Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Resiliência

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Uma das coisas mais difíceis na vida é recomeçar — cair, levantar, insistir, fazer, mesmo quando o corpo dói e a tristeza invade.

Mergulhei numa espiral de desalento e apatia, alternada com breves momentos de energia e ação. Começou com o incêndio do Museu Nacional e veio se arrastando. Não sei vocês, mas meu desânimo costuma gerar medos, pesadelos, noites insones e um vício amargo pela tela do celular.

Não recomendo.

Tive forças por saber que já fui e já voltei algumas vezes desse labirinto.

Aprendi tarde que existia uma palavra pra isso: resiliência. É aquela capacidade do boneco João-Teimoso de voltar a ficar de pé mesmo quando o empurramos ao chão.

A diferença é que, ao contrário dos seres humanos, o João-Teimoso é construído pra isso. E nós? Como voltamos a sorrir e a acreditar? Como retomamos o trabalho de ter ideias, escrever, publicar, estudar, ensinar?

Pra mim, está sendo um processo. Tem o tempo. Tem as mãos e os abraços dos meus amores. Tem a força e a cumplicidade dos estudantes. Os áudios dos amigos no zap. Tem a aquarela e o trabalho. Tem medicação para os momentos de emergência.

Ainda estou desconcentrada para leituras longas; e ainda estou insegura com um monte de coisas.

O que me ajudou a sair da inércia e vir aqui hoje foi pensar em todos que estão angustiados tentando escrever trabalhos de curso, TCCs, dissertações, teses, artigos e até relatórios pra Fapesp…

Amores, eu precisava vir aqui dar um abraço em vocês, e receber esse abraço também.

Como nos diz lindamente a artista Lisa Congdon:

“Compareça, respire, faça o seu melhor, seja gentil, aprenda, repita.”

Prometo voltar, prometo não desistir, prometo que vamos rir disso tudo um dia. Combinado?

Sobre o desenho: Aquarela sobre o verso de uma amostra de papel Hahnemühle (Expression). A imagem foi feita a partir de lembranças daquelas paisagens que vemos do avião quando estamos prestes a pousar em alguma cidade bonita. Sempre tirei fotos dessas vistas, principalmente quando são campos e plantações. É um tipo de pintura bem terapêutica, sem regras, sem pensar muito.

Sobre resiliência: Na Wikipedia tem um verbete interessante na área da psicologia:

“A resiliência é a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas – choque, estresse, algum tipo de evento traumático, etc. – sem entrar em surto psicológico, emocional ou físico, por encontrar soluções estratégicas para enfrentar e superar as adversidades.”

Você acabou de ler “Resiliência“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Resiliência”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3IT. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Empurrão de Flor

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Muitas vezes na vida precisei de um empurrão. Não que me falte energia ou interesse pelas coisas. Adoro aprender, me envolver e fazer, mas… a coragem de mostrar pro mundo… essa é escassa na minha receita interna. Por isso gosto e dependo tanto das pessoas que me dão um tranco, e dos bem fortes, tipo me-jogar-na-piscina-com-roupa-e-tudo.

Um dia eu estava quieta no meu canto, feliz de desenhar em caderninhos para o resto da vida, quando ela me ligou. “Quero que você escreva um artigo para o Prosa sobre desenho e antropologia. Vamos publicar uma página com seus textos e desenhos?” Fiquei super lijongeada com o convite — era elogio, né? — mas totalmente descrente da minha possibilidade de atendê-lo. Eu só consegui responder: “Não, imagina, você está confundindo. Desenho é uma coisa, antropologia é outra.” E ela, que é muito mais inteligente e esperta do que eu: “Não é não, frô. Mistura que dá certo! Bora, faz aí.” [E ela não escreveu assim, curtinho, não. Gastou um tempão me dando coragem, pessoalmente e por escrito.]

E foi esse empurrão da querida Mànya Millen, então editora do caderno literário Prosa, do jornal O Globo, que mudou a minha vida de 2011 pra cá. Fiquei quase um ano enrolando para entregar o material. Mas foi ao longo desse ano que tomei o rumo apontado por ela, juntando meu mundo acadêmico e criativo num só. Em janeiro de 2012, a página com textos e desenhos foi finalmente publicada e, não por acaso, foi também esse material que, algum tempo depois, gerou a ideia de criar este blog (como vocês podem ler aqui).

Na semana passada, a Mànya e o Prosa saíram do Globo. Fiquei de luto como leitora do caderno literário. Aqui em casa temos pilhas de Prosas históricos, porque a Mànya nunca fez jornal de embrulhar peixe. Ela fez arte, opinião, reportagem, imagem. Fez todo esse universo mágico dos livros circular para um mundo com horizontes mais amplos e reflexões mais profundas — justamente o tipo de conteúdo de que mais precisamos nesse brasil tão depenado…

Para a Mànya, o meu desejo é que tudo isso seja um grande empurrão, igual ao que um dia ela me deu. Que seja um tranco, daqueles que nos levam para um lugar mais interessante, mais feliz, mais perto de nós mesmos e das pessoas que amamos.

Nos últimos dias, tanta gente escreveu coisas lindas sobre ela… Queria compartilhar especialmente as lindas palavras de sua filha, Julia Millen:

“Desde que me entendo por gente sabia que minha mãe era jornalista. Desde novinha eu sabia o que era pauta, lead, diagramação, subir matéria, fechamento de caderno, plantão -conhecido também como: “quinta feira mamãe chega de madrugada”, ou também: “mamãe trabalha esse fim de semana”. Desde muito pequena eu sabia que ela trabalhava no Globo. Desde sempre eu sabia que ela fazia parte do Prosa & Verso. Desde pequena eu sempre senti um orgulho inexplicável, mesmo quando ainda nem sabia ao certo o que ela fazia, mas só por saber que minha mãe era jornalista cultural e que trabalhava no Prosa. Desde pequena eu aprendi que esse orgulho surgia por saber o quanto ela amava aquilo. Desde pequena eu aprendi que o jornalismo é só para quem o ama loucamente. E desde muito pequena ela me ensinou a amar as palavras e os livros como ninguém. Desde não tão pequena, porém, ela me ensinou o quanto esse mesmo jornalismo era difícil, o quanto sobreviver de jornalismo era complicado, e o quão saturado e instável era o mercado do impresso, o jornalismo de discussões infinitas que rodavam pelo tema: “será que com a internet o jornal irá acabar? ”. Por muito tempo me forcei a acreditar que não. Hoje eu tenho certeza que sim. Hoje, após 20 anos, o Prosa vai deixar de existir. Hoje, o jornal perde o seu caderno mais bonito. Hoje, o Globo só perde. Os tempos estão difíceis para as palavras, mas o orgulho e a gratidão por compartilhar tanta informação, permanecem. Muito obrigada, mãe, Manya Millen. Dias mais bonitos virão.”

Muito obrigada, Mànya! Que muitas flores estejam no teu caminho, frô.

* 3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-hilárias-difíceis-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Na sexta passada, eu e o Juva demos duas palestras para os alunos do 9o. ano do Colégio Andrews sobre “Processo criativo” (ou como fizemos o livro “Do gato Ulisses as sete histórias”). Fui com medo de decepcionar meu filhote, que estaria numa das turmas… Mas ele adorou e nos contou depois que seus amigos amaram, ufa!

* Até a véspera da palestra, passei dias trabalhando num artigo em co-autoria com o Vinícius Moraes de Azevedo, meu bolsista de iniciação científica no IFCS. E não foi nada chato, porque o material etnográfico da pesquisa dele é muito engraçado. As crianças vieram até ver porque eu estava rindo tanto. E agora preciso convencer a Alice de que ela não pode falar em “xarpi”!

* Mas a escrita acabou me afastando dos pincéis… Mesmo por poucos dias, fui ficando inquieta e desanimada. Felizmente, ontem consegui sentar e recomeçar. E registro aqui, para não esquecer: basta recomeçar. (Seja o que for que esteja nos fazendo bem: andar, escrever, pintar, desenhar, cantar, tocar, até o temido “terminar a tese”!)

Sobre os desenhos: Flores de uma árvore jasmim-manga que fica na Praça Nelson Mandela, na saída do metrô de Botafogo (zona sul do Rio). Fotografei com o celular e depois desenhei em casa. Na imagem à esquerda, fiz primeiro com lapiseira, depois pintei com aquarela, buscando dar volume (com várias camadas finas, sempre esperando secar entre elas). À direita, fiz direto o contorno com canetinha de nanquim, pintando depois só com algumas pinceladas. Ambas no caderninho Laloran de sempre. Os materiais são os mesmos registrados aqui.