Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Setembro/2017 – Pensando em desistir

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Querida amiga,

toda força do mundo pra você. Eu também já quis desistir muitas e muitas vezes. Agora em agosto, inclusive, quase joguei meu projeto no lixo. Os prazos deixam a gente em dúvida de tudo, até do sentido do nosso próprio trabalho. Já aconselhei aqui o truque de produzir um texto como se estivesse escrevendo uma carta para uma pessoa querida. Conta a tua história, de vez em quando mete uma piada no meio. Tenta rir de si mesma. Esse é o único atenuante que funciona, pelo menos pra mim.

Às vezes, essas paralisias são fruto do excesso de importância que damos ao nosso mundinho. Melhor pensar como você mesma disse outro dia: trabalho acadêmico pode ser como lavar louça. Podemos seguir acumulando pratos, conhecimentos, palavras e deixando o mundo girar aos pouquinhos. A experiência de fazer um mestrado é só para você ter uma experiência de fazer um mestrado. Não é para revolucionar a ciência. Aliás, que bom! Pensa nas pessoas que querem “revolucionar” alguma área e veja como muitas delas se tornam arrogantes e messiânicas!

Quanto a passar um mês sem conseguir escrever, bem-vinda ao clube, querida. Você, Weber, Malinowski, eu, Chris, Dani, todos já passamos por isso e nos martirizamos. Escreve um diário, junta com a escrita da dissertação, mistura tudo isso, depois edita. Às vezes a gente precisa de 29 dias sem escrever uma linha e depois um dia escrevendo tudo — era assim que o Oliver Sacks produzia! Vários escritores já passaram por isso. é humano. A gente não é computador que realiza x tarefas por dia.

Uma coisa que faz falta no ensino da pós-graduação é mostrar aos alunos que as leituras e conhecimentos que aprendemos precisam de tempo para amadurecer. Nosso pensamento é que nem fruta. Pode parecer bonito, mas não estar maduro. Pensar sobre as coisas e escrever sobre elas demanda da gente uma energia enorme; tipo gravidez, amamentação, sexo, necessidades fisiológicas, sono… nada disso é simples nem automático, embora seja “natural”. Precisamos de um tempo, um ritmo, um calor, uma música, um bem-estar qualquer dentro da gente que impulsione.

Abraça teus amores, humanos e bichos, dá uma volta no parque. Escreve primeiro, desiste depois. Pensa assim: vou me livrar logo dessa dissertação e depois vou desistir da vida acadêmica. Só o fato de decidir desistir já vai tirar um peso enorme (tipo, vale qualquer coisa, certo?). Daí, quando acabar a dissertação, você pensa se quer desistir mesmo. Se sim, ok. Terá encerrado um caminho com a sensação de dever cumprido. Se não, ok também. Irá partir para o doutorado com uma experiência diferente pra te apoiar nos momentos difíceis. No entanto, se estiver impossível continuar do jeito que está, pede uma pausa, tranca, respira, busca ajuda, porque tudo tem um custo, e você é que sabe o seu. Só não se machuca no caminho, porque sua vida é muito, muito,mais importante do que qualquer trabalho.

♥ te admiro,

K.

Agosto foi mês de voltar de férias, sentir frio, ficar deprimida e cumprir prazos chatos. Felizmente, setembro chegou! Descobri que 21 é o dia da árvore, daí o tema do calendário.

A inspiração inicial para as formas veio dessa ilustração. A qualidade não está muito precisa porque usei marcadores em papel comum. A vantagem é que é bem mas rápido de colorir do que o lápis-de-cor. Esses desenhos têm me feito sonhar com um estojo gigante de Copic markers — é baratinho… quase o preço de um notebook!

Aí vai o calendário para imprimir: tem versão grande em .pdf ou em .jpg (cliquem na imagem acima). Depois me digam se a impressão em casa melhorou com o arquivo maior!

Sobre o desenho: Fiz primeiros as manchas de cores com marcadores Tombow brush e Sakura Koi Brush. Apenas o verde claro foi feito com lápis-de-cor Primalo Caran D’Ache. As linhas foram feitas com canetinhas Staedtler triplus fineliner e Graphik line maker da Derwent.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Setembro/2017 – Pensando em desistir”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-set2017. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Canetinhas, pra que te quero!

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Não me lembro quando descobri essas belezinhas Pigma Micron (da marca japonesa Sakura). Só sei que me apaixonei. São canetas de naquim à prova d’água (isto é, não borram quando você pinta com aquarela por cima), disponíveis em várias cores,  espessuras e até em ponta pincel (BR, de brush). Infelizmente, são descartáveis e, se usadas todos os dias, acabam rapidamente. As que eu mais utilizo (005, 0,1 e 0,2 pretas) duram cerca de um mês. Mas no dia do lançamento do Ulisses, gastei duas numa noite só, fazendo quase 150 dedicatórias! As coloridas eu economizo porque são lindas e difíceis de achar. Atualmente, estou comprando a Unipin (da marca Mitsubishi, também japonesa) porque tem em qualquer papelaria e está mais barata (cerca de R$11,00). A versão da Staedtler (alemã) é excelente, mas difícil de comprar aqui no Rio. Esse ano testei também a Copic Multiliner SP (mais uma japonesa) que permite o uso de refil.

Comparando as quatro marcas: a Pigma Micron é a minha preferida segundo quatro critérios: cores intensas (linha bem preta ou na cor escolhida); macia de desenhar, secagem rápida e embalagem bonita — além da cor bege pouco usual, tem a florzinha (símbolo da marca Sakura) e detalhes em violeta. Vejam que sonhos de consumo esse estojinho básico e essas cores!

A Staedtler fica em segundo lugar: empata na cor intensa e na secagem, mas a ponta é menos macia e a embalagem é sem graça. A Unipin vem em terceiro em todos os critérios. E a Copic ficou em último na minha lista pela decepção. O  atendimento no site brasileiro é impecável e preço parece valer a pena para um produto reutilizável (e portanto, mais ecológico). Apesar de bonitinha, a caneta é pesada, a ponta é áspera e o refil dura poquíssimo, além de ficar se soltando do corpo principal, por mais que eu aperte.

(PS: Todas as quatro são à prova d’água! *obrigada ao Durval Amorim por me lembrar de escrever isso!)

Há muito tempo atrás, meu avô me deu um estojo de canetas técnicas Rapidograph (marca Koh-i-Noor), que utilizam refil de nanquim. Infelizmente, acabei me afastando do desenho  e não fui cuidadosa o suficiente com suas peças delicadas. Acho que doei para alguém que me disse que sabia como limpá-las. Até hoje tenho dificuldade de usar caneta tinteiro. As poucas que ainda possuo estão encostadas, semi-entupidas ou com as pontas amassadas, aguardando o destino.

Esta foi mais uma contribuição para a nova seção do blog sobre materiais de desenho. O tema está sendo como brinquedo novo de criança: difícil de largar!

* 4 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-emocionantes-vertiginosas-ou-dignas-de-nota da semana:

* Pesquisando para o post, descobri que a Koh-I-Noor começou na Áustria, em 1790. E isso me lembrou que adorei o filme A dama dourada (Woman in gold), sobre a trajetória do quadro de Gustav Klimt, da sua origem ao enfrentamento do nazismo e do nacionalismo. (Não vou fazer link porque acho que os trailers estragam a experiência de assistir aos filmes.) Minha irmã disse que o livro é melhor (sempre, né?), mas muitas pessoas da minha família se emocionaram com a história. Há vários pontos em comum com a violência sofrida pelos meus bisavós de Berlim. Meu avô fugiu da Alemanha na mesma época em que a personagem principal fugia de Vienna, sabendo que provavelmente nunca mais veria seus pais, seu irmão, familiares e amigos, como de fato aconteceu.

* Uma amiga queridíssima trouxe de Londres um kit de cinco pincéis da coleção Anna Mason Art para a Rosemary & co. São específicos para aquarela, com pelo sintético bem macio e curto, nos tamanhos 5, 3, 1, 0 e 000. Estou adorando!

* E já que estamos falando tanto de materiais, deliciem-se com a tag Art Tools do Parka Blogs (já indicado na lista de inspirações aqui do blog). O site todo é vertiginosamente legal!

* Fiz esse cartãozinho para agradecer às dezenas de mensagens de feliz aniversário (21/08) que recebi na semana passada. Para todos que ainda não viram (no facebook), aí vai meu muito, muito obrigada!

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Sobre os desenhos – O desenho da canetinha Pigma Micron foi feito no verso de um papel Canson Pintura escolar Bloco A3. Fiz tudo com lapiseira primeiro, depois passei o nanquim (por ironia: com canetinha Unipin! 0.05) e apaguei com um limpatipos Staedtler (adorei, aquisição recente!). Pintei com os pincéis novos e aquarela Winsor & Newton (usando principalmente Ochre, Burnt Siena, Payne’s Grey e Neutral Tint). Mas usei também uma cor emprestada pela Chiara chamada Amarelo Napoles (só vem em kits Pentel), que é meio fosca e perfeita para fazer esse bege de plástico. O desafio foi fazer as letrinhas em violeta. O “Pigma” foi escrito com uma Staedtler triplus fineliner, que era fina o suficiente, embora não da cor certa. O número “005” foi feito com uma Stabilo point 88 mini violeta. As duas canetinhas não são à prova d’água e borraram um pouco (principalmente a Stabilo). A linha horizontal foi pintada com tinta Cobal Violet (WN) e pincel 000 Winsor & Newton University (aquele vermelhinho que desenhei para a página de materiais, pois descobri que faz uma linha mais fina do que o mesmo número da Anna Mason). As tampinhas das canetas vistas de cima foram feitas com os materiais acima, mas coloridas com as próprias canetinhas, no caso da vermelha, da azul e da siena. Vejam como as cores são incríveis: super brilhantes, mesmo nessas miniaturas.

O desenho do cartão de agradecimento foi feito mais ou menos da mesma forma, a partir da observação de um buquê de cinco cores de astromelias (R$5,00 reais cada ramo na Cobal). Eu mesma comprei, mas não posso ter flor em casa porque os gatos ficam doidos de vontade de comer; e se comerem passam mal… Essas estão trancadas no banheiro, coitadas. (E logo depois que escrevi isso, o Ulisses deu um jeito de entrar no banheiro, comer algumas flores e vomitá-las no tapete do meu quarto!) Em relação ao desenho: achei que fiz linhas demais e o resultado saiu meio pesado. A inspiração foi o trabalho do artista Tommy Kane, mas não cheguei nem perto da mistura de precisão e leveza que ele consegue. A moldurinha do cartão foi feita de forma eletrônica no programa Picasa, um software de fotos grátis do Google, super fácil de usar.


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Um caderno não é só um caderno

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A primeira vez que participei de um evento dos Urban Sketchers, em Lisboa, em 2011, fiquei maravilhada com a quantidade de desenhos que passavam de mão em mão. Todo mundo se cumprimentava assim: “Posso ver o seu caderno? Quer ver o meu?”

Já conhecia várias daquelas pessoas por blogs, flickrs e pelo livro Diário de Viagem de Eduardo Salavisa, mas nada se comparava a folhear os caderninhos pessoalmente. Um dos primeiros que vi ao vivo foi o de Richard Câmara, começando com uma sequência de imagens feitas através das janelas do avião (a pousar em Lisboa), seguida por dezenas de páginas com animais do zoológico. “Em quanto tempo você desenhou tudo isso?”, perguntei. “Ontem e hoje”, ele respondeu, sem nenhuma afetação; e ainda fazendo questão de me explicar que a ideia das janelas tinha sido inspirada no desenho de fulano-de-tal (infelizmente não lembro o nome).

“Como assim???”, pensava eu com minhas canetinhas… Desde 2004, eu tinha voltado a desenhar, mas nenhum dos meus cadernos se comparava àquelas páginas intensas e coloridas. Era como saber tocar “Gente Humilde” com três cifras no violão e encontrar pela frente a galera que toca “Brasileirinho” com os olhos vendados.

Felizmente, a essa altura da vida, eu já tinha aprendido que adoro aprender. Gosto de ser aluna, de enfrentar desafios, de descobrir uma montanha de coisas que ainda não sei. Amo legos e quebra-cabeças (os de verdade e os metafóricos).

É claro que morro de preguiça muitas vezes, e também já desisti de aprender a tocar Brasileirinho (o de verdade e os metafóricos) em várias oportunidades. Larguei pelo caminho um monte de coisas; e não sou nenhuma miss-certinha. (Os mais de quinze dias de atraso nesse blog são uma boa prova do meu sistema “bom mas nem tanto”, “bem feito, mas com defeito” ou o melhor, da vovó Trude: “só erra quem faz”. )

Então, bora comemorar! Muitas e muitas páginas e canetas depois daquele evento de 2011, até a imersão na Drawing Land do ano passado, agora já tenho coragem de perguntar: “Posso ver o seu caderno? Quer ver o meu?”

Sobre os desenhos: Quase todos os desenhos foram feitos com canetinhas de nanquim descartáveis (as minhas preferidas são as Pigma Micron da Sakura) e coloridos com aquarela, lápis de cor e vários tipos de canetas hidrocor (no momento estou apaixonada pelas Tombow e em vias de me apaixonar pelas Koi watercolor brush, da Sakura, que acabaram de chegar graças a uma amiga que foi aos EUA.) Estou sem tempo de escrever sobre cada imagem, mas se tiverem alguma dúvida ou curiosidade me escrevam nos comentários que eu respondo!

O caderninho é um Laloran com lombada de tecido Tais timorense feito pelas mãos talentosas de Ketta Linhares. Essa minha versão é com papel mais fino do que o ideal (de 220gr que usei no #UskParaty2014). Ainda por cima, o bichinho tomou um banho d’água logo no segundo dia de uso (daí as ondulações sombreadas em várias das páginas abaixo).

Laloran 2015 jan (7)Laloran 2015 jan (2)Laloran 2015 jan (1)Laloran 2015 jan (4)Laloran 2015 jan (3)   Laloran 2015 jan (5) Laloran 2015 jan (6)  Laloran 2015 jan (8)

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Caixas, gatos e listas

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A semana andou na direção oposta dos gatos do desenho: muito trabalho, caixas de mudança, poeira, dor de garganta, taxista furioso batendo no meu carro e listas enormes — uma de tudo que vai para o guarda-móveis e outra das milhares de coisas que preciso providenciar. O pior está sendo encarar o fato de que não sou mais uma garotinha livre leve e solta que sai por aí mudando de casa com uma mochila nas costas. Já estamos em 58 caixas e contando… Consola saber que metade está recheada de livros; e metade dessa metade com livros das crianças. Quem notou isso foi a professora de inglês do Antônio e da Alice: “Nossa, nessa idade eles já têm tantos livros; que lindo!” Ufa. Que lindo, então, vamos encarar.

Mas lindo mesmo foi achar a lista de tarefas da Alice, escrita por ela num papel A4, tipo todo oficial, preso a uma prancheta, por sua vez, presa com um barbante na porta do armário. Depois de uma certa relutância, ela me autorizou a reproduzir aqui para vocês. Segue a versão digitada para facilitar a leitura (e o original na imagem abaixo):

Lista de coisas para fazer
1 – Convidar o Zé para ir em casa ou eu ir na casa dele
2 – Lembrar de pedir para a Dani (a professora de capoeira) para provar a calça 6 anos
3 – Ajudar a fazer a mudança
4 – Comprar uma bola de futebol
5 – Sábado ligar para o Pedro e o Zé para conectar no Minecraft ❤
6 – Avisar ao Zé que a Maria Eliza tá namorando com o João Pedro (da van)
7 – Quando estiver no Leblon, perguntar à mamãe onde é a Lagoa
8 – Comprar um deck para colocar a bike no carro
9 – Lembrar de trazer cartas para trocar com o Hugo (da van)

Aí vai a versão com a letrinha dela:

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Posso não estar raciocinando direito hoje, mas acho que a Alice está dando de dez em mim. Ok, ela herdou a minha mania de fazer listas — uma das rotas de fuga que esqueci de mencionar no post da semana passada — e o senso de dever que vem junto (“ajudar a fazer a mudança”). Mas todo o resto é dedicado aos amigos e às coisas que ela gosta de fazer… Prova de que os meus defeitos não estão atrapalhando a vidinha dela!

Sobre o desenho: Eu tinha planejado outra coisa para o calendário de maio, mas não tive como fazer na confusão que está a minha casa. Com os gatos apaixonados pelas caixas, foi fácil usá-los como modelos. Os desenhos foram feitos com uma canetinha preta de nanquim que não é à prova d’água (a mesma desse post). Depois passei um pincel molhado para borrar de propósito. A ideia veio da aula de hoje (do Laboratório de Antropologia e Desenho que estou oferecendo no IFCS) que, por sua vez, foi inspirada na quinta aula da Sketchbook Skool. Passamos a tarde conversando sobre os desenhos científicos na história da antropologia e desenhando a partir de modelos de pequenos animais de resina (eu ia escrever dos “animais de brinquedo do Antônio”, mas não fica bem brincar na graduação; então a gente finge que é trabalho).

Agradecimentos: Muito, muito obrigada pelas mensagens e comentários sobre a carta-post da semana passada. O melhor de tudo foi saber que meu amigo melhorou; que aquelas palavras fizeram alguma diferença! O que desejei para ele vale para todos que estão nesse barco: força aí.


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Saudades das Saudades de Oxford 2

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Não sei se comemoro os pedidos dos leitores que escreveram “sim, queremos mais diários de Oxford!” ou se choro por achar que minha vida (ou meu texto, que diferença faz?) eram mais divertidos naquela época…

Lá vai um relato que escrevi mais ou menos na terceira semana da viagem, em janeiro de 2005, quando começava a me sentir mais integrada à “sociedade local…” 

**A Dieta Britânica**

A primeira e sem dúvida maior vantagem de vir para a Inglaterra é a oportunidade única de se fazer a “dieta britânica”. É muito simples e eficiente. O sistema funciona em etapas, bem parecido com as dietas tradicionais:

Etapa 1 – Choque de preços: Quando bate a fome, você entra numa lanchonete, olha o cardápio e analisa os preços. Que tal 50,00 reais por um queijo quente? Ou quem sabe 10,00 reais por um pedaço de bolo? Resultado: perda de até um quilo em uma semana.

Etapa 2 – Choque de paladar: Passada a primeira fase, você acaba se acostumando com os preços e resolve encarar. Você pede uma tradicional e simpática batata assada com queijo. Aquela comida quentinha e amiga que seu estômago tanto precisava. A aparência é boa, mas o gosto é indescritível: uma mistura de nada com algo azedo e um tanto amargo (depois você descobrirá que esse é o gosto do “Efeito Cheddar” — mais ou menos equivalente ao “Efeito ketchup” dos americanos). Resultado: perda de até dois quilos em uma semana (pois além de não comer, você ainda passa dias enjoada com o gosto do que comeu).

Etapa 3 – Choque de Supermercados tipo 1: Vencidas as duas primeiras etapas, você já aboliu a idéia de ir a restaurantes. Está feliz com a perda dos famosos três quilos (nada mau, você pensa) mas fraca e desnutrida. É hora de ir ao supermercado! Você entra no primeiro e… epa? não tem comida de verdade. É só comida de restaurante disfarçada: salada para 1, lasanha para 1, chop suey para 1, quiche para 1… Você também se dá conta que todos devem ser terrivelmente solitários nessa terra. A fila só tem 1 moça, 1 rapaz, 1 senhor, 1 adolescente. Nenhum grupinho. Cada um com sua cestinha ou com seus pratos-prontos na mão. Você compra timidamente uma sopa para 1. A embalagem diz que é de legumes, mas o “Efeito Cheddar” é o mesmo de sempre. Resultado: perda de até 1 quilo em três dias. (Isso porque você não aguentará mais uma semana na Etapa 3. Seu organismo está ficando fraco.)

Etapa 4 – Choque de Supermercados tipo 2: Afinal você encontra um supermercado de verdade, que vende arroz, lentilha e alface não lavada! Aqui você percebe que existem famílias nessa terra: e ricas. Para ter direito a usar o carrinho do supermercado é preciso pagar 1 pound! Isso mesmo: quase 6 reais só para usar o carrinho. Bem, você não pode esbanjar. Nada de carrinho. De repente, você se vê até feliz pensando: ah, a cestinha é de graça, que sorte a minha! Você compra então tudo o que consegue carregar na cestinha. Na volta pra casa, vencidas as etapas do fogão, você descobre um pequeno problema: o gosto da sua própria comida não é lá essas coisas… Resultado: perdas oscilantes de até 500 gramas por semana. (Isso porque, mesmo sendo ruim, a sua comida ainda é bem melhor do que qualquer outra).

**Beleza e Moda Britânica em Números**

– Liquidação!! Sapatos: 79 pounds! Casaquinhos Gap: 49 pounds! (multipliquem por 5, se estiverem de bom humor; ou por 6 se estiverem de mau).

– Cortes de cabelo: 67 pounds! Apenas lavar e secar: 30 pounds! (idem acima)

** Sinais de que você está se adaptando (mais ou menos) à vida local **

– Lidando com Máquinas: Aqui a industrialização avançada chegou a todas as esferas da vida humana. Máquinas que fervem café forte com leite fraco e um pouquinho de açúcar, máquinas que lavam e secam roupas em vinte minutos, máquinas que são caixas de supermercados! Todas funcionam à base de dinheiro e falam com você com vozes femininas eletrônicas. O pessoal dos estudos de gênero não ia gostar nada disso… Outro dia, no meu supermercado-restaurante preferido resolvi lutar contra a humilhação de ir para o único caixa-humano do local (para onde vão só os turistas e os velhinhos, claro). Era uma compra simples, pensei: apenas uns 20 reais por um pacote de guardanapos e um rolo de papel plástico. Você chega cheia de confiança, passa o primeiro pacote pelo leitor do código de barras da máquina e… já vai passar o outro quando uma voz soa lá de dentro: “please, put the item in the bag”. Você olha prum lado, olha pro outro… Como é que a máquina sabe que eu não pus o “item” na bolsa? A máquina repete: “pleeease, put the item in the bag”. Você obedece e a máquina agradece: “do you have another item?” Não me perguntem como, mas passei o outro “item”, coloquei os dois na “bag” e enfiei as moedas o mais rapidamente possível. Antes que eu saísse correndo, ainda ouvi: “pleeease, wait for your receipt”. Ai de você, pega o recibo. “Thank you.”

– Maurice (o housekeeper) quis tirar uma foto comigo e colocou a mão na minha cintura! Posso não fazer sucesso acadêmico, mas os trabalhadores me amam…

** Wash your own Mug **

– Coffee and Cake! Em todos os departamentos da Universidade há uma manhã ou tarde reservada para um encontro com café, chá, biscoitos e bolos. Assim, alunos conversam, professores se encontram, secretárias e bibliotecárias se distraem e os bicões como eu se integram à vida local. Até aí, nada extraordinário. O diferente disso tudo são os dois cartazes que você encontrará em todas as salas (os Common Rooms) de convivência: “The coffee and cookies at … costs 0,40p.” (e todo mundo põe os 40 centavos na cestinha); “Please, don’t forget to wash your own mug” (Por favor, não se esqueça de lavar a sua própria caneca!). Aqui não é a terra dos descartáveis como nos EUA. As mugs se multiplicam como filhotes de coelho e se você não lavar a sua pode voltar dali a uma semana que ela estará no mesmo lugar, intacta e suja como você a deixou. (É verdade, aconteceu comigo!) No Centro de Estudos Brasileiros, a diferença é que, ao invés de 1 cartaz, temos quatro ou cinco cartazes espalhados pela cozinha e sala, além de receber pelo menos 2 ou 3 e-mails por semana avisando “wash your own mug”! Adivinhem por que?

** Sinais de que você NÃO está se adaptando à vida local **

– Você continua tomando dois banhos por dia, mesmo com um chuveiro fraco e uma água que parece ter sido misturada com polvilho antisséptico Granado.

– Você continua sentindo falta de dormir com lençol de cima e lençol de baixo ao invés dessa colcha disfarçada de lençol que todos usam por aqui.

– Você continua não entendendo as piadas que os porteiros fazem após o tradicional bom dia! O sotaque é indecifrável. Outro dia, para ter assunto com um dos porters mais empenhados em me alegrar de manhã, tive a infeliz idéia de pedir que ele repetisse a piada, “slowly, please…” Depois de dez minutos de uma conversa de surdos, a única palavra que eu pesquei foi “hedgehog”. Quer dizer, pesquei é modo de dizer: guardei o som e depois fui olhar no dicionário. Era porco-espinho. Alguém nessa terra poderia me dizer se existe uma piada com porco-espinho no meio?

Relendo essas bobagens, fico pensando o que pensarão que eu estava fazendo em Oxford. Será que era mesmo uma viagem acadêmica? Se quiserem, publico o Diário 3, que será a prova de que sim: eu tinha atribuições supostamente intelectuais. Para quem perdeu o Diário 1, está aqui.

Sobre o desenho: Infelizmente meu outro caderno feito Oxford ficou no IFCS, daí que não tive tempo de escanear nada da época para o post. Esse jardim foi feito há duas semanas no Jardim Botânico do Rio, graças à companhia de duas amigas queridas. Nos escondemos no bambuzal, na esperança de que os guardinhas não nos proibissem de estender uma toalha para desenhar. Aí está a prova da nossa proeza! Foi feita numa amostra antiga de papel verde que a Nathalia me deu, e desenhado com minha nova canetinha branca Sakura Gel 0.4 (dica do genial Freekhand/Miguel Herranz). As sombras foram feitas com aguada de nanquim colocada num waterbrush de aquarela. Não estava levando muita fé nesse desenho, mas achei que melhorou um pouco depois de acrescentar contraste no Picasa. Desenhar tanta informação junta me dá uma preguiça danada, mas ao mesmo tempo gera um efeito de auto-hipnose. Se não fossem o calor, os turistas e o medo dos guardinhas, acho que teria conseguido completar a página toda…