Karina Kuschnir

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Outubro/2018 — #δενπρέπειναυπάρχει

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#δενπρέπειναυπάρχει — Porque lutar contra a violência, o racismo, a homofobia e a misoginia não é uma opção — é um dever, uma questão de justiça contra crimes hediondos.

#δενπρέπειναυπάρχει — Porque é preciso rejeitar um candidato e seus apoiadores que glorificam as armas, a tortura, o estupro e o extermínio de pessoas, manifestando seu ódio a negros, gays, lgbtis, mulheres e indígenas.

#δενπρέπειναυπάρχει — Para que a democracia não volte a ser ditatura; para que o holocausto e os crimes contra a vida não sejam negados; para que o jornalismo resista; para que as parcas conquistas dos direitos humanos no Brasil não retrocedam.

Na minha opinião, todas as escolhas nessa eleição são legítimas exceto quando o candidato apregoa as ideias acima. Basta uma pesquisa rápida para comprovar, através de vídeos, documentos e declarações oficiais, que temos um caso assim nas eleições presidenciais. Há um candidato com discurso criminoso, que deseja a morte (até de seu próprio filho, caso se torne gay ou case com uma mulher negra; e de sua ex-mulher), que apregoa o estupro e o extermínio de pessoas e de direitos.

Sei que a maioria das pessoas queridas que lêem esse blog concordam comigo. Obrigada por vocês existirem! ♥

Meu manifesto é para sensibilizar aquelas que estão indecisas. Não há dúvida possível nesse caso. Escolha qualquer candidato, mesmo que não tenha chances. Isso é legítimo. Deixe de votar, anule seu voto, vote em branco. Qualquer opção é melhor do que entregar sua representação cívica a um sujeito que defende tamanhas atrocidades em público — imaginem o que ele diz quando não está sendo gravado ou filmado!

Que as deusas nos protejam.

Para imprimir o calendário de outubro, aqui vai o .pdf em tamanho A4.

Para compartilhar o manifesto no Instagram:

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7 Coisas impossivelmente-sérias-relevantes-interessantes-e-dignas-de-nota sobre os assuntos em pauta:

♥ A frase que abre esse post foi inspirada numa citação de Nelson Mandela: “Superar a pobreza não é um gesto de caridade. É um ato de justiça”. (Discurso na Praça Mary Fitzgerald de Johanesburgo, em 2 de julho de 2005). No original: “Overcoming poverty is not a gesture of charity. It is an act of justice“.

♥ Em 2000, a Unesco e vários ganhadores do prêmio Nobel da Paz divulgaram um  manifesto reforçando seu compromisso em: 1) Respeitar a vida; 2) Rejeitar a violência; 3) Ser generoso; 4) Ouvir para compreender; 5) Preservar o planeta; 6) Redescobrir a solidariedade. Estamos num bom momento para reler o texto completo.

♥ Para entender a profundidade do racismo no Brasil, recomendo navegar pelo site Geledés. Entre as recentes estatísticas divulgadas, fica claro que a população negra é a mais afetada pela desigualdade e pela violência. Os negros são os que têm mais chances de serem asssassinados e presos; os que ganham os menores salários; a maioria dos desempregados; e a população mais subrepresentada politica e culturalmente. As mulheres negras são as maiores vítimas do feminicídio, da violência doméstica e obstétrica; do isolamento social e afetivo.

♥ No Brasil, a cada 19 horas, um LGBTI é assassinado ou se suicida devido à homotransfobia. Há um trabalho importantíssimo sendo feito e divulgado pelo site Homofobia Mata. Já são vários registros de ataques a gays realizados nessas eleições por apoiadores contrários ao #elenão.

♥ Somos o quinto país em número de assassinatos de mulheres no mundo. O Instituto Patrícia Galvão e a Fundação Rosa Luxemburgo lançaram em 2017 o livro Feminicídio #InvisibilidadeMata que pode ser baixado na íntegra. O site também disponibiliza um Dossiê sobre Feminicídio online. Também se multiplicam perseguições, ameaças e ataques a mulheres organizadoras de manifestos e marchas pelo #elenão.

♥ Por tudo isso, dia 29/09, milhões de pessoas sairão às ruas para gritar #elenão — veja aqui a lista de eventos em mais de 78 cidades brasileiras.

♥ Sobre os símbolos utilizados nesse calendário de Outubro/2018: as cores, as bandeiras e as setas são inspiradas no movimento Lgbti. Desenhei também signos do feminismo, da paz, assim como adaptações de símbolos dos direitos humanos (mãozinha) e dos animais (pegadas de patas).

Sobre o desenho: Fiz os símbolos primeiro com uma lapiseira grafite 0,5 (Pentel). Depois colori com várias canetinhas da Staedtler (triplus color e triplus fineliner) e da Sakura (Koi brush e Soufflé). Sobre as canetas, desenhei a maioria nesse post e lembrei de um desenho de 2015 com todas as cores das Sakuras:

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Outubro/2018 — #δενπρέπειναυπάρχει”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Ia. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Coragem de escolher

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Nesse final de 2015, tenho uma comemoração muito especial para celebrar: meu filho Antônio, de 14 anos, está se formando no ensino fundamental do Colégio Andrews, um espaço de ensino, reflexão e crescimento coletivo. Depois do trabalho sobre direitos civis e preconceito racial nos EUA, ele escreveu essa redação (abaixo) sobre um romance que leu para a escola. Mais do que a nota dez, me emocionou vê-lo dizer de forma tão simples e clara aquilo que às vezes levamos uma vida inteira para aprender. Não tem festa nem diploma, mas tem esse post de formatura e o desejo de feliz férias, filho amado.

Eis a questão — texto de Antônio Kuschnir Castro

“Durante seu tempo de vida, toda pessoa precisa fazer escolhas, assim como o jovem Pedro, personagem do livro O fazedor de velhos, de Rodrigo Lacerda. Seja essas na vida profissional, amorosa ou emocional, são as escolhas que guiam nossas vidas e futuros. O ‘destino’ não está pré-determinado — são as escolhas que o determinam.

“Conforme a história, no livro, vai se desenvolvendo, Pedro se vê com dúvidas em relação a continuar ou não na faculdade de História. Após diversos caminhos tomados e escolhas feitas, como ter gastado meses realizando trabalhos, literalmente, sem fim, como entender a ‘natureza humana’ ou achar frases que sintetizavam livros inteiros, Pedro finalmente descobriu-se escritor. Assim como Pedro, precisamos tomar escolhas no campo profissional que reflitam nossos reais desejos.

“Outra área em que as escolhas são cruciais é a área amorosa e emocional da vida. No livro, Pedro se vê com um dilema, quando sua amada tem uma proposta de trabalho no exterior. os dois, juntos, acabam escolhendo que ela vá. Na vida real, também é preciso tomar decisões no campo amoroso. Nem sempre as coisas são fáceis, muitas vezes é preciso escolher abrir mão de alguma coisa em troca de outra.

“A vida, constantemente, traz desafios a um indivíduo, traz decisões a serem tomadas. São essas escolhas e decisões que formam nosso futuro e nos formam, como pessoas. Se, com a peça Hamlet, Shakespeare escreveu a famosa frase ‘Ser ou não ser? Eis a questão.’, seria igualmente significativa a substituição do ‘ser’ pelo ‘escolher’. Somos as escolhas que fazemos: ‘Escolher ou não escolher? Eis a questão’.”

É também sobre a coragem de escolher um dos melhores livros que li recentemente: O sol é para todos, de Harper Lee, que tem como protagonista a menina Scout, entre seus seis e oito anos de vida. Através de seus olhos, observamos as preconceituosas e violentas relações sociais de uma cidadezinha do Alabama, nos EUA; e sonhamos em ter a coragem e a sabedoria do seu pai, o advogado Atticus Finch.

Scout é sabida e esquentadinha. Na escola, seu pai é constantemente ofendido por seus colegas por defender os negros nos tribunais. Ela quer revidar, mas Atticus lhe diz: “tente lutar com a cabeça”, querida, “só porque fomos derrotados uma vez não é motivo para não tentarmos novamente”. (p.105) Ela faz promessas para si mesma, mas mantem a “nobreza” por apenas três semanas: acaba dando uns sopapos no primo preconceituoso. Seu tio lhe ofende: você não quer ser “uma dama” quando crescer? Não, ela diz, não faz questão: prefere continuar a vestir macacão e brincar.

Sem entender porque todos odeiam seu pai, Scout pergunta, “Atticus, você deve estar errado. (…) quase todo mundo acha que eles é que estão certos e que você está errado.”

Atticus sendo Atticus: “Bem, eles têm o direito de pensar isso e suas opiniões devem ser respeitadas. Mas antes de poder viver com os outros, eu tenho de viver comigo mesmo. A consciência de um indivíduo não deve subordinar-se à lei da maioria.” (p. 139)

Adiante, Scout volta ao tema: “Você não é realmente um amante de negro, é?”

Atticus: “Sou, sim. Eu faço o possível por amar a todos… Às vezes é bem difícil.. Filha, não se sinta ofendida quando alguém disser uma expressão feia. Isso não deve atingi-la, apenas revela a pobreza de quem falou… (…)” (p.144)

Scout se revolta por ter que ler para uma das senhoras mais racistas da cidade. Após o falecimento desta mulher, Atticus revela que ela lutava contra uma doença terrível, que afetava seu julgamento, e explica porque exigira aquele esfoço da filha:

“Eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isso pode até acontecer.” (p. 148)

Uma das poesias da narrativa é que Scout continua sendo criança. Mesmo ouvindo seu pai, ela joga tudo que a senhora lhe deu no fogo da lareira. Outra hora, saudosa do melhor amigo, comenta: “Senti-me muito infeliz por dois dias”! (p.152)

É nesse misto de ingenuidade e determinação que ela protagoniza uma das cenas mais dramáticas da história, quando consegue impedir a ação de um grupo que pretendia linchar Tom, o acusado. Atticus desabafa com Jem, seu outro filho:

“E foi preciso que uma criança de oito anos os trouxesse à razão. Isso prova uma coisa: uma malta de selvagens pode ser detida porque seus membros ainda são humanos. Hum, talvez precisemos de uma força policial formada por crianças…” (p.203)

Diante da decisão do tribunal, que considera Tom culpado, mesmo com todas as provas de sua inocência, Scout e Jem não se conformam. Atticus também sofre: “Já fizeram isso antes, fizeram esta noite e farão outra vez, e quando isso acontece… parece que apenas as crianças choram.” (p.274)

Ele acreditava que a geração de seus filhos faria um mundo diferente, onde houvesse justiça independente da cor da pele, onde a palavra do branco, ou sua riqueza ou de sua família, não vencesse sempre a de um negro, ou a de uma mulher ou a de um judeu. (p.285 e 317)

Se lutaram do jeito certo ou errado para os anos 1950, não sei dizer. Mas a causa continua mais do que urgente em 2015: os Finch queriam viver num mundo onde só existisse um tipo de gente: gente. (p.293)

Sobre o livroO sol é para todos, de Harper Lee, editado pela José Olympio, com tradução de Maria Apparecida Nóbrega de Moraes Rego, em 2006. A obra foi originalmente intitulada To kill a mockingbird e publicada em 1960.

Sobre o desenho: Flor feita em aquarela com base numa ilustração de um livro (esqueci de anotar a referência, desculpem). Os materiais foram: papel Canson Moulin du Roi e aquarela Winsor & Newton. Algumas pinceladas mágicas da professora Chiara Bozzetti também contribuíram bastante para o resultado. O original será o presente de aniversário (muito atrasado) para minha mãe, leitora e minha incentivadora número um aqui no blog.