Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Saber esperar

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Semaninha difícil,  em que precisei de elevadas doses de paciência e compaixão. Sabem aqueles dias em que você se culpa por tudo, e faz até a burrice de atravessar a cidade sem levar o que precisava entregar do outro lado? Pois é. Tudo isso junto e o pior: duas pessoas amadas sofrendo, sem que eu pudesse fazer nada.

A cada final de dia, porém, conversando com as crianças, chegávamos à conclusão de que os piores momentos trouxeram também alguns dos melhores. (Para quem não conhece, todas as noites fazemos aqui em casa o jogo do melhor e do pior.) E sabemos que nossas dificuldades ficam pequenas frente a tantas outras.

Fiquei em muitas filas e acabei conhecendo mulheres incríveis: uma fisioterapeuta surda (primeira à esquerda, na imagem acima), uma senhora com artroses graves que conseguiu se desaposentar por invalidez (a primeira à direita, no desenho acima).

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Num outro dia, conheci essa senhora da imagem acima, com um cabelo todo cinza claro, de uma cor natural tão bonita, que não pude deixar de elogiar. Vaidosa, ela foi me contando sua história de mansinho… era sobrevivente de uma leucemia.

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Num outro dia, ajudei a senhora (acima), dessa vez, a encontrar o Centro Médico onde iria acompanhar a ultrassonografia da filha, a espera de seu primeiro neto, ou neta! Eu tinha acabado de ter uma notícia pessoal tão ruim… mas, ao conversar com a senhora Regina, me dei conta de que estávamos indo para o mesmo local onde há 17 anos fiz a primeira ultra da gravidez do Antônio, acompanhada pelo seu avô, ansioso por ouvir bater o coração do primeiro neto. Deixei-a tão agradecida na porta do prédio, por eu tê-la acompanhado. Mas senti meus olhos marejarem, certos de que foi ela quem me ajudou.

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Outra imagem da semana veio do livro que estou lendo e amando: Testemunha ocular, de Peter Burke. Não sei se já contei aqui, mas foi uma sorte ter comprado essa preciosidade antes que se esgotasse. Prometo que faço um post quando terminar. Essa moça estava na foto de um quadro analisado no livro. Achei-a com uma pose de “espera”, com as outras tantas mulheres que encontrei nesses dias de clínicas e filas.

Fiquem com meu desejo de boas férias, com muitos encontros e histórias bonitas para contar. Que possamos saber esperar, tendo esperança, como a Alice me ensinou outro dia. — Esperar não é ficar parada, mãe. É muitas coisas: ter esperança, contar com, não desistir.

Sobre os desenhos: Comecei um pequeno caderninho vermelho e resolvi que todos os desenhos nele seriam com uma canetinha vermelha 0.5 da Muji. As sombras em rosa foram feitas com uma caneta pincel Tombow e outra da Koi brush Sakura. As duas mulheres que me contaram um pouquinho de suas vidas foram desenhadas depois, de memória. Na imagem destacada do post (abaixo), alguns itens que adoro e que sempre ajudam a esperar! As cores são também uma homenagem a Fran Meneses, uma ilustradora chilena (vivendo na Inglaterra, atualmente) que admiro e acompanho no Youtube e no Instagram.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Saber esperar”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2wt. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Passos suaves, minúsculas promessas

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“Meus avós tiveram a sabedoria de me ensinar o seguinte: a gente não faz festa porque a vida é fácil. A gente faz festa exatamente pela razão contrária. (…) Não se samba porque a vida é mole. Se samba porque a vida é dura. O sentido das celebrações, ao menos para mim, é esse. Festa e fresta são quase a mesma coisa e não concebo uma sem a outra.” (Luiz Antonio Simas*)

Fresta e festa… Quando penso nas dificuldades coletivas de 2015, lembro que bebês nasceram, animais dormiram, livros se escreveram, artes e músicas ecoaram, abraços se apertaram. É como jogar o “o pior e o melhor” numa grande escala. (E agradeço comovida as mensagens sobre o nosso joguinho caseiro ter feito tanto sentido para vocês.)

Começar esse post com uma citação do mural do *Luiz Antonio Simas, cujos textos conheci através da querida Barbara Copque, é também uma forma de homenagear o mundo virtual, em especial o Facebook. É de lá que recebo a maioria dos visitantes desse blog, e é por lá que chego aos textos e imagens de amigos, ativistas e artistas que tanto admiro ou passei a admirar. É um lugar de ruídos, excessos e gritaria? Sim. Mas prefiro ver que é também um imenso espaço para trocas, mensagens, descobertas, aprendizados e encontros, com potência, intensidade e afeto.

Renovo minhas palavras do final do ano passado: “Que todas as listas de inutilidades fiquem pra depois; e que possamos escutar nossos desejos mais íntimos, assim como respeitar os desejos daqueles que amamos; e também daqueles mais distantes com quem compartilhamos a vida coletiva.” E acrescento:

Diante dos excessos, muitos de nós temos dificuldade de filtrar, focar, realizar. Por isso, nos desejo um 2016 de pequenas coisas: passos suaves, minúsculas promessas, algumas conquistas. Como disse o Danny Gregory, se prometermos pouco, alcançaremos muito. E que não esqueçamos de jogar o jogo, reconhecendo e chorando as dores, mas valorizando e vivendo os amores!

Boa sorte e momentos presentes em 2016!

Danny Gregory: Adorei a expressão “underpromise, overdeliver” nas resoluções de ano novo dele.

Sobre o desenho: Calendário de janeiro/2016 com o tema dos recortes de Matisse (abaixo a imagem completa). Esse mês foi sofrido, e pela primeira vez fiz um calendário que não aproveitei. Comecei tudo de novo, usando as formas do Matisse como apoio para seguir em frente; e contando com a ajuda do filhote Antônio na consultoria das cores. Fiz primeiro as formas com canetinha preta Pitt Faber-Castell S (0.3mm). Depois colori com hidrocor Staedtler triplus color e algumas com Koy Coloring Brush Pen da Sakura. (São estojos de criança, baratinhos lá fora, mas cada vez mais impossíveis de caros aqui.)

Janeiro/2016 – clique abaixo para imprimir ou abra esse PDF!

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