Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Os bichos do meu pai e o talento de Roberto Negreiros

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Quando nasci, meu avô gritou pela janela de um prédio da Rua Buenos Aires: — É menina! Em frente trabalhava meu pai, já cansado de ter filhos e dos alarmes falsos do bebê. Eu estava dividida: será que valia a pena vir para esse mundo? Até que não pude hesitar mais, vocês sabem como é.

Minha primeira lembrança é a de morder a minha amiga Adriana e ficar de castigo, chorando e tentando fazer um som alto que pudesse ser ouvido tanto como “mãããe” ou “pãããe”: quem sabe um dos dois vinha? Graças a esse dia, aprendi que era melhor não gritar, não morder e ir cuidar da minha vida.

Não me lembro de brinquedos preferidos: o que eu mais gostava era de bicho. Tinha um cachorro maior do que eu no apartamento. O amor pelo cão era do meu pai, mas quem cuidava era minha mãe. Taí a metáfora do casamento patriarcal. Que bom que a minha mãe se separou. A culpa não era do animal, mas sua presença deixou sequelas: nunca mais minha mãe aceitou bicho em casa. Até hoje tenho o sonho de ter um cachorro grande. Em 2009, aplaquei um pouco a vontade adotando dois gatos.

Depois de separado, meu pai continuou insistindo em ter bichos, e para isso precisava achar mulheres para cuidar deles. Ou era ao contrário? Foram vários: gatos estrangeiros, cachorros histéricos, gigantes, minúsculos, todos com problemas de comportamento vocês-sabem-porque. Minha favorita foi a gatinha Nívea, importada junto com a namorada americana que gostava de andar pelada pela casa (anos 1970, perdoem a moça). A falta de roupa era compensada por cílios postiços imensos (imaginem meu susto a primeira vez que vi a mulher puxando os olhos com uma pinça!) e o excesso de pelos da gatinha, uma persa que precisava ser escovada duas vezes por dia e cuja pelagem a dona usava para cobrir as partes.

Um dia, essa namorada foi embora e abandonou os gatos lá com meu pai, coitados. Caíam da janela (por sorte um segundo andar), passavam fome (acostumados com ração de primeira) e os pelos embolavam tanto que tinham que ser tosados por falta de escova. Decidido a mudar e ser responsável, meu pai arranjou outra namorada. Ela até gostava de bichos — disso não podemos acusá-la — mas cuidar dos gatos da americana plastificada? Aí já era demais.

Sabendo do coração mole do parceiro, a moça veio com um (ou dois?) cachorros a tiracolo, os “seus”, naturalmente — ou foram adotados como símbolo do enlace, sei lá. O caso é que os gatos passaram do semi-abandono ao purgatório. Nívea tentou fugir tanto que conseguiu e morreu atropelada. Fuzi, seu par lindo e gigante, vivia apavorado e escondido, ao ponto que não se notava mais sua existência. Acabou sendo doado para a moça da faxina, com certeza a melhor coisa que aconteceu na sua vidinha sofrida.

Essas lembranças foram inspiradas num livrinho delicioso que li essa semana: “Com a palavra o ilustrador Roberto Negreiros” (editora Mandacaru, SP). É um pequeno volume (62 páginas) de uma coleção de três, com imagens e textos autobiográficos de ilustradores. Além dos traços leves e divertidos (a la Sempé), Roberto Negreiros é um narrador fantástico, desses que te levam, de sorriso em sorriso, até a última página, onde a única tristeza é que a história acabou…

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Da origem como “artista egípcio” aos domingos como “oficial arrancador de pelos das orelhas” do tio Ruy, o autor desfia uma coleção de personagens da sua infância, sempre com aquela mistura de humor e compaixão que tanta falta fazem na internet de hoje. Meu capítulo favorito é o da bicicleta que o menino não queria saber de aprender. Com a desculpa de embelezá-la, dava seguidas mãos de tinta na bichinha, alegando que precisavam de uma semana para secar bem.

De pintor de bicicletas a aluno do Externato Paulista, cujo lema ele diz que era “entra burro e sai artista”, o pequeno Roberto já se fazia admirado pelo talento com que desenhava em calçadas, murais e cadernos. Que bom que não se tornou farmacêutico, como seu pai queria. Sorte nossa e da arte! Sua obra pode não solucionar, mas certamente torna a realidade menos “rude, injusta e aborrecida”, como um dia ele a julgou, apaixonado diante de uma tela de cinema.

* Sobre a imagem inicial do post: Não tem muito a ver com o tema do texto, mas foi uma mistura de desenho, pintura e colagem que fiz nos últimos dias. Começou com dois passageiros observados no metrô (canetinha Pitt S Faber-Castell). Depois colei o pássaro, recortado de um folheto do Jardim Botânico. Por último, catei folhas no Parque Lage para inspirar as pinturas (contorno a lápis primeiro, seguido de água e aquarela). Estava melhor (e mais leve) com menos folhas, mas isso eu só descobri quando coloquei as outras! O suporte foi um caderninho novo (15 x 15 cm) que fiz com costura simples a partir de folhas de papel Fabriano antigas. Agora, pensando bem, o pombo olhando o casal separado até que se encaixa na primeira parte do post; as folhas parecem o tempo e, viajando um pouco, tudo lembra a vida rude e aborrecida da qual Roberto Negreiros nos ajuda a escapar.

* Links e coisas dignas-de-nota da semana:

. O livrinho mencionado vem numa caixinha chamada “Com a palavra, os ilustradores”. É difícil de achar, mas tem aqui e na estante virtual tinha também.

. Para ver um pouquinho do Roberto Negreiros, tem uma página no Facebook e um blog, (ambos sem atualização recente, já vou avisando).

. Para quem quer dar um passeio pela obra de Sempé, achei dois pequenos vídeos: um com o artista no seu estúdio desenhando; outro com uma coleção de imagens. É pena que não exista um site a altura da sua obra (se existe, não achei).

. Ainda para deixar a vida menos chata, um texto do Umberto Eco, “Por que as universidades?”, traduzido por Marco A. Nogueira. De 2014, é leitura indispensável nesses tempos difíceis por que passamos, não só os colegas professores das universidades estaduais do Rio de Janeiro, mas todos que acreditam que só a educação muda o mundo pra melhor.

. Sobre a promessa de dieta eletrônica do post da semana passada, me dou nota 6,0. O critério de autocorreção foi o seguinte: perdi quatro pontos porque, em vários momentos, peguei o celular (ou abri o notebook) achando que ia encontrar ali alguma resposta; mas ganhei seis pontos porque lembrei de ler, desenhar, escrever, conversar e até de tocar um pouco de violão com a Alice.

. Queria terminar agradecendo as mensagens de incentivo de vocês! Não estou dando conta de responder com calma, desculpem. Mas cada comentário e likes me alegram e me animam a continuar. Obrigada! ♥

 


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Risadas de botas

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Uma das coisas que mais amo na vida é dar risada, daquelas que dão lágrimas e soluços! E quando um livro, um livrinho só, me provoca essa alegria toda, é o máximo! Pois tive muita muita sorte em 2014: li não só um, mas dois livros que me deixaram com sorrisos e gargalhadas por páginas e páginas.

Queria falar primeiro do Antonio Prata, esse menino que desenhei, nu, de botas, e suas memórias singelas, criativas, sensíveis e sobretudo deliciosamente engraçadas. (Não quero estragar a história, então não vou explicar por que nu ou por que de botas.)

O maior elogio que posso fazer é que a leitura me lembrou dois dos melhores livros de memórias da literatura brasileira: “Os bichos que eu tive” e “Se a memória não me falha”, ambos da Sylvia Orthof, uma deusa da delicadeza e do humor no cotidiano. Como Sylvia, Antonio explora os limites da nossa credulidade ao contar sobre seus insetos, pintos (de vários tipos), tartarugas e o sofridíssimo papagaio Getúlio.

Um dos encantos de Prata-filho (também li e adorei alguns livros do seu pai, Mario Prata; e esses dois Pratas ainda são primos do fantástico Campos de Carvalho!) é a sua capacidade de misturar a narrativa da criança com a do escritor, em frases como:

“Sem opção, enterrei a faca no jardim e parti para a clandestinidade. (…) Se estivesse disposto a correr riscos, mais valia me esgueirar até o quarto e resgatar uns Playmobils para brincar nos 24 ou 36 meses seguintes.”

Achei impossível não rir com as aventuras desse moleque fã do Bozo e do Spectreman, determinado a visitar a África numa prancha de isopor. Tanto faz se você só lembra de uma parte das coisas que ele cita (anos 1980/1990) ou se está conhecendo pela primeira vez. O autor te leva pela mão e te mostra o nonsense daquilo tudo. Quem não fingiu ter febre para não ir à escola e ouviu “as cinco palavras mais frustantes da infância: ‘trinta e seis e meio'”?

Lembrei-me também d”As aventuras do pequeno Nicolau”, de Sempé e Goscinny, que já citei aqui. Prata conta:

“Minha mãe parecia doente, havia engordado muito, reclamava de enjoos e dores nas costas, mas, para minha surpresa, visitas apareciam animadas, acariciavam sua barriga como se fosse uma dádiva dos deuses (…) Uma noite, escutei uns barulhos, minha mãe sumiu por uns dias, e, quando voltou, trazia no colo um bebê, dizendo que eu havia ganhado uma irmãzinha. // Eu achei estranho, nunca tinha pedido irmãzinha nenhuma (…).”

No tempo em que estou agora, com dois filhotes nas idades do personagem, é até covardia ler esse livro… Como não se apaixonar por um autor que escreve sobre a beleza de ver a mãe escovando os dentes, essa mãe que é uma “avalista da ordem e da paz”, uma “embaixadora do país da maternidade, em meio aos perigos da terra estrangeira”, com “a serenidade de uma cama feita, o respeito de uma mesa posta.”

Taí: a mãe do Antonio Prata é minha mais nova ídala.

Ah, e o outro livro maravilhoso que li em 2014 é o Crônicas de Jerusalém, de Guy Delisle (editora Zarabatana). Escrevo sobre ele numa próxima vez, mas desde já recomendo muito!

Sobre o desenho: Optei pelo caminho mais difícil nesse desenho, pois cismei que tinha que estrear meus novos lápis de cor Prismacolor, comprados graças a uma ida do meu sobrinho aos EUA (obrigada irmã!). Que cores lindas e que gostosos de colorir! Mas fazer todos esses detalhes uns por cima dos outros foi bem difícil…  Mas, tudo bem: o que eu queria mesmo era desenhar o Antonio nu, de botas! Espero que ele não se ofenda se por acaso descobrir esse desenho (não, ele não me aceitou de amiga no facebook…). Os materiais foram, no mesmo caderno “velho” que ganhei no Natal: canetinha 0.05, lápis de cor e um pouco de aquarela para as sombras suaves.

Sobre o livro: As citações estão nas páginas 24-25, 35, 69 e 122 do livro “Nu, de botas” de Antonio Prata, editado pela Companhia das Letras em 2013. 

Adendo de 17/4/2015: A linda capa original é do Alceu Chiesorin Nunes!