Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Sete coisas invisíveis na vida de uma professora

estojokkpEsse post não é uma obra de ficção: todos os fatos relatados abaixo aconteceram (e acontecem) comigo, professora universitária desde 1992, e com todas as professoras que conheço. Dedico esse texto às colegas da UERJ e das instituições do Estado do Rio de Janeiro em geral, trabalhando em condições aviltantes, há vários meses sem salário.

Dando aula sobre a obra “A representação do eu na vida cotidiana”, de Erving Goffman, sempre me sensibilizo com o exemplo das enfermeiras. O autor utiliza essa profissão para ilustrar um tipo de atividade que precisa encontrar estratégias para tornar seu trabalho visível, já que boa parte de suas tarefas e habilidades técnicas passa despercebida pela maioria das pessoas.

Me espanta que o Goffman não tenha usado o caso dos professores, esses seres que só parecem trabalhar quando estão diante de alunos numa sala de aula, algumas horas por semana. Opa, que beleza de emprego, né? Só que não! Aquela horinha diante dos estudantes é uma ínfima parte de trabalho na representação cotidiana da nossa vida.

Para sanar esse problema, aí vão os bastidores da vida de uma professora, atividade que adoro exercer, mas que me faz acordar todos os dias pensando: como vim parar aqui?

1) A aula em si — Para cada 50 minutos de aula ministrada com entusiasmo, passo umas 3 horas estatelada de exaustão depois. Se a aula foi ruim, me torturo pela minha incompetência. Se foi boa, fico feliz e mais cansada ainda, porque dar uma aula boa significa empenhar mais o corpo, a emoção e a voz. Como a maioria das aulas é de dois ou três tempos seguidos, de até 3 horas e 30 minutos, multipliquem o tempo de “estatelamento” proporcionalmente. Ou seja, uma manhã dando aulas é um dia inteiro perdido. Um amigo meu chama esse cansaço pós-aula de “estado vegetativo”. É bem por aí.

2) Antes da aula (1) — Retrocedendo um pouco. Antes de dar uma aula, é preciso prepará-la, certo? Na minha prática, pelo menos, sim. Não confio na memória, muito menos na ideia de que os alunos lerão todo o material didático e terão perguntas capazes de me ocupar por um tempo inteiro. Portanto, só me resta preparar. Para 50 minutos de aula sobre um autor, digamos que eu tenha sugerido um texto de 50 páginas. Para reler esse texto com calma, anotando um resumo com seus pontos mais importantes, levo de duas a três horas. Para ler material de apoio e, em alguns casos, preparar um datashow, mais duas ou três horas. Agora multipliquem novamente para as 8 horas semanais em sala de aula. Numa semana dando aula terça e quinta, por exemplo, a segunda e a quarta estão perdidas nisso.

3) Antes da aula (2) — Ok, vocês devem estar pensando, mas você não repete os cursos de um semestre para o outro? Sim, às vezes. Por isso escrevi acima que iria “reler” um texto. Dificilmente coloco um material num programa de curso que eu nunca tenha lido antes. É muito arriscado. Por outro lado, se quero ser uma boa professora, vou ficar repetindo eternamente os mesmos autores, textos e aulas? Não dá. Preciso ler coisas novas, acompanhar debates interessantes na área e, no meu caso, principalmente, estou sempre me desafiando a planejar uma aula, não apenas um monólogo. Portanto, seja relendo, seja ampliando meus conhecimentos, seja planejando coisas novas, para cada hora em sala de aula, gasto pelo menos o triplo para me preparar.

4) As bombas de efeito moral — A sobrevivência ao looping preparação-aula-cansaço-preparação-aula-cansaço até que vai bem por umas seis ou sete semanas. O problema é que na oitava semana existem as bombas de efeito moral: corrigir a primeira leva de provas e trabalhos. Pelo menos na universidade, ainda não inventaram um sistema de dar aulas sem avaliar. Para corrigir bem cada prova levo cerca de 15 minutos. Se tenho 100 alunos num semestre, são 1500 minutos ou 25 horas. Ok, vocês vão dizer que estou exagerando. Não estou, mas darei um desconto. Digamos que eu não tenha tantos alunos assim, ou que eu leve apenas 8 minutos por prova (considerando que algumas são muito curtas ou inacabadas): ainda seriam quase 14 horas de correção. Como sou humana, o máximo que consigo me concentrar nesse tipo de atividade num dia é 5 ou 6 horas, o que, contando os intervalos para comida e cafeína, somam três dias inteiros só para as primeiras provas do semestre. Multipliquem pelas duas ou três avaliações seguintes… Isso sem falar na hipótese de ter que ficar verificando no Google se o estudante copiou um texto da internet. Quando acontece, volto três casas no video-game, porque preciso ligar para uma amiga professora, pedir um ombro para desabafar e me convencer de que nem tudo está perdido.

5) Como tudo aconteceu — Se vocês leram até aqui esse post, devem ter simpatia pelos professores ou, quem sabe, querem até exercer o ofício, certo? Pois então… como alguém se torna professor(a)? Nossa-senhora-do-tempo-de-estudo te abençoe, meu filho. São meses estudando para concurso, anos fazendo doutorado, mestrado, especialização e mais alguma coisa. Não vou entrar nas minúcias dessas pedreiras… Só façamos as contas. Nos tempos atuais, são uns dois anos de mestrado, mais 4 de doutorado, e pelo menos 1 ou 2 anos de dedicação (e um pouco de estado vegetativo, claro) antes ou depois disso tudo, o que dá fácil uns 8 anos estudando, escrevendo e outras coisinhas.

6) A vida paralela — Essas “outras coisinhas” que mencionei acima acontecem todas fora da sala de aula, e não são detalhes. Sempre que uma professora entra em uma sala de aula, dezenas de outras professoras estão: realizando pesquisas, dando palestras, orientando alunos (um mundão à parte!), participando de bancas e concursos de seleção, escrevendo pareceres e cartas acadêmicas, colaborando em comissões de inúmeros tipos, atuando junto às agências de fomento, implementando projetos de extensão, assumindo cargos administrativos, criando programas de pós-graduação, mestrados e doutorados, editando revistas científicas, gerindo grupos de pesquisas e entidades da área, preenchendo formulários, editais, relatórios e prestações de contas, lendo, escrevendo, publicando. O tempo nunca é o suficiente, porque a produção de conhecimento da humanidade é infinita — e esta é a matéria-prima de todos esses trabalhos, das aulas inclusive.

7) E a vida não-paralela — Ah, sim, e eu já ia esquecendo: também temos uma vida não acadêmica para viver. Nos apaixonamos, casamos, descasamos, sofremos, envelhecemos, temos filhos, doenças, famílias, casas, mudanças, paixões, histórias, atividades políticas, práticas e lúdicas. Tudo isso e mais um pouco.

Com certeza, esqueci de um monte de coisas, pessoal. Mas tudo bem. Que esses bastidores da nossa vida cotidiana sejam mais visíveis para que, além de faltar salário, não falte o reconhecimento de vidas inteiras dedicadas a esse ofício tão essencial a todos os outros.

Outros posts sobre esses assuntos podem ser lidos seguindo a tag mundo acadêmico. Gosto especialmente de um antigo, que escrevi sobre o Paulo Rónai.

Me contem nos comentários se tudo isso faz sentido para vocês.

Pós-escrito 1 (22/06) – Pessoal, muito obrigada! Não imaginava que tanta gente ia se identificar… Juro que acordei pensando que devia ter agradecido mais e enfatizado como gosto de ser professora etc. Felizmente, uma amiga querida me escreveu no Whatsapp: não precisa agradecer mais não! Fui rever o texto e vi que, afinal, já estava escrito que “adoro exercer” a profissão. O que me faz perceber o quanto de culpa todos carregamos por ter uma ocupação privilegiada sim (por nos permitir estudar e ler coisas maravilhosas), mas que nem por isso deixa de nos exigir sangue, suor e lágrimas quase todos os dias. Como não gosto de alimentar a cultura do sacrifício, o que tenho feito é abrir mão de muitas das coisinhas paralelas que listo no texto… Também queria agradecer especialmente aos professores não universitários que têm escrito e compartilhado… Tenho uma admiração infinita por vocês . E a todos que estão começando: espero que o texto não seja para desanimar e sim para perceber o tanto de planejamento e cuidado consigo próprio que um professorx precisa ter… O que não dá é para aceitar tudo, nem passar por cima, nem achar que é normal viver esgotado, tomando remédios para dormir e acordar, sem vida pessoal. E viva a chegada das férias 🙂 — só precisamos sobreviver às bombas de efeito moral antes!! 😉

Pós-escrito 2 (22/06) – Gente, a coisa mais linda de ter escrito esse post é ver centenas de professores sendo elogiados em público! Nos compartilhamentos no Facebook, tem montes de alunos fazendo declarações de amor às suas professoras e professores. Só isso já vale tanto! No arte, se fala às vezes da ressaca da vulnerabilidade, quando você lança sua obra ao mundo e fica um vazio, porque nunca se tem bem a certeza de como vai ser recebida. Agora, multiplica isso por todas as aulas que já demos… é muita sensação de vulnerabilidade junta. Aliás, voltando ao Goffman, ele acerta de novo quando diz que a plateia (alunxs) tem uma vantagem enorme sobre o ator; ela não está lá se expondo… nós sim. Multiplico tudo isso por milhões para os colegas do ensino básico, para os horistas das faculdades privadas (já dei 26 horas de aula como horista por semana, em 3 empregos; e grávida). Obrigada por essa onda maravilhosa de energia a todos que comentaram aqui também. 

Sobre o desenho: Professora que é professora tem que ter um estojinho na bolsa, né? Aí vai o meu atual, com post-it, marcador amarelo, caneta, elástico, pen drive, lápis-borracha, canetinha roxa e marcador de quadro branco. Só esqueci da lapiseira! Desenhei direto com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron 0.1. Depois pintei com aquarela e pincéis diversos. Utilizei um pouquinho de lápis-de-cor e uma canetinha de tinta branca Gelly Roll 0.8, da Sakura, para fazer o xadrez do estojo da marca Yes.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Sete coisas invisíveis na vida de uma professora”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2lk. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Fugas literárias e Lisboa 2017!

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Minhas fugas têm sido ler e pintar miniaturas. Ganhei “Stoner” da minha irmã, com a missão de “ler rápido” porque ela queria logo emprestado! É um hábito de família: damos livros umas para as outras já pensando nos empréstimos futuros, o que se encaixa no meu conceito de presente perfeito: dar aquilo que eu amaria receber. Há um quê de egocentrismo nessa afirmação, mas veja pelo lado bom: não estou a me livrar da tarefa. Invisto meu coração, penso afetuosamente, empenho-me. E o ponto de vista do outro? Será que conseguimos sair de nós mesmos?

“Não”, responderia secamente Stoner. O personagem do romance de 1965, de John Williams, nasce num ambiente rural, apaixona-se pela literatura, torna-se professor e morre melancolicamente aos 60 e poucos anos. Não se preocupem com spoilers: somos informados de tudo isso nas primeiras 5 linhas do livro. A ironia desse começo é nos alertar que não importa saber o que aconteceu, mas como.

Li as 314 páginas admirada pela escrita impecável, criadora de um mundo interno denso. Só não me apaixonei. Minhas leituras preferidas têm humor, vocês sabem. Lendo Williams, lembrei-me de Hemingway e de homens sofridos pelas pressões sociais, incompreendidos ou incapazes de compreender — talvez seja o meu cansaço antecipado com personagens escritores e professores. As crianças reclamam que eu vivo dizendo que os filmes, séries ou livros que vemos são mais do mesmo. Não que não sejam bons, mas sinto um já-cansei-desse-tipo-de-bom.

Revendo o livro para esse post, no entanto, percebo que mexeu comigo ver a opressão cotidiana da vida universitária tratada com tanta precisão. O universo da sala de aula, das bancas e das brigas de departamento é de um realismo impressionante. Reconheço ali alguns de meus próprios alunos, colegas e aflições:

“tivera consciência do abismo que havia entre o que sentia pela sua matéria e o que conseguia comunicar em sala de aula. Esperava que o tempo e a experiência preenchessem tal abismo, mas isso não aconteceu.” (p.124)

Em outra passagem:

“Uma espécie de letargia se abateu sobre ele. Trabalhava o melhor que podia, mas a contínua rotina de aulas para o primeiro e o segundo ano exauria seu entusiasmo e o deixava no fim do dia, exausto e entorpecido.”

Apesar da dor, há sutis pontos de beleza nesse mundo: o conforto das estantes, dos livros; os raros momentos de criação, o amor.

Por acaso, logo em seguida ganhei este outro livro (de Elle Luna) de um amigo querido:

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A leitura é rápida (2 a 3 horas, no máximo) porque as 162 páginas são todas ilustradas com cores, desenhos e fotos da autora. O ambiente gráfico é simpático e bonito, entremeando textos e citações, numa linguagem de quase-quadrinhos. É uma auto-ajuda alegre para a vida criativa, com um princípio que não poderia ser mais contrastante com o de John Williams (autor de Stoner): está nas nossas mãos escolher o caminho de nossas vidas. O título original é  The Crossroads of Should and Must. Como encontrar um espaço para viver aquilo que nos apaixona em meio às pressões do que devemos e do que temos que fazer?

Não, a autora não é tão ingenua como o título brasileiro sugere. Ela sabe que precisamos trabalhar, comer, habitar, amparar nossas famílias etc. Mesmo em condições adversas, porém, a leitura faz pensar até que ponto nos deixamos levar por automatismos e noções hegemônicas de conforto-sucesso-trabalho em detrimento de uma vida mais criativa e simples. (O resultado é fofo, gente; eu realmente não estou fazendo uma boa resenha, desculpem!)

No fundo os dois livros só viraram post porque fiz os desenhos, e não o contrário. Agora estou me cercando de mulheres pioneiras e inovadoras. Comecei 2017 com novos contrastes, lendo Jane Austen e Chimamanda Ngozi Adichie. Depois conto!

No momento, me equilibro também entre as crianças de férias e os preparativos para uma aventura na desenholândia: vou a Lisboa como convidada de um projeto coordenado pelos queridos Nelson Paciência e Eduardo Salavisa na Casa Atelier Aspad Szenes Vieira da Silva e com apoio dos Urban Sketchers Portugal. Haja coragem e emoção para estar em meio a artistas que admiro tanto! Torçam por mim. ♥

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Sobre os desenhos: Miniaturas com cerca de 7cm feitas num caderninho moleskine pequeno com papel de aquarela. Desenhei um rascunho suave a lápis grafite primeiro e depois pintei com aquarela. Para as letras brancas sobre fundo colorido (tanto na capa do Stoner quando na lombada do livro da E.Luna) utilizei tinta guache branca com um pincel bem fino (000 sintético estudante da Winsor & Newton). Para o contorno do rosto de Stoner ficar bem definido, apliquei máscara-fluida em volta e um pouquinho na barba. A máscara é uma espécie de cola líquida que se utiliza para preservar o branco do papel em alguma área da pintura. Depois de seca sai facilmente com borracha.

Sobre os livros: Stoner, de John Williams, ed. Radio Londres (2015, tradução de Marcos Maffei). Eu sou as escolhas que eu faço, de Elle Luna, ed. Sextante (2016, tradução de Ana Ban).

 


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O sorriso do professor

livros

“Eu quero a sorte de um amor tranquilo…”

Sempre que ouço esse verso da canção do Cazuza e do Frejat, penso nos meus livros. Não sei quando li o primeiro, mas foi paixão e foi tranquila. Os livros são “meu pão e minha comida”… Não vivo, não ando, não me entendo sem.

Na adolescência, sonhei ser presa só para ficar o dia todo lendo. Desisti, porque acordei no Brasil e não naquelas prisões norte-americanas de filme da Sessão-da-Tarde. (Que meu filho não comece a ter ideias lendo isso!)

Achei que a solução era virar professora! Eu pensava: o que mais faz um professor do que ler o dia todo?

Sei, sei que vocês estão achando que era uma ilusão. Afinal, qual é o professor que tem tempo de ler livros hoje em dia?

Eu tenho. Não foi sem luta e sem obstáculos, como toda paixão que se preze! Não gosto de xerox, nem de textos em pedaços, nem de ler só a Introdução… Às vezes um artigo, ok. Mas nada se iguala ao livro inteiro, do início ao fim, seja ficção, ensaio, infantil, seja um livro. E ainda melhor quando termina com índices onomásticos, guardas decoradas, quem sabe impresso em gráficas do Rio antigo.

Quando era pequena, achava que os professores tinham uma Estante-do-Saber onde ficavam todos os livros necessários para o ensino de uma disciplina. Antes das aulas, eles iam até essa estante e tiravam o Livro-Certo para ensinar aos alunos.

Assim que me tornei professora, tive um choque: descobri que isso não existia! Eram milhares de livros e textos aos pedaços. Como escolher? Cadê a Dona Estante que ia me dizer o que dizer para os alunos? Vinte e três anos depois, esse ainda é o pior momento da profissão: montar um curso, ter que escolher, deixar um monte de livros de fora, falar tão pouco de alguns, selecionar partes mutiladas.

E todo esse preambulo foi para chegar na mágica de Como aprendi português e outras aventuras, de Paulo Rónai. É um encanto, uma erudição despretensiosa, generosa, amiga. Cada palavra está ali anunciando o prazer de compartilhar seu conhecimento, com humor e compaixão por nós, seus ignorantes leitores. (Sim, porque ninguém vivo pode dizer que sabe ou sabia mais do que Paulo Rónai — bem, talvez o Antonio Candido e a Cleonice Berardinelli, mas deuses não contam.)

Ainda por cima, sobre o que escreve Paulo Rónai? Sobre livros! E sobre a profissão de professor — que sonho de professor ele deve ter sido… Aqui em casa estão todos com ciúmes de tanto que falo do Paulo e de como queria tê-lo conhecido e quem sabe ter sido aluna dele… Eu certamente não seria como aquelas moças e rapazes que, diante de um exercício com o verbo aller (ir, em francês), obrigaram o professor a proibir as palavras “cinéma” e “futebol”, fazendo graça com a dificuldade da turma de adolescentes para achar lugares alternativos para “ir” em suas redações.

Mergulhado no debate sobre a reforma do ensino de latim, ele é rápido no diagnóstico: “Os nossos mestres, em sua maioria, não sabem sorrir.” E por que tanta carranca e mau-humor?, ele se questiona. Porque “senão algum aluno malandro poderia lembrar-se de fazer perguntas, e adeus autoridade.” A reforma precisava começar pelo professor:

“Bem sei eu que as aulas à razão de 20 cruzeiros ou menos, a instabilidade da profissão, os pesados encargos da família não são motivos especiais de alegria. E no entanto, se me perguntassem qual a reforma mais importante de que o ensino do latim necessita, responderia que é o sorriso do professor. Apesar do espírito hostil da época, apesar de suas próprias dificuldades, ele que entre sorrindo em cada aula, que saia de cada aula sorrindo. Sorrindo como quem acaba de realizar um milagre: o de ressuscitar mais uma vez um morto, a quem, há centenas de anos, em vão querem enterrar.”

Tenho certeza de que seus conselhos não valem só para os professores de latim!

Não o conheci, mas acredito que Paulo Rónai merece as mesmas belas palavras que utilizou para falar do amigo que tanto admirava, Aurélio Buarque de Holanda:

“[uma personalidade que se define pela] falta absoluta de qualquer sectarismo, a completa honestidade, o senso da medida justa, o instinto pedagógico e, sobretudo, o bom gosto.”

Em cada linha de seus escritos, sentimos “a presença de um homem vivo”, sem “prejuízo do valor científico”, uma individualidade “vibrante, compreensiva e moderna” que observa a linguagem — e poderíamos dizer, o mundo — com a mesma “inteligente curiosidade que lhe desperta a vida”.

Que melhor definição poderíamos oferecer a um professor ou à sua obra?

Sobre o livro: Como aprendi português e outras aventuras, de Paulo Rónai, (Mec/Fundação Biblioteca Nacional, editora Casa da Palavra, ). Estava quase terminando essa leitura maravilhosa (do conteúdo à edição), quando surgiu a notícia de que o acervo de Paulo Rónai corre perigo. Precisamos todos mandar mensagens para a USP, para Brasília, para a Dilma. Precisamos mantê-lo vivo e sorrindo. É incalculável o valor da sua presença em nossa língua, em nossas salas de aulas, em nossas estantes e livrarias, enfim, em nossa história.

Sobre o desenho: A imagem acima traz um pedacinho da sala aqui de casa, e gosto dela menos pelos livros do que pelo quadro com o gato Charlie ao centro, pintado pelo Antônio quando estava no terceiro ano da escola. O desenho foi feito com canetinhas nanquim, lápis de cor e aquarela. As crianças reclamam que não estou postando desenhos novos, mas é bom todo mundo se conformar que não sou biônica… (Será que elas sabem o que é isso? Biônica é uma expressão típica dos anos 1980, quando ainda achávamos que os robôs iriam dominar o mundo.)

Sobre as pitonisas da vovó: Não pude deixar de me emocionar, também, sabendo que a história de Paulo Rónai tem tantas afinidades com a do meu avô, ambos fugitivos da segunda guerra mundial. O que isso tem a ver com as pitonisas? É que minha tia escreveu lembrando que uma delas, a Dona Alzira, causava comoção e expectativa na casa porque sempre prometia que meu avô iria encontrar seu irmão desaparecido. Infelizmente esse dia nunca chegou.Tudo indica que ele foi assassinado nos campos de concentração alemães como meus bisavós.