Karina Kuschnir

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5 razões para dizer sim e Maio/2017

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Certa vez, minha amiga Claudia contou que sua neta mais velha era o oposto dela: adorava colocar salto alto, usar frufrus e passar maquiagem. Quando a avó hippie lhe perguntou porque ela fazia isso, a resposta foi curta e direta: “Porque sim, porque eu gosto, vó!”

Que simples. Isso de agradar a todo mundo é uma areia movediça que engole o nosso cérebro. No cotidiano, no mundo acadêmico, na vida. Com minha mania de querer justificar o que faço com base nos Valores Maiores do Mundo, vivo atormentada. Tocar violão com a Alice, comprar presentinho para os amigos, ir para a academia, desenhar e escrever para o blog — tudo que não se encaixa na categoria “útil/obrigatório” na minha agenda vira um debate interno: por que, por que, por que? Ainda estou aprendendo a dizer: “porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem”. Meninas que me leem: vamos treinar dizer essa frase em voz alta? Aí vai em destaque:

“Porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.”

Normalmente, numa revisão de texto bem-feita, eu cortaria o pronome “eu” dessa frase, já que há uma redundância em escrever “eu gosto”. No entanto, resolvi deixar redundante mesmo. Afinal, na contramão do mundo narcisista e egocêntrico, aqui no blog somos uma turma de problemáticos que precisa aprender a se aceitar.

Portanto, vamos treinar dizer, em várias situações:

  1. Vou fazer [tal e tal coisa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  2. Desejo [isso e isso] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  3. Vou me empenhar [em tal e tal coisa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  4. Vou me doar [para essa causa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  5. Gosto [dessa pessoa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.

E aí, conseguiram? É simples, é bobo, mas é forte, né? Notem que acrescentei na frase da neta da minha amiga a expressão final “porque me faz bem”. Sem esse detalhe, nosso eu destrambelhado correria o risco de sair por aí fazendo muitas, muitas besteiras. Não sei o de vocês, mas o meu com certeza. Por isso adicionei esse lembrete; para não me esquecer de que nem tudo que gosto, ou acho que gosto, me faz bem; e, para essas situações, talvez seja melhor dizer um singelo “não”.

O calendário de maio — esse mês que é o preferido de tantas pessoas e também um dos meus — foi inspirado num acontecimento das últimas semanas. Ajudando a Alice a arrumar as coisas da escola, percebemos que o lápis-de-cor vermelho dela estava no finzinho. Fui espiar na lata em formato de Bob Esponja onde guardamos lápis-de-cor usados. Ao procurar algum da cor vermelha, só achei cotoquinhos antigos, pequenos pedaços de memórias da vida das crianças. Fiz até uma foto para mostrar pra vocês.

mai2017 foto lapis akc 2017-04-28

Ainda bem que aquela Marie Kondo não faz sucesso aqui em casa. Ela jogaria tudo isso no lixo. Nós não conseguimos. Não foi à toa que outro dia a Alice tirou dez no trabalho autobiográfico para a aula de história. Um dos critérios de avaliação era a diversidade de fontes. Nem preciso dizer que tínhamos ticket de teatro infantil, ingresso de museu e até xerox do passaporte português do Ulisses. Imagina a felicidade do professor! E da mãe! Quanto ao lápis vermelho: consegui comprar um avulso na papelaria JLM, no Largo do Machado.

Sobre o desenho: Para o desenho no calendário, fiz os mini-lápis com uma canetinha preta de nanquim permanente Pigma Micron 0.2. Depois o Antônio me ajudou a escolher as cores e colorir. Tentamos sair do óbvio, explorando a caixa de Polychromos da Faber-Castell, utilizando ocres, sépias, sanguínea, turquesa, verde cobalto, entre outras. No final, fiz as sombras com uma caneta pincel Tombow cinza n.79.

Para imprimir o calendário, cliquem no .pdf ou na imagem acima (em .jpg).

6 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota das últimas semanas:

♥ Adorei o post Coordenando, escrito pelo João Marcelo Maia, avaliando o aprendizado positivo na sua gestão como coordenador do curso de Ciências Sociais da FGV do Rio. Acho importantíssimo valorizar o trabalho administrativo feito por professores, num campo que o torna invisível pelos critérios de agências e fóruns científicos. Li uma parte para minha turma no IFCS e tivemos uma boa conversa sobre o tema da saúde mental no mundo universitário. Em breve, conto aqui.

♥ Continuo na “dieta” de abstinência do Facebook e Instagram. Eu já tinha um uso parcimonioso, mas ando numa de escrever e ler mais, com menos interrupções. Também gosto da ideia de parar de enriquecer Zuckerberg e cia. Confesso que não sinto saudades dos feeds, mas sim dos amigos que fiz por lá… ainda estou na dúvida se devo (e como) voltar.

♥ Por falar em escrever mais, retomei a prática de escrever pelo menos 300 palavras todos os dias (de semana!). Utilizei um método assim na época em que escrevi as teses de mestrado e doutorado. É impressionante como dá para cumprir esse hábito, às vezes, em apenas 15 minutos! Além do prazer de “ter escrito”, acabo dando conta de registrar logo algum acontecimento do dia anterior que pode ser útil depois, como resumo de aulas dadas, ideias para o blog, aulas e planos futuros etc. Claro que, em alguns dias, fico empacada, digitando bobagens e tudo bem.

♥ Descobri um guia de Emojis fofo para usar no Todoist, o aplicativo que uso para anotar tarefas. Para quem gosta desse tipo de utilidade inútil, também existem guias de códigos-Alt para digitar símbolos em teclados comuns (como os coraçõezinhos — Alt-3 — dessa lista).

♥ Consegui convencer as crianças a dar uma chance à série Abstract: the art of design do Netflix. Muito simpática, pelo menos o primeiro episódio, com momentos que misturam documentário e animação.

♥ Pesquisando para dar uma aula, acabei assistindo a divertida palestra “Sua linguagem corporal molda quem você é“, da Amy Cuddy no TED Talks. Impossível não terminar sorrindo! ☺

Você acabou de ler “5 razões para dizer sim e Maio/2017“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “5 razões para dizer sim e Maio/2017”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-lapis. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Canetinhas, pra que te quero!

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Não me lembro quando descobri essas belezinhas Pigma Micron (da marca japonesa Sakura). Só sei que me apaixonei. São canetas de naquim à prova d’água (isto é, não borram quando você pinta com aquarela por cima), disponíveis em várias cores,  espessuras e até em ponta pincel (BR, de brush). Infelizmente, são descartáveis e, se usadas todos os dias, acabam rapidamente. As que eu mais utilizo (005, 0,1 e 0,2 pretas) duram cerca de um mês. Mas no dia do lançamento do Ulisses, gastei duas numa noite só, fazendo quase 150 dedicatórias! As coloridas eu economizo porque são lindas e difíceis de achar. Atualmente, estou comprando a Unipin (da marca Mitsubishi, também japonesa) porque tem em qualquer papelaria e está mais barata (cerca de R$11,00). A versão da Staedtler (alemã) é excelente, mas difícil de comprar aqui no Rio. Esse ano testei também a Copic Multiliner SP (mais uma japonesa) que permite o uso de refil.

Comparando as quatro marcas: a Pigma Micron é a minha preferida segundo quatro critérios: cores intensas (linha bem preta ou na cor escolhida); macia de desenhar, secagem rápida e embalagem bonita — além da cor bege pouco usual, tem a florzinha (símbolo da marca Sakura) e detalhes em violeta. Vejam que sonhos de consumo esse estojinho básico e essas cores!

A Staedtler fica em segundo lugar: empata na cor intensa e na secagem, mas a ponta é menos macia e a embalagem é sem graça. A Unipin vem em terceiro em todos os critérios. E a Copic ficou em último na minha lista pela decepção. O  atendimento no site brasileiro é impecável e preço parece valer a pena para um produto reutilizável (e portanto, mais ecológico). Apesar de bonitinha, a caneta é pesada, a ponta é áspera e o refil dura poquíssimo, além de ficar se soltando do corpo principal, por mais que eu aperte.

(PS: Todas as quatro são à prova d’água! *obrigada ao Durval Amorim por me lembrar de escrever isso!)

Há muito tempo atrás, meu avô me deu um estojo de canetas técnicas Rapidograph (marca Koh-i-Noor), que utilizam refil de nanquim. Infelizmente, acabei me afastando do desenho  e não fui cuidadosa o suficiente com suas peças delicadas. Acho que doei para alguém que me disse que sabia como limpá-las. Até hoje tenho dificuldade de usar caneta tinteiro. As poucas que ainda possuo estão encostadas, semi-entupidas ou com as pontas amassadas, aguardando o destino.

Esta foi mais uma contribuição para a nova seção do blog sobre materiais de desenho. O tema está sendo como brinquedo novo de criança: difícil de largar!

* 4 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-emocionantes-vertiginosas-ou-dignas-de-nota da semana:

* Pesquisando para o post, descobri que a Koh-I-Noor começou na Áustria, em 1790. E isso me lembrou que adorei o filme A dama dourada (Woman in gold), sobre a trajetória do quadro de Gustav Klimt, da sua origem ao enfrentamento do nazismo e do nacionalismo. (Não vou fazer link porque acho que os trailers estragam a experiência de assistir aos filmes.) Minha irmã disse que o livro é melhor (sempre, né?), mas muitas pessoas da minha família se emocionaram com a história. Há vários pontos em comum com a violência sofrida pelos meus bisavós de Berlim. Meu avô fugiu da Alemanha na mesma época em que a personagem principal fugia de Vienna, sabendo que provavelmente nunca mais veria seus pais, seu irmão, familiares e amigos, como de fato aconteceu.

* Uma amiga queridíssima trouxe de Londres um kit de cinco pincéis da coleção Anna Mason Art para a Rosemary & co. São específicos para aquarela, com pelo sintético bem macio e curto, nos tamanhos 5, 3, 1, 0 e 000. Estou adorando!

* E já que estamos falando tanto de materiais, deliciem-se com a tag Art Tools do Parka Blogs (já indicado na lista de inspirações aqui do blog). O site todo é vertiginosamente legal!

* Fiz esse cartãozinho para agradecer às dezenas de mensagens de feliz aniversário (21/08) que recebi na semana passada. Para todos que ainda não viram (no facebook), aí vai meu muito, muito obrigada!

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Sobre os desenhos – O desenho da canetinha Pigma Micron foi feito no verso de um papel Canson Pintura escolar Bloco A3. Fiz tudo com lapiseira primeiro, depois passei o nanquim (por ironia: com canetinha Unipin! 0.05) e apaguei com um limpatipos Staedtler (adorei, aquisição recente!). Pintei com os pincéis novos e aquarela Winsor & Newton (usando principalmente Ochre, Burnt Siena, Payne’s Grey e Neutral Tint). Mas usei também uma cor emprestada pela Chiara chamada Amarelo Napoles (só vem em kits Pentel), que é meio fosca e perfeita para fazer esse bege de plástico. O desafio foi fazer as letrinhas em violeta. O “Pigma” foi escrito com uma Staedtler triplus fineliner, que era fina o suficiente, embora não da cor certa. O número “005” foi feito com uma Stabilo point 88 mini violeta. As duas canetinhas não são à prova d’água e borraram um pouco (principalmente a Stabilo). A linha horizontal foi pintada com tinta Cobal Violet (WN) e pincel 000 Winsor & Newton University (aquele vermelhinho que desenhei para a página de materiais, pois descobri que faz uma linha mais fina do que o mesmo número da Anna Mason). As tampinhas das canetas vistas de cima foram feitas com os materiais acima, mas coloridas com as próprias canetinhas, no caso da vermelha, da azul e da siena. Vejam como as cores são incríveis: super brilhantes, mesmo nessas miniaturas.

O desenho do cartão de agradecimento foi feito mais ou menos da mesma forma, a partir da observação de um buquê de cinco cores de astromelias (R$5,00 reais cada ramo na Cobal). Eu mesma comprei, mas não posso ter flor em casa porque os gatos ficam doidos de vontade de comer; e se comerem passam mal… Essas estão trancadas no banheiro, coitadas. (E logo depois que escrevi isso, o Ulisses deu um jeito de entrar no banheiro, comer algumas flores e vomitá-las no tapete do meu quarto!) Em relação ao desenho: achei que fiz linhas demais e o resultado saiu meio pesado. A inspiração foi o trabalho do artista Tommy Kane, mas não cheguei nem perto da mistura de precisão e leveza que ele consegue. A moldurinha do cartão foi feita de forma eletrônica no programa Picasa, um software de fotos grátis do Google, super fácil de usar.


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Drawing Land

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Imaginem um lugar onde todos andam a olhar para cima e para baixo ao mesmo tempo; onde as pessoas se sentam em banquinhos minúsculos, munidas de seus cadernos e de instrumentos delicados e coloridos. Um lugar onde se pode ficar horas a fio numa atividade silenciosa, sob o sol ou sob a chuva, na calçada, na mesa ou no chão, e ninguém acha estranho. Um lugar em que se pode estar só, mas também se comunicar com facilidade, ainda que não se fale a mesma língua. Um lugar onde cadernos, papéis e cartões passam de mão-em-mão; onde se compartilham técnicas, materiais e ferramentas.

Imaginem um lugar onde não importa a idade, a cor, a religião, o sexo, a renda ou a nacionalidade. Um lugar onde um caderno é o passaporte; onde todos são iguais, mas ao mesmo tempo únicos, com direito a expressar seu olhar íntimo sobre o mundo, com suas cores, sua voz, seu ritmo…

Vocês podem não acreditar, mas esse lugar existe: é a terra do desenho! E eu estive lá na semana passada. Nosso encontro foi em Paraty, cidade histórica do Rio de Janeiro, durante o 5o. Simpósio Internacional dos Urban Sketchers. Foi mágico passar seis dias nessa pequena “Drawing Land” com seus adoráveis 243 habitantes.

Vai demorar para eu processar tudo que aprendi nessa semana. E mais ainda para acreditar na incrível recepção que recebi ao apresentar o projeto sobre antropologia e desenho que venho desenvolvendo. Acho que nunca estive diante de uma platéia que compartilhasse tão intimamente das mesmas motivações.

Aos poucos, prometo que vou publicando aqui no blog mais desenhos e anotações que produzi antes, durante e depois do evento! Abaixo, as primeiras páginas de anotações da excelente atividade de mapeamento gráfico ministrada por Richard Alomar.

richardalomar

Novas da Alice

Eu [brincando de jornalista] — Alice, como você se sente tendo uma mãe que dá palestra em inglês em Paraty?

Alice — Ah, mãe, legal. Mas eu preferia que fosse em Nova Iorque!

E na terça à noite:

Alice — Mãe, preciso faltar a escola amanhã!

Eu — Por que, Alice?

Alice — Ah, porque sim!

Eu [naquele tom de conta-outra] — A-li-ce…

Alice — É o meu Neuer, mãe!!! Ele vai jogar contra a Argentina!

Sobre o desenho: Na parte de cima do calendário de setembro, redesenhei coisinhas que vi em Paraty durante a já mencionada atividade proposta por Richard Alomar. Para a parte de baixo do calendário, fui atrás das portinhas de Paraty que registrei em fotos e achei na internet. Tudo feito com canetinha Pigma Micron 0.05 e colorido com aquarela e lápis de cor Prismacolor.