Karina Kuschnir

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Museu Nacional – UFRJ (1818- )

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“Levantaram Dom Quixote, descobriram-lhe o rosto e acharam-no pálido e suado. Rocinante não se pode mover, de derreado que estava. Sancho, todo triste e pesaroso, não sabia o que havia de dizer, nem o que havia de fazer. Parecia-lhe tudo aquilo um sonho e coisa de encantamento. Via seu amo rendido (…); imaginava escurecida a luz da glória das suas façanhas, desfeitas as esperanças como se desfaz o fumo com o vento.” (Dom Quixote)

Foi com muita dor que assisti à devastação do palácio que sediava o Museu Nacional.

Como Sancho, diante de Dom Quixote derrotado, parecia não ser um outro morrendo, mas uma parte de mim mesma.

O acervo milenar, a biblioteca, os arquivos e o local de trabalho de centenas de docentes, pesquisadores, funcionários e alunos da UFRJ queimaram naquele domingo, 2/9/2018. Que sensação de desespero ver vidas inteiras dedicadas à pesquisa e ao ensino virando cinzas, ao vivo, pela TV.

Passei a semana passada chorando, mandando mensagens e tentando agir em solidariedade aos colegas mais afetados. Tentei também responder (via e-mail, zap, fb e em sala de aula) algumas das acusações sem fundamento que surgiram logo no dia seguinte à tragédia. Acusam sem ao menos saber as causas de um incêndio ainda sob investigação.

“Assim o viver me mata | Pois que a morte me torna a dar vida! | Condição nunca ouvida, | A quem comigo vida e morte trata!” (Dom Quixote)

O fogo no Museu teve o efeito de trazer à tona sua vitalidade, como nos versos de Quixote. Ele fala da perda do amor, mas também da dor que faz querer viver.

Saímos com queimaduras de muitos graus desse incêndio. Cada pessoa que ali esteve, de passagem ou de ficagem, por algumas semanas ou anos, em êxtase pelas descobertas e em calafrios de medo — todos nós tivemos nosso momento de quase-morte. Vimos passar um filme de nossas histórias, das pessoas que conhecemos e das montanhas que subimos e descemos naquelas redes de conhecimentos, aprendizados, aulas e sonhos de futuro.

Dar meu depoimento parece tão pequeno perto da grandeza da instituição Museu Nacional, UFRJ.  Ao invés de escrever, desenhar foi minha forma de lidar com a tristeza. Ficou torto, impreciso e confuso em algumas partes, mas também assim é a vida.

Agradeço a cada um dos colegas, professores e funcionários da UFRJ pela sua coragem e resistência diante dos desafios que estamos enfrentando. Essa luta não é tanto pelo passado, mas por permitir que os jovens de hoje e de amanhã continuem tendo a oportunidade que tivemos de usufruir desse espaço mágico de descoberta, produção e invenção de saberes que é o Museu Nacional.

Minha avó faria 104 anos nessa semana, 10/09. Apesar de órfã de pai e mãe antes dos 12 anos, ela nos diria:

“Vamos em frente, vamos fazer planos, vamos seguir.”

Sobre as citações: Quando me sinto perdida, abro meu Dom Quixote, onde sempre encontro alento e explicação para tudo. As citações estão na p. 573 e na p. 583 (edição Abril Cultural, 1978) .

14 Coisas impossivelmente-bonitas-emocionantes-ou-dignas-de-nota sobre o Museu Nacional. Bons textos jornalísitcos, vídeos, depoimentos e links interessantes que recomendo sobre o Museu:

♥ Campanha para a requalificação do Museu Nacional, filme feito em 2015 pela Capim Filmes e equipe do MN/UFRJ, disponível no Youtube.

Banco Mundial diz que nunca exigiu gestão privada do Museu Nacional em troca de empréstimo, por Júlia Dias Carneiro, para a BBC News Brasil.

♥ Hipócritas choram sobre as cinzas do Museu Nacional, por Mário Magalhães para o The Intercept.

♥ A saga do Bendegó se torna símbolo da resistência do Museu Nacional, por Ana Lucia Azevedo, uma das raras matérias merecedoras do nome, feita pelo O Globo sobre a tragédia.

♥ No Museu, minha ancestralidade, por Flavia Oliveira, coluna em O Globo.

A indiferença é o vandalismo, por Paulo Roberto Pires, na Época.

O Museu Nacional ardeu em chamas, por Yvonne Maggie, para o G1.

♥ Museu Nacional: ruínas precoces, fiapos de esperança – por Ricardo Ventura Santos, na Revista História Ciências Manguinhos, Fiocruz.

♥ Falar do Museu Nacional é falar dos povos indígenas, da história do Brasil,  depoimentos dos professores Antônio Carlos de Souza Lima e Edmundo Pereira, por Gabriele Roza, da Agência Pública.

♥ Um museu em chamas visto por uma de suas antropólogas, por Aparecida Vilaça, para o Nexo Jornal.

♥ Além destes, há dezenas de depoimentos e textos em homenagem ao MN como o de  Renata Menezes (FB), entre outros que circulam no zap, sem site definido.

♥ Há também uma campanha de voluntariado, ajuda e doações para o Museu Nacional. Os dados podem ser vistos aqui, além de outras campanhas na página do MN no Fb, como essa linda de cartas de crianças!ufrj_museunacional_pb_p

♥ Na passeata em protesto pelo incêndio, fiquei emocionada ao encontrar uma amiga querida que me disse que a filha adora meus calendários. Então resolvi trazer para cá o PDF em alta resolução da versão em P&B do meu desenho do MN, para quem quiser colorir. Agora, sempre que eu puder, vou deixar uma versão sem cor para ela!  (PS: Mas deixem as crianças desenharem e colorirem por conta própria também, ok? )

♥ Por falar em criança… Queria terminar pedindo que vocês assistam a essa história lindinha demais, que deu origem ao meme “É verdade esse bilete”!

PS: Se tiverem outras sugestões de links sobre o MN, me mandem! (Só não vale fake news nem depoimentos de quem não se dedica à instituição e agora vem posar de representante.)

Sobre o desenho: Que difícil desenhar esse prédio tão complexo! Fiz uma versão da fachada com várias fotografias no Photoshop para poder entender as proporções e detalhes. Tracei as principais medidas no papel de aquarela com a ajuda da mesa de luz. Depois, desenhei à mão com uma canetinha Pigma Micron 0.1, sépia (novidade na Papelaria Botafogo). Coloquei máscara (Schmincke) para preservar as partes mais claras, esperei secar e pintei com aquarela.

Cores principais Naples Yellow para o prédio; Cobalt Violet para escurecer o amarelo quando necessário; Cerulean blue e Alizarim Crimson juntos para os cinzas; Sap green com Payne’s Grey para as portas. Na versão em papel, tinha um céu suave e um chão na frente que acabou ficando muito escuro, horrível. Até chorei… Esse tipo de trabalho leva horas! Felizmente, o Antônio chegou da escola a tempo de me acalmar. Deixei só o prédio mesmo, com ajuda do Photoshop.

Como escaneei a versão sem cor, acrescentei no final uma layer com essa camada para reforçar as linhas (técnica que aprendi vendo os vídeos do ilustrador polonês Mateusz Urbanowicz no YT).

Você acabou de ler “Museu Nacional – UFRJ (1818- )“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Museu Nacional – UFRJ (1818- )”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3HQ. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Marielle, Presente!

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Há dez dias Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes foram assassinados. Dor,  desilusão, raiva, é muito sentimento misturado. Estivemos nas manifestações, ouvindo, andando, gritando as palavras de ordem, nos emocionando, seguindo. Penso em todas as pessoas que perderam seus filhos, companheiros, representantes, amigos… mais uma tragédia no Brasil; e são tantas.

Ao invés de escrever, preferi desenhar. Tentei trazer alguns dos símbolos que ela representava: mulher, negra, favelada (por isso deixei as sobreposições) e bissexual (o lilás), sem deixar de ser sua própria, alegre, mistura. (Os detalhes sobre o desenho estão no final do post.)

Queria também compartilhar com vocês algumas palavras das pessoas que registraram esse momento ao longo desses tristes dias:

Flávia Oliveira, jornalista, n’ O Globo:

“São tantas camadas. Cada tiro atingiu uma pele. A pele da mulher negra. A pele da mãe. A pele da favelada. A pele da socióloga. A pele da defensora dos direitos humanos. A pele da representante eleita para a Câmara Municipal de uma cidade tomada pela brutalidade e pelo medo (…) Seu corpo está morto. Suas ideias hão de sobreviver.” (Flávia Oliveira)

Teve o vídeo com os poemas “Terra Fértil” e “Rosa de Sangue” de Carolina Rocha/Dandara Suburbana, com performance de Rosa de Sangue Movimento Artístico, direção de Emy Lobo, no canal Sobre Elas. Vejam até o final — a voz da multidão gritando #MariellePresente traz muito da emoção dos eventos para quem não pode estar lá.

Foi emocionante o post da Priscilla Brito citando Audre Lorde, poeta negra, ativista LGBT:

“Destas semanas de medo agudo nasceu o conhecimento – a partir desta guerra que todas estamos lutando contra as forças da morte, sutis ou não, conscientes ou não – de que eu não sou apenas uma baixa, sou também uma guerreira. Quais são as palavras que você ainda não possui? O que você precisa dizer? Quais são as tiranias que você engole diariamente e tenta tornar suas, até que você adoeça e morra delas, ainda em silêncio?” (Audre Lorde)

Dos relatos pessoais sobre Marielle, a carta de Vanessa Berner foi linda… Um trechinho:

“Afeto era seu nome do meio, Mari. E foi por causa dele que você se tornou essa gigante que hoje o mundo todo conhece. (…) Você sempre foi boa nisto, Mari, em fazer as pessoas se sentirem melhor. Na vida cotidiana, na política. E é a soma dessas pequenas coisas que te tornou a pessoa que nós sempre amamos. A solidariedade, amora: eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor! (…) Isto acontece porque você fez tudo certo. Desde o princípio. Você sempre investiu na formação política das mulheres, seu discurso sempre foi sua prática. Uma linda prática coletiva, amorosa, responsável. Você investiu na utopia feminista, em uma nova ética. (…) Nem uma menos! Você nos acolhia a todas, abraçava todas nós, se solidarizava com a dor do mundo. Por isto nos reconhecíamos em você: um mútuo reconhecimento tão evidente que cada tiro que te atingiu, doeu profundamente em todas e em cada uma de nós.” (Vanessa Berner)

Lembro também da dura verdade dita por Luciana Nepomuceno, que escreveu e fez uma bonita compilação de vídeos sobre Marielle para o blog Biscate Social Club:

“Que lutemos as lutas de Marielle. Que apoiemos outras mulheres negras na política. Que não esqueçamos sua morte. Que balancemos suas bandeiras. Que sonhemos, juntos, seus sonhos. Mas Marielle, mesmo, nunca mais.” (Luciana Nepomuceno)

Compartilho ainda a matéria que só o talento de Mário Magalhães poderia produzir, no The Intercept. Honrada de participar da indignação, como diz a senhora reportagem –aquela coisa meio esquecida em que um jornalista entrevista pessoas, lê ou vê fontes com todo cuidado, mesmo com pouco tempo, traz novas informações, busca sentido no que não tem sentido:

“E quando chegar a noite cada estrela parecerá uma lágrima”, poetou o Renato Russo. Se a cada lágrima corresponde uma estrela, raras vezes o céu do Rio esteve tão estrelado. (…) As estrelas choram, mas iluminam e inspiram caminhos.” (Mário Magalhães)

Para terminar com um pouco de esperança, assistam o “50 mães, 50 e muitas crianças – 1 cromossomo”,  linda homenagem ao dia da Síndrome de Down (21/03) criada por um grupo de mães inspiradas na organização Singing Hands do Reino Unido. Impossível não sorrir e se emocionar! Um detalhe bonitinho: o uso da música “A Thousand Years” foi autorizado pela autora, Christina Perri, via seu marido, Paul Costabile, contatado pelas mães pelo Twitter e ele próprio apoiador da causa.

“Como ser corajoso | Como posso amar quando eu estou com medo de cair” (Christina Perri)

Sobre o desenho: Foi muito difícil, fiz várias tentativas… Nessa versão, que sobreviveu, desenhei com caneta de nanquim permanente (Pigma Micron 0,2) olhando para uma foto tipo selfie da Marielle na Câmara dos Vereadores. Não é a foto mais bonita dela, mas é uma das poucas em que ela não está com seu largo sorriso lindo. (Quem desenha rostos, sabe como é quase impossível registrar sorrisos de uma forma que não fique horrível.)  Estava preto e branco, sem a menor graça. Aí lembrei de uma página de estudo em que pintei só misturas de aquarelas roxas, lilases e rosas. Escaneei, editei tudo no Photoshop e saiu assim. Depois escrevi o Marielle, presente! e encaixei na imagem. Fiquem à vontade para usar.

Editado para correções em 24/3/2018. 

Você acabou de ler “Marielle, Presente!“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Marielle, Presente!”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3DF. Acesso em [dd/mm/aaaa].