Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)

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Ser professora, para mim, é viver numa eterna dúvida: será que tenho conseguido afetar positivamente meus estudantes? De vez em quanto a fortuna responde: sim! Pois imaginem minha felicidade quando um ex-aluno veio me pedir dicas para reproduzir uma aula do ano passado na turma em que é monitor. Como eu ainda não tinha escrito sobre essa atividade, pedi um tempinho para me organizar. Segue o plano para vocês (e para ele)!

Objetivos da aula:

. Produzir registros gráficos sobre o entorno do campus universitário, feitos pelos estudantes que o frequentam.

. Refletir (através dessa prática) sobre como lidamos com os espaços e caminhos por onde passamos cotidianamente, promovendo um debate sobre as várias dimensões de olhar, ver, enxergar, distinguir, conhecer, apreender, memorizar, registrar.

. Compreender que os mesmos espaços são percebidos e significados de formas diferentes pelos indivíduos, embora também possamos encontrar padrões mais coletivos de percepção.

. Empreender uma experiência de aula que gere conhecimento e transforme, nos fazendo sentir que aprendemos algo a partir de uma prática associada à reflexão.

. Lembrar que uma atividade de pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material que precisa ser preparado antecipadamente:

. Antes da aula, é preciso tirar as fotografias que serão mostradas na segunda parte do exercício. No meu caso, fui com dois alunos de iniciação científica fazer o percurso no entorno do prédio onde trabalhamos. Tiramos 60 fotografias, procurando mostrar tudo que solicitamos aos estudantes que se lembrassem (ver a lista abaixo). Essa etapa de registro é por si só muito interessante. Mesmo que você não tenha alunos de iniciação científica, aconselho chamar dois ou três estudantes (ou colegas professores) para participar dessa etapa, pois a percepção de várias pessoas tornará mais instigante decidir o quê, e como, registrar. É importante que esse grupo não compartilhe a experiência com os demais alunos antes da atividade.

. Solicite aos alunos que levem lápis de cor ou canetinhas para a aula, mas não explique qual será a atividade. Bastam algumas cores básicas.

Material necessário para a aula:

. Canetas para quadro branco (ou giz, em caso de lousa tradicional).

. Fita adesiva ou fita crepe.

. Papeis A4 brancos. (Se possível, levar 1 folha para cada aluno.)

. Lápis de cor ou canetinhas. (É sempre bom ter um pequeno estoque de lápis-de-cor e canetinhas para os alunos que esquecem de trazer o material.)

. Notebook e Projetor de datashow.

. Pen drive com o conjunto de fotos preparado antecipadamente.

Dinâmica – Como conduzo a aula:

. Entrego uma folha de papel A4 para cada aluno. Peço que separem o material de desenho (canetas comuns e lápis de cor).

. Explico que o trabalho não tem certo ou errado e só conta como participação (ou seja, não é para nota!).

. Abordo o tema da aula: como lidamos com as informações visuais no nosso cotidiano? O que vemos? O que memorizamos?

. Escrevo no quadro o nome de 5 logradouros (o prédio da universidade e cerca de 4 a 5 ruas, praças, avenidas à sua volta). Peço aos alunos para desenharem, com caneta preta, um mapa contendo esses locais. A ideia é ocupar a folha A4 inteira.

. Não especifico como devem desenhar; deixo por conta da interpretação de cada um. Tento criar um clima de brincadeira, mas explicando que o trabalho é individual; o aluno não deve consultar os colegas.

. Em seguida, peço aos estudantes que comecem a registrar graficamente as informações listadas abaixo. É fundamental indicar 1 item de cada vez, esperando que todos tenham terminado de desenhar antes de anunciar o próximo. (Ou seja, os itens não devem ser escritos na lousa todos de uma vez.) A lista de temas e cores deve ser adaptada conforme o espaço onde a aula esteja sendo dada.

. Solicito aos alunos que registrem onde existem…

  • árvores e/ou plantas, utilizando a cor verde.
  • lixeiras, utilizando a cor laranja.
  • hidrantes, utilizando a cor vermelha.
  • monumentos ou estátuas, utilizando a cor rosa.
  • bancas de jornal e orelhões, utilizando a cor azul.
  • postes, fradinhos, bancos e mobiliário público em geral, utilizando a cor cinza.
  • grades, utilizando a cor marrom.
  • calçadas e texturas de pisos, utilizando a cor preta.
  • animais, música, comida etc. (A lista continua até esgotar os temas registrados nas fotos.)

. Divirtam-se com as expressões de desespero! Tem um lado muito engraçado de perceber o quanto somos cegos visualmente para coisas que sabemos que estão lá, mas não distinguimos exatamente onde estão, nem como são.

Vejam um exemplo de resultados baseados na memória de alunos, com o prédio do IFCS ao “centro”:

. Quando todos terminam, sugiro que guardem as canetas, para não ficarem na tentação de acrescentar algo. Em seguida, apresento as fotos dos espaços no Datashow. Primeiro, as mais gerais, depois, as imagens específicas dos itens da lista (árvores, lixeiras, monumentos etc.). Esse é outro momento de diversão geral, com muitos ah! e oh!, devido à comparação: fotografias x registros gráficos x memórias. Vejam o exemplo abaixo do registro do Tomás Meireles, um aluno experiente em desenho (à esquerda) junto a algumas fotos (à direita).

Além de adorar o desenho do Tomás, acho fascinante a comparação: a humanização da estátua (da figura e da escala),  a sensação de espaço ampliado (no desenho, por contraste com a foto), a presença do camelô de comida, a padronagem do chão, a posição da lixeira invertida (no desenho, à esquerda, na foto, à direita). Como nesse exemplo, muitos estudantes não registraram as duas grandes árvores que cobrem a fachada do prédio! Revejam: dos seis mapas mostrados acima, dois marcam com clareza a presença das árvores, dois trazem pontos verdes tímidos e dois não apontam árvore alguma na frente do edifício que frequentam cotidianamente.

Se tenho tempo, reúno todos os desenhos no quadro (colando com a fita adesiva) e peço aos alunos que venham à frente observar, comparar, percebendo as semelhanças e diferenças. É bem instigante comparar não só a presença ou ausência de elementos, mas também as proporções, formas e modos de ocupação dos espaços e dos registros.

Avaliação:

. No final da aula, solicito que todos escrevam na parte de trás do seu mapa uma pequena avaliação da experiência. A maioria registra que foi “difícil lembrar” dos lugares onde passam todos os dias. Uma aluna escreveu que ficou “surpresa” com a sua percepção “superficial” da cidade; o que outra estudante chamou de “olhar sem ver”. A bolsista de iniciação científica afirmou que, mesmo participando da sessão de fotos, esqueceu um monte de coisas na hora de desenhar. “A memória tem vazios” e “hierarquiza” a forma como lembramos,  escreveu outra aluna.

Acho que todos concordaram que “conhecer” é diferente de “saber que existe”, na expressão serena de um aluno, por contraste com a estudante que escreveu: “muito louco esse exercício, professora!” Um aluno explicou que conseguiu registrar os dados que se relacionavam com a bicicleta que usa para ir ao local, o que facilitou na lembrança dos pisos e equipamentos públicos, por exemplo. Vários apontaram essa característica: lembramos mais das coisas (e pessoas) que nos afetam diretamente. Um estudante anotou: “é impossível registrar a realidade em toda a sua complexidade; de forma que toda representação ou teorização é uma redução”. Sim, lembramos de “Funes, o memorioso“, famoso conto de Jorge Luís Borges.

Concluo com o texto do Tomás Meireles, o aluno que desenhou a estátua cor-de-rosa:

“Ao desenharmos a partir das nossas lembranças, temos a oportunidade de extrair um coeficiente estético de uma relação vivida. Desse modo, podemos traçar um contraste entre aquilo que sabemos e aquilo que achamos saber. Ao transportar isso para a antropologia, percebemos como podemos nos enganar a respeito da realidade que nos envolve constantemente.”

Espero que tenham gostado. Experimentem, mandem comentários, sugestões e notícias!

Ah, importante: a referência que me inspirou para construir esse exercício foi o texto abaixo. Coloquei no título um link para o PDF que fiz pois é um artigo difícil de achar. Boa leitura!

NIEMEYER, Ana Maria. “Indicando caminhos: mapas como suporte na orientação espacial e como instrumento no ensino de antropologia”, in: Além dos territórios: para um diálogo entre a etnologia indígena, os estudos rurais e os estudos urbanos. (Niemeyer e Godoy, Emília, orgs.). Campinas, SP, Mercado de Letras, 1998, p. 11-40.

Esse é o quarto post de uma série:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

Sobre o desenho: Depois de várias semanas, me aventurei a desenhar a árvore de que mais gosto do Largo de São Francisco de Paula, praça em frente ao IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ). É uma lindeza, magrela e gigante (quase da altura da igreja). Fiz parcialmente de memória, parcialmente olhando no Google Street View. Ontem voltei a olhá-la ao vivo e me admirei ainda mais com a sua leveza imponente. Sim, os pombinhos ficam minúsculos e até as pessoas ficam mínimas perto dela. Desenhei com uma canetinha Graphik Line Maker 0.1 Sépia, da Derwent, numa folha que ainda está vazia do caderno Stillman & Birman, Delta Series 8 x 10 polegadas.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-297. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Na volta de Lisboa

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Tenho um problema sério com viagens. Sabe criança de 7 anos na hora do banho? Fico igual. Entro no modo procrastinação, esqueço da mala, me xingo, me arrependo, me saboto. Não sei onde foi parar dentro de mim a pessoa que aceitou a ideia de viajar. Achar um motivo para cancelar o embarque passa a ser meu objetivo de vida.  Mas, como a criança de 7 anos, que também chora para não sair do chuveiro, depois que estou viajando, não quero voltar.

Em janeiro/2017, passei por uma dessas experiências. Foi dificílimo partir, e pior ainda regressar. Exceto pelos problemas de retina (que arranjei no stress pré-viagem), os quinze dias que passei em Lisboa, só desenhando e conversando sobre desenho, foram tão maravilhosos que ainda não consegui processar. Tenho um caderno cheio de desenhos que não escaneei, e um monte de experiências sobre as quais também não escrevi!

Imagino que vocês já sentiram essa paralisia. Quando estamos diante de algo grande demais, e parece mais fácil abandonar do que dar conta. Opa, claro que vocês me entendem. É igualzinho a projeto de mestrado, dissertação, tese, diário de campo e até trabalho de curso!

Então, mesmo depois de enrolar quase dois meses, resolvi que já estava na hora de falar dessa viagem aqui no blog.  Iniciando pelo fim, escaneei o último desenho que fiz, com as coisinhas familiares da casa que me receberam bem: a cama, o alto verão, o telefone de Minion que comprei com a Alice nas Lojas Americanas logo na chegada, o cartão da clínica onde tratei do olho, o sketchbook onde me refugiei nos primeiros dez dias, sem enxergar direito. Tudo isso aconteceu no tumulto da volta às aulas das crianças, todos nós nos acostumando a acordar às 6:15 da manhã pra sempre. Os objetos estão desproporcionais, a cola gigante, o caderno menor do que a tesoura. Minha parte preferida foi desenhar a capa da colcha que — só agora me dou conta — veio também de Portugal, de presente, há uns anos atrás. É um dos objetos que mais amo da minha casa.

Ufa. Agora que já comecei, prometo escrever em breve sobre os encontros e as atividades mais interessantes da viagem.

3 Felicidades possíveis:

♥ Vida prática: Alice me ensinou a usar o Whatsapp pelo computador e também a enviar a minha localização por Whatsapp do celular (está entre as opções de anexar, no símbolo de clipe).

♥ As crianças descobriram um jogo interessante, o GeoGuesser. O computador te coloca num local do mundo e você tem que adivinhar onde está, andando pelas ruas, como no modo 3D do Google maps.

♥ Alice apaixonada por fazer mágica com cartas, anda aprendendo um monte no Youtube. Distração saudável para quem tem pequenos em casa.

Sobre o desenho: Linhas feitas com canetinha Pigma Micron 0.05 e 0.1 em um caderno Stillman & Birn, Delta series, 8 x 10 polegadas, presente que ganhei da minha irmã ano passado. Todas as imagens foram coloridas com aquarela (Winsor&Newton e outras marcas), exceto pelo adesivo de Mentos, colado na página direto da embalagem. O celular de Minion é um dual chip, custou 99 reais, e está funcionando perfeitamente até agora! Virou o telefone fixo da casa, pré pago e baratinho.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Na volta de Lisboa”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-1Xi. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Um dia depois do outro

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Às vezes sou tomada por pensamentos torturantes.  “Por que desenhar e pintar a essa altura? Como usar bem as cores se não me formei numa escola de artes? Se ao menos eu tivesse mais tempo e dinheiro… Quando vou me convencer de que não tenho talento?”

— Quem já ouviu variantes dessas frases no próprio cérebro, levanta a mão!

É tão irritante não existir atalho, fórmula mágica ou poção-de-talento-de-pirlimpimpim. Nas farmácias do Humaitá não têm! Só me vendem Tylenol-com-cafeína e olhe lá.

O engraçado é que meus pensamentos torturantes mudaram de tema. Antes, toda a agonia girava em torno do trabalho acadêmico. Agora, levo minha vida de professora e pesquisadora sem drama. Sento, me esforço, faço. Como me transformei tanto?? De alguém que quase morria para entregar um simples trabalho de curso no mestrado para essa pessoa que não se abala para escrever, examinar tese, dar aula ou palestra?

“Um dia depois do outro” e “Só erra quem faz”, diria a vovó Trude (que não é minha vó, vocês sabem, mas é como se fosse).

Ai, detesto essa parte chata. Nos filmes eles passam o esforço diário como se fosse um cineminha rápido. Aprendi que esse pedaço do roteiro se chama “stock shots”: em trinta segundos, o ator lê vinte volumes da enciclopédia, ou o fraquinho vira fortão, tipo Rocky-eca-Balboa. É um embuste: na vida real não passa depressa! Trabalhar, estudar, praticar diariamente demora, cansa, enjoa, e muito!!

— Quem preferia pular a parte chata, levanta a mão!

* 2 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Foi emocionante receber milhares de pessoas aqui no blog por conta de um livro que adoro! O Howie (Becker) também leu o post e agradeceu pelo nosso entusiasmo. Ele está ótimo, trabalhando, fazendo ginástica todos os dias com a Dianne e apaixonado pela bisnetinha baby Naomi Rose.

* Parte legal: Vimos um documentário simpático sobre Woody Allen. Parte chata: lembrei que li uma biografia sobre ele escrita pelo Eric Lax, mas emprestei… e o livro sumiu da minha biblioteca.

* Sobre os desenhos: Páginas de desenhos e anotações no caderninho Laloran no primeiro semestre de 2015, para mostrar meu dia-a-dia enfrentando o aprendizado do desenho e da aquarela. De cima para baixo, da esquerda para a direita: 1) Testando as misturas de cores de aquarelas novas; 2), 3) e 4) Mini desenhos feitos durante a aula da professora Chiara Bozzeti, onde registro os que os outros alunos estão desenhando, o chá, os materiais ou alguma dica; 5) Experimentando diferentes misturas de cores para fazer o pássaro que veio na embalagem de um caderno Stillman & Birn que ganhei. O pássaro original é o último à direita (recortado e colado).