Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Portão D

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No meio da mudança, aproveitei para doar alguns livros e devolver outros que estavam emprestados. Mas um volume acabou no dono errado e, quando todas as caixas já tinham ido para o guarda-móveis, eis que me aparece de volta. Sabe aquele objeto que fica rodando de canto em canto, sem destino? Pois assim ficou o livrinho meio bege, meio rosa, no nosso lar provisório. Até que há uns dias, órfã da biblioteca, e sem vontade de avançar (e arrependida) do único volume que trouxe pra cá, fui ter com o dito cujo.

Pulei a introdução e o prefácio. Prefiro só ler explicações sobre obras de literatura depois de lê-las por mim mesma. (Também tenho horror de ver trailer de filmes que pretendo assistir.) Não é frescura, nem superstição. É simplesmente porque adoro a sensação de fazer descobertas, de sentir que estou tateando em busca de segredos e pistas, como nas caças-ao-tesouro da infância.

E que surpresa maravilhosa eu tive! O livro chama-se “Ladrão de casaca: Uma aventura de Arsene Lupin”, de Maurice Leblanc (trad. de Paulo Hecker Filho, Ed. Nova Fronteira). Aventura, suspense, romance, ironia, mistérios de quebrar-a-cabeça. Estou só no terceiro capítulo e já comecei a diminuir o ritmo com pena de acabar logo…

Não, não vou contar nada da história. Só resolvi trazer o assunto para o post porque ontem, tentando animar meus alunos a avançarem nas suas experiências etnográficas, me lembrei de como é importante saber “brincar de detetive” quando fazemos uma pesquisa. Sair de casa com uma pauta pronta deixa tudo sem graça.

Muitos já escreveram sobre isso, mas gosto especialmente do texto “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” do historiador italiano Carlo Ginzburg (capítulo do livro “Mitos, emblemas e sinais”, editado pela Companhia das Letras). Ele escreve sem cerimônia sobre Sherlock Holmes, Freud, Galileu, Voltaire e outros autores de várias épocas, numa mistura divertida e empolgante sobre o tema da investigação científica.

Bem que eu desconfiava que a minha intensa formação em Agatha Christie tinha sido uma boa introdução às ciências sociais! Como Poirot podia descobrir a solução de um crime mostrando que sua testemunha “via” com a imaginação (o que esperava ver) e não com os “olhos” sem um doutorado em semiologia?

Tive a sorte de me encontrar com o mundo dos sinais e dos signos na faculdade de comunicação. É uma forma de olhar o mundo como se fosse um quebra-cabeça, um segredo a ser desvendado, um portão que se abre, quem sabe, para o país das maravilhas ou só para uma imensa obra do metrô.

Ah, e claro: fui examinar o volume perdido do Ladrão de Casaca! E não é que descobri o dono? Num cantinho das páginas iniciais estava o nome do meu irmão e o ano 1975 escritos na caligrafia da minha mãe. O pobrezinho tinha 11 anos nessa data e já devia dar sinais de que não ligava muito para a leitura… Alguém que perde um livro desses não o merece de volta, merece? Pois eu é que não vou devolver!

Aflita com a falta de assunto, perguntei para a Alice pela manhã: “Tem alguma ideia para o post de hoje, filha?” E ela, rápida: “Ah, escreve sobre mim, sempre faz sucesso!”

Sobre o desenho: Esse “Portão D” do desenho fica no cruzamento da R. General Venâncio Flores com Av. Ataulfo de Paiva no Leblon. Fui dar uma volta no canteiro de obras do metrô, e até consegui espiar o lado de dentro, mas acabei preferindo a ideia de retratar esse pedaço de escavadeira encoberta. Aliás, nem sei se é escavadeira mesmo. Preciso voltar para olhar direito. Como sempre acontece quando desenho, há detalhes que só passo a  enxergar quando estou desenhando. Uma das melhores coisas dessa cena foi descobrir que a cadeirinha azul (no canto esquerdo) estava com os pés traseiros enfiados para dentro do plástico. Adorei achar esse pedacinho de improviso em meio a uma obra tão imponente.

Desenhei no caderninho velho-novo (o mesmo desse post aqui) com canetinhas, aquarela e lápis de cor a partir da observação e depois com a ajuda de uma foto feita com celular para me lembrar dos detalhes. Queria ter conseguido fazer uma Kombi branca, cheia de escadinhas, parada à direita, mas não tive fôlego. Vai chegar o momento, me disse o Antônio, em que vou poder desenhar (e ler!) o dia todo, como a Lisa Congdon, uma das artistas que está inspirando desenhos lindos dele! Em breve vou postar aqui.


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Saudades das Saudades de Oxford 2

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Não sei se comemoro os pedidos dos leitores que escreveram “sim, queremos mais diários de Oxford!” ou se choro por achar que minha vida (ou meu texto, que diferença faz?) eram mais divertidos naquela época…

Lá vai um relato que escrevi mais ou menos na terceira semana da viagem, em janeiro de 2005, quando começava a me sentir mais integrada à “sociedade local…” 

**A Dieta Britânica**

A primeira e sem dúvida maior vantagem de vir para a Inglaterra é a oportunidade única de se fazer a “dieta britânica”. É muito simples e eficiente. O sistema funciona em etapas, bem parecido com as dietas tradicionais:

Etapa 1 – Choque de preços: Quando bate a fome, você entra numa lanchonete, olha o cardápio e analisa os preços. Que tal 50,00 reais por um queijo quente? Ou quem sabe 10,00 reais por um pedaço de bolo? Resultado: perda de até um quilo em uma semana.

Etapa 2 – Choque de paladar: Passada a primeira fase, você acaba se acostumando com os preços e resolve encarar. Você pede uma tradicional e simpática batata assada com queijo. Aquela comida quentinha e amiga que seu estômago tanto precisava. A aparência é boa, mas o gosto é indescritível: uma mistura de nada com algo azedo e um tanto amargo (depois você descobrirá que esse é o gosto do “Efeito Cheddar” — mais ou menos equivalente ao “Efeito ketchup” dos americanos). Resultado: perda de até dois quilos em uma semana (pois além de não comer, você ainda passa dias enjoada com o gosto do que comeu).

Etapa 3 – Choque de Supermercados tipo 1: Vencidas as duas primeiras etapas, você já aboliu a idéia de ir a restaurantes. Está feliz com a perda dos famosos três quilos (nada mau, você pensa) mas fraca e desnutrida. É hora de ir ao supermercado! Você entra no primeiro e… epa? não tem comida de verdade. É só comida de restaurante disfarçada: salada para 1, lasanha para 1, chop suey para 1, quiche para 1… Você também se dá conta que todos devem ser terrivelmente solitários nessa terra. A fila só tem 1 moça, 1 rapaz, 1 senhor, 1 adolescente. Nenhum grupinho. Cada um com sua cestinha ou com seus pratos-prontos na mão. Você compra timidamente uma sopa para 1. A embalagem diz que é de legumes, mas o “Efeito Cheddar” é o mesmo de sempre. Resultado: perda de até 1 quilo em três dias. (Isso porque você não aguentará mais uma semana na Etapa 3. Seu organismo está ficando fraco.)

Etapa 4 – Choque de Supermercados tipo 2: Afinal você encontra um supermercado de verdade, que vende arroz, lentilha e alface não lavada! Aqui você percebe que existem famílias nessa terra: e ricas. Para ter direito a usar o carrinho do supermercado é preciso pagar 1 pound! Isso mesmo: quase 6 reais só para usar o carrinho. Bem, você não pode esbanjar. Nada de carrinho. De repente, você se vê até feliz pensando: ah, a cestinha é de graça, que sorte a minha! Você compra então tudo o que consegue carregar na cestinha. Na volta pra casa, vencidas as etapas do fogão, você descobre um pequeno problema: o gosto da sua própria comida não é lá essas coisas… Resultado: perdas oscilantes de até 500 gramas por semana. (Isso porque, mesmo sendo ruim, a sua comida ainda é bem melhor do que qualquer outra).

**Beleza e Moda Britânica em Números**

– Liquidação!! Sapatos: 79 pounds! Casaquinhos Gap: 49 pounds! (multipliquem por 5, se estiverem de bom humor; ou por 6 se estiverem de mau).

– Cortes de cabelo: 67 pounds! Apenas lavar e secar: 30 pounds! (idem acima)

** Sinais de que você está se adaptando (mais ou menos) à vida local **

– Lidando com Máquinas: Aqui a industrialização avançada chegou a todas as esferas da vida humana. Máquinas que fervem café forte com leite fraco e um pouquinho de açúcar, máquinas que lavam e secam roupas em vinte minutos, máquinas que são caixas de supermercados! Todas funcionam à base de dinheiro e falam com você com vozes femininas eletrônicas. O pessoal dos estudos de gênero não ia gostar nada disso… Outro dia, no meu supermercado-restaurante preferido resolvi lutar contra a humilhação de ir para o único caixa-humano do local (para onde vão só os turistas e os velhinhos, claro). Era uma compra simples, pensei: apenas uns 20 reais por um pacote de guardanapos e um rolo de papel plástico. Você chega cheia de confiança, passa o primeiro pacote pelo leitor do código de barras da máquina e… já vai passar o outro quando uma voz soa lá de dentro: “please, put the item in the bag”. Você olha prum lado, olha pro outro… Como é que a máquina sabe que eu não pus o “item” na bolsa? A máquina repete: “pleeease, put the item in the bag”. Você obedece e a máquina agradece: “do you have another item?” Não me perguntem como, mas passei o outro “item”, coloquei os dois na “bag” e enfiei as moedas o mais rapidamente possível. Antes que eu saísse correndo, ainda ouvi: “pleeease, wait for your receipt”. Ai de você, pega o recibo. “Thank you.”

– Maurice (o housekeeper) quis tirar uma foto comigo e colocou a mão na minha cintura! Posso não fazer sucesso acadêmico, mas os trabalhadores me amam…

** Wash your own Mug **

– Coffee and Cake! Em todos os departamentos da Universidade há uma manhã ou tarde reservada para um encontro com café, chá, biscoitos e bolos. Assim, alunos conversam, professores se encontram, secretárias e bibliotecárias se distraem e os bicões como eu se integram à vida local. Até aí, nada extraordinário. O diferente disso tudo são os dois cartazes que você encontrará em todas as salas (os Common Rooms) de convivência: “The coffee and cookies at … costs 0,40p.” (e todo mundo põe os 40 centavos na cestinha); “Please, don’t forget to wash your own mug” (Por favor, não se esqueça de lavar a sua própria caneca!). Aqui não é a terra dos descartáveis como nos EUA. As mugs se multiplicam como filhotes de coelho e se você não lavar a sua pode voltar dali a uma semana que ela estará no mesmo lugar, intacta e suja como você a deixou. (É verdade, aconteceu comigo!) No Centro de Estudos Brasileiros, a diferença é que, ao invés de 1 cartaz, temos quatro ou cinco cartazes espalhados pela cozinha e sala, além de receber pelo menos 2 ou 3 e-mails por semana avisando “wash your own mug”! Adivinhem por que?

** Sinais de que você NÃO está se adaptando à vida local **

– Você continua tomando dois banhos por dia, mesmo com um chuveiro fraco e uma água que parece ter sido misturada com polvilho antisséptico Granado.

– Você continua sentindo falta de dormir com lençol de cima e lençol de baixo ao invés dessa colcha disfarçada de lençol que todos usam por aqui.

– Você continua não entendendo as piadas que os porteiros fazem após o tradicional bom dia! O sotaque é indecifrável. Outro dia, para ter assunto com um dos porters mais empenhados em me alegrar de manhã, tive a infeliz idéia de pedir que ele repetisse a piada, “slowly, please…” Depois de dez minutos de uma conversa de surdos, a única palavra que eu pesquei foi “hedgehog”. Quer dizer, pesquei é modo de dizer: guardei o som e depois fui olhar no dicionário. Era porco-espinho. Alguém nessa terra poderia me dizer se existe uma piada com porco-espinho no meio?

Relendo essas bobagens, fico pensando o que pensarão que eu estava fazendo em Oxford. Será que era mesmo uma viagem acadêmica? Se quiserem, publico o Diário 3, que será a prova de que sim: eu tinha atribuições supostamente intelectuais. Para quem perdeu o Diário 1, está aqui.

Sobre o desenho: Infelizmente meu outro caderno feito Oxford ficou no IFCS, daí que não tive tempo de escanear nada da época para o post. Esse jardim foi feito há duas semanas no Jardim Botânico do Rio, graças à companhia de duas amigas queridas. Nos escondemos no bambuzal, na esperança de que os guardinhas não nos proibissem de estender uma toalha para desenhar. Aí está a prova da nossa proeza! Foi feita numa amostra antiga de papel verde que a Nathalia me deu, e desenhado com minha nova canetinha branca Sakura Gel 0.4 (dica do genial Freekhand/Miguel Herranz). As sombras foram feitas com aguada de nanquim colocada num waterbrush de aquarela. Não estava levando muita fé nesse desenho, mas achei que melhorou um pouco depois de acrescentar contraste no Picasa. Desenhar tanta informação junta me dá uma preguiça danada, mas ao mesmo tempo gera um efeito de auto-hipnose. Se não fossem o calor, os turistas e o medo dos guardinhas, acho que teria conseguido completar a página toda…


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Um Matisse para Maria Eduarda

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“A dor passa, Matisse, mas a beleza fica” disse o idoso Auguste Renoir para o angustiado amigo. O contexto é o final da primeira guerra mundial. A Europa chorava seus mortos e os críticos desprezavam as cores e os temas que Matisse pintava naqueles anos sombrios. Como ele podia encher as telas de tanta vitalidade de tons, mulheres e padronagens enquanto o mundo desabava?

Foi nessa contradição que pensei quando terminei o desenho desse post. Como posso criar uma praia de guarda-sóis alinhados e coloridos com estampas como se estivessem em um desfile de moda? Como?, se nesse mesmo dia morria assassinada a menininha Maria Eduarda, de onze anos, vítima de uma bala “perdida” em sua casa no Irajá, Rio de Janeiro. Diz o aviso no muro: “não existe tiro acidental em bairro nobre”.

Eu devia estar fazendo algo. Não posso pintar em Nice enquanto os soldados morrem de fome nas aldeias do norte. Ou posso?

Arte ou política; ou arte política? Não, não vou propor uma solução messiânica para esse debate (até porque detesto as soluções messiânicas, infelizmente tão populares nas ciências sociais hoje em dia). Vou só contar mais uma história.

A vida de Matisse tem todos os ingredientes da trajetória do herói: No final do século XIX, menino pobre começa a pintar para se distrair enquanto convalesce. Vai para Paris, mas é rejeitado pelo mundo da arte, pelos pais e conterrâneos. Sem recursos, encontra na mulher e na filha o apoio incondicional para lutar por uma busca: o encontro perfeito da cor e da forma. Seu corpo, sua vida pessoal e pública desmoronam enquanto sua obra se afirma, se desafia e se reinventa até o fim. Do pintor, cujos quadros eram alvo de saraivadas de tomates, ao artista que “reinventou a arte no século XX”, como dizem no jargão da crítica.

Em 1900, vivendo num apartamento minúsculo no quinto andar de um prédio decadente em Paris, Matisse gastou o equivalente a metade da sua renda anual para adquirir a pintura Três banhistas, de Cézanne. Décadas mais tarde, quando doou a obra à prefeitura da cidade, escreveu:

“Nos trinta e sete anos que fiquei com esse quadro, vim a conhecê-lo razoavelmente bem, ainda que sem esgotá-lo. Ele me proporcionou apoio moral em momentos críticos de minha trajetória como artista; dele extraí a minha fé e a minha perseverança.”

Nenhuma resposta vai trazer de volta a vida da Maria Eduarda. Mas todos que choram a sua morte vão precisar da arte para suportá-la.

Sobre o desenho: Os guarda-sóis são inspirados em fotos de praias portuguesas que venho guardando no meu computador desde 2011. Usei canetas de nanquim Pigma Micron 0.05, aquarela, lápis de cor e ainda as canetinhas coloridas mais maravilhosas do planeta: Staedler triplus fineliner. O objetivo era ilustrar o calendário do mês de janeiro de 2014 em homenagem ao aniversário da minha amiga Mariela, que ama o sol. Depois escaneei a imagem e montei uma versão sem a grade do mês no meu velhinho Photoshop 7, de 2002, que é o que eu sei usar — por si só uma obra de arte do mundo do software.

Sobre Matisse: As citações estão na biografia Matisse, de Hilary Spurling (tradução de Claudio Alves Marcondes, ed. Cosac Naify, 2012). A frase sobre Cézanne está na p. 82 e a citação de Renoir na página 313. A edição traz um caderno de imagens colorido mas muito modesto perto do que é a obra de Matisse. Uma excelente fonte de imagens pode ser encontrada na WikiPaintings. Outro ponto que me irritou neste volume foi descobrir que suprimiram (tanto no Brasil quando na reedição americana) milhares de notas com as fontes e outros detalhes da pesquisa original. Para a versão completa, só comprando no mercado de livros usados nos EUA.