Karina Kuschnir

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Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2)

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Em 1962, Agatha Christie foi convidada de honra para a festa de dez anos de encenação de sua peça A Ratoeira, em Londres. Conforme o combinado, chegou ao teatro com antecedência, mas foi barrada na recepção: “Ninguém pode entrar, no momento, minha senhora. Faltam vinte minutos.”

Sua reação surpreende: “Então saí.”, ela conta. Não conseguiu explicar que era a senhora Christie devido à enorme timidez. Ficou vagando pelos corredores até ser salva por uma assistente da direção que riu muito quando a reconheceu, assim como o diretor, que dava gargalhadas. Ela já era, então, a autora mais lida do mundo.

Escrita e insegurança  — Essa pequena história ilustra um aspecto que me parece comum na vida acadêmica e fora dela: mulheres inseguras em ser quem são, especialmente no mundo público. A própria Agatha comenta que não consegue se “comportar como uma escritora”, porque se sente “fingindo ser alguém que na verdade não é”. Ela acha que muitos autores se sentem assim, precisando se reafirmar. Compara essa sensação com o dia em que viu seu neto descendo as escadas dizendo para si mesmo: “Este é o Mathew descendo as escadas!” Na festa no teatro, ela precisou pensar:

“Esta é Agatha, fingindo ser uma escritora renomada, indo para a grande recepção oferecida em sua homenagem. Ela tem que parecer alguém, tem de fazer um discurso que não sabe fazer, tem de ser um personagem que não sabe interpretar.” (Agatha Christie, Autobiografia, p. 523)

Quantas de nós já não nos sentimos assim em salas de aula, eventos, numa defesa de tese ou em qualquer situação em precisamos parecer inteligentes?

Uma das delicadezas da Autobiografia de Agatha Christe é que ela se mostra como uma pessoa comum, cheia dúvidas e incertezas, ao mesmo tempo em que narra feitos extraordinários.

Escrita e coragem — Em 1928, depois da morte de sua mãe e da traumática separação do primeiro marido, a escritora reuniu forças para realizar uma viagem. Mulher, divorciada, com uma filha, escolheu um destino nada óbvio: pegaria o Expresso do Oriente, passando por Turquia, Síria e Iraque. Ela reflete:

“Agora eu estava viajando sozinha. Agora, eu devia descobrir que tipo de pessoa eu era — se me tornara completamente dependente dos outros como eu temia. (…) Às vezes, pensava que minha natureza era como a de um cachorro: cachorros não saem para passear, a não ser que alguém os leve. Talvez eu fosse assim. Esperava que não.” (Agatha Christie, Autobiografia, p. 364)

Esse paradoxo me fascina na narrativa da escritora: humilde, a ponto de se comparar a um cachorro obediente, mas corajosa a ponto de se lançar numa viagem solitária, naquela época e lugar. A despeito de todos os conselhos negativos, maravilhou-se por atravessar desertos e dormir ao relento, relevando desconfortos materiais em nome de conhecer pessoas e paisagens. Dessa e de outras viagens surgiram muitas das suas histórias e o segundo casamento, com o arqueólogo Max Mallowan.

Pensando bem, talvez humildade e coragem não sejam tão paradoxais como escrevi acima. A gente precisa de coragem para ser humilde (“Só sei que nada sei”, disse o audacioso Sócrates). Será que desse patamar não pode florescer uma escrita menos sofrida, mais valente, da nossa parte?

Escrita com diálogos e personagens — Num dia triste de inverno, a mãe da entediada Agatha sugeriu: “Por que não escreve uma história?” A filha achou que não conseguiria, mas a mãe foi insistente: “Você não sabe se pode ou se não pode, porque nunca tentou.”

Ao mandar essa primeira história a um editor, amigo da família, recebeu uma carta com boas críticas e conselhos: “Você tem um grande talento para os diálogos.” Insista naquilo que você faz bem! O mesmo editor escreve um maravilhoso conselho, que vale também para autores de textos etnográficos:

“Experimente eliminar todas as considerações morais de seus romances; (…) não existe coisa mais maçante de se ler. Tente dar liberdade a seus personagens, deixando-os falarem por si próprios, em vez de se apressar para dizer a eles o que deveriam dizer, ou para explicar ao leitor o que eles querem dizer com suas palavras. Cabe ao leitor julgar por si mesmo.” (Eden Philpotts, em carta a Agatha Christie, Autobiografia, p.198)

Escrita, satisfação interior e cotidiano — Para Agatha, a escrita é um impulso criativo, tão valioso quanto qualquer outro, como bordar, costurar, tocar, cozinhar, pintar flores em porcelana. “A satisfação interior do artista é essencialmente a mesma.” A única diferença, ela escreve, “é que algumas dessas ocupações conferem mais status do que outras”.

“O que existe de melhor na carreira de escritor é que podemos trabalhar a sós e dispor de nosso tempo.” Mas escrever também cansa, gera mau humor, ela reconhece. Empacada no meio de um livro, recebeu o conselho de sua mãe: vá para um lugar “sem nada que a perturbe”.

Embora apreciados, esses tempos de foco e reclusão eram raros na vida de Agatha Christie. Sua prática de escrita se deu quase sempre misturada com a vida cotidiana: filha para cuidar, contas a pagar, cartas a responder. Gostava mais de arrumar a casa: “Existe uma monotonia nas tarefas domésticas — e suficiente atividade física, de modo a liberar a mente, permitindo-lhe ganhar espaço e construir seus próprios pensamentos e invenções”.

Escrita e independência — Uma das coisas mais surpreendentes na leitura da Autobiografia de Agatha Christie, para mim, foi a rápida independência financeira que a escrita lhe proporcionou. Após uns poucos livros, por volta de 1924, aos 34 anos, ela recebe uma oferta de 500 libras para uma história a ser publicada em capítulos num periódico. (Para vocês terem uma ideia, o antropólogo Bronislaw Malinowski vivia com um orçamento apertado de 150 libras por ano nos seus tempos de trabalho de campo entre a Austrália e a Papua Nova Guiné.)

Ao contrário de muitos escritores, o trabalho de Agatha vai lhe render uma fortuna, feito notável para uma mulher cuja família havia perdido quase tudo por volta da primeira guerra mundial e que, dali a uns anos, estaria divorciada, com uma filha, sustentando-se sozinha. Aliás, falando sobre a filha, ela nos deixa entrever o quanto aprendeu a valorizar o amor com independência e liberdade:

“Acho que não existe nada de mais empolgante neste mundo do que ter um filho, só seu, e que ainda assim é misteriosamente um estranho. Você é a porta por onde ele ingressa no mundo, e lhe será permitido cuidar dele por um tempo: depois disso, ele vai deixá-la para desabrochar para a liberdade de sua própria vida (…). É como uma semente desconhecida que você trouxe para casa, plantou e mal pode esperar para ver que tipo de planta será.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.333)

Escrita profissional — “Não é um bom começo julgar-se um gênio nato”, aconselha Agata Christie. Ela própria demorou muitos anos para se perceber como escritora profissional, papel que não deixa de ser o de todos os acadêmicos, em especial das áreas de humanas. Ela diz:

“Foi então que assumi o peso de uma profissão, que é escrever mesmo quando não se está com vontade, quando não se está gostando do que se está escrevendo e quando não se está produzindo algo especialmente bom.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.360)

Em vários momentos do livro, ela afirma que foi criada por uma mãe da era vitoriana, aprendendo desde cedo que, diante de uma ordem ou um dever,  “aceitava-se o fato”. Diante das dificuldades (não só emocionais, mas de duas grandes guerras), repetia para si mesma os conselhos de um amigo que considerava como pai: “O que quer que aconteça, aceite-o e siga em frente. Você é forte e corajosa. Ainda tem muito sentido a dar à sua vida.” Aceitar aqui não era passividade, mas encarar os acontecimentos e achar forças para superá-los. Foi a partir desse conselho que decidiu rumar sozinha ao Oriente (história que contei acima).

Escrita e crises — Apesar da progressiva segurança, Agatha também passava por crises de criatividade que às vezes duravam semanas. Nessa hora, ela lembra, precisava aguentar firme:

“É uma angústia inigualável. Sentava-se na sala, mordendo o lápis, olhava para a máquina de escrever, caminhava pelo quarto ou jogava-me em cima de um sofá, com vontade de chorar! Depois saía, interrompia alguém que estava trabalhando (…) e dizia: — É terrível, Max. Acho que esqueci como se escreve um livro! Simplesmente não consigo. Jamais vou escrever um livro novo!” (Autobiografia, Agatha Christie, p.479)

Max, seu marido, respondia: “Ah, claro que vai!” E ela teimava: “desta vez é diferente”, mas não era. Sempre esquecia que já havia sentido antes o “desespero, a infelicidade e o sentimento de impotência para fazer algo com um mínimo de criatividade”. No entanto, conclui que a “crise de infelicidade” precisa ser vivida:

“É como se só depois de muita reviravolta interna, depois de horas de tédio profundo, é que nos sentíssemos normais. (…) Ficamos, enfim, tomados por um sentimento de desesperança paralisante. De repente, por alguma razão desconhecida, uma espécie de fagulha faz com que comecemos a agir. Compreendemos que o livro está começando a nascer, que a neblina está se dissipando.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.480)

Acho que este é (neste momento) o meu trecho favorito da obra! Em agosto de 2017 passei por essa sensação de que jamais iria conseguir escrever algo de bom ou achar um caminho para a minha pesquisa. Que alívio ler uma escritora tão produtiva me ajudando a entender que esse sentimento faz parte.

Livros-tesouros — “A cada ano torna-se mais difícil encarar o futuro. Nada parece valer a pena”, escreve Agatha, referindo-se tanto ao presente (1965, contexto da guerra fria), quanto ao trauma da segunda guerra mundial. No entanto, ela afirma: “A esperança é a virtude que mais deveríamos cultivar hoje e sempre”.

A escritora enfrentou as duas guerras como voluntária em hospitais, onde aprendeu enfermagem e a manipular remédios. Na segunda guerra, além desse serviço, manteve-se escrevendo. A essa altura, seus livros já valiam tanto que ela providenciou um “seguro” para seus familiares. Escreveu uma aventura de Poirot para sua filha Rosalind e uma de Miss Marple para seu marido Max e depositou os dois manuscritos em um cofre num banco, a salvo de destruições por bombardeio!

Agatha considera a “sorte” como principal fator de seu sucesso. Eu acrescentaria a despretensão, a imaginação, a alegria de viver e de escrever:

“De repente, senti que estava me divertindo: o maravilhoso instante na vida de um escritor que, embora seja muito breve, o impele a se entregar totalmente a uma obra tal como ser apalhado por uma boa onda no mar (…). ‘Que maravilha, estou conseguindo! É o meu ofício. O que vem a seguir?’” (Autobiografia, Agatha Christie, p.521)

Obrigada a todos que chegaram até aqui!! Que esse texto traga um pouquinho de esperança para nós, que estamos precisando tanto. ♥

Esse post é uma continuação do anterior: Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 1)

Sobre o livro: Autobiografia, Agatha Christie. Porto Alegre, L&PM, 2015. (Tradução de Bruno Alexander). Queria só avisar a todos que se empolgaram em comprar e ler: é muita responsabilidade indicar um livro tão grande e que tem alguns pontos sensíveis, aos olhos de hoje.

Outros livros: Leitores do post da semana passada me indicaram dois livros que complementam essa autobiografia, ambos com versões em português. “Na Síria” (título original Come, Tell Me How You Live) que narra os tempos de Agatha Christie junto ao projeto de arqueologia de seu marido naquele país; e “Ausência na primavera” (título original Absent in the Spring), publicado sob o pseudônimo de Mary Westmacott, sobre uma mulher que se vê sozinha, questionando sua própria identidade. Ela fala com muito carinho de ambos os livros, especialmente do segundo, do qual os editores não gostaram nem um pouco, mas ela sim:

“Pode até ser que seja bobo, mal escrito, que não preste para nada. Entretanto, foi escrito com integridade, com sinceridade; foi escrito como desejei que fosse escrito, e esse é o maior orgulho que um escritor pode ter.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.506)

Isso deveria valer para todas as nossas teses e artigos, concordam? Podem não ser perfeitos, mas nem por isso devemos valorizá-los menos, principalmente pelo tanto que contribuem para nosso aprendizado.

Sobre o desenho: Na falta de uma ilustração (sem tempo para desenhar!!), utilizei esse carrinho, desenhado no Museu da Ciência em Manchester, Inglaterra, em agosto de 2016, porque ele se parece muito com o Morris-Cowley, primeiro carro que Agatha Christie comprou e que a fez se sentir livre e independente. O desenho foi feito num caderno com papel de aquarela, desenhado com canetinha de nanquim permanente descartável (não me lembro o número) e colorido com aquarela (aumentei o contraste com Photoshop depois de escanear). A proposta do workshop era deixar algumas partes sem terminar mesmo, do tipo “menos é mais”.

Você acabou de ler “Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-agatha2. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Mortos pelo Rio

 

mortos

Quando ainda era bem pequeno, diante de uma série de fotos em preto e branco, Antônio fez uma pergunta que me supreendeu:

— Eles estão mortos, mamãe?

Hoje, na tentativa de homenagear algumas das dezenas de pessoas assassinadas nesses primeiros dias de 2015 no Rio de Janeiro (e nem falo do Brasil, pois já seriam centenas), lembrei dessa nossa conversa.

— Sim, filho. Eles estão todos mortos.

E não sei como podemos continuar vivendo no Brasil assim…

Nos anos 1950, o sociólogo Everett Hughes formulou uma explicação simples para os milhões de mortos na Alemanha da Segunda Guerra Mundial. Alguém estava fazendo o “trabalho sujo”, enquanto a “sociedade” seguia mais ou menos vivendo como se não fosse com ela. Isso soa familiar?

Hoje, no Brasil, morrem principalmente jovens meninos pretos pobres, moradores das áreas desfavorecidas das cidades. Quando grande parte da minha família foi dizimada na Guerra, eram judeus, os pretos pobres da ocasião.

É uma ilusão achar que eles morrem e nós não. Estamos morrendo juntos, pouco a pouco, a cada nome que acrescentamos nessa lista macabra. Porque um dia nossos filhos vão nos perguntar:

— Mas vocês sabiam disso e não faziam nada?

Sinceramente, gostaria que alguém me dissesse o que posso fazer.

O título desse post foi para me lembrar de que essas pessoas estão sendo mortas porque moram no Rio de Janeiro, porque moram no Brasil. Porque é isso que acontece com quem mora aqui.

Sobre o desenho: Retratos feitos a partir de fotos de sites com notícias sobre assassinatos no Rio de Janeiro em janeiro de 2015 de crianças, estudantes, policiais, pessoas. Fiz num caderno antigo utilizando canetinha Unipin 0.05 e aguada de nanquim.