Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Lola (2009-2019)

lola-sozinha.jpg

“Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade
A realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai”
(Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

No dia 27 de junho de 2019, saí da veterinária arrasada, com a suspeita de que minha gatinha Lola estava com um tumor grande no abdômen (daí não termos notado). No dia seguinte, uma ultrassonografia não apenas confirmou o diagnóstico como cessou nossas esperanças de cura devido à quantidade de órgãos atingidos. Foi tudo muito rápido: em fevereiro, ela foi examinada de rotina e estava bem.

Lola azul amarela

Tivemos 17 dias em sua companhia desde então. Demos todas as comidas que ela mais adorava e o máximo de remédios paliativos possíveis. Instalamos um colchão na sala onde nos revezamos nos cuidados e na companhia. Alice era sua preferida para as sonecas, como registrei nesse desenho de 2013, quando Ulisses ainda estava conosco:

Alicegatosp

Adotamos a Lola em agosto de 2009, com uma cuidadora de gatinhos abandonados no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro.  A bichinha era minúscula, com centenas de pulgas e olhos inflamados. Junto, adotamos seu “irmãozinho” Charlie.

Lola casaEla tinha outros planos: recusou a fraternidade e impôs que o Charlie seria sua MÃE. Por meses a fio, mamava com todas as suas forças tentando extrair algum leite da barriga dele. Temos vídeos dessa época: o pretinho gorducho todo ensopado, pacientemente se deixando ordenhar pela “filhinha” determinada.

À medida que iam crescendo, Lola se tornou a irmã mandona. Era a líder. Escolhia onde domir, miava reclamando que estava na hora do lanche, comia primeiro. Quando Charlie passou a noite na clínica para ser castrado, ela nem se abalou. Quando chegou a sua hora, o irmão ficou desesperado: para onde tínhamos levado sua Lolinha? Nunca miou tanto e tão sofrido. Na imagem abaixo, acho que consegui captar seu olhar mais típico de “eu que mando” (bem “I’m the boss”).

Lola psi

Era com esse olhar, acompanhado de uma levantadinha de queixo e miados curtos,  que ela vinha me cobrar atitude diante de algum filho doente ou triste. Parecia que falava: “– Anda, se mexe, sua filha está chorando, não tá vendo? Faz alguma coisa!” E virava o corpinho na direção em que eu deveria segui-la. Depois ficava ali supervisionando.

Lola pintura 2013

Ela própria era uma ótima enfermeira. Bastava alguém cair doente, e lá vinha a Lola postar-se em cima. Considerava uma grande honra para a pessoa que a recebia. Adorava nossa companhia, mas nunca foi grudenta. Chegou a ser noiva e casar com o Antônio, com cerimonial e tudo! Mas foi gata-feminista à frente do seu tempo, como se dissesse: “– Lambo quando quiser, entro e saio da sua cama quando me der na telha!” Mas foi um divórcio amigável.

Lola adorava jogos de cachorro. Aprendeu desde pequena a buscar bolinhas de borracha (daquelas que saem nas máquinas de um real). Tínhamos um corredor comprido no outro apartamento. Eu sentava numa ponta e quicava a bola para longe. Ela ficava agitadíssima, apoiando as patas de trás na parede mais próxima, para ganhar velocidade e trazer a bola de volta, prendendo em sua boquinha e soltando na minha mão.

Lola amarela

Depois de muitas rodadas, sinalizava a exaustão olhando a bola passar com enfado e me encarando com um jeito de quem diz: “não percebeu que não quero mais, humana?”. Ia dormir por horas. Tinha muitos jeitos bonitinhos de cochilar, mas o meu preferido era quando esticava as patinhas pra frente.

gardenreadingg 2015

Ainda bem pequena, ficava resfriada com frequência. Era um corre-corre de remédios, nebulização e alimentos especiais para fazê-la engordar. Sempre foi miúda. Nunca passou de 3,5 kg. Um dia, já sem saber como abrir seu apetite, ofereci atum. Foi um alvoroço. Ela se apaixonou e ficou viciada a ponto de não aceitar qualquer outro alimento. Haja persistência para vencer a turrice dela.

Um dos dias mais felizes de sua vida de gata-de-cidade foi durante uma viagem a Itaipava. Nao ia ser uma grande aventura, pois a ideia era mantê-la segura dentro da casa. De repente, descobriu uma lagartixa! Foi uma festa de corre-corre pra lá e pra cá com uma “bolinha” de verdade! Ficou tão feliz que nunca esquecemos desse dia. Felizmente, saíram ambas vivas.

lola 29-04 2011

Seu sono mais gostoso era quando estávamos todos na sala, conversando ou tocando violão, de preferência com visitas já conhecidas. Era apaixonada pela mochila da Roberta, nossa amiga e ex-professora de inglês do Antônio. Era muito asseada, lambia tudo que via pela frente. Charlie era seu brinquedinho particular, assim como nossos cabelos e seu próprio pêlo, mantido impecável. Se ganhasse um beijo de qualquer pessoa, imediatamente limpava a área “atacada” por humanos.

Lolas dez 2014 b.jpg

Quando Ulisses chegou em 2011, passou um bom tempo trancado no quarto, em “quarentena”, esperando que a Lola o aceitasse. Acabaram se tornando bons amigos, ora respeitosos e lambitivos, ora trocando patadas para ver quem mandava. Era ela, claro, mas sabiamente deixava passar o atrevido, em nome do Charlie, agora assumido no papel de filhinho dos mandões.  Que saudades desse dia, em que desenhei os três juntos na posição que mais ficavam: Lola e Ulisses nas pontas, com Charlie no meio.

LolaUlissesCharlie

É isso, pessoas queridas. A vida. Dez aninhos de Lola em histórias e imagens. Parece que foi ontem. Parece muito; foi pouco. Alegria e tristeza juntas, dessas que a gente não sabe explicar, mas faria tudo de novo.

Obrigada por tudo, Lolinha. ♥

Sobre os nomes: Para quem não conhece, os nomes Charlie e Lola foram inspirados em dois personagens dos livros e desenhos animados da ilustradora e escritora inglesa Lauren Child. Não achei um bom site oficial, então deixo uma busca de imagens e filminhos. Foi um de nossos desenhos preferidos quando as crianças eram pequenas. Além disso, as ilustrações são lindas, misturando colagens e desenho.

Sobre os desenhos: Recolhi de vários caderninhos ao longo desses dez anos, mas devo ter muitos perdidos ainda. Ela foi o gatinho que menos desenhei, porque achava seu pêlo tricolor super difícil de registrar. Confesso que me surpreendi em ver como as imagens, mesmo de rascunhos super rápidos, conseguiram captar a vibração da nossa querida gatinha. Saudades infinitas já.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2019. “Lola (2009-2019)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3KI. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Resiliência

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Uma das coisas mais difíceis na vida é recomeçar — cair, levantar, insistir, fazer, mesmo quando o corpo dói e a tristeza invade.

Mergulhei numa espiral de desalento e apatia, alternada com breves momentos de energia e ação. Começou com o incêndio do Museu Nacional e veio se arrastando. Não sei vocês, mas meu desânimo costuma gerar medos, pesadelos, noites insones e um vício amargo pela tela do celular.

Não recomendo.

Tive forças por saber que já fui e já voltei algumas vezes desse labirinto.

Aprendi tarde que existia uma palavra pra isso: resiliência. É aquela capacidade do boneco João-Teimoso de voltar a ficar de pé mesmo quando o empurramos ao chão.

A diferença é que, ao contrário dos seres humanos, o João-Teimoso é construído pra isso. E nós? Como voltamos a sorrir e a acreditar? Como retomamos o trabalho de ter ideias, escrever, publicar, estudar, ensinar?

Pra mim, está sendo um processo. Tem o tempo. Tem as mãos e os abraços dos meus amores. Tem a força e a cumplicidade dos estudantes. Os áudios dos amigos no zap. Tem a aquarela e o trabalho. Tem medicação para os momentos de emergência.

Ainda estou desconcentrada para leituras longas; e ainda estou insegura com um monte de coisas.

O que me ajudou a sair da inércia e vir aqui hoje foi pensar em todos que estão angustiados tentando escrever trabalhos de curso, TCCs, dissertações, teses, artigos e até relatórios pra Fapesp…

Amores, eu precisava vir aqui dar um abraço em vocês, e receber esse abraço também.

Como nos diz lindamente a artista Lisa Congdon:

“Compareça, respire, faça o seu melhor, seja gentil, aprenda, repita.”

Prometo voltar, prometo não desistir, prometo que vamos rir disso tudo um dia. Combinado?

Sobre o desenho: Aquarela sobre o verso de uma amostra de papel Hahnemühle (Expression). A imagem foi feita a partir de lembranças daquelas paisagens que vemos do avião quando estamos prestes a pousar em alguma cidade bonita. Sempre tirei fotos dessas vistas, principalmente quando são campos e plantações. É um tipo de pintura bem terapêutica, sem regras, sem pensar muito.

Sobre resiliência: Na Wikipedia tem um verbete interessante na área da psicologia:

“A resiliência é a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas – choque, estresse, algum tipo de evento traumático, etc. – sem entrar em surto psicológico, emocional ou físico, por encontrar soluções estratégicas para enfrentar e superar as adversidades.”

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Resiliência”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3IT. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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O vazio interrogativo

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Afastados da casa onde morria uma tia, um menino e seus primos esperavam a chegada solene da morte. Estavam num grande “vazio interrogativo”  quando, de repente, um pano branco…

Surgiu no ar, atravessou em passo lento a sala, desapareceu no corredor escuro que dava pra rua. Ninguém não exclamou “Vi uma assombração!”, nada. Todos estávamos estarrecidos, olhando. Só um bom minuto depois é que uma criada falou: “Foi lençol”. Então fomos chamados pra chorar. (Macobeba, Mário de Andrade)

Passei a semana nesse estado de “vazio interrogativo”,  com dificuldade de entender o que estava acontecendo, ora dando como desculpa que o mundo anda mal, ora achando que o problema era eu.

Caí em mim mas foi pra ter ódio de mim. Naquele tempo eu inda não era sábio, isto é, não tinha paciência. (Na sombra do erro, Mário de Andrade)

Não, não tem ninguém próximo morrendo! É só o meu aniversário de muitos anos que se aproxima. Eu tinha feito planos, cronogramas, metas, tabelas, objetivos, horizontes… Projetei que, em agosto, eu estaria mais jovem, mais atlética, mais disposta, mais leve, mais engraçada, mais feliz — e estou só mais eu mesma!

Vivi uns quatro meses nesse surto de onipotência controlativa. Até que veio uma dorzinha na lombar. Não dei bola, virou uma dorzona, virou uma fisioterapia, duas, dez. Já melhor, veio a preguiça, pensei vamos-esperar-as-férias-das-crianças-acabarem. E depois veio a parte em que já não sabia se estava triste por alguma coisa, ou se estava triste por estar triste.

Quando alguém não puder se vencer, disfarce lendo as tabuletas. (O terno itinerário, Mário de Andrade).

Não sei vocês, mas eu estou sempre sem poder “me vencer”, lutando comigo mesma. Acho que o Mário de Andrade também, porque essa ideia está presente de forma constante (mas bem-humorada) na obra dele.

Estou precisando de umas tabuletas pra ler, de paciência, de valorizar as coisinhas pequenas e boas do dia-a-dia, de entender que falhar faz parte, que todo dia é dia de juntar os cacos e recomeçar. Aqui em casa, repetimos um mantra: “vergonha” só de matar, roubar, bater, ofender, prejudicar. Errar, falhar, vestir calça cor-de-laranja, não. Pra esses, o melhor remédio é rir, se levantar; e ler Mário de Andrade, claro.

Porque se há de reduzir a felicidade, que é especialmente uma concordância do indivíduo consigo mesmo e o seu destino, a uma contingência externa? A própria dor é uma felicidade, quando aceita entre os bens que a vida fornece para o equilíbrio do ser e a sua perfeição livre.

Fui reler o Mário, um dos meus escritores favoritos, pois passei a semana me culpando pelo esquecimento do nome dele no último post. Taí uma amostra bem pequenininha do universo gigante desse autor. As citações são de crônicas do livro “Os filhos da Candinha” (ed. Martins/INL) escritos entre 1930 e 1942. O protagonista é, na maioria das vezes, o próprio autor a se “desfatigar” de si mesmo.

E um pouco sobre tudo isso, leiam a crônica maravilhosa de hoje do Arthur Dapieve: C’est la vie.

Ah, e muito, muito, obrigada pelos comentários tão gentis das últimas semanas! ♥

Sobre o desenho: Folhagens aleatórias que gosto de pintar quando estou ouvindo alguém que fala muito ao telefone (hoje em dia, só no Whatsapp!). Aquarelas amarelas, azuis e verdes, feitas com pincel n. 4, todos da Winsor & Newton. Dupliquei a imagem original no Photoshop para ocupar uma área mais horizontal.

Você acabou de ler “O vazio interrogativo“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “O vazio interrogativo”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-vazio. Acesso em [dd/mm/aaaa].