Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Travessias

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Travessia, fuga, passagem, mar, transporte, morte, saudades, espera…  Se eu encontrasse o gênio da lâmpada, teria um só pedido: teletransporte universal. Que todas as pessoas pudessem se deslocar num segundo para os braços de seus amores, familiares, lares e terras. Acabariam as guerras, as lonjuras, a concentração das cidades.Seria possível viver no interior e trabalhar no litoral, ensinar na floresta, aprender no rio, levar comida, esperança e sol para quem precisa. (E não pediria amor, porque é sabido que os gênios podem tudo, menos implantar o amor no coração das pessoas. Se pudessem, não haveria necessidade de gênios, né?)

Lembrei do meu apreço pelos lugares de passagem — das pontes aos envelopes — vendo essa semana as imagens emocionantes de Eduardo Salavisa sobre refugiados em Portugal, iluminando um texto de Catarina Fernandes Martins e um vídeo de Frederico Batista para o jornal Público.

Desenhador imperfeito, como ele gosta de se denominar, Eduardo Salavisa é um dos artistas que mais admiro, por seus livros, seu blog, suas viagens, pelas redes que movimenta, pela pessoa que é. Seus traços e cores nos transportam… Seu afeto pelas coisas que desenha nos faz afetados por elas, promessa que muitas vezes a antropologia não consegue cumprir.

Vejam por vocês mesmos no vídeo acima de Frederico Batista (4:30′) ou leiam a matéria ilustrada Saudade de ti, quando vai chegar?

Sobre o desenho: Fiz o desenho que abre o post na plataforma da estação Uruguaiana do metrô do Rio com canetinha de nanquim permanente 0,2. Em casa, recortei e colei algumas imagens: o adesivo a-travessa (pedaço de uma etiqueta da Livraria da Travessa), a malinha (do folheto da exposição sobre as cartas de Augusto Boal do IMS) e pedacinhos de pacotes de chá que colei ou redesenhei. O bichinho no canto esquerdo é um carimbo de gato que botei numa nuvem. As cores foram pintadas em casa com aquarela e pincel de água Kuretake.

Links: Além do blog de Eduardo Salavisa, remeto a um dos posts preferidos que já escrevi: Não passei. E já ia me esquecendo: impossível não citar a travessia da Genifer Gerhardt no Tempo, com quem tive a honra de colaborar, como contei aqui.


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Uma cidade, duas cidades

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Nosso gato Ulisses ficou doente essa semana. Entra na caixa, sai da caixa, agonia, miado. A veterinária é certeira: o problema é no intestino. Segunda-feira, às 8h da manhã eu já estava na porta da clínica de ultrassom em Ipanema (“a única que serve”, diz a vet-super-exigente; e quem sou eu pra contestar…) Cheguei cedo nesse pedacinho da cidade que quase não frequento desde a morte do Gilberto (Velho)…

Que conforto achar um banco de madeira na calçada! Entre a clínica e a loja de suco, sento-me com a caixa-e-o-gato-dentro. Ao meu lado, um senhor forte, pelos oitenta anos. Aos poucos, várias pessoas param para falar com ele. Oferecem suco, conversam sobre os filhos, falam mal da política… Todos o chamam de “sensei” — e me dou conta de que ele deve ser um mestre de artes marciais de alguma academia ali perto.

Durante os vinte minutos de espera, desenho as pessoas que vão passando. Sinto saudades de Lisboa, do Eduardo Salavisa a desenhar no Parque da Estrela, dos eventos da comunidade de desenho urbano.

“To know one town, you really need two towns.”

A frase é do artista Jonathan Twingley na sua aula na Sketchbook Skool dessa semana. A “arte”, ele diz, “é sobre tudo que está vivo”. Precisamos de liberdade (e prática, muita prática) para criar.

A orla, as montanhas e as lagoas do Rio são lindas, sim; mas conhecendo a vida em outras cidades é que sentimos o quanto vivemos apertados, cansados e estressados aqui. No ponto, no ônibus, no metrô, na faculdade, nas papelarias, na cobal: a expressão de fadiga é democraticamente distribuída. Que sorte a minha ter uma caneta e um caderno nessas horas!

6 Coisas impossivelmente-legais-inusitadas-interessantes-engraçadas-difíceis-ou-dignas-de-nota da semana:

* Alice toda feliz na volta da escola: “Mãe, hoje aprendemos matéria nova em português! Porque, por que, porquê, que, quê com acento!”

* Ouvir a voz de Mário de Andrade! Descobri a gravação de 1940 graças ao link enviado pelo querido André Botelho que compartilha comigo a paixão por esse escritor-músico-poeta-artista-tudo.

* Aula de espaço negativo e modelo-vivo no IFCS: palmas para a turminha nota mil desse semestre de Antropologia e Desenho!

* Fiz um novo sketchbook sozinha, com cadernos costurados, guarda de craft e capa-envelope… tudo nos moldes do que aprendemos na Palmarium, mas com tamanho 19,5 x 17,5. Papel de aquarela encomendado na Dritter: Conqueror Connosseur Soft White 300gr 100% algodão. Custo total com 48 páginas: menos de R$ 20,00 reais!

* Sorvete no feriado com as crianças… passam vários meninos e meninas vendendo balas e pedindo sorvete também. Meus filhos conversam comigo sobre a situação, falam que trabalho infantil é proibido, pensam nas alternativas e na falta delas. “Para onde poderiam ir, mãe?” “Será que não poderiam denunciar a tia (que os coloca pra trabalhar) na delegacia?” [Suspiro.] Vou comprar um picolé para os dois que nos pediram. O pequeno é tão pequeno que não sabe que sabor quer. Eu digo que manga é bom, mas ele se diverte pedindo cada hora um diferente. Depois se conforma com o de abacaxi, igual ao da irmã/prima. Apesar da tristeza da situação, me conforta saber que meus filhos, mesmo muito jovens, não são alienados ao mundo que os rodeia.

* E porque às vezes é preciso esquecer disso tudo: dia-de-correio-feliz ontem! Chegou um romance novo-usado por R$14,90 via Estante Virtual! (Se for bom, depois indico.)

E a semana de vocês?

Sobre o desenho: Canetinha Pigma Micron 0.8 (estava com saudade das linhas mais largas!) em caderninho Canson pequeno (A6). Adicionei as cores com aquarela mais tarde em casa.


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Cores de março

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Não sei se já comentei aqui, mas um dos desafios da minha vida foi assumir que adoro ser útil e fazer trabalhos manuais.

Comecei a ter noção de que tinha vergonha disso na faculdade de jornalismo. Amava as aulas de teoria, filosofia, história, cinema etc… Mas secretamente continuava querendo ajudar o meu avô a lavar selos.

Um dos professores que eu mais admirava era o Wagner Teixeira (agora já falecido). Ele escrevia divinamente, contava histórias incríveis sobre reportagens heróicas, publicava livros, um sábio. Ficamos amigos porque eu falei para ele: — Professor, me desculpe, mas vou ter que trancar a sua disciplina para fazer um curso de cinema no Estação Botafogo com o Luiz Vieira (da UFF). Ele ficou impressionado de eu dizer isso no meio do semestre ao invés de tentar enrolar para ver se colava. (E não conto isso para posar de certinha: é claro que enrolei vários dos meus professores, mas não ele.)

Não sei bem como foi, mas a partir daí começamos a marcar conversas e ficamos amigos. Ele era da velha guarda, adorava beber, fumar, e tinha uma barriga imensa… e era uma figura adorável e humana. Ia direto ao ponto, sem papo furado. Me indicava livros, me ajudou a sobreviver ao tédio do meu primeiro estágio e me fez ter confiança para tentar o mestrado.

Um dia marcamos um encontro no Centro, na Rua da Quitanda. Ele estaria no escritório de uma associação de aficcionados por dicionários (ele próprio era um). Aficcionados é pouco: eram estantes e mais estantes só de dicionários e obras de referências de todos os tipos. Um lugar incrível! (Pena eu não me lembrar do nome.)

Pois bem. Quando eu chego lá, vejo o seguinte: o professor Wagner Teixeira com tesoura e cola na mão, cortando e colando etiquetas de remetente nos envelopes de correspondência da associação. E ainda escrevendo cada endereço dos destinatários à mão, com caneta e letra caprichada.

Ele me viu chegar e foi logo dizendo: — Quer me ajudar? Adoro fazer esse tipo de trabalho manual. Me acalma. E você?

Eu — Sim! Também adoro!

E ficamos lá, um tempão, naquele silêncio delicioso de quando nos sentimos bem acompanhados, preenchendo papéis que muito provavelmente iam parar no lixo.

Esse momento ficou na minha memória. Sei que é banal… Mas foi mágico saber que uma pessoa que eu admirava tanto intelectualmente também gostava de tesoura e cola; e de fazer coisas práticas e úteis. (Nessa época eu tinha sublimado o desejo de desenhar.)

Queria também dizer obrigada pelos comentários tão gentis aqui e no Facebook sobre o post da semana passada. Foram quase 10 mil visualizações — não que eu esteja contando… imagina! 😉 Mas esse tipo de repercussão ajuda a achar que um blog também pode ser útil!

Sobre o desenho: Amo listras! O calendário de março foi inspirado nas cores de um potinho de porcelana portuguesa (moderna) que tenho aqui em casa; e também na lateral de um livro sobre teoria da cor que vi no atelier da Chiara Bozzetti, com quem estou começando um curso de aquarela. Fiz as linhas com canetinha Pigma Micron 0.2 e as cores com lápis de cor. Comecei usando os aquareláveis, mas depois troquei para o Prismacolor Premier que se mostrou realmente muito superior para cores chapadas e fortes como essas. Acrescentei um pouquinho de Abril porque nunca é demais lembrar que tem feriado no final do mês!

 

 


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Viva o tio João

JUR

Como contei no post sobre as dez lições da vida acadêmica, meu primeiro trabalho no mestrado foi sobre João Ubaldo Ribeiro. Era centrado no livro Viva o povo brasileiro, cujas quase 700 páginas li apaixonadamente em 1990.

Com a morte do João, deu tanta saudade dos seus romances… Li todos (até então publicados) de uma vez só!

Foi assim. Um belo dia, entrei numa sala de aula da PUC (era meu último semestre no curso de jornalismo) e conheci um aluno três anos mais jovem que se dizia “sobrinho do João Ubaldo Ribeiro”. Um cara incrível, engraçado, poético, falante e bonito. Ficamos amigos. Éramos ambos apaixonados por literatura, por cartas e por escrever. Ele provou que era sobrinho do João mesmo! Toda semana me dava um romance do tio. E ao invés dos textos do curso (de Psicologia da Comunicação), conversávamos horas e horas sobre os livros, as cartas, os artigos, o humor e as ideias do Ubaldo!

O ápice da minha febre-ubaldina foi quando terminei meu sofrido trabalho (já  no mestrado) e mandei para o “tio João”. Depois, fui finalmente conhecê-lo em pessoa. Tivemos uma conversinha… Ele ali, naquela simplicidade, na casa da sogra, de chinelos, sem ares de fama. Dei boas risadas. A gente não se deve levar muito a sério, ele disse.

O sobrinho dele também passou a escrever livros, tem vários romances lindos. Fez até uma tese de doutorado sobre o tio (que vai virar livro) e guardou com carinho o presente histórico: a máquina de escrever Remington — exatamente a máquina onde foram datilografadas as páginas mágicas de Viva o povo brasileiro e que vai desenhada aí em cima.

E como consegui desenhar essa máquina para o blog? Porque tenho fotos — ela está na casa portuguesa deste que muitos anos e perdas de cabelo depois se tornou meu namorado…

Deixo com vocês a homenagem que ele escreveu para o jornal O Público (Portugal) na semana da morte de João Ubaldo.

Cartas ao jovem sobrinho

Juva Batella

Quando publiquei o meu primeiro livro entreguei um exemplar ao velho tio e, ansioso como um jovem autor não deveria ser, não esperei passarem-se 24 horas e já o procurei, batendo-lhe à porta, para saber o que havia afinal achado do meu primeiro romance, e ele me puxou para dentro com veemência, como se fugíssemos de repórteres, e me aconselhou aos cochichos a jamais perguntar a opinião de alguém acerca de um livro que se tenha escrito. “Deixe que o leitor se manifeste, querido sobrinho. Jamais pergunte uma coisa dessas!” E me disse meses depois, numa carta, que eu arranjasse, por amor a todos os santos da Bahia, uma ocupação decente, “que não se aproximasse tão perigosamente do ofício de seu tio”. E as inúmeras cartas que recebi dele começavam sempre assim: “Irrepreensível e inadmoestável sobrinho”. E me aconselhou a ler Shakespeare. “Basta isso, sobrinho! E que Deus tenha pena de sua alma jovem! Basta ler Shakespeare, ainda há tempo!, e todo o resto virá naturalmente. E se você me disser que não lê em inglês aí eu deixo de me dar com você, vá ler inglês urgentemente, conselhos do velho tio: há que ler os clássicos! Os clássicos não são clássicos à toa. O que se deve evitar é ler o que escreveram sobre os clássicos, a não ser que o autor do clássico sobre o clássico seja também um clássico, coisa rara, mas encontradiça.” Também me aconselhou a ler Homero, “principalmente A Ilíada, é claro”, e me sugeriu que evitasse as traduções em versos, porque os pés gregos são inimitáveis. E numa das cartas, a maior e a mais divertida de todas, simulou uma entrevista que eu daria, anos mais velho, à revista Fortune, onde, acendendo o meu charuto com uma nota mil dólares, relataria ao curioso e assustado repórter as origens do meu sucesso capitaneando um império editorial sem tamanho. “Mas vê-se que o senhor não é um fumante de charutos…”, assim disse eu, como personagem de João Ubaldo, ao estupefato repórter que me entrevistava para a Fortune. “Qualquer fumante de charutos sabe que o charuto aceso com uma nota de mil dólares tem um sabor inigualável.” E em todo os momentos da minha vida o velho tio praticamente me obrigou a prosseguir em minha “trilha triunfal e adotar como lema Audaces fortuna juvat, que calha muito com o seu nome: a sorte sorri aos audazes! Em frente! Eia Sus!”, escreveu ele, que sempre assinava assim: “Misteriosamente, João Ubaldo Ribeiro”.

Hora de reler o velho tio, linha a linha, e refazer esse traçado que já faz parte de mim.

Ah!, e de vez em quando ele assinava assim: “Do seu velho tio, Ubaldão, o Cruel”.

Alice News:

Eu — Alice, como você está? Ainda com “zero problema”?

Alice — Não… essa semana estou com problemas.

Eu — Ah, é? Quais?

Alice — Estou… pro-fun-da-men-te precisando de uma coisa.

Eu — O quê?

Alice — Eu me obsessei pelo Felipe Lahm.

Eu — Como assim, filha?

Alice — Eu preciso conseguir um card dele, e dos brilhantes!

Sobre o desenho: Fiz o desenho sobre a foto da máquina original com uma canetinha para Ipad (genérica, que o Antônio comprou no Japão por 5$) na app Procreate. Depois imprimi, colori com lápis de cor para que a fita da máquina ficasse verde e amarela, e scaneei de novo. Levei quase duas horas para desenhar a máquina e todos os seus detalhes. A melhor parte foi observar com calma cada pedacinho, cada desgaste, e ainda os símbolos antigos de cruzeiro, de libra, de parágrafo… É bem clichê dizer isso, mas… saber que uma peça tão simples produziu uma obra tão gigante me faz lembrar de consumir menos & produzir mais.

Imperdível: No Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, exposição com obras (e até inéditos) de J.Carlos! Curadoria Julieta Sobral; iluminação impecável do Ronald Cavaliere.

 


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Leite de vó

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Imersa na casa da minha vó, bem que eu podia aproveitar para me afogar em lágrimas e saudades… Ninguém teria o direito de reclamar. Afinal, na semana que vem, vai fazer um ano  que ela se foi, aos 98. Até pensaram que ela ia morrendo de véspera… Mas não. Toda vez que chegávamos ao hospital, ela bem magra e fraca, os médicos balançavam a cabeça… Só que ela abria os olhinhos verdes e perguntava: “Como vai o Rodriguinho, seu filho? E a Dona Amélia, continua trabalhando no seu consultório?” O doutor não acreditava: “Mas, dona Lydia, a senhora lembra do nome do meu filho e da minha secretária?” E ela: “Ah, e a sua coluna, melhorou? Tem feito fisioterapia?” Era impossível não sorrir. E ninguém tinha coragem de colocá-la para dormir, nem de dar só um remedinho… Bora curar. E ela curava, desafiava a idade e voltava a nos surpreender.

Quando nasci, descobri que não era fácil ser neta dela. Sempre tive uma quedinha pelo direito de sofrer. Mas vinha a minha avó, me botava na cadeira de balanço e começava: “Era uma vez uma fazenda muito bonita onde vivia uma menina feliz…” Era a história dela, ligeiramente editada, digamos. A menina tinha sido feliz até os sete anos, ok. Mas então perdeu a mãe! Depois, mais um pouquinho, lá se foi o pai, ela com doze. Depois, passou até os dezesseis cuidando da irmã com uma tuberculose-que-só-milagre. E isso lá podia ser “infância feliz”? Pois era, assim ela repetiu a vida toda.

Depois que o vovô morreu, achei que seria um baque. Mas ela mudou da casa em que viveu 50 anos como quem passa no vestibular. Bora decorar, fazer obra, botar armários! (Meu avô nunca entendeu a necessidade de mais armários.) Não, não era falta de saudades ou de amor no casal. Era a vontade de viver dela que sempre prevalecia mesmo.

Um dia, ela já viúva, cismei que tínhamos de voltar nessa fazenda fantástica das suas histórias. (Quem sabe eu achava o graal por lá? O que ela teria bebido antes dos sete anos?) Meio a contragosto, ela concordou com minhas sanhas de passado. Fomos, olhamos, tiramos fotos, tomamos chá com umas amiguinhas de infância e ela decretou: “Ah, deixa isso pra lá! Só tem velho!” É. É que ela não envelhecia nessa época, pelos 70.

E eu tentando chorar o meu pobre apartamentinho vendido, onde meus filhos nasceram e cresceram… Aqui nessa casa não rola. A Socorro, que trabalhou com minha avó por muitos anos, veio outro dia conversar comigo. Eu perguntei: “Sobre o que ela falava com você nos últimos tempos?” E a Socorro respondeu: “Ah, sobre as festas de aniversário que ela ia fazer! Para os 99, cismou que seria um jantar com macarrão da Otília. E eu dizia: — Dona Lydia, macarrão para muita gente não dá. Esfria, fica mole. Mas ela era teimosa. E para os 100, ela disse que só chamando a Fafá de Belém para cantar Ave Maria!”

Assim não dá para competir… Eu querendo sofrer um pouco com meus probleminhas, com os males do Brasil e do mundo… E a energia da minha avó, presente nessa casa e nas suas coisas, não deixa. Aqui bem na minha frente está o computador dela! Até uns 97 ela mandava e-mail e quase teve tempo de aprender a usar seu perfil no Facebook.

Não, tragédias não faltaram. Eu contei só as da infância. A mulher tinha uma força para seguir em frente que só vendo! Aproveito para pegar uma casquinha nessa temporada e passar um pouco para vocês. Porque força de viver é que nem leite de mãe: quanto mais a gente dá, mais tem!

Sobre o desenho: Coisas da cozinha da vovó que desenhei para o calendário de junho de 2014, em homenagem ao primeiro aniversário da nossa despedida. Fiz as linhas com canetinha Unipin 0.1, as cores primeiro com aquarela e depois alguns retoques com lápis de cor. Não sei se já contei aqui da felicidade que foi comprar meus primeiros Prismacolor, aproveitando a ida de um sobrinho aos EUA. São incríveis, são tudo que todos dizem de bom!

Livro da semana: Ah, e por falar em avós, essa semana comprei o livro da incrível Nora Rónai, “Memórias de um lugar chamado Onde”, editora Casa da Palavra. Leitura maravilhosa garantida para as férias forçadas da Copa!


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Love maps

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Às vezes é preciso esquecer a lógica e sonhar… Nesse desenho, de 2011, imaginei um resultado do Google Maps que unia Brasil e Portugal numa tela só. Esse é o mundo em que vivo hoje, com filhos amados separados pelo Oceano Atlântico, mas unidos por uma felicidade imensa quando estão juntos.

Alice B., Alice K., Clara e Antonio: que esse mapa esteja sempre presente na vida de vocês!

Sobre o desenho: Canetinha nanquim e lápis de cor, com detalhes da tela do Google Maps (da época) e também de desenhos de Steinberg para a New Yorker (setas e pássaros). No meio do mapa, fiz o impossível: uma serrinha ligando Oeiras ao Rio de Janeiro…


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Saudades das Saudades de Oxford 3

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** Agruras da Vida Acadêmica **

Você ganha uma bolsa para vir para Oxford e se sente a pessoa mais importante do mundo. Memorize bem esse sentimento, pois quando o diretor do seu centro de pesquisas pedir que você organize um “pequeno workshop internacional”, com apenas 2 meses de antecedência, toda a auto-estima acumulada será necessária!

** O Francês Importante **

Os ingleses acham que é muito fácil organizar um evento, afinal “everybody likes to come to Oxford”! Tente convencer um figurão francês disso… Levei um tremendo bolo na véspera do evento! Um furo à francesa: nem um singelo “je suis desolée…”

** O Inglês Incompreensível **

Você precisa de mais um comentador. Seus colegas sugerem: “chame um inglês de verdade”. Ok, o cara tem vários livros, é reconhecido no meio, parece simpático nos e-mails e aceita! Finalmente, um único participante sobre o qual não precisamos nos preocupar se fala ou não bem inglês.

No dia do Workshop, porém… Ninguém entendeu uma palavra do que o cara disse!! Só rindo pra não chorar. As pessoas se entreolhavam, suspiravam, franziam a testa. Nada. De vez em quando uma palavra ao longe fazia algum sentido. Só não combinava com a palavra seguinte… O problema era uma mistura de tom de voz (variando do inaudível ao operístico), caretas, suspiros, falta de objetividade e uma “malice” congênita!

Além dos comentários no Workshop, ainda tive a “sorte” de sentar do lado dele no restaurante à noite. O cara cheirava a cigarro e falava sem parar sobre a namorada espanhola na Bahia, os pais republicanos, o filho comunista… Bem, só captei esses três assuntos no início — depois não me dei mais ao trabalho… E ele falou a noite toda assim mesmo.

O mais engraçado foi ver o suspiro de alívio dos brasileiros quando eu disse que também não tinha entendido nada do que ele falou. Ainda hoje encontrei uma professora da USP que assistiu o seminário e estava se sentindo péssima, achando que precisava voltar para o curso de inglês!

** Um Senador Italiano **

Tentem visualizar o tipo: terno italiano, cabelo italiano, sapato italiano, cortesia italiana. Um pacote de vaidade. Quando a secretária foi tirar uma foto, ele simplesmente parou de falar para afastar os copos e fazer uma pose! Depois, ainda disse que não havia mais clientelismo na Itália. Imagina se ia admitir essas vulgaridades latino-americanas…

** Um Espanhol e sua Agenda **

Outro convidado sugerido pelo povo daqui. Um espanhol com fama de “excelente”, “fantástico”, “maravilhoso”. Aí o cara se prepara para falar e abre a agenda!!! A agenda!! Sabe aquela coisa com espiral no meio e umas folhinhas miúdas para anotar o dia do dentista? Pois é.

E de lá saíram constituições espanholas do século 18, a legislação eleitoral da Cataluna, a troca de partidos conservadores em 1879… A essa altura, ninguém mais estava prestando atenção.

Bem que desconfiei que a coisa não ia dar certo. A única preocupação dele era saber se poderíamos hospedá-lo no hotel mais caro da cidade. Não, não podíamos. A cada vírgula, repetia que tinha feito doutorado em Oxford. Mas, pelo visto não aprendeu nem o básico, pois saiu para todos os lados com um enorme guarda-chuva e ainda pediu coca-cola na hora do evento!

** A Redenção Latino-americana **

Éramos três brasileiras e um colombiano, seríssimos, falando sobre temas pertinentes, com idéias, começo, meio e fim. Ufa. Fomos os melhores do dia! Mas a concorrência…

** A Plateia **

Muita gente fica nervosa ao ser convidada para Oxford achando que vai falar para grandes plateias. Muito ao contrário. Os eventos tem pouquíssimo público. Quer dizer, meu seminário foi um sucesso: 15 pessoas de fora, sem contar os da casa, amigos e participantes. Com a queda de qualidade da segunda sessão, perdemos metade da plateia. Pra quem gosta de vinho, foi ótimo: sobrou muita bebida no coquetel de encerramento! E mantivemos a tradição: um italiano roncou enquanto uma das brasileiras falava.

Concluindo, o evento foi quase-péssimo, mas felizmente lembrei que teria um ótimo material para esse diário. Afinal, tudo que dá errado é mais engraçado.

** Humor Britânico **

“If you actually look like your passport photo, you aren’t well enough to travel.” (sir V. Fuchs)

** Oxford com Crianças **

As crianças são bem-vindas: a comida é grátis e chega rápido! Mas tem um pequeno detalhe: é tão ruim quanto a dos adultos…

Os museus têm atividades para toda a família e há sempre uma área com avisos de “é permitido mexer, tirar fotos e brincar!”  Fofo.

** Detalhes do Cotidiano **

Todos são a favor de comida em cima do computador, migalhas no teclado, molho nos papéis! Toda mesa de trabalho tem um “cup of tea”, um prato com restos de biscoito, um garfo caído pelo meio, uma garrafa de água com gás quente apoiada em cima do arquivo… Ninguém reclama, ninguém acha estranho. Gostei! Dá um ar de casa bagunçada.

Todas as bicicletas têm uma sacola de plástico enfiada embaixo do assento. No início, não entendi. Mas agora também tenho uma: é para proteger o banco em caso (muito provável) de chuva. Eles não se incomodam com a cabeça, mas andar com a bunda molhada também já é demais!

** Sinais de que está na hora de voltar pra casa **

Já sei de cor o valor de todas moedas.

Minhas mãos estão ficando vermelhas, como as das mulheres inglesas!

Estou começando a gostar de chá com um pouquinho de leite…

Sobre o desenho: Fiz o desenho nos últimos minutos desta quarta-feira a partir de uma foto que tirei do meu café da manhã em Oxford (o pão estava na torradeira, não tive paciência de desenhar tudo, perdoem). A xícara ficou bem fora de proporção e ainda por cima descobri que a canetinha Kuretake nova não é à prova d’água! Mas tudo bem: foi bom lembrar que a louça do meu apartamento era horrível (azul e amarelo-sujo!) e também da minha maluquice de levar um paninho de prato brasileiro, feito com ponto-de-cruz pela querida Maria-de-Itaipava — foi a peça que fez eu me sentir em casa quando estava lá. Resolvi deixar o desenho na folha do caderno inteira porque ficou parecendo um tapete voador… Não custa nada sonhar com um pouco de mágica nos tempos atuais!


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Saudades das saudades de Oxford

Em janeiro de 2005, fiquei três semanas longe do meu filho Antônio, na época com quase quatro anos. Era a primeira vez que nos afastávamos desde que ele tinha nascido. Lembrei desse período porque acabo de voltar do aeroporto, onde fui deixá-lo, junto com a irmã e a avó, para passarem 17 dias de férias nos Estados Unidos com o pai. Já estou com saudades… Sim, sou uma mãe grudenta…

Resolvi recuperar o diário que fiz para ele durante a viagem a Oxford (Inglaterra) em 2005 porque lembrei das saudades imensas que senti e de alguns desenhos e histórias engraçadas, que também contei para alguns amigos por e-mail.

**Aprendendo a Sair de Casa em apenas OITO Etapas**

 desenhos 2005 oxford 1

Etapa 1: Colocar meias, roupa de baixo, calça, blusinha 1, blusinha 2, casaco 1, botas. 

Etapa 2: Colocar o casaco grande, cachecol, colete fosforecente para andar de bicicleta (que é horrível, mas a palpiteira da loja disse que você morreria se não usasse). Não por as luvas ainda!

Etapa 3: Creme no rosto, creme nos lábios, batom, lenço de papel no bolso, 2 moedas de 1 pound no outro bolso, chaves de casa no outro bolso (a calça tem que ter bolso, pois nada disso pode ser misturado, é claro!). Colocar as luvas por cima de tudo nos bolsos do casaco.

Etapa 4: Ainda sem luvas, pegar a mochila, verificar se está com tudo dentro, verificar se está com o cartão que abre as portas do prédio.

Etapa 5: Colocar as luvas de borracha e lavar a louça correndo para Maurice (o housekeeper) continuar achando que você é uma ótima dona de casa. Descobrir que você não deveria ter posto o casacão e o cachecol ainda. Você está suando!

Etapa 6: Colocar a mochila nas costas, colocar as luvas e descer! (só tente essa etapa se você já está com vários dias de prática com luvas). Verificar se você deu o nó no cinto do casacão.

Etapa 6 1/2: Se houver, pegar o saco de lixo para jogar fora. O lixo lixo e o lixo reciclável.

Etapa 7: Tirar as chaves (sem deixar cair nada dos bolsos), abrir o cadeado da bicicleta, colocar o capacete (que vc aprendeu a deixar junto da bicicleta!), conseguir dar o clique no fecho do capacete, colocar os prendedores de barra de calça para sua calça não se prender na corrente da bicicleta (o que você descobriu ser essencial no primeiro dia), colocar o cadeado e a sua bolsa na cestinha da bicicleta.

Etapa 8 no primeiro dia: Ficar olhando para o portão e pensar: como eu abro esse troço?

Etapa 8 no 14o dia: Saber que dá para apertar um longínquo botão cinza parecendo uma descarga na parede com uma mão e abrir o portão com a outra, mesmo em cima da bicicleta!

Mas garanto que andar de bicicleta por essa cidade maravilhosa compensa todo o esforço. … só preciso poupar vocês das 8 etapas que se seguem para tirar essa tralha toda!

**Coisas típicas nas ruas de Oxford**

desenhos 2005 oxford 2

– Chuva: as pessoas não parecem ligar a mínima para a chuva. No meu segundo dia aqui, ainda à pé, começou a chover. Eu era a única criatura do mundo na rua com um guarda-chuva aberto!! Eu olhava, procurava e só via todos andando tranquilamente. Tirava o guarda-chuva e me assegurava: sim, está chovendo! Felizmente, depois de muito procurar, avistei uma longíncua criatura segurando também um guarda-chuva. Com certeza, era uma turista brasileira… Agora, ando pra todo lado, em qualquer tempo, sem guarda-chuva também! A solução é simples: em 5 minutos, você entra num lugar fechado e a calefação seca tudo!

– Luvas: as pessoas perdem muitas luvas… algumas boas de dar pena. Infelizmente, é um pé só e sempre de modelos muito diferentes. São tantas que você passa a temer o dia que perderá a sua!

– Carros fantasmas: todos os dias olho um carro e levo aquele susto: “gente, um carro andando sem motorista; uma crianca dirigindo!” — mas é só a loucura dos ingleses de ter a mão do lado direito.

– Tagarelas: no ponto do ônibus, uma ex-professora contou a vida em 5 minutos e de como gostava quando hospedava estudantes. Na biblioteca, achei uma ex-parteira revoltada com o sistema… No meu prédio, o housekeeper é um francês muito distinto — Maurice — que acho que gostou de mim porque a minha casa é arrumadinha (a vizinha da frente tem que chutar os sapatos e as tralhas do caminho para entrar em casa!). Ele bate aqui quase todos os dias de manhã agora…

– Amantes dos cachorros (e das pulgas!): Nesse meio tempo, arranjei pulgas! Vocês podem imaginar? Havia uma dessas velhinhas que não se separa por nada do seu little dog (“good boy, good boy”, they say all the time) sentada atrás de mim numa palestra. Resultado: passei 4 dias sendo mordida pelas pulguinhas do “little” Chad (esse era o nome do cachorro)! Gracas ao Maurice, fui salva com lençóis limpos, colchão novo, e spray anti-pulgas por todo o apartamento. É muito bom ser amiga do Maurice!

**Os nativos e suas coisas simpáticas**

– Informalidade: as pessoas que encontrei são muito mais informais do que eu pensava. Vocês não imaginam quantas caixas de loja ou atendentes de biblioteca já pararam para bater papo sobre suas vidas pessoais comigo, assim como quem não quer nada… Uma senhora me ensinou tudo sobre segurança em bicicletas e só faltou me levar pra casa dela para eu não ser atropelada.

– Dorminhocos: em cada palestra que vou, há sempre algumas pessoas dormindo e até roncando na platéia!

– A maioria das mulheres tem as mãos vermelhas como pimentão — será do frio ou da água quente? Muitas torneiras não têm misturador: ou jorram água fervente ou congelante!

– Cabelos: numa sala fechada, dá medo ver os cabelos de perto…

– Adolescentes: pra que casacos?: quanto menos roupa melhor! Mesmo num frio de zero grau, as meninas saem de perna de fora, sandália, sem luvas e até barriga de fora. Devem estar assistindo às novelas brasileiras…

**Coisas que me lembram muito o Rio de Janeiro**

desenhos 2005 oxford 3

– A feirante me mostrou cerejas lindas e colocou as podres dentro do um saquinho marrom, pelo qual eu paguei a “pequena” quantia de 5 pounds!

– Avisos contra assaltantes: Por toda parte, há avisos sobre como proteger sua bicicleta de roubo ou como cuidar das suas coisas nas bibliotecas. Infelizmente, não são só avisos. Um dos pesquisadores do Centro de Estudos Brasileiros teve seus 2 laptops roubados.

– As pessoas têm medo dos ônibus e dos carros;

**Coisas que me lembram que eu NÃO estou no Rio de Janeiro**

– Eficiência contra os roubos: A universidade pagou pelos 2 laptops roubados em poucos dias, pois a casa assaltada pertencia ao campus.

– 220 Volts: uma das minhas primeiras aventuras aqui foi queimar o meu secador de cabelos brasileiro (recém-comprado especialmente para a viagem) por causa da voltagem 220 — esqueci de virar a chave, claro!

– Preços: outra furada de principiante: logo ao chegar, comprei um passe de ônibus por 12 pounds (a bagatela de 65 reais!!) e descobri que só valia para uma meia dúzia de linhas por meros 5 dias!! 😦

– Fogões elétricos 1: você coloca a panela numa boca do fogão e acende a outra — depois de 15 minutos, a sua água não ferve e você ainda respira aliviada de não ter queimado a casa toda.

– Fogões elétricos 2: Você tira a comida e deixa a panela vazia em cima da boca do fogão ligada — depois de 15 minutos, a casa inteira exala um cheiro estranho e a panela queima! Maurice não gostará de ver isso…

– Dinheiro perdido TEM dono: outro dia, a máquina de café da universidade estava com um troco sobrando de 0,20p. Eu olhei pras velhinhas atrás de mim, como quem pergunta “e agora?”. Elas disseram: “vamos deixar aqui ao lado. Com certeza, o dono virá buscar!”

– Sol e Frio: você olha o dia lindo pela janela e pensa: “oba, sol!” Quando chega na rua, está -2 graus! Quanto mais céu azul, mais frio. É o que dizem os “locals”…

**Coisas que te lembram que você é uma turista**

– Sotaque: ao menor “hello!” todo mundo te pergunta: “where are you from?”

– Tio Sam: você pede “water” com sotaque americano e as garçonetes ficam olhando para a sua cara como se você estivesse pedindo um mamute assado. Pronuncia-se “uá-tah”. As garçonetes são estrangeiras, mas as principais defensoras do mais verdadeiro e legítimo sotaque britânico.

– Nos pagamentos com cartão de crédito, você ouve: “what a weird card you’ve got!” Eles acham estranhíssimo o nosso cartão. A máquina pergunta para eles “credito ou debito?”, assim mesmo, em português. Depois, a máquina pede a senha e ainda manda assinar! Só faltava aquele clássico brasileiro: “e põe o telefone!”

desenhos 2005 oxford 5

E essa é a capa do caderninho onde fiz o diário dessa viagem. Se vocês gostarem, posto outros trechos depois.

Agora é aguentar 17 dias de saudades não só do Antônio, mas também da minha linda-potência-máxima Alice (que veio na barriga de Oxford… 😉 !


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A colecionadora de selos

colecionadora de selos desenhos

Na semana passada, minha filha Alice chegou em casa irritadíssima, aos gritos: “Mãe eu quero brincar! Eles não me deixam brincar!!!! E eu quero brincar!!!!! Eu quero brincar!!!!”

Fiquei maravilhada, admirando a potência da menina-criatura que bradava como um Titã: “quero diversão! balé! arte!”

E pensei no meu avô e sua máquina perfotrônica que media o espaçamento do denteado dos selos de sua coleção (daquelas figurinhas que usávamos para postar cartas no correio). Um dia ele me ensinou: é imprescindível na vida de um filatelista ter um sensor eletrônico desses ou seu equivalente manual, um odontômetro.

Contar picotes, explorar impressões e filigranas, avaliar cores e estampas, identificar carimbos e gomas, localizar datas de emissão — todos esses eram pequenos prazeres na vida do meu avô. Pinças, lentes, charneiras, envelopes finíssimos e transparentes, álbuns com gravações em relevo, cantoneiras, catálogos e mais catálogos.

A mágica não estava no lucro, mas na atividade cotidiana, no cuidadoso processo de molhar as cartas para retirar suas preciosas estampas e coloca-las para secar a salvo das crianças. Nas consultas incessantes aos livros em busca da identificação precisa. Na compra de novas quadras, blocos, sanfonas, cadernetas ou folhas. Nas pequenas e grandes decisões de organização. Nas memórias de cada peça, no cultivo dos tesouros, no lamento das perdas, na admiração das lindezas e raridades, na excitação de uma nova conquista.

Meu avô era um homem que amava os selos. Tinha um pequeno escritório que era sua Bat-caverna, um lugar para entrar e sair na ponta dos pés, mas também para sentar no colo, prender a respiração e admirar. As lentes, as luzes especiais, as pinças e os delicados papéis por todo lado.

Mais tarde surgiram meu tio e suas miniaturas de metal. Lá vinha outra versão da vida sob lentes grossas, luzes fortes e mesas cheias de materiais e instrumentos mágicos. Encantamentos, segredos e belezas, dessa vez não apenas em coisinhas compradas e colecionadas, mas fabricadas pelas suas mãos de ourives.

Os objetos da vida cotidiana surgiam em réplicas que pareciam ter comido os biscoitos de encolher da Alice (não a minha, a do País das Maravilhas): regadores, chaves, flores, estrelas, corações, colheres, moscas, raios, lagartos, bonecas e até os próprios biscoitos, reduzidos aos menores tamanhos que podemos imaginar.

Por que nos deliciamos tanto com essa vida de mentirinha, esse faz-de-conta auto evidente?

Simples, diria a Alice (a minha Alice): “Queremos brincar!”

Ao começar a pintar ontem, de repente, olhei para minha mesa com outros olhos. Lá estavam dezenas de canetas, com suas espessuras, origens, tintas impermeáveis ou não, resistentes, frágeis, que deslizam ou resistem, caras e baratas, de diferentes países e origens… E vejo os pincéis e seus pelos que aprendi a identificar, com suas idiossincrasias e comportamentos, conforme a qualidade das tintas, nanquins e aquarelas em que mergulham… E ainda massas, pós, bastões, fluidos, químicas, papéis e cadernos…  E finalmente a peça sem a qual nada disso seria tão mágico: uma luz especial só minha, que vem dentro de uma caixa, e me lembra as luzes de ver selos e de fazer jóias, mas também as dos palcos e dos camarins, as luzes de brincar.

Sobre esse desenho em preto e branco: de início, achei que seria mais uma silhueta feita rapidamente na minha viagem diária do metrô, como as que fiz para o Prosa. O primeiro traço foi feito diretamente no papel (no mesmo caderninho comum que está morando na minha bolsa) com uma caneta de nanquim permanente Uni-pin, espessura 0,1 milímetro (caneta de origem japonesa, mas facilmente encontrável em qualquer boa papelaria no Rio de Janeiro). No mesmo dia à noite, resolvi cobrir parte do desenho com nanquim preto (não, nem todos os nanquins são pretos!). O rosto da moça tinha detalhes tão pequenos que eu deveria ter uma lente especial para isso (um dos instrumentos mágicos que me faltam!). Mesmo assim, não desisti. Usei três pincéis de espessuras 12, 7 e 4, sendo o mais delicado deles um Winsor & Newton Series 7, comprado pela minha mãe em Nova York (são caros, uns 40 dólares), e cujo valor aprendi a reconhecer quando fiz um curso de introdução à aquarela na ilustração botânica. Não persisti nesse tipo de técnica, mas toda as vezes que desenho algo assim detalhado e preciso, especialmente um rosto — onde um erro de um milímetro vale por um quilômetro (disse um grande artista) — sinto-me novamente brincando no colo do meu avô, olhando o mundo como se fosse eu a colecionadora de selos.