histórias mais pessoais.)

Dinâmica – Como conduzir a oficina:

Preparação:

. Pedir para os alunos saírem da sala levando apenas um caderno (ou folha de papel) e uma caneta (ou material de desenho).

. Com os alunos ausentes da sala, o professor coloca objetos que estejam no ambiente perto do quadro da sala, no tablado (se houver) ou no centro da sala (a depender do tamanho da turma, da sala etc.). No caso de objetos pequenos ou trazidos de casa, é bom apoiá-los em folhas de papel Kraft grandes ou em cartolina branca. As mochilas e bolsas dos alunos são ótimos objetos para esse exercício (ver imagem abaixo). É importante selecionar menos objetos do que estudantes (por exemplo, 10 objetos para 30 alunos).

mochilas

Parte 1 – Observação:

. Chamar os alunos de volta à sala, avisando que eles não devem identificar se o seu objeto foi selecionado. (Lembrar também que  o trabalho não é para nota e não tem certo ou errado.)

. Pedir que os alunos se sentem de modo que possam escolher um objeto para observar, em silêncio, por cinco minutos. A escolha é livre e não deve ser compartilhada em voz alta. Ao final do tempo, explicar as tarefas abaixo que devem ser feitas na mesma folha.

. Desenho: cada aluno deve fazer um esboço do objeto escolhido com toda calma, prestando o máximo de atenção possível tanto à forma geral quanto aos pequenos detalhes.

. Texto: cada aluno deve inventar um nome próprio para o objeto escolhido (Maria, João, Ariel etc.) e escrever uma pequena história como se este objeto fosse o personagem nomeado, usando a primeira pessoa do singular (exemplo abaixo).

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Parte 2 – Compartilhando as histórias

. Selecionar um objeto e chamar os alunos que o escolheram para dizer o nome, contar a história e mostrar o desenho. Eles podem ir pra frente da turma ou compartilhar na roda no chão, dependendo de como vocês estiverem organizados. Se a turma for pequena, cada aluno pode ler toda a sua história mas, se o grupo for grande, é melhor que leiam apenas uma ou duas frases. Esse é um momento para deixar todos à vontade, curtindo as histórias criadas; por isso, é bom pedir a um aluno mais extrovertido que comece. (À medida que o exercício avança, os demais vão se tranquilizando e se divertindo.)

. Depois que as histórias do primeiro objeto escolhido são compartilhadas, é o momento de trocar ideias. Quais foram os nomes atribuídos? Houve um gênero? Quais foram os pontos em comum das histórias? E os diferentes? Quais aspectos do objeto (ou do observador) levaram às narrativas e interpretações?

. Para continuar, peço que o dono do objeto se identifique. É sempre com um sorriso que a pessoa levanta a mão! Acho que é um momento em que eles se sentem presentes, para além do seu papel de alunos. Perguntamos então o que ele/ela achou dos nomes e das histórias; e se pode contar um pouco da vida do objeto, se tem um nome, de onde veio, por onde andou etc.

. Nesse processo, todas as pessoas envolvidas vão se conectando por meio das narrativas e dos significados que os objetos suscitaram. Vamos aprendendo sobre os laços afetivos, as redes de sociabilidade, as singularidades individuais e os comportamentos compartilhados (ou não).

. O exercício vai se repetindo com os demais objetos, até que todos os alunos tenham participado.

. Um aspecto relevante numa turma com jovens universitários é que a grande maioria dos objetos foi presente de alguém afetivamente próximo. Essa constatação abre para um debate mais amplo sobre como os objetos “falam” de valores (padrões de gostos, visões de mundo etc.) e indicadores sociais (ocupação, geração, gênero, nacionalidade etc.) das pessoas envolvidas.

Desdobramentos

. Para além dos objetivos da aula, listados acima, já propus dois tipos de exercícios decorrentes dessa experiência, em ambos retirando o lado ficcional da narrativa:

. Um deles é repetir em casa o trio “observação, desenho e escrita” com um objeto que o aluno considere especial na sua história de vida. Na aula de entrega desse material, colocamos todos os trabalhos no quadro para a turma observar e debater. (Geralmente, só faço essa proposta em oficinas de antropologia e desenho.)

. O segundo exercício é levar essa experiência para o trabalho de campo. O objetivo é explorar a habilidade para detectar objetos significativos para o campo escolhido, exercitando a análise de seus aspectos simbólico-sociais. Geralmente, em turmas de pesquisa etnográfica, peço que façam isso com dez objetos (imagens e textos) para depois selecionarem alguns para uma análise mais aprofundada.

Eu poderia passar a noite contando mil histórias que surgiram desse exercício, mas o post já está muito longo. Tivemos choros, risadas, abraços, descobertas, análises filosóficas e antropológicas intermináveis… Muita coisa pode surgir dessa dinâmica, das acadêmicas até as inusitadas: uma vez, sem combinar, três pessoas que nunca tinham se visto antes nomearam uma bolsa com o mesmo nome: Matilde!

Deixo agora por conta de vocês: experimentem e me digam como foi, tá?

* O trecho citado está em SAHLINS, Marshall. “La pensée bourgeoise: a sociedade ocidental como cultura”, In: Cultura e razão prática. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003 [1976], p.170.

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts com meu último artigo sobre antropologia e desenhodicas de escrita da Natalie Goldberg,  25 dicas de edição de textos, sobre brincar de pesquisar, sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre os desenhos: Objetos que são parte da minha história, da esquerda para a direita: chocalho marajoara que foi do Antônio bebê (ganho em Belém-PA), porta-coisinhas de louça que foi da minha avó Lydia, minha caneca preferida (de Oxford, UK), bonequinha de pano que a Alice mais amava quando era pequena. Todos foram desenhados para um projeto de troca de desenhos num caderninho Laloran com canetinhas de nanquim e coloridos com aquarela. Depois conto mais sobre o projeto!

Agradeço aos alunos pela cessão dos desenhos das bolsas e mochilas!

Você acabou de ler “A vida simbólica dos objetos – ideia para aula lúdica (2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2016. “A vida simbólica dos objetos – ideia para aula lúdica (2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/s42zgF-objetos“. Acesso em [dd/mm/aaaa].  

 


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Brincando de pesquisar – Ideia para aula lúdica

paletatorta

Como prometi, hoje vou explicar a brincadeira que fiz com a turma de Antropologia II logo na primeira semana do semestre. Acho que o exercício vale para ensino médio, graduação ou até pós, por que não? Resolvi postar aqui no formato de “plano de aula”. Assim, fica mais fácil para quem quiser experimentar com seus alunos. Depois me contem!

Objetivos da aula:

. Compreender que os indivíduos são diferentes e levam essas diferenças consigo, para além das diferenças nos seus aspectos visuais, que impactam no nosso primeiro contato.

. Compreender que os indivíduos são semelhantes dentro de certas condições sociais; e isso fica claro quando os comparamos sob certos critérios.

. Compreender que precisamos levar em conta essas duas dimensões (acima) para conhecermos a nós mesmos e aos outros.

. Uma pesquisa deve gerar conhecimento e nos transformar. O papel começa em branco, mas deve ser preenchido por algum conteúdo. Precisamos aprender algo a partir de uma pesquisa.

. Uma pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material necessário:

. Canetas para quadro branco

. Papeis A4 para cortar em 6 (É melhor o professor levar 1 folha para cada aluno)

. 6 pedaços de papel com números grandes de 1 a 6 para classificar as respostas sobre uma mesa

Dinâmica – Como foi feita a aula:

Avisar que: As respostas são anônimas; não é para nota; não tem resposta certa ou errada; conta como participação. Pedir que tentem ser bem específicos na resposta.

Preparação: Pedir para os alunos cortarem o papel em 6 pedaços e numerar. (Desenhei um papel com divisão em 6 no quadro)

Quadro: Escrevi as perguntas abaixo no quadro.

Alunos escrevendo: Pedi que os alunos respondessem nos pedaços de papel numerados (cada papel recebeu duas respostas, por ex., 1a. e 1b.), dando aproximadamente 1 minuto para resposta (sem precisar copiar as perguntas).

1) Desde que me entendo por gente, tenho…
a. dificuldade com..
b. facilidade com…

2) Na minha vida…
a. a maior tragédia é…
b. o maior privilégio é…

3) Meu traço mais marcante para…
a. os outros é…
b. para mim é…

4) Hoje em dia…
a. meu maior medo é…
b. minha maior coragem é…

5) Se eu pudesse, gostaria de…
a. aprender a…
b. viajar para …

6) O que me faz…
a. mais feliz é…
b. mais infeliz é…

Após as respostas:

. Cada aluno colocou suas respostas na mesa de acordo com o número correspondente. Ou seja, ficamos com pilhas de respostas 1, 2, 3 etc.

. Cinco alunos voluntários vieram, um de cada vez, ler 6 respostas aleatórias, uma para cada número, formando assim um  “personagem”. Foi emocionante, engraçado, estranho, surpreendente, interessante! Em muitos casos, percebemos repetições/padrões, mas também diferenças, distâncias e individualidades.

. Pedi para eles escolherem um número para eu ler todas as respostas. Eles escolheram o número 6 (Feliz/Infeliz). Achei bem significativo, pois foi nesse item que apareceram algumas imagens mais subjetivas. Li as respostas para a pergunta 6B (motivos de Infelicidade) e fui dividindo em dois grupos (em quantidades quase iguais). Perguntei: “Com qual critério eu dividi essas respostas?”. Eles responderam corretamente que foi “infelicidade social” (por ex. desigualdade social) ou “infelicidade individual” (por ex. terminar um romance). Peguei o grupo “social” e li as respostas da questão 6A (motivos de Felicidade). Muitos papéis foram parar na pilha “individual” nessa questão. Ao final, restaram apenas 4 papéis na resposta 6A do tipo “social”! A turma foi me ajudando a interpretar as respostas binariamente, mas acabamos decidindo criar uma categoria meio-termo para respostas com a palavra Arte e Amor em geral. O restante ficou no grupo “individual”. Todo o processo gerou bastante diversão geral, e também um material para debater sobre diferenças, semelhanças e possibilidades de classificação, como era o objetivo da aula desde o início.

. Fui ao quadro novamente e tentamos classificar as perguntas (da 6ª para 1ª) em tipos de informação. Com a ajuda dos alunos, decidimos que cada dupla de perguntas correspondeu aos seguintes recortes mais gerais: 1-Aptidão/Personalidade; 2-Realidade/Sociedade; 3-Personalidade/Identidade; 4-O que nos move/Atitude; 5-Desejos/Sonhos/Futuro; 6-Gostos/Sentimentos/Aspectos sociais vs. psicológicos. (Os termos são deles!)

. Fiz uma observação de que não coloquei nenhuma pergunta relacionada a aspectos visuais das pessoas de propósito, para não criar constrangimentos (por ex. risos da turma diante de alguma resposta), mas que eles precisariam ser levados em conta também. Expliquei que as perguntas foram apenas pretextos para mostrar como é interessante conhecer as pessoas e seus projetos… Falei da importância de sairmos do piloto automático (na vida e no pensamento) para podermos aprender e gerar conhecimento.

Nossa avaliação:

. A turma riu em vários momentos (de leituras das respostas, especialmente). Achei que criamos um ambiente de atenção, respeitoso e divertido, bem favorável à proposta. Notei um sinal positivo nos tempos de hoje: ninguém saiu mais cedo ou pareceu estar no celular!

. Fiquei com vontade de reproduzir aqui um monte de respostas legais, mas o post ficaria ainda mais enorme… Se ficaram curiosos, façam a experiência e vejam o que acontece.

. A monitora Aimée Weiss fez uma avaliação por escrito que me deixou muito feliz (obrigada, Aimée!). Um trechinho para vocês:

“O exercício foi bastante interessante justamente pela necessidade de autoanálise dos alunos em relação a sentimentos, personalidade, isto é, aspectos interiores, não externos, e que, por isso, precisam de maior reflexão para serem constatados. Não se trata de características dadas, evidentes/visíveis, mas sim que, para percebemos, faz-se necessário olhar e observar a nossa vivência pessoal. Foi muito interessante perceber a grande quantidade de pessoas que se diziam tímidas ou com dificuldades de contato social. Acho que as tarefas desenvolvidas durante a aula incentivam uma participação e construção coletivas. Este aspecto, juntamente com o exercício de etnografia, será muito importante como desafio para essas pessoas, de maneira a sair de suas zonas de conforto para se comunicar. Ao mesmo tempo, os alunos mais extrovertidos vão precisar de mais cautela para a atividade de observação, contemplação, sem necessariamente recorrer à imediata comunicação verbal. […] A atividade também comprovou a importância da nossa autonomia, da colocação das nossas impressões e observações para alcançarmos conclusões numa pesquisa. Mostrou também aos alunos que qualquer tema pode ser usado para pesquisa, desde que demonstremos que temos algo a conseguir captar, uma descoberta a fazer. […]  Pude observar um grande interesse e concentração dos alunos com a atividade, justamente por ela sair do padrão acadêmico. Esses exercícios tornam a aula muito mais leve, prazerosa e divertida. Também notei que eles não ficaram vidrados no celular. :-)”

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender adesescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota da semana passada:

. Agruras de hospital: caí na mão de um técnico de enfermagem que mais pareceria um carcereiro! Ele me examinou (39,3 graus de febre, pressão baixa, desidratada) e, ao invés de ajudar, começou a me dar bronca: “bota a máscara porque tá dando muito H1N1” (a máscara me sufocando), “por que você não tomou remédio pra febre?” (eu tomei, moço); e depois de me furar várias vezes, ele não desistia: “a culpa é da sua veia que não tá aparecendo”! Ainda bem que minha sobrinha surgiu com a Wilma (outra técnica de enfermagem) e me salvou!

. Alice se recuperou das contusões e está apaixonada por tocar Lisbela no violão. Sei que elogio de mãe não vale, mas está lindinha demais! Pena que essa semana foi a vez dela ficar resfriada…

. Começamos maio com um plano familiar bem modesto: ler uma página de “Viagem ao centro da terra”, de Julio Verne, todos os dias. É o mesmo exemplar que li quando tinha a idade deles.

. Antônio, apesar da exaustão do ensino médio, está pintando e desenhando muito!

. Descoberta culinária da semana, nessa vida pós-açúcar: nibs de cacau orgânico. Uma delícia pra jogar em cima de qualquer fruta! Tem em qualquer loja de produtos naturais.

. Assisti a palestra TED “Uma história visual do conhecimento humano“, do pesquisador Manuel Lima. Além do conteúdo lindo e interessante, olha a coincidência: ao mandar o link para um amigo querido, ele me responde que tem o livro do autor sobre o tema! Peguei emprestado, claro. 🙂

. E outra palestra TED, essa para se divertir, sobre procrastinação, com o Tim Urban.

Sobre o desenho: Paleta de cores que fiz em 2015, no início do meu curso de aquarela no Atelier Chiaroscuro, da professora Chiara Bozzetti. Achei que dava uma boa ilustração para essa aula em que produzimos um monte de papeizinhos. As manchas foram feitas a partir das três cores primárias (as primeiras à esquerda) com todas as outras cores da minha paleta na época. É sempre um exercício válido. Recomendo!

Você acabou de ler “Brincando de pesquisar – Ideia para aula lúdica“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2016. “Brincando de pesquisar – Ideia para aula lúdica”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-lx . Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Ensinando antropólogos a desenhar

Foto01Sei que ninguém está interessado em antropologia numa sexta-feira à noite, véspera das eleições presidenciais mais disputadas dos últimos tempos. Então aceitem minhas desculpas pelo “intervalo intelectual”: é que só hoje consegui cumprir o compromisso de publicar o post da semana!

Saiu o artigo sobre o curso de desenho e antropologia que criei no IFCS/UFRJ! A experiência começou no primeiro semestre de 2013 e já está na terceira turma. Nesse texto, explico de onde veio a ideia do projeto e como desenvolvi algumas das oficinas propostas. Um resumo do resumo do artigo:

Apresento neste trabalho os resultados de uma experiência de ensino chamada “Laboratório de Antropologia e Desenho”, que propõe o desenho como ferramenta central para a pesquisa etnográfica. Alunos sem formação prévia na área foram apresentados ao ato de desenhar como uma forma de se conhecer o mundo.

Através de aulas práticas, as convenções em torno do desenho acabaram desconstruídas para, em seu lugar, reencontrarmos novas formas narrativas capazes de evocar graficamente ideias, encontros, diálogos, observações e percepções sobre a vida social. Por meio de exercícios, tratamos da formação dos pesquisadores aos dispositivos de diálogo e troca com o universo pesquisado, passando pelo processo de registro dos dados e da divulgação dos resultados.

Buscamos explorar as consequências, perguntas e soluções que emergem do ato de se ensinar a desenhar e construir narrativas gráficas no (e sobre o) trabalho de campo.

Na publicação, faço os muitos agradecimentos necessários e cito os autores que me ajudaram a pensar e planejar essa aventura. Mas queria deixar registrado um <<muito obrigada>> especial aos estudantes (bolsistas e alunos) que colaboraram ao longo do curso e que cederam seu tempo, suas imagens e seus textos para a pesquisa.

Espero que gostem!

O artigo completo pode ser lido aqui: Ensinando antropólogos a desenhar: uma experiência didática e de pesquisa. Foi publicado como parte do dossiê “Imagem, pesquisa e antropologia”, organizado por Andréa Barbosa (Unifesp), para a revista Cadernos de Arte e Antropologia, v.3, n.2. Vale a pena ver também os outros textos desse excelente volume.

Cordeiros da Bahia

Em breve, brevíssimo, uma versão em inglês do meu artigo estará disponível. E para quem tiver interesse em ler outros textos que escrevi sobre o tema: estão aqui.

Planos!

Agora – Estou escrevendo um artigo sobre os resultados dos trabalhos finais dos alunos (buscando incluir o material das três turmas que já passaram pelo curso).

No horizonte – Publicar online os destalhes de todas as oficinas (que se renovaram bastante desde o primeiro curso) para alunos e professores que queiram experimentar os exercícios em suas aulas.

Para 2015 – Começa uma outra fase da pesquisa. O tema é… surpresa!

Sobre o desenho inicial desse post: A imagem foi feita por mim num Ipad (App Adobe Ideas, caneta Bamboo) a partir de uma fotografia das alunas Poema Eurístenes (desenhando) e Bárbara Machado (sendo desenhada) tirada em sala de aula, no IFCS/UFRJ, durante uma das oficinas do curso.