Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Os bastidores do blog

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“Não compare os bastidores da sua vida com a fachada da vida dos outros.”

Taí uma frase que preciso colar na parede na frente do meu computador! Não é que a gente faz isso o tempo todo? Achei uma boa síntese do mundo atual o artigo do Seth Stephens-Davidowitz, no New York Times, sobre como as pessoas são diferentes nos posts no Facebook e nas perguntas que fazem ao Google. Na vitrine somos felizes, amorosos e alegres; no cantinho escondido da janela de buscas, somos doentes, confusos e melancólicos. É muito contraste, conclui o autor, citando o conselho dos Alcoólicos anônimos que destaquei acima (no original,  “Don’t compare your backstage to other people’s front stage”). Por coincidência, no mesmo dia, a artista Liz Steel escreveu sobre as dificuldades em montar um curso online começando com uma versão bem-humorada da máxima: “Don’t compare your insides to other people’s outsides” (algo como “não compare seu mundo interno com a aparência externa dos outros”).

Pensei em aproveitar o tema para responder uma dúvida que já ouvi de várias pessoas: como é o dia-a-dia de manter o blog?

1) Faz-de-conta  — “Várias” pessoas me escrevem…? Foram só *cinco* que me perguntaram sobre isso, duas por escrito e três pessoalmente, vai ver até por educação… Alguns autores (eu inclusive) inflam seus textos com esse tipo de palavra genérica sobre os seus leitores — muitos, vários, diversos, um monte! — deixando no ar uma aura de sucesso. Esse tipo de recurso é mais velho que a vovozinha, né? Não julgo, porque às vezes também caio nessa besteira. É uma forma de não desanimar por falta de torcida.

2) Apenas 3% ! —  Dos 149 posts já publicados aqui, apenas cinco (3%) têm uma visitação alta para os meus padrões (de 10 a 35 mil vistas), respondendo por quase 80% das estatísticas. Portanto, 97% do tempo escrevo consciente de não ter tantos leitores. São aproximadamente 200 a 1000 visualizações por post, atualmente. Segundo o que consigo ver com o meu vínculo gratuito no WordPress, as médias mensais foram subindo com os anos, de 1.500, 3000, 5000,  até as cerca de 6 mil vistas por mês atuais, exceto nos meses de posts mais lidos, com médias de 10 a 30 mil. Os números de visitantes são cerca de 30% menores que esses.

3) Zero centavos — Nunca ganhei um tostão com o blog e estou feliz assim. Não aconselho apostar a vida em “viver de blog”. Conheço autores super bem sucedidos, que aparecem em televisão, tem anunciantes e tudo, e mal conseguem pagar a conta de luz com os rendimentos gerados. O segredo para fazer dinheiro na internet é por outros caminhos.

4) Ganhos — Desenhar, escrever e publicar toda semana é um trabalho voluntário que me dá um retorno emocional e intelectual impossível de medir em números. Sei por outras experiências que trabalhos voluntários nos apaixonam e são o melhor investimento da vida. Abrir espaço na agenda da “vida real” para fazer esse tipo de coisa é difícil , cansativo, exigente, chato… mas compensa, demais.

5) Desafio — Desde pequena, eu gostava de escrever em diários, mas percebia que 99% dos meus textos eram reclamações e tristezas. É tão mais fácil registrar o que dá errado! A escrita alivia. (Aliás, uma dica paralela: quando estiver com raiva de algo ou de alguém, escreva uma longa mensagem e mande apenas para o seu próprio e-mail.) Quando meus filhos nasceram, comecei a fazer diários para eles, tentando escrever de uma forma positiva, como se dissesse: “crianças, bem vindas ao mundo, valeu a pena ter nascido!”  Esse foi e é um dos desafios que me faz manter o blog até hoje: falar da vida (e do mundo acadêmico) de uma forma positiva e bem-humorada, sem deixar de ser crítica. Haja criatividade!

6) Prática — Na real, o dia-a-dia de produzir o blog desde novembro de 2013 tem sido caótico. Não faço reunião de pauta comigo mesma, não escrevo com antecedência, não preparo tudo bonitinho no Word antes, não desenho com calma, não faço nada que mandam os manuais dos blogueiros profissionais. Sigo a intuição e reviso bastante depois. Já tentei encontrar um horário, um dia certo, um sistema, mas a vida atropela sempre. Essa semana, por exemplo, estou dando quase 20 horas de aulas presenciais (faltam 3 hoje à noite ainda). Continuo porque o processo me faz bem. Sabem a sensação de terminar uma atividade física boa? Ou a de terminar um artigo/capítulo da tese? É por aí.

Às cinco queridas leitoras que me estimularam a escrever esse post: espero ter ajudado nos planos bloguísticos de vocês! Faltaram alguns temas, mas já estou atrasada para um compromisso! Melhor feito do que perfeito, como diria a vovó Trude. Escrevam, desenhem, fotografem, publiquem, sim! O mundo agradece.

6 Coisas impossivelmente-legais-lindas-e-interessantes da semana (inclui as fontes citadas acima):

* A citação que abre o post está no artigo “Don’t Let Facebook Make You Miserable” do Seth Stephens-Davidowitz, no New York Times.

* Cheguei ao link acima através da newsletter Meio, enviada para assinantes por e-mail todos os dias às 7 da manhã (grátis).

* O texto da artista Liz Steel mencionado está aqui, aliás num blog ótimo para todos que se interessam por aquarela e diários gráficos.

* Li um artigo curtinho, com imagens lindas e interessantes, sobre a história da fotografia, na Revista da Fapesp. Vou atrás de todas as sugestões de leitura no final.

* Do antropólogo B. Malinowski, descobri na seção “reprints” da revista HAU, o simpático “Anthropology is the science of the sense of humour” (acesso gratuito).

♥ Para quem está com saudades da Alice: ela está fofa e manda beijos!

Sobre o desenho: Imagem mostrando os “bastidores” aqui de casa, feita com caneta-pincel Tombow (não sei o número porque descascou) num caderno de rascunho que deixo na sala para desenhar quando a TV está ligada.

Você acabou de ler “Os bastidores do blog“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Os bastidores do blog”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url:  http://wp.me/p42zgF-215. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Câncer infantil tem cura!

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Sabem aqueles momentos da vida que nos inundam de esperança? Foi assim que me senti no dia em que fiz esses desenhos (acima), durante uma visita ao Aquário Carioca, unidade de diagnóstico e tratamento de crianças e jovens com câncer do Hospital da Lagoa, no Rio. Fui a convite da Ludmila Lavigne, mãe de uma amiguinha da Alice e de um saudável menino que fez transplante de medula há alguns anos. Hoje, ela é uma voluntária, guerreira, que apoia as equipes de saúde e as famílias dos pacientes nas lutas e alegrias do combate à doença.

É difícil entrar nesse ambiente e não se emocionar. Não por pena, mas por admiração a todos que estão ali, desafiando o diagnóstico e os entraves da saúde pública para dar acesso aos tratamentos eficazes. Para quem trabalha numa universidade federal, como eu, essa parte é muito impactante. Nossos probleminhas do cotidiano ficam tão pequenos no contraste com os altos custos e as questões de sobrevivência que o universo do câncer impõe. Imaginem tudo isso plantado no topo de montanhas burocráticas e da escassez financeira da saúde pública… já é suficiente para me dar vontade de sumir. Mas a equipe e os voluntários não somem não.

Acho que a vida se divide entre antes e depois do nosso contato íntimo com uma doença grave. Em 2000,quando eu estava grávida do Antônio, meu padrasto foi diagnosticado com câncer de bexiga. Mesmo com todas as dificuldades e más notícias, ele e a minha mãe tinham uma forma bem positiva de lidar com a doença. Faziam planos, viajavam nas horas mais improváveis e reuniam os amigos no quarto do hospital. A Alice desde pequenininha era a paixão desse que foi o seu único avô de verdade. Quando soube que vinha a tão sonhada neta-menina, lá foi ele (o advogado rígido e severo) comprar um lacinho de cabelo vermelho para ela. Esse amor dos dois nos aproximou, e fiz o máximo para que a Alice convivesse com ele, com ou sem ambiente hospitalar. Mesmo no auge do sofrimento, eu sabia que uma visitinha da neta era capaz de arrancar um sorriso ou fazer esquecer um pouco as dores e os prognósticos cada vez piores. Até a última semana de sua vida, ele e minha mãe não perdiam as esperanças (ou nunca aparentavam ter perdido). Acho que fez uma enorme diferença que nós, os cinco filhos, tenhamos estado o tempo todo próximos, nos revezando na cabeceira da cama, junto com outros amigos e profissonais, por quem tenho uma admiração profunda. Os livros que fui lendo pelo caminho falam muito sobre como uma rede humana amorosa produz efeitos positivos na vida dos doentes. Ao ver o fim de perto, senti mais do que nunca como isso vale também na vida de todo nós.

Foi pensando nessa e em tantas outras histórias bonitas que aceitei com imenso prazer o convite para colaborar na campanha de alerta para o câncer infanto-juvenil, que acontece todos os anos em novembro.caminhadacorpTive a felicidade de ser convidada pela Ludmila para participar como voluntária dessa iniciativa linda em prol de crianças e adolescentes em tratamento da doença no Rio de Janeiro. Fiz o desenho da corrente humana (acima) e a imagem para a camiseta (abaixo) que vamos usar na “II Caminhada Contra o Câncer Infanto-Juvenil” no dia 8/novembro, às 9 horas da manhã, na orla da praia do Leblon (saída na altura do Jardim de Alah). Todos podem colaborar comprando uma camiseta da campanha pelo site ingressocerto.com (R$30,00), mesmo quem não puder comparecer. Os recursos obtidos com as vendas serão integralmente revertidos para as crianças e jovens com diagnóstico oncohematológico.

A caminhada tem como objetivo alertar a população e os profissionais de saúde para a importância do diagnóstico precoce, mas será também um momento de confraternização e alegria entre todos os envolvidos com a causa. Por trás disso tudo estão os Pacientes e Amigos da Onco-hematologia Pediátrica do Hospital Federal da Lagoa e a maravilhosa associação Saúde Criança, que há anos apoia as famílias com filhos em situação de doença prolongada. Nos encontramos lá!

camiseta

Sobre os desenhos: O desenho da camiseta surgiu de anotações que fiz durante a visita à unidade de tratamento oncohematológico no Hospital da Lagoa. As imagens evocam a importância do diagnóstico precoce (gotinhas de sangue), a perda de cabelo que pode ocorrer no tratamento (carinhas carecas), a esperança e a fé das famílias (pombinha azul), uma homenagem à líder da equipe, doutora Soraia Rouxinol (o passarinho amarelo cantando), a importância do apoio e do amor à criança e ao jovem (mãozinhas verdes e corações), o renascimento (flor de lótus), o lado lúdico do aquário (tartaruga) e a volta das crianças a uma vida ativa e criativa (livros, lápis e aquarelas). Para a execução, fiz rascunhos a lápis, contornos com canetinhas de nanquim descartáveis e pintura com aquarela baseadas em imagens pesquisadas na internet. (O contorno ilustrativo da camiseta foi tirado direto na internet, só para mostrar aqui no post como deve ficar o produto final.) Minha preferida de fazer foi a tartaruga, bichinho pelo qual tenho a maior simpatia. Para o desenho da corrente humana, fiz os bonequinhos em duas folhas A4, em formato paisagem, à mão. A ideia é inspirada na antiga marca das Amigas do Peito, desenhada pela minha amiga querida, Claudia Orthof, filha-sobrevivente de uma mãe falecida de câncer. Para juntar tudo, escaneei e usei o Photoshop, programa que serviu também para colar todas as demais imagens por cima. Ficou meio confuso, eu sei, mas foi o possível!

Divulgação: Fiquem à vontade para copiar e colar qualquer imagem ou texto dessa página que ajude na divulgação do evento e na venda das camisetas!


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A cor salva!

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Estamos todos — adultos, crianças & gatos — nos sentindo engaiolados no micro-apartamento provisório. Daí a vontade de desenhar pássaros sem gaiolas para o calendário de outubro. Decidi que não posso abandonar os temas coloridos para esse enfeite-útil das nossas geladeiras. Na falta de boas tiradas da Alice, a cor salva!

Queria aproveitar também para dizer:

Obrigada de verdade a tod@s que têm mandado mensagens e comentários positivos sobre o blog! Sei que não tenho conseguido responder, mas cada linha enviada me dá uma força enorme para continuar com essa ideia maluca de desenhar e escrever toda semana.

Só agora, aliás, me dei conta de que este blog também é uma espécie de trabalho voluntário: tem que ralar muito, ter compromisso (mas não obrigação), acolher as próprias dificuldades e apoiar quem está à volta. Mas o retorno é o máximo: a sensação de se sentir útil!

Tive a sorte de virar voluntária quando fiquei grávida do Antônio, em 2000. Me apaixonei pelo grupo Amigas do Peito, de apoio à amamentação, onde atuei intensamente por 11 anos. Em 2010, com as minhas duas crianças desmamadas, me aproximei do apoio aos animais de rua, ajudando a encontrar lares para dezenas de gatinhos abandonados. Nessas duas atividades, acabei criando os blogs, lidando com muitas pessoas, aprendendo e recebendo muito mais do que pude oferecer, como diz o clichê-super-verdadeiro sobre o tema.

Há uns três anos, mantive as amizades, mas acabei precisando me afastar. Eu ia escrever que foi “por falta de tempo”, mas não. Não rola falta de tempo quando a gente se apaixona por uma causa! A verdade é que… bem, eu me apaixonei sim, mas foi pelo meu namorado. E paixão depois dos 40 é um trem que a gente não pode deixar passar, sô!

Agora que estamos virando um casal normal, com espaço para o resto do mundo, percebo que a vontade de me dedicar a alguma causa está crescendo de novo. Quando eu era “antropóloga da política”, não conseguia nem imaginar misturar trabalho com voluntariado, como muitas amigas que admiro fazem. Mas desde que virei “antropóloga que desenha”, vejo um mundo de possibilidades se abrindo… tenho certeza de que em breve vou conseguir juntar tudo! Deixa só eu me mudar, me aguardem!

E para fechar o post, mais uma brincadeira de casinha! Nunca pensei que ia encarar uma loucura gótica dessas, mas aí está! Graças ao amor pelo futebol da Alice, que conseguiu convencer até o Antônio a jogar com ela, passei uma hora e pouco fazendo esse desenho no último domingo. Depois, já em casa, terminei de desenhar os tijolinhos, acrescentei as sombras e os dois detalhes ao lado, tendo como referência fotos feitas com o celular.

gurilandia

 

Sobre os desenhos: Os pássaros do calendário foram feitos a partir de fotos do Google, com canetinha Pigma Micron 0.005, e coloridos com lápis de cor Prismacolor (não aquarelável) e CaranD’Ache (aquarelável). Tenho a felicidade de ter duas caixas grandes de 72 e 80 lápis cada uma, que considero entre os bens mais valiosos da minha casa! Quase morri uma vez que a Alice levou uma delas para a escola, porque decretou que não podia fazer os trabalhinhos do segundo ano sem aquelas 80 cores diferentes… Alice sendo Alice! (O pior é que eu concordo e me identifico tanto com ela… se a minha mãe tivesse uma caixa dessas, eu ia ser a primeira a tentar “pegar emprestado” e nunca mais devolver…)

O desenho da Gurilândia, uma casa-clube em Botafogo, foi feito com a mesma caneta 0.005 e depois sombreado com a aguada de nanquim que uso na waterbrush Sakura. As crianças votaram para eu deixar preto & branco. Então assim ficou! Mas acho que, no fundo, nós três ficamos com medo de que eu não acertasse nas cores e “estragasse” o desenho. Descobri no encontro de Paraty que muita gente tem esse medo… Bora enfrentar.