Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Razões para sorrir

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Essa semana voltei à rotina de desenhar no metrô, prática que iniciei em 2008 e que foi minha maior escola de desenho de observação. Na época, eu fazia um curso de “modelo vivo” — que é como se chamam as aulas em que uma pessoa posa nua para os estudantes desenharem. Apesar de amar esses exercícios, sentia que alguns modelos estavam ali meio mortos, engessados nas poses. Como amo gente (e influenciada pelo treinamento como antropóloga, não posso negar), passei a observar os passageiros do metrô como modelos vivos de verdade: cansados, animados, distraídos, entretidos, apaixonados, preocupados… Eles são uma aula grátis de desenho de observação, todos os dias, bem na nossa frente!

Um dos motivos para retomar o caderno foi o início de mais um curso de Antropologia e Desenho no IFCS/UFRJ. Na página à esquerda, fiz o exercício de “procurar desenhos onde aparentemente não os vemos”: estampas, tatuagens, logomarcas de produtos, texturas… Há um mundo de coisas simples e desenháveis à nossa volta. O interessante é viver o processo de descobertas que a observação gera. Por exemplo: ao desenhar uma flor branca bordada num vestido preto, percebi a originalidade da roupa (cortada com detalhes diferentes do que costumo observar). Desenhei o modelinho e, ao fazer isso, só então reparei numa tatuagem no ombro da moça. Achei que era um padrão floral, mas não: tratava-se de um pequenino manequim de modelagem rodeado por ramos e folhas. Seria uma profissional da moda? Que surpresa boa ser levada, de desenho em desenho, ao amor daquela pessoa por seu ofício. ♥

No meu trajeto até a Uruguaiana desde 2008, algumas coisas são rotineiras: homens do dia vestem roupas lisas, ou no máximo listras e xadrez, constrastando com as mulheres cheias de estampas. Sapatilhas com lacinhos e bolsas de marca descem na estação Carioca 99% das vezes. À noite isso se modifica: há menos ternos e mais camisetas de bandas e tatuagens. Meus modelos favoritos: famílias, pessoas lendo, mães com bebês.

Dois dias depois, peguei novamente o caderno, mesmo apertada nos bancos indecentes do metrô chinês. Foquei em dois homens dormindo (sempre bons modelos), começando o exercício pelos pés de ambos, de modo a experimentar aquilo que falei para a turma: escolham uma “forma” e não um “significado” para iniciar a traçar. Isso ajuda a desconstruir a ideia (assustadora) de desenhar pessoas. Precisamos esquecer quem são e perceber apenas linhas, espaços, sombras, curvas, vazios e cheios… Nossa inspiração da semana foi a simplificação de Steimberg. Comecei pelo senhor à direita, que parece ter sentido meu olhar, o que me fez parar. Retomei com o da esquerda, desligadão de tudo, ao ponto de eu ter conseguido detalhar sua bolsa estilosa que contrastava com a roupa sóbria.

Mas o melhor veio ao final: a moça ao meu lado abriu um sorriso lindo e falou antes de se levantar: “nossa, como você desenha bem, parabéns!” E ainda me deu um tchau sorridente da porta. Uma mulher trabalhadora, cheia de pacotes, que parou um segundinho do seu dia para me incentivar com gentilezas! ♥

A delicadeza do gesto me lembrou as dezenas de mensagens no Twitter de @Nicole_Cliffe. Ela pediu que as pessoas contassem a coisa mais gentil que um estranho já falou ou fez para elas. São tantas histórias bonitas… Resumo algumas para vocês aqui:

• O vendedor de uma livraria LGBT que recebeu um telefonema de um rapaz gay pensando em se matar: ele não só atendeu e começou a conversar, como uma cliente da loja e depois outras e outros fizeram uma fila e se revezaram no atendimento da ligação.

• A aeromoça que deu uma calça de yoga da sua própria mala para uma mãe se trocar (pois estava toda molhada pelo vômito de seu bebê).

• Uma família que parou para ajudar uma pessoa presa com seu carro na neve e ainda ofereceu sopa quente.

• Uma moça que ouviu um comentário ofensivo sobre sua aparência de sua própria mãe, em seguida foi abordada por um estranho que lhe disse: “eu só queria que você soubesse: acho você linda”.

• A mulher que sofreu um aborto espontâneo em um emprego novo e teve todo apoio (e discrição) de seu chefe.

• Uma jovem com problemas de depressão que olhava fixamente para um poster com informações de um serviço de ajuda, quando foi abordada por um homem que lhe perguntou com a voz mais gentil do mundo: “você está bem? precisa de algo? quer conversar?”

• O caminhoneiro que buzinou para um carro sair da frente, sem ver que ele estava parado para deixar uma senhora atravessar. Depois foi pessoalmente pedir desculpas pelo incômodo da buzina.

• Uma pessoa sofrendo um ataque de pânico silencioso no saguão de um aeroporto foi acudida por um cachorro de serviço (de outro passageiro) que detectou seu problema e ficou com a cabeça no seu colo por 20 minutos.

• E uma história dessa semana (que não está na thread) que tocou todas as pessoas que têm um mínimo de senso de humanidade: acompanhar as ações da primeira ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, ao acolher, chorar e se eguer para agir proibindo acesso a armas de assalto em seu país.

• Queria também dizer que eu mesma, quase todos os dias, sou tocada pelo carinho enorme dos comentários, mensagens e e-mails de vocês. Recebam meu abraço apertado por cada palavra delicada e generosa. ♥ ♥ ♥ Estou mil vezes melhor das sensações de ansiedade pois, como costuma acontecer comigo, escrever e desenhar sobre um problema é o meu melhor caminho.

As desigualdades que geram as faltas de oportunidades são profundas. Vamos combatê-las!

• Há muitas opções para sermos nós as desconhecidas que ajudam o próximo: saiba como auxiliar as vítimas do ciclone em Moçambique, Zimbabue e Malaui. Ajudei pela ActionAid, que fez um projeto bem específico.

Aqui uma campanha  bonita para financiar o livro do jornalista (e historiador) Alê Santos, Rastros de Resistência – Histórias de luta e liberdade do povo negro.

• E esta semana, na quinta, teremos um evento maravilhoso no IFCS/UFRJ. Segue abaixo o convite para todos que estiverem no Rio. Será uma mesa de mulheres incríveis, tratando de um tema urgente:

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CONVITE PARA AULA INAUGURAL IFCS 2019-1

PREVENÇÃO E COMBATE AOS ASSÉDIOS DE GÊNERO, RAÇA E CLASSE NO IFCS / UFRJ  • Data: 28/03/2019 • Horário: 17:00h •  Local: Salão Nobre

Composição da Mesa:
Direção do IFCS – Susana de Castro (IFCS/UFRJ)
Comissão “Diretrizes para prevenir e combater o assédio moral e sexual no IFCS/UFRJ” – Aparecida Moraes (IFCS/UFRJ)
Centro de Referência das Mulheres da UFRJ – Emmanuela Neves (CRMM e CRM/UFRJ)
Comissão de Direitos Humanos e combate ás Violências da UFRJ – Luciene Lacerda, (CDHCV/UFRJ; NUBEA)
Câmara de Políticas Raciais da UFRJ – Cecília Izidoro (EEAN/UFRJ; DEN/HUCFF; CPR/UFRJ
Coordenação de Políticas de Saúde do Trabalhador da UFRJ – Vânia Glória Alves (CPST/UFRJ)

Resumo da Mesa:  Apresentação dos princípios de prevenção e combate aos diferentes tipos de assédio no IFCS/UFRJ. Reafirmação dos compromissos institucionais das Ciências Sociais, da Filosofia e da UFRJ, de modo mais amplo, na promoção do respeito, igualdade e cidadania em todas as esferas da comunidade universitária. Manifestação da Direção do IFCS e colaboradores pelo repúdio e pelo enfrentamento institucional a quaisquer formas de desrespeito, discriminação, constrangimento, intimidação, entre outras ofensas. Apresentação dos documentos e canais da UFRJ e do IFCS que buscam a garantia desses princípios.

Sobre as Participantes:
Susana de Castro — Diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ), Professora do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPGF), Coordenadora do ANTÍGONA – Laboratório de Filosofia e Gênero (IFCS/UFRJ).

Aparecida Moraes — Professora associada do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ/IFCS. Co-coordenadora do Núcleo de Estudos de Sexualidade e Gênero (NESEG/PPGSA/IFCS)

Luciene Lacerda — Psicóloga (UFRJ), Coordenadora do Laboratório de Ética nas Relações de Trabalho e Ensino (NUBEA) e Coordenadora da Comissão de Direitos Humanos e combate ás Violências da UFRJ. Doutoranda em Educação na UFRJ.

Emmanuela Neves — Psicóloga, Técnica em assuntos educacionais no Centro de Referência de Mulheres da Maré (CRMM). Serei a representante do CRMM e do CRM na apresentação dos serviços de atendimento às mulheres em situação de violência da UFRJ. Mestre em Psicologia na UFRJ e doutoranda no Dpto de Medicina Preventiva na USP.

Cecília Izidoro — Professora associada do Departamento de Enfermagem médico cirúrgico da EEAN/UFRJ, Diretora acadêmica adjunta da DEN/HUCFF, representante da Câmara de Políticas Raciais da UFRJ.

Vânia Glória Alves — Enfermeira do trabalho, Metre em Artes e Ciências Sociais na Unigranrio, Chefe da Seção de Atenção Psicossocial da Coordenação de Políticas de Saúde do Trabalhador da UFRJ.

Sobre o desenho: Caderninho Muji tamanho A5 (aproximadamente) que ganhei de uma ex-aluna querida. Desenhos feitos com canetas esferográficas hexagonais também da Muji, 0,25, que ganhei de presente. Escaneei e editei no Photoshop para dar mais limpeza e fiz um pequeno destaque, aumentando o desenho da tatuagem no canto inferior esquerdo. No mais, já expliquei tudo no próprio post!

 

 

 

 

 


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Museu Nacional – UFRJ (1818- )

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“Levantaram Dom Quixote, descobriram-lhe o rosto e acharam-no pálido e suado. Rocinante não se pode mover, de derreado que estava. Sancho, todo triste e pesaroso, não sabia o que havia de dizer, nem o que havia de fazer. Parecia-lhe tudo aquilo um sonho e coisa de encantamento. Via seu amo rendido (…); imaginava escurecida a luz da glória das suas façanhas, desfeitas as esperanças como se desfaz o fumo com o vento.” (Dom Quixote)

Foi com muita dor que assisti à devastação do palácio que sediava o Museu Nacional.

Como Sancho, diante de Dom Quixote derrotado, parecia não ser um outro morrendo, mas uma parte de mim mesma.

O acervo milenar, a biblioteca, os arquivos e o local de trabalho de centenas de docentes, pesquisadores, funcionários e alunos da UFRJ queimaram naquele domingo, 2/9/2018. Que sensação de desespero ver vidas inteiras dedicadas à pesquisa e ao ensino virando cinzas, ao vivo, pela TV.

Passei a semana passada chorando, mandando mensagens e tentando agir em solidariedade aos colegas mais afetados. Tentei também responder (via e-mail, zap, fb e em sala de aula) algumas das acusações sem fundamento que surgiram logo no dia seguinte à tragédia. Acusam sem ao menos saber as causas de um incêndio ainda sob investigação.

“Assim o viver me mata | Pois que a morte me torna a dar vida! | Condição nunca ouvida, | A quem comigo vida e morte trata!” (Dom Quixote)

O fogo no Museu teve o efeito de trazer à tona sua vitalidade, como nos versos de Quixote. Ele fala da perda do amor, mas também da dor que faz querer viver.

Saímos com queimaduras de muitos graus desse incêndio. Cada pessoa que ali esteve, de passagem ou de ficagem, por algumas semanas ou anos, em êxtase pelas descobertas e em calafrios de medo — todos nós tivemos nosso momento de quase-morte. Vimos passar um filme de nossas histórias, das pessoas que conhecemos e das montanhas que subimos e descemos naquelas redes de conhecimentos, aprendizados, aulas e sonhos de futuro.

Dar meu depoimento parece tão pequeno perto da grandeza da instituição Museu Nacional, UFRJ.  Ao invés de escrever, desenhar foi minha forma de lidar com a tristeza. Ficou torto, impreciso e confuso em algumas partes, mas também assim é a vida.

Agradeço a cada um dos colegas, professores e funcionários da UFRJ pela sua coragem e resistência diante dos desafios que estamos enfrentando. Essa luta não é tanto pelo passado, mas por permitir que os jovens de hoje e de amanhã continuem tendo a oportunidade que tivemos de usufruir desse espaço mágico de descoberta, produção e invenção de saberes que é o Museu Nacional.

Minha avó faria 104 anos nessa semana, 10/09. Apesar de órfã de pai e mãe antes dos 12 anos, ela nos diria:

“Vamos em frente, vamos fazer planos, vamos seguir.”

Sobre as citações: Quando me sinto perdida, abro meu Dom Quixote, onde sempre encontro alento e explicação para tudo. As citações estão na p. 573 e na p. 583 (edição Abril Cultural, 1978) .

14 Coisas impossivelmente-bonitas-emocionantes-ou-dignas-de-nota sobre o Museu Nacional. Bons textos jornalísitcos, vídeos, depoimentos e links interessantes que recomendo sobre o Museu:

♥ Campanha para a requalificação do Museu Nacional, filme feito em 2015 pela Capim Filmes e equipe do MN/UFRJ, disponível no Youtube.

Banco Mundial diz que nunca exigiu gestão privada do Museu Nacional em troca de empréstimo, por Júlia Dias Carneiro, para a BBC News Brasil.

♥ Hipócritas choram sobre as cinzas do Museu Nacional, por Mário Magalhães para o The Intercept.

♥ A saga do Bendegó se torna símbolo da resistência do Museu Nacional, por Ana Lucia Azevedo, uma das raras matérias merecedoras do nome, feita pelo O Globo sobre a tragédia.

♥ No Museu, minha ancestralidade, por Flavia Oliveira, coluna em O Globo.

A indiferença é o vandalismo, por Paulo Roberto Pires, na Época.

O Museu Nacional ardeu em chamas, por Yvonne Maggie, para o G1.

♥ Museu Nacional: ruínas precoces, fiapos de esperança – por Ricardo Ventura Santos, na Revista História Ciências Manguinhos, Fiocruz.

♥ Falar do Museu Nacional é falar dos povos indígenas, da história do Brasil,  depoimentos dos professores Antônio Carlos de Souza Lima e Edmundo Pereira, por Gabriele Roza, da Agência Pública.

♥ Um museu em chamas visto por uma de suas antropólogas, por Aparecida Vilaça, para o Nexo Jornal.

♥ Além destes, há dezenas de depoimentos e textos em homenagem ao MN como o de  Renata Menezes (FB), entre outros que circulam no zap, sem site definido.

♥ Há também uma campanha de voluntariado, ajuda e doações para o Museu Nacional. Os dados podem ser vistos aqui, além de outras campanhas na página do MN no Fb, como essa linda de cartas de crianças!ufrj_museunacional_pb_p

♥ Na passeata em protesto pelo incêndio, fiquei emocionada ao encontrar uma amiga querida que me disse que a filha adora meus calendários. Então resolvi trazer para cá o PDF em alta resolução da versão em P&B do meu desenho do MN, para quem quiser colorir. Agora, sempre que eu puder, vou deixar uma versão sem cor para ela!  (PS: Mas deixem as crianças desenharem e colorirem por conta própria também, ok? )

♥ Por falar em criança… Queria terminar pedindo que vocês assistam a essa história lindinha demais, que deu origem ao meme “É verdade esse bilete”!

PS: Se tiverem outras sugestões de links sobre o MN, me mandem! (Só não vale fake news nem depoimentos de quem não se dedica à instituição e agora vem posar de representante.)

Sobre o desenho: Que difícil desenhar esse prédio tão complexo! Fiz uma versão da fachada com várias fotografias no Photoshop para poder entender as proporções e detalhes. Tracei as principais medidas no papel de aquarela com a ajuda da mesa de luz. Depois, desenhei à mão com uma canetinha Pigma Micron 0.1, sépia (novidade na Papelaria Botafogo). Coloquei máscara (Schmincke) para preservar as partes mais claras, esperei secar e pintei com aquarela.

Cores principais Naples Yellow para o prédio; Cobalt Violet para escurecer o amarelo quando necessário; Cerulean blue e Alizarim Crimson juntos para os cinzas; Sap green com Payne’s Grey para as portas. Na versão em papel, tinha um céu suave e um chão na frente que acabou ficando muito escuro, horrível. Até chorei… Esse tipo de trabalho leva horas! Felizmente, o Antônio chegou da escola a tempo de me acalmar. Deixei só o prédio mesmo, com ajuda do Photoshop.

Como escaneei a versão sem cor, acrescentei no final uma layer com essa camada para reforçar as linhas (técnica que aprendi vendo os vídeos do ilustrador polonês Mateusz Urbanowicz no YT).

Você acabou de ler “Museu Nacional – UFRJ (1818- )“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Museu Nacional – UFRJ (1818- )”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3HQ. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)

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Ser professora, para mim, é viver numa eterna dúvida: será que tenho conseguido afetar positivamente meus estudantes? De vez em quanto a fortuna responde: sim! Pois imaginem minha felicidade quando um ex-aluno veio me pedir dicas para reproduzir uma aula do ano passado na turma em que é monitor. Como eu ainda não tinha escrito sobre essa atividade, pedi um tempinho para me organizar. Segue o plano para vocês (e para ele)!

Objetivos da aula:

. Produzir registros gráficos sobre o entorno do campus universitário, feitos pelos estudantes que o frequentam.

. Refletir (através dessa prática) sobre como lidamos com os espaços e caminhos por onde passamos cotidianamente, promovendo um debate sobre as várias dimensões de olhar, ver, enxergar, distinguir, conhecer, apreender, memorizar, registrar.

. Compreender que os mesmos espaços são percebidos e significados de formas diferentes pelos indivíduos, embora também possamos encontrar padrões mais coletivos de percepção.

. Empreender uma experiência de aula que gere conhecimento e transforme, nos fazendo sentir que aprendemos algo a partir de uma prática associada à reflexão.

. Lembrar que uma atividade de pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material que precisa ser preparado antecipadamente:

. Antes da aula, é preciso tirar as fotografias que serão mostradas na segunda parte do exercício. No meu caso, fui com dois alunos de iniciação científica fazer o percurso no entorno do prédio onde trabalhamos. Tiramos 60 fotografias, procurando mostrar tudo que solicitamos aos estudantes que se lembrassem (ver a lista abaixo). Essa etapa de registro é por si só muito interessante. Mesmo que você não tenha alunos de iniciação científica, aconselho chamar dois ou três estudantes (ou colegas professores) para participar dessa etapa, pois a percepção de várias pessoas tornará mais instigante decidir o quê, e como, registrar. É importante que esse grupo não compartilhe a experiência com os demais alunos antes da atividade.

. Solicite aos alunos que levem lápis de cor ou canetinhas para a aula, mas não explique qual será a atividade. Bastam algumas cores básicas.

Material necessário para a aula:

. Canetas para quadro branco (ou giz, em caso de lousa tradicional).

. Fita adesiva ou fita crepe.

. Papeis A4 brancos. (Se possível, levar 1 folha para cada aluno.)

. Lápis de cor ou canetinhas. (É sempre bom ter um pequeno estoque de lápis-de-cor e canetinhas para os alunos que esquecem de trazer o material.)

. Notebook e Projetor de datashow.

. Pen drive com o conjunto de fotos preparado antecipadamente.

Dinâmica – Como conduzo a aula:

. Entrego uma folha de papel A4 para cada aluno. Peço que separem o material de desenho (canetas comuns e lápis de cor).

. Explico que o trabalho não tem certo ou errado e só conta como participação (ou seja, não é para nota!).

. Abordo o tema da aula: como lidamos com as informações visuais no nosso cotidiano? O que vemos? O que memorizamos?

. Escrevo no quadro o nome de 5 logradouros (o prédio da universidade e cerca de 4 a 5 ruas, praças, avenidas à sua volta). Peço aos alunos para desenharem, com caneta preta, um mapa contendo esses locais. A ideia é ocupar a folha A4 inteira.

. Não especifico como devem desenhar; deixo por conta da interpretação de cada um. Tento criar um clima de brincadeira, mas explicando que o trabalho é individual; o aluno não deve consultar os colegas.

. Em seguida, peço aos estudantes que comecem a registrar graficamente as informações listadas abaixo. É fundamental indicar 1 item de cada vez, esperando que todos tenham terminado de desenhar antes de anunciar o próximo. (Ou seja, os itens não devem ser escritos na lousa todos de uma vez.) A lista de temas e cores deve ser adaptada conforme o espaço onde a aula esteja sendo dada.

. Solicito aos alunos que registrem onde existem…

  • árvores e/ou plantas, utilizando a cor verde.
  • lixeiras, utilizando a cor laranja.
  • hidrantes, utilizando a cor vermelha.
  • monumentos ou estátuas, utilizando a cor rosa.
  • bancas de jornal e orelhões, utilizando a cor azul.
  • postes, fradinhos, bancos e mobiliário público em geral, utilizando a cor cinza.
  • grades, utilizando a cor marrom.
  • calçadas e texturas de pisos, utilizando a cor preta.
  • animais, música, comida etc. (A lista continua até esgotar os temas registrados nas fotos.)

. Divirtam-se com as expressões de desespero! Tem um lado muito engraçado de perceber o quanto somos cegos visualmente para coisas que sabemos que estão lá, mas não distinguimos exatamente onde estão, nem como são.

Vejam um exemplo de resultados baseados na memória de alunos, com o prédio do IFCS ao “centro”:

. Quando todos terminam, sugiro que guardem as canetas, para não ficarem na tentação de acrescentar algo. Em seguida, apresento as fotos dos espaços no Datashow. Primeiro, as mais gerais, depois, as imagens específicas dos itens da lista (árvores, lixeiras, monumentos etc.). Esse é outro momento de diversão geral, com muitos ah! e oh!, devido à comparação: fotografias x registros gráficos x memórias. Vejam o exemplo abaixo do registro do Tomás Meireles, um aluno experiente em desenho (à esquerda) junto a algumas fotos (à direita).

Além de adorar o desenho do Tomás, acho fascinante a comparação: a humanização da estátua (da figura e da escala),  a sensação de espaço ampliado (no desenho, por contraste com a foto), a presença do camelô de comida, a padronagem do chão, a posição da lixeira invertida (no desenho, à esquerda, na foto, à direita). Como nesse exemplo, muitos estudantes não registraram as duas grandes árvores que cobrem a fachada do prédio! Revejam: dos seis mapas mostrados acima, dois marcam com clareza a presença das árvores, dois trazem pontos verdes tímidos e dois não apontam árvore alguma na frente do edifício que frequentam cotidianamente.

Se tenho tempo, reúno todos os desenhos no quadro (colando com a fita adesiva) e peço aos alunos que venham à frente observar, comparar, percebendo as semelhanças e diferenças. É bem instigante comparar não só a presença ou ausência de elementos, mas também as proporções, formas e modos de ocupação dos espaços e dos registros.

Avaliação:

. No final da aula, solicito que todos escrevam na parte de trás do seu mapa uma pequena avaliação da experiência. A maioria registra que foi “difícil lembrar” dos lugares onde passam todos os dias. Uma aluna escreveu que ficou “surpresa” com a sua percepção “superficial” da cidade; o que outra estudante chamou de “olhar sem ver”. A bolsista de iniciação científica afirmou que, mesmo participando da sessão de fotos, esqueceu um monte de coisas na hora de desenhar. “A memória tem vazios” e “hierarquiza” a forma como lembramos,  escreveu outra aluna.

Acho que todos concordaram que “conhecer” é diferente de “saber que existe”, na expressão serena de um aluno, por contraste com a estudante que escreveu: “muito louco esse exercício, professora!” Um aluno explicou que conseguiu registrar os dados que se relacionavam com a bicicleta que usa para ir ao local, o que facilitou na lembrança dos pisos e equipamentos públicos, por exemplo. Vários apontaram essa característica: lembramos mais das coisas (e pessoas) que nos afetam diretamente. Um estudante anotou: “é impossível registrar a realidade em toda a sua complexidade; de forma que toda representação ou teorização é uma redução”. Sim, lembramos de “Funes, o memorioso“, famoso conto de Jorge Luís Borges.

Concluo com o texto do Tomás Meireles, o aluno que desenhou a estátua cor-de-rosa:

“Ao desenharmos a partir das nossas lembranças, temos a oportunidade de extrair um coeficiente estético de uma relação vivida. Desse modo, podemos traçar um contraste entre aquilo que sabemos e aquilo que achamos saber. Ao transportar isso para a antropologia, percebemos como podemos nos enganar a respeito da realidade que nos envolve constantemente.”

Espero que tenham gostado. Experimentem, mandem comentários, sugestões e notícias!

Ah, importante: a referência que me inspirou para construir esse exercício foi o texto abaixo. Coloquei no título um link para o PDF que fiz pois é um artigo difícil de achar. Boa leitura!

NIEMEYER, Ana Maria. “Indicando caminhos: mapas como suporte na orientação espacial e como instrumento no ensino de antropologia”, in: Além dos territórios: para um diálogo entre a etnologia indígena, os estudos rurais e os estudos urbanos. (Niemeyer e Godoy, Emília, orgs.). Campinas, SP, Mercado de Letras, 1998, p. 11-40.

Esse é o quarto post de uma série:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

Sobre o desenho: Depois de várias semanas, me aventurei a desenhar a árvore de que mais gosto do Largo de São Francisco de Paula, praça em frente ao IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ). É uma lindeza, magrela e gigante (quase da altura da igreja). Fiz parcialmente de memória, parcialmente olhando no Google Street View. Ontem voltei a olhá-la ao vivo e me admirei ainda mais com a sua leveza imponente. Sim, os pombinhos ficam minúsculos e até as pessoas ficam mínimas perto dela. Desenhei com uma canetinha Graphik Line Maker 0.1 Sépia, da Derwent, numa folha que ainda está vazia do caderno Stillman & Birman, Delta Series 8 x 10 polegadas.

Você acabou de ler “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-297. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Ensinando antropólogos a desenhar

Foto01Sei que ninguém está interessado em antropologia numa sexta-feira à noite, véspera das eleições presidenciais mais disputadas dos últimos tempos. Então aceitem minhas desculpas pelo “intervalo intelectual”: é que só hoje consegui cumprir o compromisso de publicar o post da semana!

Saiu o artigo sobre o curso de desenho e antropologia que criei no IFCS/UFRJ! A experiência começou no primeiro semestre de 2013 e já está na terceira turma. Nesse texto, explico de onde veio a ideia do projeto e como desenvolvi algumas das oficinas propostas. Um resumo do resumo do artigo:

Apresento neste trabalho os resultados de uma experiência de ensino chamada “Laboratório de Antropologia e Desenho”, que propõe o desenho como ferramenta central para a pesquisa etnográfica. Alunos sem formação prévia na área foram apresentados ao ato de desenhar como uma forma de se conhecer o mundo.

Através de aulas práticas, as convenções em torno do desenho acabaram desconstruídas para, em seu lugar, reencontrarmos novas formas narrativas capazes de evocar graficamente ideias, encontros, diálogos, observações e percepções sobre a vida social. Por meio de exercícios, tratamos da formação dos pesquisadores aos dispositivos de diálogo e troca com o universo pesquisado, passando pelo processo de registro dos dados e da divulgação dos resultados.

Buscamos explorar as consequências, perguntas e soluções que emergem do ato de se ensinar a desenhar e construir narrativas gráficas no (e sobre o) trabalho de campo.

Na publicação, faço os muitos agradecimentos necessários e cito os autores que me ajudaram a pensar e planejar essa aventura. Mas queria deixar registrado um <<muito obrigada>> especial aos estudantes (bolsistas e alunos) que colaboraram ao longo do curso e que cederam seu tempo, suas imagens e seus textos para a pesquisa.

Espero que gostem!

O artigo completo pode ser lido aqui: Ensinando antropólogos a desenhar: uma experiência didática e de pesquisa. Foi publicado como parte do dossiê “Imagem, pesquisa e antropologia”, organizado por Andréa Barbosa (Unifesp), para a revista Cadernos de Arte e Antropologia, v.3, n.2. Vale a pena ver também os outros textos desse excelente volume.

Cordeiros da Bahia

Em breve, brevíssimo, uma versão em inglês do meu artigo estará disponível. E para quem tiver interesse em ler outros textos que escrevi sobre o tema: estão aqui.

Planos!

Agora – Estou escrevendo um artigo sobre os resultados dos trabalhos finais dos alunos (buscando incluir o material das três turmas que já passaram pelo curso).

No horizonte – Publicar online os destalhes de todas as oficinas (que se renovaram bastante desde o primeiro curso) para alunos e professores que queiram experimentar os exercícios em suas aulas.

Para 2015 – Começa uma outra fase da pesquisa. O tema é… surpresa!

Sobre o desenho inicial desse post: A imagem foi feita por mim num Ipad (App Adobe Ideas, caneta Bamboo) a partir de uma fotografia das alunas Poema Eurístenes (desenhando) e Bárbara Machado (sendo desenhada) tirada em sala de aula, no IFCS/UFRJ, durante uma das oficinas do curso.


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Brincando de casinha

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Alice hoje não quis participar da aula de inglês. Ficamos tristes, eu e a professora (que ela adora!), tentando entender por que às vezes ela empaca desse jeito… Uma determinação que só vendo pra acreditar.

Agora à noite, achei essa história de quando ela tinha seis anos e falamos de uma situação parecida. Estávamos a caminho do pediatra:

K — Filha, agora vamos ao pediatra, tá? Tem que ter um pouquinho de paciência porque está com trânsito.

Alice — Ah, mãe, eu adoro ir lá. Lá tem aqueles palitinhos coloridos! [Palito de ver garganta com sabor.]

K — Sim, filha… Mas lembra o que aconteceu da ultima vez? Você se comportou tão mal… [não queria ser examinada, medida nem pesada!]. Eu morri de vergonha. Dessa vez, você não vai fazer isso, né?

Alice — Nããão! Pode deixar, mãe.

K — Que bom, filha. Porque, lembra da vergonha que você sentiu lá na escola? Imagina se eu agarrasse a sua amiguinha e desse um monte de beijos? Aí mesmo é que você morreria de vergonha, né?

A — Sim.

K — Entao… foi assim que eu me senti na última vez que fomos ao consultório do pediatra.

A — Ah, mãe, mas se um adulto fizesse isso, de encher uma menina na rua de beijos, ia ser louco!

K — Ia dar vergonha… viu? Estou só comparando pra você entender…

[E a resposta dela, com aquele sotaque carioca super carregado:]

Alice — Ah, mãe, não… Vamos combinar…, né? Eu sou CRI-AN-ÇA!!!

Pois é, filha, aos oito anos e meio, você ainda é criança sim. Vamos combinar, tá?

Só me lembra disso da próxima vez que formos visitar a Fábrica Behring — um local de ateliês de arte no Rio de Janeiro — e você decidir que vai transformar um pequeno bloco de concreto (que achou pelo chão) num objeto conceitual:

Alice — Mãe, vou fazer uma obra artística usando uma serra elétrica. Vou transformar isso num minion e colocar atrás de uma porta de vidro!

E não teve jeito: o bloco de concreto está aqui em casa aguardando seu destino artístico.

Viram, queridos da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ:a Alice não foi hoje dar palestra comigo, mas quem sabe daqui a alguns anos? Obrigada pela acolhida — foi um encontro maravilhoso!

Sobre o desenho: Uma casa inteirinha desenhada por mim! Me senti criança de novo, igual à Alice! Parece uma coisa tão boba, mas cada um tem os seus desafios…  Acho que foi a primeira vez que consegui fazer isso numa página de caderno (sem recorrer a fotografias ou à imaginação). Ainda estou contagiada pela energia de Paraty e, pensando bem, pela concentração do Antônio e pela determinação da minha caçulinha.

O desenho foi feito todo na rua em aproximadamente 45 minutos, sem contar o tempo de terminar os tijolinhos.  Já quase no final, tive que me aproximar para conseguir enxergar melhor a grade. Nessa hora, dois homens que trabalhavam na casa vieram ver o que eu estava fazendo, meio desconfiados. Mostrei o desenho e tivemos o diálogo feliz que anotei na página ao lado!

O material que utilizei foi só canetinha Pigma Micron 0.005 no caderninho Laloran.