Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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A quiche perfeita

fogaovaop

Nada de pensamentos erráticos, como prometi na seção “Do blog”. Compartilho hoje com vocês uma das coisas mais valiosas que possuo na vida! Pelo menos é o que a minha família e os meus amigos acham. Antes de me convidarem para qualquer evento, eles perguntam: será que você poderia trazer “aquela quiche”? Posso, claro, respondo, fingindo animação… de alho-porró ou de espinafre? Até os meus filhos, que são implicantes com comida, devoram a bichinha.

Aprendi essa receita infalível num programa de culinária chamado Café Caprial, de uma americana muito simpática, que passava no GNT na época do meu doutorado. O que a gente não faz para enrolar a escrita da tese… Tomei um gosto em cozinhar que só vendo. Hoje em dia morro de preguiça.

A receita parece complicada, mas depois que você pega o jeito, fica bem fácil. (Uma dica é preparar a massa na véspera e deixar na geladeira para assar no dia seguinte.) Ela faz par com a receita de bolo de chocolate que também virou post. Nunca dá errado.

Só não digam que não avisei: se vocês levarem essa quiche para uma festinha, seus amigos nunca mais deixarão de pedir por ela! E você ficará pra sempre se perguntando… será que eles gostam mesmo de mim ou na verdade estão com saudades da quiche?

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Quiche de Alho-Porró (ou outro recheio) – Uma receita perfeita
Utensílio especial necessário: forma para assar quiche, dessas que solta o fundo. (Mas, pensando bem, dá para fazer em qualquer forma! Só não vai ficar tão bonita.)

Ingredientes da massa: 2 x. farinha de trigo + 150 gr manteiga + 1 pit. sal + 1 gema + 1 dente de alho picado (opcional) + 1 ou 2 colheres de água gelada.

Como fazer a massa: Amasse tudo gentilmente, sem mexer demais, mas até ficar homogênea. Pode-se passar no processador rapidamente, se quiser. Deixe descansar na geladeira por 1 hora enrolada em plástico.

Como pré-assar a massa: Abra a massa na forma e faça furos no fundo com um garfo. Coloque no forno pré-aquecido para pré-assar da seguinte forma: por cima da massa, ponha uma folha de papel alumínio (ou papel manteiga) com um punhado de feijão cru por cima, para dar peso. Deixe assar por cerca de 15 minutos, ou até a massa começar a soltar das laterais da forma. Retire do forno e retire o papel e o feijão (aqui em casa guardamos esse punhado de feijão numa caixinha para ser usado como “peso” na massa de uma próxima quiche).

Recheio 1: 1 x. creme de leite (ou 1 caixinha), 2 ovos, sal e pimenta, 1/3 x. xerex (se você tiver; eu nunca tenho…), tomilho ou outra erva. Misture tudo num pote, batendo ligeiramente.

Recheio 2: 1 x. e meia aproximadamente de um legume cozido e refogado (espinafre ou alho-poró ou cogumelo ou queijo minas etc.) + 1/2 x. de queijo parmesão ralado (reserve uma parte para o fundo). (Ps: em tempos de parmesão muito caro, temos feito com outros queijos e dá certo também.)

Como assar a quiche: Depois de pré-assada a massa, deixe esfriar um pouco. Polvilhe parmesão no fundo da forma, para “selar”. Depois espalhe os legumes refogados. Em seguida, despeje lentamente a mistura de creme de leite e ovos e queijo até entranhar bem.  Por cima de tudo, pode-se polvilhar com gergelim (opcional). Fica bem bonito.

Leve ao forno médio — demora cerca de 45 a 60 minutos para assar. É preciso assar com calma para não inchar e murchar depois. Verifique se está pronta enfiando um palito, que deve sair seco.

Bom apetite!
Sobre os desenhos: A ideia de compartilhar a receita veio do desenho desse forninho abandonado na garagem do meu prédio. Na imagem ao lado, um vão que vi numa casa aqui do bairro. Ambos feitos a partir de fotos minhas (a data carimbada se refere às fotos e não aos desenhos pois não dei conta de desenhar nesses dias de abril em que estávamos todos doentes aqui em casa). Ah, e a pintura de listras azuis na chamada do post foi inspirada nos toldos de uma feira livre, que achei lindos. Usei canetinha 0.2 e aquarelas no caderno Laloran (materiais já explicados aqui).


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Cores de março

mar2015g

Não sei se já comentei aqui, mas um dos desafios da minha vida foi assumir que adoro ser útil e fazer trabalhos manuais.

Comecei a ter noção de que tinha vergonha disso na faculdade de jornalismo. Amava as aulas de teoria, filosofia, história, cinema etc… Mas secretamente continuava querendo ajudar o meu avô a lavar selos.

Um dos professores que eu mais admirava era o Wagner Teixeira (agora já falecido). Ele escrevia divinamente, contava histórias incríveis sobre reportagens heróicas, publicava livros, um sábio. Ficamos amigos porque eu falei para ele: — Professor, me desculpe, mas vou ter que trancar a sua disciplina para fazer um curso de cinema no Estação Botafogo com o Luiz Vieira (da UFF). Ele ficou impressionado de eu dizer isso no meio do semestre ao invés de tentar enrolar para ver se colava. (E não conto isso para posar de certinha: é claro que enrolei vários dos meus professores, mas não ele.)

Não sei bem como foi, mas a partir daí começamos a marcar conversas e ficamos amigos. Ele era da velha guarda, adorava beber, fumar, e tinha uma barriga imensa… e era uma figura adorável e humana. Ia direto ao ponto, sem papo furado. Me indicava livros, me ajudou a sobreviver ao tédio do meu primeiro estágio e me fez ter confiança para tentar o mestrado.

Um dia marcamos um encontro no Centro, na Rua da Quitanda. Ele estaria no escritório de uma associação de aficcionados por dicionários (ele próprio era um). Aficcionados é pouco: eram estantes e mais estantes só de dicionários e obras de referências de todos os tipos. Um lugar incrível! (Pena eu não me lembrar do nome.)

Pois bem. Quando eu chego lá, vejo o seguinte: o professor Wagner Teixeira com tesoura e cola na mão, cortando e colando etiquetas de remetente nos envelopes de correspondência da associação. E ainda escrevendo cada endereço dos destinatários à mão, com caneta e letra caprichada.

Ele me viu chegar e foi logo dizendo: — Quer me ajudar? Adoro fazer esse tipo de trabalho manual. Me acalma. E você?

Eu — Sim! Também adoro!

E ficamos lá, um tempão, naquele silêncio delicioso de quando nos sentimos bem acompanhados, preenchendo papéis que muito provavelmente iam parar no lixo.

Esse momento ficou na minha memória. Sei que é banal… Mas foi mágico saber que uma pessoa que eu admirava tanto intelectualmente também gostava de tesoura e cola; e de fazer coisas práticas e úteis. (Nessa época eu tinha sublimado o desejo de desenhar.)

Queria também dizer obrigada pelos comentários tão gentis aqui e no Facebook sobre o post da semana passada. Foram quase 10 mil visualizações — não que eu esteja contando… imagina! 😉 Mas esse tipo de repercussão ajuda a achar que um blog também pode ser útil!

Sobre o desenho: Amo listras! O calendário de março foi inspirado nas cores de um potinho de porcelana portuguesa (moderna) que tenho aqui em casa; e também na lateral de um livro sobre teoria da cor que vi no atelier da Chiara Bozzetti, com quem estou começando um curso de aquarela. Fiz as linhas com canetinha Pigma Micron 0.2 e as cores com lápis de cor. Comecei usando os aquareláveis, mas depois troquei para o Prismacolor Premier que se mostrou realmente muito superior para cores chapadas e fortes como essas. Acrescentei um pouquinho de Abril porque nunca é demais lembrar que tem feriado no final do mês!