Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Três choros e muitos agradecimentos

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Um dos meus rituais de manhã, ao acordar, é abrir a janela do quarto, olhar o céu e desejar bom dia pro mundo.

Depois de tomar um mate e comer alguma coisa, sento para pintar, nem que seja por 15 minutos. A mesa é embaixo da janela, de onde me chegam vários choros…

Do meu prédio, acompanho um processo terrível. Uma das vizinhas, que até ontem era atlética e ativa, está com uma doença degenerativa aguda. Foi perdendo o controle dos movimentos e da mente… Seus sons são de uma dor sem nome, uma mistura de desespero, agonia… nem tenho palavras para expressar. No elevador e na portaria comentamos compungidos sobre os gritos de ontem e os de hoje… Que sensação de impotência, sem conseguir imaginar a dor dos familiares que se revezam em seus cuidados e que, por muitos momentos, nos acalmam com o silêncio que finalmente chega.

Ouço também o choro da Lisa, uma cadelinha jovem que foi adotada pela moradora do primeiro andar. Quando sua companheira sai para trabalhar, a bichinha se esgoela. A rua inteira escuta porque ela sobe na poltrona e uiva alto e sofrido na janela. Os vizinhos se mobilizaram no zap. Uma pessoa reclamou, mas os funcionários e os demais moradores se solidarizaram com a dor da cachorrinha. Nos revezamos para ajudar, veio um treinador para ansiedade, e a Lisa está cada dia mais linda e chorando (um pouco) menos.

Há um terceiro choro, agudo, intenso e forte. É meu velho conhecido: um bebê grita alto em algum apartamento do prédio ao lado. Como podem criaturas tão pequenas produzirem sons tão potentes? Ano passado, havia um bebê sofrido na vizinhança, era difícil. Mas esse meu companheirinho atual está no seu exercício pulmonar saudável. Quer apenas chorar um pouco. Envio boas vibrações do meu coração de mãe: shhh, shhh, shhh, está tudo bem… e ele logo para.

Meu timer toca: está na hora de fechar a aquarela. Lavo os pincéis, o estojo e os potes. Venho aprendendo a deixar tudo limpo para a próxima sessão. É um esforço diante da preguiça e da pressa, mas é um gesto potente. Quando chego do trabalho, as águas limpas me chamam de volta!

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O tema do post me levou aos desenhos do dragão e dos peixes. Pensei nessa mistura de dor e cura que é a vida.

Por mais tristes que sejam, os choros que ouço na minha janela estão envolvidos em afetos, rodeados de pessoas que tentam aliviar suas dores. Pra mim, eles também têm funcionado como um alarme de celular, que todos os dias toca com os lembretes:

1. Agradecer por estar viva; 2. Agradecer por meus amores estarem saudáveis e perto de mim; 3. Lembrar de aliviar as dores dos que choram.

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ Assistimos e gostamos: Encontrando Forrester (Finding Forrester), um filme sobre escritores, livros, estudos, basquete, fama, anonimato… O ator principal é o incrível Rob Brown.

♥ Descobri e segui: o perfil da Sabina Hahn tem postado trechos sobre história das cores (ver abaixo), ilustrado com imagens bem legais.

♥ Não resisti e comprei: The Secret Lives of Color, da Kassia St Clair. O objeto é lindo mas minha primeira impressão foi de que as histórias são um pouco superficiais. Vou ler e conto para vocês com mais calma.

♥ App divertido de arte: Google Arts Selfie. Você tira uma selfie e ele te mostra retratos parecidos de pinturas. Meus principais resultados seguem abaixo, mas não achei nem um pouco parecidos — e vocês?

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♥ Cursos online novos me seduzindo (ainda avaliando, principalmente o primeiro): Watercolor Rules!, da Sketchbook Skool; e Watercolor Summit, que me inscrevi (basta colocar o e-mail) para receber três amostras gratuitas.

♥ Dia 21 foi meu aniversário! Recebi três cartinhas das pessoas que mais amo no mundo, desses presentes que a gente guarda para a vida inteira… Também ganhei materiais de pintura da minha mãe, vindos dos EUA por minha tia querida: tubinhos de tinta (Perylene Maroon, Cerulean Blue Chromium, Sodalite Genuine, Green Apatite Genuine), pincéis (2 Winsor & Newton e 1 Neptune) e lápis (2 Col-Eraser, da Prismacolor, 1 Mars Lumograph Black da Staedtler).

Aproveitando o espírito agradecitivo, fiz um cartãozinho no dia do meu aniversário para retribuir as lindas mensagens de parabéns que chegaram via fb/insta/zap. Pintei na terça (21) depois da aula. No dia seguinte, porém, acordei super crítica, achando minha letra infantil, assim como o tema da guirlanda; e ainda super arrependida das cores verde e amarelo, logo em época de eleições, que tosca! Mas o Instagram me mostrou um post bonito, que já não consigo localizar, dizendo que os artistas devem colocar suas obras no mundo, mesmo que não estejam perfeitas (nunca estarão), e que precisam ser humildes para começar tudo de novo no dia seguinte. Obrigada autor desse post, seja você quem for!

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♥ E para compensar todos os choros das manhãs, enquanto escrevo à tarde, tem um bem-te-vi na árvore da minha janela cantando sem parar, com umas variações tão bonitas! (E minha atenção auditiva veio de ter oferecido essa semana aos alunos — e a mim — aquela aula sobre o poder de escutar.)

Bom final de semana! ☼

Sobre os desenhos: A estátua do dragão e os peixes foram feitos por observação direta em julho/2018 no Instituto Moreira Salles (do Rio), numa sessão de pintura ao ar livre oferecida professora Chiara Bozzetti, do Atelier Chiaroscuro (que voltei a frequentar, viva!). Ambos foram desenhados com canetinhas Pigma Micron 0,2, num sketchbook Fabriano Watercolour Acquarelo (é antigo, mas ressuscitei porque ainda tem folhas em branco). As cores foram feitas no local com tintas de várias marcas, mas principalmente Winsor & Newton. Em breve vou fazer um post sobre as cores que tenho no estojo.

O cartão de aniversário foi feito no verso de um papel Canson XL Aquarelle. Comecei com um rascunho do círculo e das letras, depois fiz as aquarelas à mão livre, ajustando conforme iam saindo.

Você acabou de ler “Três choros e muitos agradecimentos“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Três choros e muitos agradecimentos”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Hk. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? (Parte 2)

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“Há, em cada um de nós, uma floresta virgem, emaranhada, inexplorada; um campo nevado onde não se veem nem pegadas de pássaros.” (Virgina Woolf)

Quando meu filho começou a comer frutas e legumes, depois de seis meses de amamentação exclusiva, fiquei insegura. Bora ligar para o médico: devo dar uma banana ou meia banana? Tempos depois, um primo pediatra me contou como os colegas fazem para responder as perguntas das mães aflitas: “basta dizer dois sim e um não, para a mãe não te achar nem rígido nem desatento demais”. Fica um diálogo assim: “– Meia banana? — Sim! — Um mamão? — Sim. — Morango? — Não, morango é melhor não.”

É brincadeira, mas é verdade!

O que isso tem a ver com o sofrimento na hora de escrever uma tese?

Ter que ligar para o pediatra para pedir autorização para dar uma fruta a um bebê de seis meses é só um sintoma. Mostra como eu estava vivendo a maternidade de forma isolada, sem contar com família extensa, vizinhos, comunidade. No meu caso, até que foram poucos momentos assim. Tive apoio, avós participativos, Amigas do Peito e amigas com bebês.

Quando a gente está na gestação do bebê-tese, porém, os sintomas de isolamento podem ser bem piores. No evento sobre saúde mental (que motivou a primeira parte desse post), ouvi depoimentos sobre depressão aguda, gastrite, angústia, anorexia, excesso de entorpecentes ou remédios, tentativas de suicídio, inseguranças profundas, término de relacionamentos, falência, sensação de estar permanentemente em dívida, exaustão, vergonha, falta de apoio, desistência. Além de todos esses sintomas, recebi comentários no Facebook dos que sofreram (e até desistiram da pós-graduação) pela falta de apoio por engravidar, ser vítima de estupro ou perder os pais com câncer.

Para qual pediatra essas pessoas podem telefonar? Quantos telefonemas seriam suficientes?

Escrevi no post anterior que não sou o meu trabalho, currículo ou diplomas. Acredito nisso, mas quem disse que consigo pensar sempre assim, super saudável, sem me definir por avaliações externas? Bem que eu queria ser esse tipo de pessoa: focada, vivendo meu caminho, sabendo que o processo é mais importante do que o fim etc. O problema é que em 89% do tempo eu não consigo! Vivo me comparando e sofrendo, com sintomas bem parecidos com os que os alunos relataram, apenas em doses menores.

Acho que tenho dificuldade de me distanciar porque o trabalho acadêmico não é apenas um trabalho. É algo muito íntimo.  Nós, nossos dados e autores protagonizamos uma história intensa de amor, descoberta e decepção.

Por que sofreríamos tanto se não estivéssemos tão investidos emocionalmente?

Talvez uma parte desse sofrimento venha de nos depararmos com nossa “floresta virgem, emaranhada, inexplorada”, nosso “campo nevado” particular, onde nenhum pássaro pisou ainda, como escreveu Virgínia Woolf. A cada texto, ao invés de decidir a comida do bebê, preciso me perguntar:

O que penso sobre o mundo? O que tenho a dizer? Como posso contribuir para o conhecimento humano?

Parágrafo a parágrafo, duvido da minha capacidade de desemaranhar os pensamentos.

Ao longo da minha formação, as disciplinas eram super teóricas. O objetivo era demonstrar o “domínio da bibliografia”. Aprendi a salpicar meus textos com Weber, Bourdieu e seja-qual-for-o-nome-da-autora-da-moda. Me iludia que isso era fazer jus à história do pensamento — afinal, não se pode inventar a roda a cada texto.

No entanto, hoje, me pergunto: em que momento a repetição do que os outros autores dizem se torna tão automática que já não consigo mais saber o que penso? O que tenho para dizer por escrito? Ou seja: qual pedaço de mim estará no meu trabalho?

Não tenho respostas… Lembro que a escrita da minha tese se tornava menos sofrida quando eu percebia que estava escrevendo algo que fazia sentido no meu íntimo. Eram momentos raros, que faziam o esforço valer a pena. Nos demais, eu estava como no post anterior, perdida de mim, pensando que eu própria era quem ia “deixar de me amar se eu não acabasse a tese”.

A academia, como a maternidade, é transitória. O tempo passa, os alunos se renovam, viram a página. A memória do sofrimento não é passada adiante.

Seria muito bom se pessoas que passaram por situações dolorosas na pós-graduação compartilhassem suas experiências. Acho que precisamos de grupos de apoio que, além de abraços, nos permitam manter essas memórias circulando, de modo a acolher quem esteja passando por dificuldades. (Acolher não é resolver, mas escutar, reconhecer — primeiro passo para ajudar qualquer que seja a situação. Não podemos tratar de algo que não enxergamos.)

Tenho conversado com algumas amigas. Fico sonhando em pensarmos juntas sobre espaços de apoio coletivos no mundo acadêmico. Alguém conhece experiências desse tipo?

Nessas conversas, esclareci algumas coisas que talvez tenham ficado nebulosas na primeira parte do post:

* Para as orientadoras maravilhosas, atenciosas e dedicadas: sim, vocês existem!

* Não sei se orientação com tempo de escuta e paciência é exceção. Talvez a área das ciências humanas seja uma bolha melhorzinha até, pois recebo comentários de doutorandos de outras áreas com relatos punk.

* Aos orientadores em geral, acho importante ficarem atentos a sinais de alunos que têm muita vergonha de estar em sofrimento. É um ciclo vicioso: a pessoa entra em pânico/depressão e tem mais pânico/depressão por estar assim. Daí fica paralisada e não conta para o orientador(a). De vez em quando recebo relatos sobre isso também.

* Aos alunos: suas orientadoras e orientadores também sofrem, e muito.

* Sim, existem pessoas mimadas, preguiçosas, sem qualquer noção dos seus deveres. Mas não acho que a maioria dos alunos em sofrimento seja desse tipo. A pessoa sofre muito justamente porque valoriza sua vida acadêmica. Aliás, acho que alunos hiper exigentes e dedicados são dos que mais adoecem. Não sei a fórmula para identificar os casos do primeiro tipo, mas plágios costumam ser um dos sintomas.

* Prazos não são vilões em si mesmos. Como escreveu uma amiga: “Sem prazos nunca publicaríamos nada, já que todo artigo, por melhor que seja, sempre pode ficar melhor”. Trabalhar dá trabalho: exige foco e capacidade de priorizar, assim como de abrir mão de distrações. O segredo é conseguir equilibrar tudo isso, sem esquecer de se cuidar.

* Essa semana estive igual a vocês: digitando e apagando, digitando e apagando… Reescrevi esse post umas três vezes.  Quis deixar isso registrado para ninguém pensar que escrevo sem revisar ou sem medo.

* Um post singelo e bonito que estou há tempos para compartilhar: “Como libertar-se de seu falso-eu acadêmico?”, de David Berliner.

* Para terminar, indico o site maravilhoso da professora Eva Scheliga com referências, ferramentas, links, artigos e posts sobre escrita, editoração científica e desenvolvimento de projetos de graduação e pós-graduação, além de aplicativos e gadgets úteis para o trabalho acadêmico: https://evascheliga.wordpress.com/

Sobre a epígrafe: O trecho da Virgínia Woolf está em “O sol e o peixe”, livro de ensaios publicado pela editora Autêntica, indicado por uma leitora do blog super querida. Estou adorando; talvez vire um post.

Sobre o desenho: Desenhei essa dupla inspirada em diversas fotos sobre o tema abraço que procurei no banco de imagens Shutterstock. Utilizei canetas de nanquim permanente 0,2 e 0,05 Pigma Micron, num papel Canson (bloco azul escuro, para Mixed Media; prefiro o verso da folha, que é mais liso). Depois escaneei a imagem e resolvi colorir no Photoshop, coisa que raramente faço (só uma vez, aqui).

Você acabou de ler “Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? (Parte 2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? (Parte 2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3zq. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? (Parte 1)

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A sensação de que a nossa vida depende do sucesso profissional é massacrante. Durante a escrita de um trabalho acadêmico, isso se transforma num pesadelo: além das perdas objetivas, achamos que o fracasso atingirá todas as nossas relações afetivas.

Não sofri tanto na escrita da monografia de graduação, mas assim que tive que fazer o meu primeiro trabalho de curso no mestrado, senti o baque. Inexperiência, cansaço e prazos apertados produziam uma insegurança enorme.

Eu tinha quase certeza: “não vou conseguir terminar isso, serei um fracasso, todo mundo vai me abandonar”.

Foi nessa época que comecei a perguntar para as pessoas que eu amava se elas iam deixar de gostar de mim se eu abandonasse o mestrado (e mais tarde, num desespero bem pior, o doutorado). Cada vez que elas diziam que não, que continuariam me amando, eu ganhava um folegozinho para continuar. Como se eu precisasse ter a segurança de que continuaria existindo como pessoa, mesmo sem dar conta daquele trabalho.

Quanta coisa errada num sentimento só!

Nós não somos o nosso trabalho. Eu não sou o meu currículo nem os meus diplomas.

Foi só depois de ter meu primeiro filho e de me engajar num grupo de apoio de mulheres que entendi. Quando confundimos nossa percepção de nós mesmas com os resultados do nosso trabalho, nossa saúde emocional vai para o espaço.

O pior é que não foram os 12 anos de graduação, mestrado e doutorado que me fizeram enxergar isso. Ao contrário, muitas vezes, na academia, apesar de lermos sobre a exploração dos trabalhadores, não percebemos o quanto estamos sendo explorados. Pesquisamos sobre relações de poder e não conseguimos enxergar quantas estão nos sufocando.

Estou sendo ingênua?

Acho que não. Explico por que. Outro dia fui participar de um evento sobre saúde mental na vida acadêmica. Os relatos de sofrimentos que ouvi foram muitos, muitos mesmo. Escutei também algumas histórias emocionantes de superação, de ajuda mútua e de sobrevivência. Ao final, no entanto, ficou claro para mim que uma das maiores fontes de angústia é causada por essa identificação de alunos e professores com a ideia de “ser” significar “conquistar”.

Muitos docentes já estão tão acostumados com esse estilo de vida que pegam num microfone, diante de dezenas de alunos de pós-graduação que acabaram de relatar suas experiências de sofrimento, para contar que ficaram quinze dias sem dormir, orientaram dez projetos, participaram de 3 bancas e ainda terminaram um projeto de pesquisa no prazo. “É assim mesmo!”

É assim mesmo? Talvez seja, para um docente experiente, que tem seu salário garantido no final do mês, que sabe que terá seus quinze dias de descanso depois. Mas qual é o recado que a plateia recebe? Vocês estão de moleza, vocês não se sacrificam o suficiente.

Pode parecer mentira mas não é: numa instituição de pós-graduação altamente qualificada de ensino do Rio de Janeiro, a principal queixa dos alunos foi o deboche, o descaso diante das suas dificuldades.

Claro que isso não parte de todos os docentes, nem atinge todos os alunos. Mas são muitos, de ambos os lados. Os discentes fragilizados pela insegurança inerente ao aprendizado, os professores sobrecarregados pela naturalização dos deveres da sua própria identidade, ajudando (às vezes de modo inconsciente) a reproduzir o processo na vida institucional.

Ter alguém que nos ouça é o primeiro passo para sair de um problema de saúde mental, por mais grave que ele seja. A pessoa em sofrimento precisa sentir abertura de seu interlocutor para que possa desabafar. Não é necessário ter uma solução, às vezes basta ser escutado.

Voltando ao assunto do título… para vocês verem que a coisa não passa, nem com anos de profissão. Outro dia, eu e uma amiga (com uma carreira linda) trocamos algumas mensagens, ambas nos sentindo mais ou menos na escala de sucesso acadêmico. De repente, me dei conta, me belisquei, acordei. Mais ou menos? Não! Somos maravilhosas!

Bora viver, experimentar, encontrar espaços de apoio e amizades que nos mostrem que merecemos nos amar e termos momentos de alegria, em todas as etapas da vida, seja qual for o trabalho que estejamos fazendo.

Para quem estiver em sofrimento, não deixe de procurar ajuda. Além de seus amigos e familiares, existem alguns canais de auxílio públicos:

Instituto Pinel – atendimento 24h: (21) 2542-3049 (Liguei para verificar e a emergência para problemas psiquiátricos continua aberta: Av. Venceslau Braz, 65 – Botafogo, Rio de Janeiro – RJ.)
Você não está sozinho: ligue 141
CVV (Centro de Valorização da Vida) Rio de Janeiro: (21) 2613-4141
Leiam o ótimo Falando abertamente sobre suicídio.


Não por acaso, alguns dos posts mais lidos do blog são sobre esse assunto:
Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? Parte 1
Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? Parte 2
Sete coisas invisíveis na vida de uma professora
Defesa de doutorado: dez dicas para sobreviver (e aproveitar)
Carta a um jovem doutorando
Dez lições da vida acadêmica 
Não passei
Dez truques da escrita num livro só
e outros com a tag  mundo acadêmico

Sobre o desenho: aproveitei os abraços do meu cartão de agradecimento de aniversário de 2016. Linhas feitas com canetas de nanquim permanente descartável, depois coloridas com aquarela, num caderninho Fabriano (Watercolour 200g/m², 14,8x21cm), que ganhei num evento e ainda não terminei. Para fazer os bonequinhos se abraçando, me inspirei em fotos pessoais.

Você acabou de ler “Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? (Parte 1)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? (Parte 1)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3z5. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer

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“Eu estava entrando em um meio em que a intimidade é frequentemente profissional, e por isso os limites se confundem. (…) Apesar disso, o incidente com Harvey me deixou desconfortável; eu conseguia explicar e justificar aquilo para mim, e guardá-lo como um momento constrangedor. (…) eu me senti confusa com o desconforto que eu experimentei antes.” (Lupita Nyong’o)

O depoimento de Lupita Nyong’o foi um dos que mais me impactou entre os que li sobre H. Weinstein, homem que perseguia, abusava e estuprava mulheres ao seu redor.

Ao narrar em nuances sua trajetória como objeto de atração e manipulação por parte de um predador, Lupita nos permite entrar em contato com as emoções mais profundas das vítimas de relações abusivas: a vontade de acertar, a credulidade, a desconfiança, a vergonha, a desestabilização do senso de si mesma, a fragilidade e a culpa.

Os abusadores têm como estratégia básica confundir. Ao contrário do ditado popular, eles primeiro assopram, depois batem; e assim sucessivamente. Quando você vê a ferida, eles estão a postos para colocar um curativo por cima. O curativo vem por meio de presentes, cargos, viagens; e de migalhas de sentimentos: “bom-humor”, “carinhos”, “amor” — tudo entre aspas, já que são pseudo-emoções.

Na minha visão leiga, abusador é alguém que não sabe amar, a começar por si mesmo. São pessoas que morrem de medo do que têm por dentro, que não se aceitam, que se odeiam e descontam esse ódio nos outros. Ao agredir a vítima, verbal ou fisicamente, eles projetam sua lama interna.

“Sempre que vocês brigam, de alguma forma muito estranha, que não é explicada, você está sempre errada? Você sempre acaba pedindo desculpas, mesmo quando no início você tinha certeza de que estava certa? (…) Aí você vai ficando presa ali, numa teia de manipulação sem fim… (…) Relacionamento abusivo não é só tapa na cara (…); você pode ser abusada psicologicamente também.” (Jout Jout Prazer)

Milhões de pessoas são abusadas todos os dias. Como as estatísticas mostram, a maioria dos algozes está dentro de casa. São familiares, pais, tios, primos, padrinhos, padrastos, parceiros, pessoas com quem deveríamos ter vínculos amorosos.

O problema é que, em muitos, muitos, desses casos, não temos como simplesmente terminar a relação. Crianças e jovens vítimas de familiares abusivos; orientandos vítimas de orientadores abusivos; mulheres vítimas de casamentos abusivos em situação de dependência; pessoas vítimas de trabalhos abusivos em condições aviltantes; alunos vítimas de sistemas (escolares, médicos e sociais) abusivos, sem subsistência fora dele; grupos religiosos, étnicos, imigrantes, de cor, de gênero… A lista é imensa.

As situações de violência extrema são fáceis de identificar, mas como saber quando a violência se dá no plano de sofrimento psicológico? Inspirada nos depoimentos citados, escrevi quinze critérios para ajudar a identificar relações abusivas violentas, ainda que sem agressão física. Em todas as frases, acrescentem “constantemente”, “insistentemente”, “repetidamente”, pois a maioria dessas coisas se torna abusiva por ser vivida com uma frequência doentia.

1) Quando seus sentimentos mais profundos são negados: isso é abusivo.
2) Quando você é acusada de estar sempre errada: isso é abusivo.
3) Quando seu “não” é desconsiderado e classificado de mimado e egoísta: isso é abusivo.
4) Quando você é levado a se sentir culpada de tudo: isso é abusivo.
5) Quando você nunca sabe se o abusador vai explodir ou sorrir: isso é abusivo.
6) Quando você se sente manipulada e confundida por alguém: isso é abusivo.
7) Quando alguém, numa posição de poder, te faz se sentir inferior por ser quem você é, não importa o quanto você tenta agradar ou corresponder às expectativas: isso é abusivo.
8) Quando alguém te interpela agressivamente querendo saber o que você está pensando, fazendo (ou não) constantes insinuações negativas: isso é abusivo.
9) Quando alguém menospreza ou ridiculariza coisas e pessoas que você ama: isso é abusivo.
10) Quando alguém que deveria te amar te xinga ou berra com você por motivo fútil: isso é abusivo.
11) Quando alguém te chantageia, dizendo que deveria ser amado por você, porque não te bate: isso é abusivo.
12) Quando alguém exige ser amado “porque te dá tudo”: isso é abusivo.
13) Quando alguém é abusador e não reconhece, não se trata (psicologicamente, medicalmente, espiritualmente etc.): isso perpetua relações abusivas com todos à sua volta.
14) Quando você sente que não pode chorar ou se mostrar frágil na frente de uma pessoa que deveria ser próxima afetivamente: isso é um sintoma de um relacionamento abusivo.
15) Quando todas as situações acima acontecem em ambientes sem testemunhas: isso é um sintoma de um relacionamento abusivo.

O que fazer diante dessas situações? Como lidar com a impotência de não poder sair; ou como ajudar uma vítima a lidar (ou sair) de um relacionamento abusivo?

Em seu depoimento, Lupita afirma:

…espero que possamos formar uma comunidade em que mulheres possam falar sobre abuso e não sofrer outro abuso por não serem acreditadas e, pelo contrário, sejam ridicularizadas. É por isso que não nos manifestamos — por medo de sofrer duas vezes, e por medo de ser tachadas e caracterizadas por nosso momento de desempoderamento.  (…) ao falarmos alto, falarmos livres, falarmos juntas, nós recobramos o poder. (…) Eu solto a minha voz para contribuir com o fim da conspiração do silêncio. (Lupita Nyong’o)

Acho que podemos:

Falar alto — Lupita toca num ponto muito importante: precisamos oferecer redes de apoio às vítimas para que elas possam falar e alto! Isso vale para mulheres e para todas as outras pessoas em situação de vulnerabilidade.

Acolher — Precisamos dar acolhimento às vítimas para que elas não sofram duplamente, pelo abuso e pela culpa. Apoiar, abraçar, confortar são formas de mostrar que a pessoa não está sozinha, tentando restaurar o seu abalado senso de pertencimento.

Escutar e reconhecer — Precisamos melhorar nossa escuta, sendo mais pacientes, disponíveis e abertos para ouvir as pessoas — porque a vítima se encontra quase sempre num estado de confusão sobre si mesma. Esse tipo de violência é uma forma de tortura cujo objetivo é desestabilizar, fomentando a insegurança da auto-percepção da vítima como vítima. Por isso, é tão importante reconhecer a situação abusiva.

Fortalecer — Ninguém pode se furtar das dificuldades e frustrações, mas podemos nos fortalecer uns aos outros emocionalmente. Essa força afetiva pode ajudar uma pessoa em uma relação abusiva a identificar a situação em que se encontra, seja para sair dela (quando possível), seja para aprender a lidar, reduzindo os seus danos (quando em situações inevitáveis). Esse fortalecimento também pode (e deve, na minha opinião) ser complementado com um apoio terapêutico profissional.

Sei que há vários aspectos das relações abusivas que não foram tratados nesse texto. É um tema complexo demais para um post. Tentei contribuir com algumas perspectivas possíveis, mas nem de longe pretendi dar conta do debate. Foi uma forma de compartilhar minha emoção com o texto da Lupita Nyong’o, quem sabe ajudando a fortalecer pessoas que estão passando por situações difíceis.

Agradeço a todos leram e faço um pedido: compartilhem! Há muitas vítimas silenciadas ainda.

Queria terminar agradecendo o carinho de vocês.  Não dou conta de responder os comentários, mas reafirmo meu muito obrigada! Sem esse apoio, através de tantas mensagens, likes e e-mails, eu não teria coragem de escrever sobre tudo que escrevo aqui. ♥  Mesmo assim, alguns vão notar que não consegui escrever na primeira pessoa, como sempre procuro fazer no blog. Ainda não tenho a força da Lupita. Um dia eu chego lá.

PS: Estou me recuperando bem da cirurgia (de vesícula). Obrigada pelos desejos de melhoras!

Fontes das citações: O depoimento citado de Lupita Nyong’o  foi uma tradução livre do Rodrigo Torres para o Adoro Cinema. Li pela primeira vez no original, publicado no New York Times em 19/10/2017.

O trecho da Jout Jout Prazer é uma citação extraída do vídeo “Não tira o batom vermelho” sobre relacionamentos abusivos, visto por quase 3 milhões de pessoas desde que foi publicado em 26/2/2015.

Sobre o desenho: Aquarela feita por mim em 2008, na época em que fazia aulas de modelo-vivo na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Nesse dia, nosso professor, Manoel Fernandes, pediu que explorássemos o significado do espaço do papel. Minha escolha pelo canto inferior direito acabou resultando nessa sensação de solidão. No original, o restante do papel em branco é bem maior, reforçando ainda mais a ideia de isolamento. Tive que cortar um pouco (e adicionar um ligeiro tom de rosa à folha) para que o post não parecesse vazio para quem lê no celular. Para a execução, utilizei uma pena de bambu (se não me engano), nanquim e aquarela.

Você acabou de ler “Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-3lF. Acesso em [dd/mm/aaaa].