Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Vício terrível

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A melhor coisa que li essa semana foi a segunda parte do relato sobre saúde mental na universidade, da Sarah, do blog Sarices:

“Sabem como se chamava a república onde eu morei durante a faculdade? Omeprazol. Pareceu engraçado colocar o nome de um remédio para o estômago na nossa república, já que todas nós o tomávamos e tínhamos problemas gástricos. Mas na verdade é extremamente triste que garotas de 20 e poucos anos tivessem que se entupir de remédios para conseguir se manter de pé estudando. Foi triste ver colegas da universidade desistindo do curso. É aterrorizante ver pessoas se suicidando porque não tiveram o apoio e acolhimento que necessitavam. É horrível pensar que um momento tão bom, útil e feliz na vida de um jovem – fazer um curso superior – se transforme em um problema, criando ou acentuando ansiedades e depressões.” (Sarah Ft, do blog Sarices)

Não deixem de acompanhar desde o início: Saúde mental na universidade – Parte 1 e Parte 2 – Graduação. Não vejo a hora de ler a Parte 3, sobre o mestrado! Não conheço a Sarah pessoalmente, mas ficamos amigas-leitoras do blog uma da outra. Ela escreve tão bem e desconfio que tem o mesmo amor pelos livros e pelas pessoas, igual a Cecília:

“Tenho um vício terrível. Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.”  (Cecília Meireles)

Passei uma semana árdua, tentando fazer pontes, juntando pessoas e textos, dando força aos amigos envoltos nas batalhas da vida real. Não sei como é para vocês — para mim, é mais difícil aturar a falta de delicadeza com as pessoas que amo do que comigo mesma…

♥ A todos que estão se sentindo desvalorizados nesse momento, leiam os relatos da Sarah, abram um livro de Drummond, Cecília, Vinícius, Manuel Bandeira. Ao contrário do que muitos acreditam, não é preciso ser teórico para ser brilhante. Os conceitos passam, a vida fica. Minha admiração a todos que sabem reconhecer uma voz sem decorebas — com luz, corpo e alma.

♥ E se vocês estiverem com preguiça de ler… aqui vai um vídeo lindíssimo sobre como eram feitas as pinturas chinesas em seda. Recriaram todo o processo com uma imagem da corte de Huizong (China, anos 1101-1125), no canal do Victoria & Albert Museum.

♥ Se a vontade de navegar por lindezas continua, uma exposição do Metropolitan Museum sobre desenhos medievais: http://blog.metmuseum.org/penandparchment/introduction/

Sobre a citação inicial: Entrevista de Cecília Meireles a Adolpho Bloch, publicada na revista Manchete, em 1964, ano de sua morte: https://www.revistabula.com/496-a-ultima-entrevista-de-cecilia-meireles/

Sobre o desenho: Consegui desligar um pouco de tudo durante algumas horinhas essa semana pintando esse desenho do ano passado. Foi feito para a proposta (não aceita) do USK-Porto. Nessa versão, além de pintar (com aquarelas Winsor&Newton e algumas Schmincke), recortei os grupos de personagens no Photoshop e encaixei na frente da visão parcial do prédio do Museu da República, no Rio de Janeiro. Como explicam os entendidos de perspectiva (não eu), o segredo é alinhar as pessoas pela altura da cabeça (se estiverem todas em pé, ou ajustando para baixo, se estiverem sentadas). Ficou um halo branco em volta das pessoas porque não tive paciência de fazer um recorte bem rente. Não tenho Ipad Pro, nem Cintiq, nem nenhum desses gadgets de edição profissional que facilitam o recorte de imagens. Mas tudo bem, né? Meu lema continua sendo “feito é melhor que perfeito”.

Boa semana, pessoas queridas. Muito, muito obrigada por todas as mensagens e comentários gentis. ♥

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Vício terrível”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3EE. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Não Passei (2) – Janeiro foi fork!

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. Perdi minha bolsa de produtividade do CNPq.

. Minha proposta de workshop para o evento Urban Sketchers em co-autoria com o Eduardo Salavisa não foi aceita.

. A obra que fiz no meu apartamento há apenas 3 anos está cheia de infiltrações.

. Meu ombro esquerdo não reage à fisioterapia; minha retina direita continua nublada, meus dentes dão problema desde quando eu tinha 8 anos.

Era só isso mesmo. Queria deixar registrado aqui, como uma atualização da primeira versão do Não Passei (1). A gente vê tanta comemoração nas redes sociais. E quem tá mal fica nos bastidores chorando; até a Fran Meneses fica mal, imagina a gente!

Estudar para concurso sem a menor certeza de que vai passar é fork, redigir proposta que não é aceita é fork, reprovar na prova é fork, se ferrar na escola, na entrevista de emprego… tudo holy shirt, como diz a Eleanor da série The Good Place. Já viram?

Por outro lado, tem o outro lado: estou feliz, bem feliz, para ser sincera. Meus amores estão com saúde, temos uma vida cansativa, mas também alegre, musical, artística, engraçada. Nossa onda é pegar sol, fazer mímica, cosquinha, macarrão, mate e pipoca. A gente se ajuda e se alegra tão fácil quanto tá junto.

Alice fez 12, Antônio fez 17, cada dia mais lindos. Os primos estão próximos, tem som de teclado o dia todo na casa, a temporada do TACA tá chegando, as mulheres e os amados lgbtxyw estão na rua, os estudantes norte-americanos estão reagindo; e para não dizer que sou imune à vaidade: os pareceres ad hoc do CNPq foram ótimos (o comitê é que me deu zero em tudo) e o trabalho que tenho desenvolvido na graduação foi citado e comentado num livro incrível sobre antropologia e desenho. E ainda tenho a companhia e o aconchego de vocês aqui: chegamos a mais de 450 mil visitas!

Eu tenho esperança, sempre.

Força para todos que estão precisando. Não vamos ficar nos comparando, nos julgando. A gente se ferra e acerta, tudo é aprendizado. Os cientistas do futuro serão vegetarianos, viverão em comunidades e terão amigos. Vão por mim.

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Sobre os desenhos: Imagens que fiz para o projeto de workshop idealizado pelo meu ídolo do desenho, Eduardo Salavisa. As primeiras foram feitas por observação na PUC-Rio, direto com canetinha de nanquim permanente (Pigma Micro n.2, eu acho) e depois coloridas com aquarela em casa. Os desenhos embaixo foram feitos nos jardins do Museu da República, no Catete, no Rio.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Não Passei (2) – Janeiro foi fork!”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Dy. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Doze dicas de cursos de desenho e aquarela que já fiz (presenciais e online)

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Aquarela feita por mim a partir de tutorial da Anna Mason

Um dos desafios de quem gosta de arte, desenho e aquarela é encontrar um bom curso. Como já passei por vários, resolvi fazer uma listinha de referências. Há muita coisa legal para experimentar, mesmo se você não se acha artista. É uma boa ideia também para curtir nas férias.

Cursos presenciais — Vou iniciar pelos cursos presenciais, pois são os mais legais e significativos para mim. Foi por onde comecei, onde fiz amigos que me incentivaram e onde encontrei professores e colegas que me ensinaram muito.

Aqui no Rio de Janeiro há poucas opções. Os lugares por onde passei (ou que conheço) são os seguintes:

Chiaroscuro Ateliê de Pintura — Fui aluna do curso de aquarela da professora Chiara Bozzetti por dois anos (2015-16), como já escrevi aqui e aqui. É o lugar que mais recomendo a todos que me pedem indicações de onde começar. Pretendo voltar em breve, pois é um ambiente maravilhoso, alegre, criativo, acolhedor, com professores habilidosos, técnicos e dedicados. Além disso, os preços são mega acessíveis, o que gera um ambiente de alunos diverso, com anos de convívio. A Chiara é de uma delicadeza incrível, com um modo de trabalhar baseado na confiança e na capacidade de estimular o que cada um tem de melhor. Além do site, o ateliê tem um Instagram super ativo.

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aquarela que fiz com ajuda da Chiara

Escola de Artes Visuais do Parque Lage – EAV — Entre 2008-2009, fiz aulas de modelo-vivo durante um ano com o professor Manoel Fernandes — um mestre e artista que me marcou muito! Infelizmente, ele não está mais na escola (voltou para São Paulo, sua terra natal). Tentei outros cursos na EAV, mas não deram certo. O lugar é maravilhoso, as opções de aulas são interessantes — só que agora estão bem caras. Comecei no Parque Lage porque o Antônio (meu filho) fez a escolinha de artes de lá por 4 anos, e todas as professoras são excelentes. Tenho um enorme carinho por elas!

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modelo-vivo, meu caderno na época da EAV-Parque Lage

Ilustração Botânica – Jardim Botânico do Rio de Janeiro — Frequentei um curso de aquarela de oito semanas, ministrado por Paulo Ormindo e Malena Barretto, dois mestres da ilustração botânica. O programa completo é bem mais longo, e vale muito a pena para quem quer seguir no caminho da ilustração científica. Além do acesso a dois artistas fantásticos, o Solar da Imperatriz é um local lindo e os preços, na época em que fiz, eram bem acessíveis. Nessa área, uma outra referência importante é a professora Maria Alice Rezende, com quem já tive algumas aulas avulsas. Gostei de ambas as experiências, mas percebi que não queria seguir na ilustração botânica.

Renato Alarcão — Existe também no Rio de Janeiro o ateliê do professor Renato Alarcão, com oficinas de aquarela, diários gráficos e outras. É um artista experiente e talentoso. Já fiz uma aula avulsa lá. Hoje em dia, sigo as páginas dele no Facebook, em especial a do Diário Gráfico, que tem links ótimos.

Nathalia Sá Cavalcante — Outra sugestão é acompanhar o trabalho da Nathalia Sá Cavalcante, ilustradora e professora de design da PUC-Rio. De vez em quando, ela oferece workshops de desenhos do cotidiano, além de promover oficinas ao ar livre, reunindo propostas e pessoas maravilhosas. Conheci a Nathália na EAV-Parque Lage e tenho uma gratidão imensa pelo incentivo que ela sempre me deu para desenhar. Fico super feliz de acompanhar o trabalho lindo que ela está fazendo atualmente.

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Oficina da Nathalia Sá Cavalcante no Parque do Martelo – Humaitá/RJ

Urban Sketchers Rio de Janeiro — Uma opção gratuita é participar do grupo Urban Sketchers Rio de Janeiro que organiza encontros mensais abertos. Não precisa ter nenhuma experiência. O espírito é acolhedor, com compartilhamento de dicas, cadernos e técnicas, que se estendem depois para conversas no Facebook. Pessoalmente, nunca participei do grupo no Rio (muito devido à minha avassaladora preguiça de final de semana!) mas quis deixar aqui a indicação.

Urban Sketchers – Encontros internacionais — Foram nesses eventos que minha visão de desenho, arte e aquarela realmente mudou! Se eu tivesse que eleger uma só dica, seria: participe de um encontro internacional dos Urban Sketchers! Tive a sorte de ir a quatro edições — 2011 (Lisboa), 2013 (Barcelona), 2014 (Parati), 2016 (Manchester) — sendo os dois primeiros como aluna e os dois últimos como palestrante. Em todos tive subsídios de custo devido a eventos acadêmicos paralelos (nos dois primeiros) ou por ter sido selecionada para falar. Como já contei em alguns posts (aqui, aqui e aqui) além de oficinas, demostrações e palestras, os Encontros USK criam um espaço mágico, onde tudo gira em torno de arte, com uma atmosfera super generosa de aprendizado coletivo. Mais do que produzir desenhos e pinturas em si, fiz grandes amizades, conheci projetos e artistas incríveis. Pela primeira vez, percebi que era possível existir um ambiente de criatividade franco, onde a maioria das pessoas não está nem aí para competitividade e egocentrismo.

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Desenho feito por mim no final do USK-Barcelona (2013)

Cursos online de desenho e aquarela — Existem muitos!! Compartilho uma listinha dos que realmente fiz, paguei, experimentei, e gostei. Há basicamente dois modelos de escolas na internet: aquelas onde se compra um curso específico e aquelas onde se faz uma assinatura mensal, com direito a assistir quantos cursos quiser (tipo Netflix). Vou dar alguns exemplos dos dois tipos. (São todos em inglês, pois não conheço em outras línguas, nem no Brasil; mas se vocês souberem de algum legal, me contem nos comentários!)

Anna Mason Art — A escola online da inglesa Anna Mason é voltada para quem ama aquarela de precisão, com tutoriais de botânica, pequenos animais e alguns de temas diversos. Foi onde aprendi a fazer a abelha que ilustra esse post! Parece uma coisa dificílima, mas na verdade requer apenas paciência de seguir os passos dos vídeos, tudo super explicadinho pela simpática Anna. Já entrei e voltei duas vezes, pois é por assinatura mensal (só tem acesso se estiver pagando). Da última vez, optei por um pacote de 6 meses, mas pedi um desconto dizendo que era brasileira e que a libra estava muito cara. Eles me deram 20% de abatimento, resultando num custo de aproximadamente 60 reais por mês. Gosto muito do jeito como ela ensina, das mensagens que ela escreve, das misturas de cores, das técnicas e truques de aquarela. Já os temas das pinturas não me interessam tanto.

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Flor (magnólia) feita por mim a partir de tutorial Anna Mason

Creative Bug — Outra escola de assinatura mensal, voltada para desenho, aquarela, artes e artesanatos em geral. Tem a vantagem de ser baratinha: menos de 20 reais mensais da última vez que assinei (4,99 dólares). Além disso, os vídeos são lindos, as filmagens bem detalhadas e nítidas, com aulas estruturadas de forma simples e rápida. Conheci o site pelos cursos de desenho e aquarela da Lisa Congdon, mas depois assisti também as aulas de Lindsay StriplingYao Cheng e Jennifer Orkin Lewis, além de outras sobre encadernação. Um bônus é que as mensalidades se transformam em créditos que permitem você guardar os cursos na sua biblioteca pessoal. Assim, mesmo interrompendo o pagamento, o acesso a essa lista é garantido pra sempre. Também oferecem mini-cursos gratuitos no site e no Facebook.

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desenho da minha gata Lola inspirado em L. Congdon

Sketchbook Skool — Essa foi a primeira escola online que frequentei, pois já admirava muito os livros e o blog do Danny Gregory, um de seus fundadores. O pagamento é por curso, que inclui 5 ou 6 instrutores, com as aulas liberadas semana a semana, como se fosse uma faculdade de arte. A lista de professores é maravilhosa e os vídeos costumam ser super bem feitos. A filosofia da SBS é inspirar, motivar, dar ideias, mostrar artistas trabalhando e falando sobre seus processos criativos. Há demonstrações de desenhos e pinturas sendo feitos, mas sem ênfase em técnicas passo-a-passo. Em compensação, eles mostram os estúdios, os sketchbooks e os livros preferidos dos artistas, e quase sempre saem para filmagens ao ar livre, enfatizando o desenho/pintura de observação direta. O preço garante acesso permanente aos cursos mas não é baratinho (99 dólares). Já fiz alguns desde que a escola começou e posso dizer que valeram muito à pena! Professores que me marcaram, além do próprio Danny Gregory (que dá aula em quase todos os cursos): Prashant Miranda, Tommy Kane, Roz Stendhal, Jill Weber, Feliz Scheinberger, Lynne Chapman. Algumas dessas aulas foram fundamentais para me encorajar a criar as oficinas dos cursos de antropologia e desenho que comecei a oferecer na UFRJ desde 2013. Vários dos professores da SBS também são pessoas que conheci nos encontros internacionais dos Urban Sketchers, como Miguel Herranz, Lapin, Veronica Lawlor, Nina Johansson, Jason Das… daí eu não destacar tanto as aulas deles online, pois tive a oportunidade de fazer workshops pessoalmente. Incluí a Lynne Chapman (com quem trabalhei em 2016) nos destaques pois acho que fizeram uma filmagem excepcional sobre ela e seus projetos na interface entre ilustração e ciência, que tanto admiro.

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pintura/colagem que fiz assistindo uma aula do J.Twingley na Sketchbook Skool

Craftsy — Escola de arte online que cobra por curso. Só fiz os dois da Shari Blaukopf, pois ganhei cupons de desconto dela, que conheci em 2013 e com quem fiz uma oficina em 2016. A Shari é uma pessoa gentilíssima, com um alto nível de conhecimento de aquarela, num estilo bem solto. Gostei de assistir e acho que aprendi bastante sobre cores, camadas e aguadas. As aulas na Craftsy são bem didáticas, tipo passo-a-passo — pena que o estúdio de filmagem seja tão sem graça! Eles têm feito cursos com vários instrutores ligados ao mundo da aquarela e do desenho urbano, como Suhita Shirodkar, James Richards, Marc Taro Holmes, Stephanie Bower, entre outros como vocês podem ver aqui. Recomendo para quem quer aprender o estilo de um artista específico. Ah, e uma dica bem legal é ver as resenhas do Parka Blogs sobre os cursos antes de decidir qual fazer.

Roubadas — Cuidado com cursos que são meras palestras filmadas por Skype! Uma vez cheguei a pagar por uma aula anunciada no Instagram com três ilustradoras que admirava. Na hora de assistir, eram vídeos super mal feitos de telas de computador. Pedi meu dinheiro de volta depois da meia hora. Reclamaram, mas devolveram. Por essas e outras é que costumo pagar tudo online com Paypal, inclusive livros, já que fica mais fácil estornar valores.

Curso milagroso x seu tempo — Assim como na vida acadêmica, no mundo da arte também procuramos pela fórmula mágica que vai nos transformar em artistas da noite para o dia. Isso não existe. Mesmo para pessoas que nascem com talento e criatividade excepcionais, é o trabalho diário, a persistência, a capacidade de recomeçar, enfrentando as dificuldades, que faz com que avancem.

Para nós, simples mortais, o caminho é o mesmo. Considero que retomei essa estrada em 2004 (em cursos da faculdade de design, trancada depois). Continuo dando passinhos de formiga, muitos pra frente, outros pro lado, vários pra trás (meu momento atual!). Em 2008, quando senti que tive um certo desenvolvimento, meu professor Manoel Fernandes me disse: mais do que as aulas, o que está fazendo você se desenvolver é o uso diário do caderno, seus desenhos no metrô; não pare! Ou seja, não adianta frequentar o melhor curso do mundo se você não pratica, se não investe seu tempo e atenção nisso.

É isso, pessoal! Espero que essas dicas sejam úteis. ♥ Eu poderia falar do mundo Youtube, mas vou deixar para um outro dia, se vocês tiverem interesse.

Levei três semanas fazendo esse post porque foram muitos detalhes para lembrar e informações e imagens para organizar.

Nesse meio tempo, fiz uma cirurgia para retirar uma pedra na vesícula. Já passei pela primeira semana de repouso e está tudo indo bem! ☺ Bons desenhos!

Você acabou de ler “Doze dicas de cursos de desenho e aquarela que já fiz (presenciais e online)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Doze dicas de cursos de desenho e aquarela que já fiz (presenciais e online)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-39g. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)

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Agora que vocês já ficaram com pena, posso contar um pouquinho das partes boas da viagem? A imagem acima ilustra um dos melhores momentos que vivi na Inglaterra: a palestra do Nelson Paciência, português, desenhista, pai, marido, arquiteto, gêmeo, voluntário e lindo, pra completar. Me senti numa plateia do TED, daquelas que te enlevam, ora a sorrir, ora a chorar de admiração!

O Nelson estava em busca de um trabalho voluntário para desenvolver com desenhos. Busca daqui, busca dali, acabou na prisão de segurança máxima Monsanto, perto de Lisboa, onde as restrições são imensas. Os presos quase não vêem outras pessoas, tem pouquíssima (ou zero) área de sol, nenhum material de escrita e quase nada de atividade, passando cerca de 21 horas por dia em suas celas individuais.

Ainda assim, Nelson conseguiu aprovação para realizar o trabalho, desde que, lhe disse o supervisor, não conversasse sobre passado, crimes, religião, política e não desenhasse qualquer parte da prisão, nem móveis, salas, cadeiras, nada. Parecia uma missão impossível mas, a cada 15 dias, durante 9 meses, Nelson foi ter com o pequeno grupo (que variou entre 4 a 5 pessoas), levando materiais de desenho e pintura e, sobretudo, levando sua escuta sensível, sua história pessoal, seu interesse por aquelas pessoas que encontrou tão destituídas de humanidade. Começou por se apresentar, dar a conhecer sua família, seus filhos, sua Susana, seus cadernos e, sim, prometendo voltar. Levou fotos, revistas, livros ilustrados, pequenos objetos, brinquedos, super heróis.

Como grande desenhista de observação, Nelson buscava seduzir o grupo para o universo dos urban sketchers. Mas o ponto de virada do trabalho veio de outras bandas: surgiu ao incluir nas sessões a música e os desenhos de imaginação e de memória. (Como tantas vezes acontece no bom trabalho etnográfico, as certezas com que saímos de casa tropeçam e se transformam nos encontros com nossos interlocutores.) Na fala de um dos detentos, os dias de desenho tornaram-se não só os dias felizes na prisão, como os únicos em que se sentia de fato vivo.

Já seria muito tudo isso, mas a dedicação de Nelson ao projeto foi além. Realizou viagens para desenhar os locais que os presos gostariam de visitar, frequentou aulas de modelo vivo para lhes mostrar as imagens, trocou correspondência, pediu permissão para contar suas histórias, já ultrapassadas as proibições de fala iniciais, impossíveis de cumprir.

Como podem existir pessoas sem narrativas, sem nomes, sem projetos? Esqueçam seus passados, afirma a instituição. “Eu sou um número”, lhe diz um preso. Nos retratos abaixo, vemos o “82”, o “112” e o “92”, sem mesa, sem cadeiras, pelos traços fantásticos do Nelson.

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O desenho abre possibilidades para os trabalhadores da prisão e apresenta um novo mundo para os detentos. Nas palavras de um deles: “Primeiro, desenhar não significava nada; depois tornou-se a libertação”.  (“First, drawing was nothing, then it became freedom.”)

Saímos todos — plateia, presos, funcionários da Monsanto e o Nelson — melhores depois dessa experiência. Ele, principalmente, que a viveu, nos diz: “sou uma pessoa melhor de todas as formas, como pessoa, pai, marido, arquiteto, desenhista etc.” Conclui que aprendeu muito sobre os valores da dignidade, do tempo, da auto-estima; e de como são grandes os pequenos gestos de cuidado e amizade que todos nós precisamos para nos sentirmos gente.

Agora Nelson pensa como voltar, exigindo mais liberdade para desenvolver novamente seu projeto cujas marcas, como os nomes e as histórias, são impossíveis de apagar.

Só posso terminar dizendo: “Obrigada, Nelson, por compartilhar tudo isso conosco.”

Vocês podem ver outras imagens da palestra aqui. E o endereço completo do blog do autor para ficar registrado: http://nelsonpaciencia.blogspot.com/

Sobre o desenho inicial do post: Anotações feitas por mim durante a palestra do Nelson (realizada durante o 7o. Simpósio dos Urban Sketchers em Manchester) num caderno feito à mão com papel de aquarela. Acrescentei as cores depois em casa, porque os eventos eram muitos e não tenho (ainda) habilidade de escrever tanto e pintar ao mesmo tempo.

Esse post é o terceiro da série sobre a minha viagem a trabalho de jul/ago-2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

Espero que vocês não se cansem, porque dá para fazer mais uns dez posts sobre a viagem!

 

 

 

 


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Uma cidade, duas cidades

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Nosso gato Ulisses ficou doente essa semana. Entra na caixa, sai da caixa, agonia, miado. A veterinária é certeira: o problema é no intestino. Segunda-feira, às 8h da manhã eu já estava na porta da clínica de ultrassom em Ipanema (“a única que serve”, diz a vet-super-exigente; e quem sou eu pra contestar…) Cheguei cedo nesse pedacinho da cidade que quase não frequento desde a morte do Gilberto (Velho)…

Que conforto achar um banco de madeira na calçada! Entre a clínica e a loja de suco, sento-me com a caixa-e-o-gato-dentro. Ao meu lado, um senhor forte, pelos oitenta anos. Aos poucos, várias pessoas param para falar com ele. Oferecem suco, conversam sobre os filhos, falam mal da política… Todos o chamam de “sensei” — e me dou conta de que ele deve ser um mestre de artes marciais de alguma academia ali perto.

Durante os vinte minutos de espera, desenho as pessoas que vão passando. Sinto saudades de Lisboa, do Eduardo Salavisa a desenhar no Parque da Estrela, dos eventos da comunidade de desenho urbano.

“To know one town, you really need two towns.”

A frase é do artista Jonathan Twingley na sua aula na Sketchbook Skool dessa semana. A “arte”, ele diz, “é sobre tudo que está vivo”. Precisamos de liberdade (e prática, muita prática) para criar.

A orla, as montanhas e as lagoas do Rio são lindas, sim; mas conhecendo a vida em outras cidades é que sentimos o quanto vivemos apertados, cansados e estressados aqui. No ponto, no ônibus, no metrô, na faculdade, nas papelarias, na cobal: a expressão de fadiga é democraticamente distribuída. Que sorte a minha ter uma caneta e um caderno nessas horas!

6 Coisas impossivelmente-legais-inusitadas-interessantes-engraçadas-difíceis-ou-dignas-de-nota da semana:

* Alice toda feliz na volta da escola: “Mãe, hoje aprendemos matéria nova em português! Porque, por que, porquê, que, quê com acento!”

* Ouvir a voz de Mário de Andrade! Descobri a gravação de 1940 graças ao link enviado pelo querido André Botelho que compartilha comigo a paixão por esse escritor-músico-poeta-artista-tudo.

* Aula de espaço negativo e modelo-vivo no IFCS: palmas para a turminha nota mil desse semestre de Antropologia e Desenho!

* Fiz um novo sketchbook sozinha, com cadernos costurados, guarda de craft e capa-envelope… tudo nos moldes do que aprendemos na Palmarium, mas com tamanho 19,5 x 17,5. Papel de aquarela encomendado na Dritter: Conqueror Connosseur Soft White 300gr 100% algodão. Custo total com 48 páginas: menos de R$ 20,00 reais!

* Sorvete no feriado com as crianças… passam vários meninos e meninas vendendo balas e pedindo sorvete também. Meus filhos conversam comigo sobre a situação, falam que trabalho infantil é proibido, pensam nas alternativas e na falta delas. “Para onde poderiam ir, mãe?” “Será que não poderiam denunciar a tia (que os coloca pra trabalhar) na delegacia?” [Suspiro.] Vou comprar um picolé para os dois que nos pediram. O pequeno é tão pequeno que não sabe que sabor quer. Eu digo que manga é bom, mas ele se diverte pedindo cada hora um diferente. Depois se conforma com o de abacaxi, igual ao da irmã/prima. Apesar da tristeza da situação, me conforta saber que meus filhos, mesmo muito jovens, não são alienados ao mundo que os rodeia.

* E porque às vezes é preciso esquecer disso tudo: dia-de-correio-feliz ontem! Chegou um romance novo-usado por R$14,90 via Estante Virtual! (Se for bom, depois indico.)

E a semana de vocês?

Sobre o desenho: Canetinha Pigma Micron 0.8 (estava com saudade das linhas mais largas!) em caderninho Canson pequeno (A6). Adicionei as cores com aquarela mais tarde em casa.


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Paraty em quadrinhos

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Era uma vez um professor discreto, tímido, amável e talentoso: William Cordero. Antes de Paraty eu nunca tinha ouvido falar dele. Mas bastou uns poucos minutos ao seu lado, e diante de seus desenhos, para me apaixonar! (Paixão artística, pessoal.) Ele é daquelas pessoas que parecem fazer tudo sem esforço, num raro encontro de delicadeza de personalidade e obra. E ainda tem o charme de ser recém-casado, morar numa casa feita por ele próprio, na Costa Rica, e gostar de cachorros! No penúltimo dia do evento, passou quatro horas trabalhando num desenho, como se não existisse mais nada no mundo para fazer, e o resultado foi um arraso… Linhas leves como se tivessem sido feitas em poucos minutos… Quero ser assim quando eu crescer.

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Foi no seu workshop que fiz esses desenhos-em-quadrinhos. A proposta era narrar o dia-a-dia misturando diferentes escalas. A sugestão dele foi que trabalhássemos com “caixas” feitas de linhas para enquadrar pessoas, coisas, falas e movimentos. Os trabalhos dos colegas ficaram incríveis!

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No meu caso, levei um tempo para achar que esses desenhos tinham um destino melhor que o fundo da gaveta… Nesse dia, eu tinha acabado de dar minha segunda palestra — estava feliz, mas exausta! Só quando voltei para casa (oopss… que casa?) é que tive coragem de adicionar as cores. Tudo começou como um grande pretexto para tentar imitar o céu do Tommy Kane. 🙂 No fundo, o que me diverte mesmo é copiar o desenho dos outros! (Pelo menos, dou as fontes para vocês conferirem.)

100 anos! Hoje, 10/09/2014, minha avó querida faria 100 anos… Passei o dia pensando em desenhar esse bolinho para ela (abaixo), que acabou saindo mais com cara de chapéu do que de bolo! Mas ela nem ia ligar. Acharia lindo!! Ela adorava amarelo, adorava rosas e todas as flores. Adorava viver bem e com festa. Gosto de lembrar de como às vezes eu tinha medo de contar alguma coisa pra ela, tipo uma decisão arriscada ou difícil na minha vida. Receava que ela fosse me dizer (por ser mais velha): “fique onde está, permaneça, conserve.” Mas ela quase sempre dizia: “Que bom, isso mesmo, vá em frente! Viver empacada não vale a pena!” E é desse espírito de coragem que gosto de lembrar. “Que você nos inspire e viva pra sempre na nossa memória, vó.”

 

Top

Sobre os desenhos: Utilizei os mesmos materiais de sempre: canetinhas de nanquim descartável Unipin e Pigma Micron 1.0, 0.1 e 0.05. A cor foi feita com aquarela Winsor & Newton e um pincel Pentel waterbrush. No primeiro desenho, o céu dos quadradinhos ficou pesado (com waterbrush); daí troquei para um pincel de pelo (no quadro maior do lado direito) e achei que funcionou melhor. Meu sonho era fazer aquarelas leves mas com cores intensas. Ô coisa difícil!  Daqui a alguns anos a gente conversa…

Leitura da semana: Não levei livro pra Paraty, mas li uma crônica do Arthur Dapieve que lavou a alma: “Saudades do Rio“. É daqueles textos pessoais e ao mesmo tempo universais para todos nós, cariocas, do tempo em que domingo era dia de passear de carro com a família…

 

 


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Drawing Land

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Imaginem um lugar onde todos andam a olhar para cima e para baixo ao mesmo tempo; onde as pessoas se sentam em banquinhos minúsculos, munidas de seus cadernos e de instrumentos delicados e coloridos. Um lugar onde se pode ficar horas a fio numa atividade silenciosa, sob o sol ou sob a chuva, na calçada, na mesa ou no chão, e ninguém acha estranho. Um lugar em que se pode estar só, mas também se comunicar com facilidade, ainda que não se fale a mesma língua. Um lugar onde cadernos, papéis e cartões passam de mão-em-mão; onde se compartilham técnicas, materiais e ferramentas.

Imaginem um lugar onde não importa a idade, a cor, a religião, o sexo, a renda ou a nacionalidade. Um lugar onde um caderno é o passaporte; onde todos são iguais, mas ao mesmo tempo únicos, com direito a expressar seu olhar íntimo sobre o mundo, com suas cores, sua voz, seu ritmo…

Vocês podem não acreditar, mas esse lugar existe: é a terra do desenho! E eu estive lá na semana passada. Nosso encontro foi em Paraty, cidade histórica do Rio de Janeiro, durante o 5o. Simpósio Internacional dos Urban Sketchers. Foi mágico passar seis dias nessa pequena “Drawing Land” com seus adoráveis 243 habitantes.

Vai demorar para eu processar tudo que aprendi nessa semana. E mais ainda para acreditar na incrível recepção que recebi ao apresentar o projeto sobre antropologia e desenho que venho desenvolvendo. Acho que nunca estive diante de uma platéia que compartilhasse tão intimamente das mesmas motivações.

Aos poucos, prometo que vou publicando aqui no blog mais desenhos e anotações que produzi antes, durante e depois do evento! Abaixo, as primeiras páginas de anotações da excelente atividade de mapeamento gráfico ministrada por Richard Alomar.

richardalomar

Novas da Alice

Eu [brincando de jornalista] — Alice, como você se sente tendo uma mãe que dá palestra em inglês em Paraty?

Alice — Ah, mãe, legal. Mas eu preferia que fosse em Nova Iorque!

E na terça à noite:

Alice — Mãe, preciso faltar a escola amanhã!

Eu — Por que, Alice?

Alice — Ah, porque sim!

Eu [naquele tom de conta-outra] — A-li-ce…

Alice — É o meu Neuer, mãe!!! Ele vai jogar contra a Argentina!

Sobre o desenho: Na parte de cima do calendário de setembro, redesenhei coisinhas que vi em Paraty durante a já mencionada atividade proposta por Richard Alomar. Para a parte de baixo do calendário, fui atrás das portinhas de Paraty que registrei em fotos e achei na internet. Tudo feito com canetinha Pigma Micron 0.05 e colorido com aquarela e lápis de cor Prismacolor.