Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Nosso Apocalypse Now de todo dia

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O que é melhor: estar correta ou ser gentil?; ter certeza ou compaixão?; indignar-se ou dialogar?

Tantas e tantas vezes optei pelas segundas respostas: gentileza, compreensão, diálogo… São valores que aprendi a amar, mesmo sabendo seu custo. Em algum momento da vida me disseram e eu acreditei: enquanto há palavra, não há guerra.

Será? Quantas injustiças somos capazes de suportar com doçura, compaixão e diálogo? Até quando seremos tratados como lixo respondendo com serenidade, choro ou apatia?

Sei que preciso continuar acreditando que educação, delicadeza, arte, ciência, política, amor e empatia podem construir um mundo melhor para todos os seres. Mas às vezes o vidro embaça, o pneu fura e o macaco quebra.

Trouxe esse colar para abrir o post porque ele vem de um lugar mágico. Tem pessoas, abraços, caminhos enrolados, rotas curtas e longas, paciência, fogo, cor, brilho e sombra.

Minhas últimas semanas, sem posts, foram assim. Pesadelos com o Google, com a Net, com a Lola doentinha, com as gaiolas nos EUA, com as denúncias de assédio na antropologia e principalmente, muito principalmente, até para quem detesta advérbios, o uniforme escolar atravessado de bala e sangue… as perguntas do filho para a mãe, tanta dor nessa morte assassina do Marcos Vinícius, na Maré, RJ.

Fiquei só com rascunhos, sem frases, porque o ditado também vale ao contrário: onde há guerra, não há palavra. Aqui é um Apocalypse Now todos os dias.

De alguma forma, escrevi sobre tudo isso um pouco antes, a convite da querida Mànya Millen, para o blog do IMS. A pauta era desenho e cidade — o que me levou a explicar por que não consegui me tornar uma Urban Sketcher no Rio de Janeiro. Sabia que seria um pouco polêmico, mas agora acho que peguei foi leve… Aí vão desenho e link:

Desdesenhando o Rio – https://blogdoims.com.br/desdesenhando-o-rio/

Karina Kuschnir IMAGEM IMS Post Urban Sketchers Rio de Janeiro

Desenho Karina Kuschnir para o Blog do IMS

Não tenho ideia de quantas pessoas leram a publicação, mas houve uma sequência interessante. O Nexo Jornal repercutiu o post fazendo uma matéria própria sobre os Urban Sketchers, selecionando imagens de desenhistas brasileiros e comentando minha posição crítica. Pena que preferiu utilizar na abertura o clichê de sempre: o Rio de Janeiro do cartão postal. Nada contra a bonita aquarela da Eliane Lopes (que não conheço pessoalmente). Tudo contra continuarmos re-produzindo visualmente esse cenário fake, pois na cidade real, que vive nessa moldura, há pessoas que fuzilam crianças do alto de um helicóptero. Apocalypse Now não é metáfora.

A matéria do Nexo: A comunidade global que compartilha cenas de cidades em desenhos

Para ajudar a população da Maré, conheçam, se envolvam e contribuam para os maravilhosos projetos da Redes da Maré. Não deixem de ler o texto sobre a ilegalidade do Caveirão Voador que, no dia 20/06/2018, foi responsável pelo assassinato de 7 pessoas, entre elas, dois adolescentes. E quantos outros morreram a bala no Rio desde o dia 20?

Para terminar com as contradições da dor e do amor, meus posts com a tag Urban Sketchers, grupo que admiro demais, que vem me ensinando muito do que sei sobre a experiência de desenhar, que me acolheu e onde fiz grandes e amados amigos e amigas de todos os cantos do mundo.

Meu problema não é com os USK; é com o Rio de Janeiro, com o Brasil, com todas as formas de invisibilizar as desigualdades que tanto precisamos corrigir, sanar, ao menos, reduzir! E uma das formas de começar é se permitir olhar, ver, enxergar (sequência bem dita da querida Andréa Barbosa). Precisamos enxergar e desenhar não apenas formas e cores, mas onde, quando e como as pessoas estão vivendo no mundo.

Como diria a Alice: — Super fácil esse negócio de ser antropóloga, mãe!

Sobre a complexidade de Apocalypse Now, filme de Francis Ford Coppola, inspirado na obra de Joseph Conrad, sugiro o verbete denso e interessante (em português!) da Wikipedia.

 

Sobre o desenho: Colar feito de corda com pendente esmaltado, obra de artesãos da escola de arte comunitária do Chapitô, em Lisboa. Desenho no verso de um papel Canson (bloco Aquarelle). Linhas feitas com uma canetinha de nanquim permanente descartável Pigma Micron 0.05 bem velhinha (daí serem tão finas). Cores pintadas com aquarelas Winsor & Newton e um pouquinho de tinta guache branca na área de brilho. Tudo nesse desenho é paciência, camadas leves, e um pouco de coragem na hora das sombras. Essas têm de sair de uma vez só para ficarem naturais… Costumo usar o meu melhor pincel, um Winsor & Newton series 7, n. 2, pois assim carrego tinta o suficiente para não interromper as linhas no meio.

Você acabou de ler “Nosso Apocalypse Now de todo dia“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Nosso Apocalypse Now de todo dia”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Fr. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Abril/2018, Frágil

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“Tem horas que é caco de vidro
Meses que é feito um grito
Tem horas que eu nem duvido
Tem dias que eu acredito.”
(Paulo Leminski)

Como criar nesse mar de sangue que vivemos no Brasil? Pensei na vida e lembrei do vidro, da beleza e da fragilidade desse material que vem da areia e vira tudo. Fiz o calendário e reencontrei o poema do Leminski. Caco, grito, dúvida, acredito.

Que dor esse país despedaçado, em que a vida da maioria da população não vale nada… Temos que seguir acreditando, protestando, achando um jeito de nos engajar, por todos que ainda estão vivos, pelas crianças que não pediram para nascer, pelos idosos que nos deram a vida, pela natureza, pelos animais, por nós. As lutas justas são muitas. Desdenhar dos que estão lutando ou ficar parado assistindo é que não dá.

Por falar nisso, hoje, dia 2/04/2018, tem o evento “Luzes para Marielle e Anderson”, às 19h. Onde você estiver, acenda uma vela ou luz, sinalizando às autoridades que não esqueceremos. Para confirmar ou se engajar em algum evento presencial, veja as opções na página Marielle Franco e compartilhe imagens e mensagens com a hashtag #LuzesParaMarielleEAnderson.

E para os pós-graduandos e professores que me escrevem, duvidando de suas escolhas: nosso trabalho tem valor sim. Fazer pesquisa, ensino e extensão com consciência, seriedade e ética para com seus interlocutores e a sociedade em geral é uma forma de contribuir para um mundo melhor, mesmo que os resultados sejam a longo prazo. Vamos continuar comparecendo, lendo, escrevendo, desenhando, pesquisando, publicando, produzindo, compartilhando — só não esqueçamos de respirar, nos abraçar e nos cuidar pelo caminho.

Força pra todos nós. Bom abril: tem feriado no Rio de Janeiro dias 21 e 23. ♥

Sobre o calendário:  Foi um desafio criar algo leve como vidro e ao mesmo tempo colorido o suficiente para escanear e imprimir. Espero que tenha dado certo. Para imprimir, abram o .pdf aqui. Desculpem o atraso!

Outros posts: Fiquei com vontade de indicar os posts “Um Matisse para Maria Eduarda” e “Mortos pelo Rio“, algumas das homenagens que escrevi às vítimas da violência na história do blog, tão atuais e antigas, sobre tudo isso.

Sobre o poema: O trecho citado é do poema “Passe a expressão“, do livro Distraídos venceremos, republicado na coletânea Toda Poesia — Paulo Leminski, pela Companhia das Letras, p.183.

Sobre o desenho: Desenhei as coisas de vidro com canetinha Pigma Micron 0,05; depois colori com lápis de cor Polychromos, da Faber-Castell e alguns Prismalo da Caran D’Ache; tudo em papel comum A4 90gr. Comecei com cores individuais, mas depois cheguei a essa mistura de verde, amarelo e rosa para dar uma certa unidade ao conjunto. No final, utilizei uma caneta pincel cinza quente (warm grey) Pitt Faber Castell para fazer as sombras embaixo dos objetos.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Abril/2018, Frágil”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3DN. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Marielle, Presente!

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Há dez dias Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes foram assassinados. Dor,  desilusão, raiva, é muito sentimento misturado. Estivemos nas manifestações, ouvindo, andando, gritando as palavras de ordem, nos emocionando, seguindo. Penso em todas as pessoas que perderam seus filhos, companheiros, representantes, amigos… mais uma tragédia no Brasil; e são tantas.

Ao invés de escrever, preferi desenhar. Tentei trazer alguns dos símbolos que ela representava: mulher, negra, favelada (por isso deixei as sobreposições) e bissexual (o lilás), sem deixar de ser sua própria, alegre, mistura. (Os detalhes sobre o desenho estão no final do post.)

Queria também compartilhar com vocês algumas palavras das pessoas que registraram esse momento ao longo desses tristes dias:

Flávia Oliveira, jornalista, n’ O Globo:

“São tantas camadas. Cada tiro atingiu uma pele. A pele da mulher negra. A pele da mãe. A pele da favelada. A pele da socióloga. A pele da defensora dos direitos humanos. A pele da representante eleita para a Câmara Municipal de uma cidade tomada pela brutalidade e pelo medo (…) Seu corpo está morto. Suas ideias hão de sobreviver.” (Flávia Oliveira)

Teve o vídeo com os poemas “Terra Fértil” e “Rosa de Sangue” de Carolina Rocha/Dandara Suburbana, com performance de Rosa de Sangue Movimento Artístico, direção de Emy Lobo, no canal Sobre Elas. Vejam até o final — a voz da multidão gritando #MariellePresente traz muito da emoção dos eventos para quem não pode estar lá.

Foi emocionante o post da Priscilla Brito citando Audre Lorde, poeta negra, ativista LGBT:

“Destas semanas de medo agudo nasceu o conhecimento – a partir desta guerra que todas estamos lutando contra as forças da morte, sutis ou não, conscientes ou não – de que eu não sou apenas uma baixa, sou também uma guerreira. Quais são as palavras que você ainda não possui? O que você precisa dizer? Quais são as tiranias que você engole diariamente e tenta tornar suas, até que você adoeça e morra delas, ainda em silêncio?” (Audre Lorde)

Dos relatos pessoais sobre Marielle, a carta de Vanessa Berner foi linda… Um trechinho:

“Afeto era seu nome do meio, Mari. E foi por causa dele que você se tornou essa gigante que hoje o mundo todo conhece. (…) Você sempre foi boa nisto, Mari, em fazer as pessoas se sentirem melhor. Na vida cotidiana, na política. E é a soma dessas pequenas coisas que te tornou a pessoa que nós sempre amamos. A solidariedade, amora: eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor! (…) Isto acontece porque você fez tudo certo. Desde o princípio. Você sempre investiu na formação política das mulheres, seu discurso sempre foi sua prática. Uma linda prática coletiva, amorosa, responsável. Você investiu na utopia feminista, em uma nova ética. (…) Nem uma menos! Você nos acolhia a todas, abraçava todas nós, se solidarizava com a dor do mundo. Por isto nos reconhecíamos em você: um mútuo reconhecimento tão evidente que cada tiro que te atingiu, doeu profundamente em todas e em cada uma de nós.” (Vanessa Berner)

Lembro também da dura verdade dita por Luciana Nepomuceno, que escreveu e fez uma bonita compilação de vídeos sobre Marielle para o blog Biscate Social Club:

“Que lutemos as lutas de Marielle. Que apoiemos outras mulheres negras na política. Que não esqueçamos sua morte. Que balancemos suas bandeiras. Que sonhemos, juntos, seus sonhos. Mas Marielle, mesmo, nunca mais.” (Luciana Nepomuceno)

Compartilho ainda a matéria que só o talento de Mário Magalhães poderia produzir, no The Intercept. Honrada de participar da indignação, como diz a senhora reportagem –aquela coisa meio esquecida em que um jornalista entrevista pessoas, lê ou vê fontes com todo cuidado, mesmo com pouco tempo, traz novas informações, busca sentido no que não tem sentido:

“E quando chegar a noite cada estrela parecerá uma lágrima”, poetou o Renato Russo. Se a cada lágrima corresponde uma estrela, raras vezes o céu do Rio esteve tão estrelado. (…) As estrelas choram, mas iluminam e inspiram caminhos.” (Mário Magalhães)

Para terminar com um pouco de esperança, assistam o “50 mães, 50 e muitas crianças – 1 cromossomo”,  linda homenagem ao dia da Síndrome de Down (21/03) criada por um grupo de mães inspiradas na organização Singing Hands do Reino Unido. Impossível não sorrir e se emocionar! Um detalhe bonitinho: o uso da música “A Thousand Years” foi autorizado pela autora, Christina Perri, via seu marido, Paul Costabile, contatado pelas mães pelo Twitter e ele próprio apoiador da causa.

“Como ser corajoso | Como posso amar quando eu estou com medo de cair” (Christina Perri)

Sobre o desenho: Foi muito difícil, fiz várias tentativas… Nessa versão, que sobreviveu, desenhei com caneta de nanquim permanente (Pigma Micron 0,2) olhando para uma foto tipo selfie da Marielle na Câmara dos Vereadores. Não é a foto mais bonita dela, mas é uma das poucas em que ela não está com seu largo sorriso lindo. (Quem desenha rostos, sabe como é quase impossível registrar sorrisos de uma forma que não fique horrível.)  Estava preto e branco, sem a menor graça. Aí lembrei de uma página de estudo em que pintei só misturas de aquarelas roxas, lilases e rosas. Escaneei, editei tudo no Photoshop e saiu assim. Depois escrevi o Marielle, presente! e encaixei na imagem. Fiquem à vontade para usar.

Editado para correções em 24/3/2018. 

Você acabou de ler “Marielle, Presente!“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Marielle, Presente!”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3DF. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Realidade alternativa

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“Quando se perde alguém querido, sempre resta algo de irreal nessa ausência.” (Arthur Dapieve)

Assim como a epígrafe, o título do post veio da crônica “Chuva permanente” de Arthur Dapieve, publicada no Globo de 6/05/2016. Um texto sobre o luto, lindo e triste, triste e lindo. Que bom que artistas como ele existem para nos explicar o que não tem explicação.

Aproveitei a deixa para compartilhar com vocês um pouco da minha “realidade alterativa”. Tenho tentado viver todos os dias pelo menos por alguns minutos nas páginas dos cadernos de desenho. Como me disse uma sábia terapeuta, a arte (ou qualquer atividade que amamos) não nos cansa. Ao contrário, é onde recarregamos as baterias do espírito. (Não reparem, estou relendo muito Lévi-Strauss ultimamente!)

. A crônica do Arthur Dapieve pode ser lida aqui.

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20160513 aula taxi

Sobre os desenhos: Os desenhos foram feitos a partir de diferentes fontes: fotografias (da Lagoa, das pessoas pintadas de preto, da sequência Alice-celular-perdido-no-taxi; flor lilás); do Google Street View (atelier da Dora); e da observação direta (Tristes trópicos, blusa, estampas no metrô e peixinho-chaveiro). Tenho muita dificuldade de desenhar em ambientes abertos: sinto-me vulnerável e desconfortável. Amo desenhar por observação, mas definitivamente prefiro me sentir segura, em casa, no metrô ou em algum local mais protegido. Terá sido minha adolescência na violenta cidade do Rio de Janeiro dos anos 1980 tão traumática? Acho que em parte sim. O Rio cidade-comum (não a turística) é barulhento, atropelativo, sujo. Ou eu é que não sei onde ir… Os materiais foram os de sempre listados aqui.


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Uma cidade, duas cidades

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Nosso gato Ulisses ficou doente essa semana. Entra na caixa, sai da caixa, agonia, miado. A veterinária é certeira: o problema é no intestino. Segunda-feira, às 8h da manhã eu já estava na porta da clínica de ultrassom em Ipanema (“a única que serve”, diz a vet-super-exigente; e quem sou eu pra contestar…) Cheguei cedo nesse pedacinho da cidade que quase não frequento desde a morte do Gilberto (Velho)…

Que conforto achar um banco de madeira na calçada! Entre a clínica e a loja de suco, sento-me com a caixa-e-o-gato-dentro. Ao meu lado, um senhor forte, pelos oitenta anos. Aos poucos, várias pessoas param para falar com ele. Oferecem suco, conversam sobre os filhos, falam mal da política… Todos o chamam de “sensei” — e me dou conta de que ele deve ser um mestre de artes marciais de alguma academia ali perto.

Durante os vinte minutos de espera, desenho as pessoas que vão passando. Sinto saudades de Lisboa, do Eduardo Salavisa a desenhar no Parque da Estrela, dos eventos da comunidade de desenho urbano.

“To know one town, you really need two towns.”

A frase é do artista Jonathan Twingley na sua aula na Sketchbook Skool dessa semana. A “arte”, ele diz, “é sobre tudo que está vivo”. Precisamos de liberdade (e prática, muita prática) para criar.

A orla, as montanhas e as lagoas do Rio são lindas, sim; mas conhecendo a vida em outras cidades é que sentimos o quanto vivemos apertados, cansados e estressados aqui. No ponto, no ônibus, no metrô, na faculdade, nas papelarias, na cobal: a expressão de fadiga é democraticamente distribuída. Que sorte a minha ter uma caneta e um caderno nessas horas!

6 Coisas impossivelmente-legais-inusitadas-interessantes-engraçadas-difíceis-ou-dignas-de-nota da semana:

* Alice toda feliz na volta da escola: “Mãe, hoje aprendemos matéria nova em português! Porque, por que, porquê, que, quê com acento!”

* Ouvir a voz de Mário de Andrade! Descobri a gravação de 1940 graças ao link enviado pelo querido André Botelho que compartilha comigo a paixão por esse escritor-músico-poeta-artista-tudo.

* Aula de espaço negativo e modelo-vivo no IFCS: palmas para a turminha nota mil desse semestre de Antropologia e Desenho!

* Fiz um novo sketchbook sozinha, com cadernos costurados, guarda de craft e capa-envelope… tudo nos moldes do que aprendemos na Palmarium, mas com tamanho 19,5 x 17,5. Papel de aquarela encomendado na Dritter: Conqueror Connosseur Soft White 300gr 100% algodão. Custo total com 48 páginas: menos de R$ 20,00 reais!

* Sorvete no feriado com as crianças… passam vários meninos e meninas vendendo balas e pedindo sorvete também. Meus filhos conversam comigo sobre a situação, falam que trabalho infantil é proibido, pensam nas alternativas e na falta delas. “Para onde poderiam ir, mãe?” “Será que não poderiam denunciar a tia (que os coloca pra trabalhar) na delegacia?” [Suspiro.] Vou comprar um picolé para os dois que nos pediram. O pequeno é tão pequeno que não sabe que sabor quer. Eu digo que manga é bom, mas ele se diverte pedindo cada hora um diferente. Depois se conforma com o de abacaxi, igual ao da irmã/prima. Apesar da tristeza da situação, me conforta saber que meus filhos, mesmo muito jovens, não são alienados ao mundo que os rodeia.

* E porque às vezes é preciso esquecer disso tudo: dia-de-correio-feliz ontem! Chegou um romance novo-usado por R$14,90 via Estante Virtual! (Se for bom, depois indico.)

E a semana de vocês?

Sobre o desenho: Canetinha Pigma Micron 0.8 (estava com saudade das linhas mais largas!) em caderninho Canson pequeno (A6). Adicionei as cores com aquarela mais tarde em casa.


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Mortos pelo Rio

 

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Quando ainda era bem pequeno, diante de uma série de fotos em preto e branco, Antônio fez uma pergunta que me supreendeu:

— Eles estão mortos, mamãe?

Hoje, na tentativa de homenagear algumas das dezenas de pessoas assassinadas nesses primeiros dias de 2015 no Rio de Janeiro (e nem falo do Brasil, pois já seriam centenas), lembrei dessa nossa conversa.

— Sim, filho. Eles estão todos mortos.

E não sei como podemos continuar vivendo no Brasil assim…

Nos anos 1950, o sociólogo Everett Hughes formulou uma explicação simples para os milhões de mortos na Alemanha da Segunda Guerra Mundial. Alguém estava fazendo o “trabalho sujo”, enquanto a “sociedade” seguia mais ou menos vivendo como se não fosse com ela. Isso soa familiar?

Hoje, no Brasil, morrem principalmente jovens meninos pretos pobres, moradores das áreas desfavorecidas das cidades. Quando grande parte da minha família foi dizimada na Guerra, eram judeus, os pretos pobres da ocasião.

É uma ilusão achar que eles morrem e nós não. Estamos morrendo juntos, pouco a pouco, a cada nome que acrescentamos nessa lista macabra. Porque um dia nossos filhos vão nos perguntar:

— Mas vocês sabiam disso e não faziam nada?

Sinceramente, gostaria que alguém me dissesse o que posso fazer.

O título desse post foi para me lembrar de que essas pessoas estão sendo mortas porque moram no Rio de Janeiro, porque moram no Brasil. Porque é isso que acontece com quem mora aqui.

Sobre o desenho: Retratos feitos a partir de fotos de sites com notícias sobre assassinatos no Rio de Janeiro em janeiro de 2015 de crianças, estudantes, policiais, pessoas. Fiz num caderno antigo utilizando canetinha Unipin 0.05 e aguada de nanquim.


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Portão D

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No meio da mudança, aproveitei para doar alguns livros e devolver outros que estavam emprestados. Mas um volume acabou no dono errado e, quando todas as caixas já tinham ido para o guarda-móveis, eis que me aparece de volta. Sabe aquele objeto que fica rodando de canto em canto, sem destino? Pois assim ficou o livrinho meio bege, meio rosa, no nosso lar provisório. Até que há uns dias, órfã da biblioteca, e sem vontade de avançar (e arrependida) do único volume que trouxe pra cá, fui ter com o dito cujo.

Pulei a introdução e o prefácio. Prefiro só ler explicações sobre obras de literatura depois de lê-las por mim mesma. (Também tenho horror de ver trailer de filmes que pretendo assistir.) Não é frescura, nem superstição. É simplesmente porque adoro a sensação de fazer descobertas, de sentir que estou tateando em busca de segredos e pistas, como nas caças-ao-tesouro da infância.

E que surpresa maravilhosa eu tive! O livro chama-se “Ladrão de casaca: Uma aventura de Arsene Lupin”, de Maurice Leblanc (trad. de Paulo Hecker Filho, Ed. Nova Fronteira). Aventura, suspense, romance, ironia, mistérios de quebrar-a-cabeça. Estou só no terceiro capítulo e já comecei a diminuir o ritmo com pena de acabar logo…

Não, não vou contar nada da história. Só resolvi trazer o assunto para o post porque ontem, tentando animar meus alunos a avançarem nas suas experiências etnográficas, me lembrei de como é importante saber “brincar de detetive” quando fazemos uma pesquisa. Sair de casa com uma pauta pronta deixa tudo sem graça.

Muitos já escreveram sobre isso, mas gosto especialmente do texto “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” do historiador italiano Carlo Ginzburg (capítulo do livro “Mitos, emblemas e sinais”, editado pela Companhia das Letras). Ele escreve sem cerimônia sobre Sherlock Holmes, Freud, Galileu, Voltaire e outros autores de várias épocas, numa mistura divertida e empolgante sobre o tema da investigação científica.

Bem que eu desconfiava que a minha intensa formação em Agatha Christie tinha sido uma boa introdução às ciências sociais! Como Poirot podia descobrir a solução de um crime mostrando que sua testemunha “via” com a imaginação (o que esperava ver) e não com os “olhos” sem um doutorado em semiologia?

Tive a sorte de me encontrar com o mundo dos sinais e dos signos na faculdade de comunicação. É uma forma de olhar o mundo como se fosse um quebra-cabeça, um segredo a ser desvendado, um portão que se abre, quem sabe, para o país das maravilhas ou só para uma imensa obra do metrô.

Ah, e claro: fui examinar o volume perdido do Ladrão de Casaca! E não é que descobri o dono? Num cantinho das páginas iniciais estava o nome do meu irmão e o ano 1975 escritos na caligrafia da minha mãe. O pobrezinho tinha 11 anos nessa data e já devia dar sinais de que não ligava muito para a leitura… Alguém que perde um livro desses não o merece de volta, merece? Pois eu é que não vou devolver!

Aflita com a falta de assunto, perguntei para a Alice pela manhã: “Tem alguma ideia para o post de hoje, filha?” E ela, rápida: “Ah, escreve sobre mim, sempre faz sucesso!”

Sobre o desenho: Esse “Portão D” do desenho fica no cruzamento da R. General Venâncio Flores com Av. Ataulfo de Paiva no Leblon. Fui dar uma volta no canteiro de obras do metrô, e até consegui espiar o lado de dentro, mas acabei preferindo a ideia de retratar esse pedaço de escavadeira encoberta. Aliás, nem sei se é escavadeira mesmo. Preciso voltar para olhar direito. Como sempre acontece quando desenho, há detalhes que só passo a  enxergar quando estou desenhando. Uma das melhores coisas dessa cena foi descobrir que a cadeirinha azul (no canto esquerdo) estava com os pés traseiros enfiados para dentro do plástico. Adorei achar esse pedacinho de improviso em meio a uma obra tão imponente.

Desenhei no caderninho velho-novo (o mesmo desse post aqui) com canetinhas, aquarela e lápis de cor a partir da observação e depois com a ajuda de uma foto feita com celular para me lembrar dos detalhes. Queria ter conseguido fazer uma Kombi branca, cheia de escadinhas, parada à direita, mas não tive fôlego. Vai chegar o momento, me disse o Antônio, em que vou poder desenhar (e ler!) o dia todo, como a Lisa Congdon, uma das artistas que está inspirando desenhos lindos dele! Em breve vou postar aqui.