Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado

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Aos membros da Comissão de Seleção do Programa de Pós-Graduação Ainda-Não-Sei-Qual

Prezados professores e professoras,

Minha graduação está acabando e não sei o que fazer. Eu trabalhava numa loja, ganhava bem, mas não dava para passar a vida lá. Amo teatro, já fiz o figurino de duas peças, mas acho que não nasci para isso… Quando era mais nova, adorava fotografia – cheguei a ter um laboratório em casa e ganhei um dinheirinho. Mas passou. E tocar violão (mal) não conta, eu sei.

A faculdade, que teve um começo glorioso, com monitorias e médias ótimas, lá pelo sexto período, tinha chegado à lanterna da minha agenda. A vida era sexo-drogas-e-rockn’roll. O coração sempre aos pulos, o corpo em processo de descobertas, os destinos se cruzando para lá e para cá. Como alguém consegue focar na carreira, se apaixonar várias vezes e ainda casar no Circo Voador? Era assim. Entre um final-de-semana e outro, os professores me diziam para tentar um estágio. Estudante de jornalismo, meu sonho era o curso de verão da editora Abril ou o programa da Folha de São Paulo. Não passei em nenhum dos dois… Ganhei prêmios de consolação: uma vaga na antiga rádio Jornal do Brasil ou um estágio no departamento de fotografia do Globo? Escolhi o JB. (E se escrever matérias jornalísticas contasse como publicação para o currículo, essa experiência teria me valido dezenas de produções, juro.)

Minha sorte foi que no último ano da faculdade tive mestres encantadores. Uma professora de antropologia, um professor de história e uma professora de filosofia – todos na época alunos de pós-graduação – me trouxeram de volta o fascínio pelas ideias e pelos livros. Ninguém na minha família tinha mestrado, exceto por uns primos distantes por parte de pai (mas esses não contam, porque desde pequena eu ouvia que eles eram gênios e eu não).

Pela professora de antropologia, fiquei sabendo que a tal “bolsa de mestrado” não era só para não pagar o curso: era uma remuneração para o aluno se dedicar. Fiquei tão animada! Eu não tinha ideia de que isso existia. Meus irmãos e minha mãe não acreditaram.*

Não vou mentir. Tive apenas três meses para me preparar para essa seleção. E ainda precisei correr atrás de professores importantes para me dar duas cartas de “recomendação”. Eu não conhecia ninguém da área. O mais perto que eu tinha chegado de um antropólogo-doutor tinha sido durante um programa na rádio JB. Não dava para pedir uma carta para o cara! A única opção era a coordenadora do meu curso de graduação, uma professora-doutora muito séria e cética. Ela fez a carta, mas me entregou com um olhar de pena… daquele que diz: não se iluda, você não vai passar. Ok, mas vou fazer mesmo assim, obrigada: “Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo.”**

Tive essa coragem porque me convenci de que, se eu não passar, tudo bem, que mal vai fazer? Mas ainda faltava a outra carta… Essa foi a melhor, leiam com carinho. Mesmo sabendo que havia o risco de não valer muito, pedi a recomendação para aquela professora que era mestranda em antropologia. E ela não só escreveu, como se ofereceu para me ajudar com os textos da bibliografia da prova de seleção, porque não entendi um monte. Sei que eu não deveria escrever isso aqui… Mas não posso levar o crédito sozinha. A verdade é que, sem as nossas conversas e a inteligência dela (de gênia), vocês nem estariam lendo essa carta (porque eu não teria a menor chance de passar na prova escrita).

Queria acrescentar que sou uma pessoa muito focada, mesmo sem ter nascido desejando fazer essa pós-graduação. É, não vou mentir: nasci querendo mamar na minha mãe. Depois quis andar e falar – fui até bem precoce, segundo me contam (mas aprendi a ficar quietinha nas aulas, podem deixar). Fui para a escola muito nova e nunca fiquei de recuperação. Isso conta, não é? Ah, outra coisa boa: depois que aprendi a ler, não larguei mais os livros. Tudo bem se for livro de romance, poesia, teatro, correspondência, biografia, viagem? Porque só aprendi a gostar dos acadêmicos mais tarde… E mesmo assim, com alguns ainda durmo no meio – quer dizer, só nos chatos, como os de história da época do colégio.

Confesso que ainda não sou tão disciplinada para ler os textos de antropologia como gostaria. Mas estou melhorando! No início dos estudos para essa prova, eu precisava beber três coca-colas diet para ficar acordada (resquício da era das drogas…). Agora já consigo ler um texto inteiro sem beber nada. Quer dizer, se for um texto em português, mas já é um progresso. As línguas estrangeiras estão meio aos trancos e barrancos… Achei melhor deixar para estudar depois pois não são eliminatórias. Sou uma pessoa prática, isso é bom? Prometo que vou me esforçar ao máximo, porque a bibliografia em francês e inglês não está fácil não. Só não consigo estudar na hora de Pantanal, mas isso vocês perdoem, porque até o meu não-namorado (ele não é meu namorado mas eu queria que fosse) concorda: a novela é muito boa!

Apesar de todos esses defeitos, acredito que sou uma boa candidata para esse curso de mestrado sim. Posso não ser muito expert nos assuntos técnicos de ciências sociais, mas sou determinada. Também não tenho tanta concentração quando gostaria – ainda! E lembram do jornalismo e da fotografia? Pois é, eu só gostava de entrevistar e fotografar pessoas. Não acham que isso pode ser um indício de que darei uma boa antropóloga?

Agora, sério. O principal é que amo ler, escrever e aprender. Isso conta.

Torcendo por mim,

Karina Kuschnir

* Explicação para o leitor de 2015: não existia internet na época.

** A frase sobre a coragem é do livro O sol é para todos (To kill a mockingbird), de Haper Lee (ed. J.Olympio), p.148.

Esse post é dedicado ao Vinícius e ao Pedro, dois queridos que estão deixando o LAU/IFCS para voar por aí…

Também queria comemorar que atingimos 100 mil visitas aqui no blog! Esse número é muito pequeno no mundo da internet, mas é gigantesco pra mim, que comecei escrevendo só para mim mesma e para alguns amigos. Ando lendo blogs antigos na internet e ontem mesmo conversava com o autor de um deles, elogiando a sua coragem de escrever coisas pessoais. Ele me disse: por que não? Nossa conversa acabou me fazendo tirar essa carta dos rascunhos. Como diz o Caetano, tá combinado: “é tudo só brincadeira e verdade”!

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico, o blog tem outros textos sobre minhas experiências… nos truques da escrita, na elaboração de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre o desenho: Carta inspirada em envelopes verdadeiros que guardei dos anos 1990. Fiz o contorno a lápis primeiro, depois fiz o carimbo-selo com canetinha Pigma Micron vermelha e azul 0.1, com alguns detalhes em lápis de cor (também utilizado para o carimbo DH, que não sei o que significa). O restante foi todo feito com aquarela.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2015. “Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-ie. Acesso em [dd/mm/aaaa].