Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

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“I am not a replacement. I am person.”

Passei a parte londrina da viagem pensando nas mulheres. Nos museus, no metrô, na biblioteca ou nas casas onde fiquei, conheci um monte. No único dia em que fui sozinha a um restaurante de verdade, perto da universidade, ouvi a frase escrita acima (no desenho vermelho). A conversa girava em torno das agruras da vida acadêmica e uma professora dizia para a outra: “Eu não sou uma peça de reposição. Sou uma pessoa!”

Quantas vezes nos sentimos assim? Eu queria levantar e abraçá-la! (Mas me contive.)

A primeira menina à esquerda falava francês com os irmãos e os pais, uma família de pele negra, todos lindos. Ficaram  tão felizes de ver o desenho! Os irmãos mais novos zoaram a irmã adolescente, tipo “ae, ela desenhou você… tá se achando!”, naquele jeito que nem precisamos saber a língua pra entender. Ela só ria, a mãe e o pai babavam as crias.

Nos desenhos azuis à direita, a perna de uma menina muito branca com uma tatuagem abaixo do joelho onde se lia “S U N S H I N E”. Me deu uma dó no coração por ela, pela busca daquele sol que parecia tão distante, mesmo no verão. Enquanto eu prestava atenção em um monte de suas outras tatuagens, ela tirou da bolsa um espelho grande, em formato de concha, verde água. Pareciam todos saídos de um filme preto e branco dos anos 1940 colorizado artificialmente umas décadas depois. Só o espelho e o batom tinham cor…

Numa viagem mais longa, com o trem vazio, desenhei o padrão do tecido do metrô, para não me esquecer do lugar onde passei tantas horas. No cantinho direito, embaixo, a real dos almoços da viagem: sanduíche e chá por 7 libras.

Nas casas onde fiquei, conheci londrinas de origens chinesa, indiana e inglesa. Essa última era a mais jovem e aflita; e tinha a casa mais bagunçada do universo, mesmo com faxineira vindo cuidar várias vezes por semana (financiada pela intensa atividade dela como hospedeira do Airbnb). A bichinha tinha uma bagunça atávica, do tipo com armários e geladeira entupidos de tudo que “um dia vai precisar”, mesmo que seja um molho vencido em 2013. Ela estava ansiosa com uma entrevista de emprego, para a qual treinou quatro dias seguidos, mas cuja resposta foi negativa, infelizmente.

Na moradia anterior, em Machester (oops, essa não é londrina), tive brevíssimos encontros com a chinesa-inglesa e seu marido inglês-inglês: tudo impecavelmente limpo, arrumado, silencioso. Para completar o clichê: um jardim zen ao fundo, também meticulosamente bem cuidado e verdejante. Felizmente, para eu não passar o resto da vida sonhando em ser como ela, na sexta-feira, ao chegar do evento, percebo algo estranho. Um furacão tinha passado por ali? Sem saber a origem da bagunça, vejo roupas pelo chão, ouço música alta, barulho de latas de cerveja, portas batendo, conversas até as 3 da manhã. No domingo, ao me despedir deles, arrisquei: “– Houve um adolescente por aqui?” E o Gary (o marido), muito sem graça: “–Sim… desculpe a bagunça… foi meu filho (do primeiro casamento) que veio passar o final-de-semana conosco…Ele é impossível!”

Na última hospedagem, fiquei os primeiros dias sozinha no apartamento-casa de uma londrina de pai indiano e mãe inglesa. A casa falava tanto da sua dona: no lugar do espelho do banheiro, um texto sobre os valores da vida. Na parede da sala, a linda vista combinava com fotos de paisagens nas paredes. Na escadaria, malas enfiadas num canto e um retrato da dona aventureira enrolada numa cobra. Mas a cozinha era quem mais me contava: aromas, temperos, livros de culinária e vidrinhos com iguarias a perder de vista. Vegetariana, vegana talvez, apaixonada por comida. Foi a única casa em que tinha azeite! (Nem no supermercado tem azeite. Só em restaurante italiano.) Quando ela voltou, na última noite, descobri: trabalhava com terapias nutricionais, algo assim. Deixei um cachinho de uvas de presente.

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Do passado, conheci Charlotte Brontë (1816-1855) e um pouco de suas irmãs, todas escritoras famosas, mas cujos romances não li (ainda). Fiquei encantada com os documentos, cartas e retratos, principalmente os de autoria de Charlotte. Desde criança, ela brincava de escrever, produzir e ilustrar seus próprios livros. Antes de conseguir viver da escrita, aprendeu aquarela e fez carreira como professora, embora detestasse o isolamento e a falta de liberdade criativa da profissão. Foi publicada primeiro com pseudônimo masculino, até lutar para ter seu próprio nome de autora reconhecido.

Sobre os desenhos: Linhas feitas com canetinhas Pigma Micron azul, vermelha e preta num caderninho em formato japonês com papel comum feito pela Laloran para a marca Navigator, apoiadora do evento Urban Sketchers, onde estive em Manchester. Nas páginas de cima, carimbei a rosa vermelha e o buda preto numa loja Muji (que oferecia o mimo para clientes; mas eu não comprei nada e carimbei assim mesmo). Abaixo, no desenho da Charlotte, feito a partir de um retrato dela, colei um adesivo de florzinha que veio na embalagem de uma fita tipo washi tape.

Esse é o quarto post da série sobre a viagem que fiz a trabalho em jul-ago/2016:
Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

 


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A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)

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Agora que vocês já ficaram com pena, posso contar um pouquinho das partes boas da viagem? A imagem acima ilustra um dos melhores momentos que vivi na Inglaterra: a palestra do Nelson Paciência, português, desenhista, pai, marido, arquiteto, gêmeo, voluntário e lindo, pra completar. Me senti numa plateia do TED, daquelas que te enlevam, ora a sorrir, ora a chorar de admiração!

O Nelson estava em busca de um trabalho voluntário para desenvolver com desenhos. Busca daqui, busca dali, acabou na prisão de segurança máxima Monsanto, perto de Lisboa, onde as restrições são imensas. Os presos quase não vêem outras pessoas, tem pouquíssima (ou zero) área de sol, nenhum material de escrita e quase nada de atividade, passando cerca de 21 horas por dia em suas celas individuais.

Ainda assim, Nelson conseguiu aprovação para realizar o trabalho, desde que, lhe disse o supervisor, não conversasse sobre passado, crimes, religião, política e não desenhasse qualquer parte da prisão, nem móveis, salas, cadeiras, nada. Parecia uma missão impossível mas, a cada 15 dias, durante 9 meses, Nelson foi ter com o pequeno grupo (que variou entre 4 a 5 pessoas), levando materiais de desenho e pintura e, sobretudo, levando sua escuta sensível, sua história pessoal, seu interesse por aquelas pessoas que encontrou tão destituídas de humanidade. Começou por se apresentar, dar a conhecer sua família, seus filhos, sua Susana, seus cadernos e, sim, prometendo voltar. Levou fotos, revistas, livros ilustrados, pequenos objetos, brinquedos, super heróis.

Como grande desenhista de observação, Nelson buscava seduzir o grupo para o universo dos urban sketchers. Mas o ponto de virada do trabalho veio de outras bandas: surgiu ao incluir nas sessões a música e os desenhos de imaginação e de memória. (Como tantas vezes acontece no bom trabalho etnográfico, as certezas com que saímos de casa tropeçam e se transformam nos encontros com nossos interlocutores.) Na fala de um dos detentos, os dias de desenho tornaram-se não só os dias felizes na prisão, como os únicos em que se sentia de fato vivo.

Já seria muito tudo isso, mas a dedicação de Nelson ao projeto foi além. Realizou viagens para desenhar os locais que os presos gostariam de visitar, frequentou aulas de modelo vivo para lhes mostrar as imagens, trocou correspondência, pediu permissão para contar suas histórias, já ultrapassadas as proibições de fala iniciais, impossíveis de cumprir.

Como podem existir pessoas sem narrativas, sem nomes, sem projetos? Esqueçam seus passados, afirma a instituição. “Eu sou um número”, lhe diz um preso. Nos retratos abaixo, vemos o “82”, o “112” e o “92”, sem mesa, sem cadeiras, pelos traços fantásticos do Nelson.

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O desenho abre possibilidades para os trabalhadores da prisão e apresenta um novo mundo para os detentos. Nas palavras de um deles: “Primeiro, desenhar não significava nada; depois tornou-se a libertação”.  (“First, drawing was nothing, then it became freedom.”)

Saímos todos — plateia, presos, funcionários da Monsanto e o Nelson — melhores depois dessa experiência. Ele, principalmente, que a viveu, nos diz: “sou uma pessoa melhor de todas as formas, como pessoa, pai, marido, arquiteto, desenhista etc.” Conclui que aprendeu muito sobre os valores da dignidade, do tempo, da auto-estima; e de como são grandes os pequenos gestos de cuidado e amizade que todos nós precisamos para nos sentirmos gente.

Agora Nelson pensa como voltar, exigindo mais liberdade para desenvolver novamente seu projeto cujas marcas, como os nomes e as histórias, são impossíveis de apagar.

Só posso terminar dizendo: “Obrigada, Nelson, por compartilhar tudo isso conosco.”

Vocês podem ver outras imagens da palestra aqui. E o endereço completo do blog do autor para ficar registrado: http://nelsonpaciencia.blogspot.com/

Sobre o desenho inicial do post: Anotações feitas por mim durante a palestra do Nelson (realizada durante o 7o. Simpósio dos Urban Sketchers em Manchester) num caderno feito à mão com papel de aquarela. Acrescentei as cores depois em casa, porque os eventos eram muitos e não tenho (ainda) habilidade de escrever tanto e pintar ao mesmo tempo.

Esse post é o terceiro da série sobre a minha viagem a trabalho de jul/ago-2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

Espero que vocês não se cansem, porque dá para fazer mais uns dez posts sobre a viagem!

 

 

 

 


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Viagem anti-inveja (Parte 2)

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Continuando a saga anti-inveja-viajante, narro para vocês minhas agruras na terra onde o verão dura alguns dias e é um pouco mais frio do que o inverno carioca. Dá gosto de ver as carinhas felizes das pessoas no parque, aproveitando umas nesguinhas de sol! Como em todo lugar, as almas se dividem entre as sonhadoras, otimistas, com vestidos leves e bermudas, e as realistas e previdentes, enroladas em mantas e lenços, pois a chuva e o vento hão de surgir. Eu estava em qual turma, adivinhem?

Começando pelo fim, porque foi tanta informação, que já não sei se me recordo do início:

* Cuidado quando comprarem passagem barata pela British Airways: vocês podem acabar correndo os 1000 metros rasos no aeroporto de Madri para entrar num avião da Iberia cheio de aeromoças raivosas porque os passageiros não falam espanhol. A comida e o pãozinho são atirados no seu colo, é pegar ou largar. E eu ainda morrendo de sede porque, depois de jogar a garrafinha de água fora para passar no Raio-X, me dei conta de que só tinha libras num mundo de euros. Probleminhas insignificantes quando o principal acontece: pouso seguro, malinha velha carcomida rolando na esteira, ufa.

* Aliás, foi uma aventura feita de ufas, porque meu eu-anti-viagens boicotou meu eu-planejativo. Imaginem que eu ia ficar 4 dias no bem-bom-0800 da casa de uma amiga querida, e na hora de entrar, o que acontece? A chave não funciona. Quem lembrou de testar a chave quando a amiga gentil lhe entregou? Foi pro brejo o meu post onde eu ia ensinar vocês a viajarem em libras com uma conta bancária em reais… Mas viva a internet: arranjei um quarto no Airbnb em menos de  30 minutos, pois era o máximo de tempo que eu podia gastar antes de voltar para a biblioteca. Pelo menos, pensava eu, minha amiga chegaria das suas mini-férias e me mandaria uma mensagem explicando o problema da fechadura. Oops, só que não: com ela, a chave funcionou perfeitamente! Como diria Alice-no-país-das-maravilhas, o coelho passou por aquela portinha, eu não!

* Feliz ou infeliz, a grande vantagem de não entender o que os taxistas estrangeiros-como-você falam é que basta murmurar “ok, ok”, “yes, yes”, Brazil, Rio, Olympics. Encerrada a conversa. Mas no único transporte possível às 3:30 da madrugada, o motorista falava pelos cotovelos, e acabei entendendo que ele tinha 12 filhos, 10 netos e não sei quantos bisnetos; detestava a internet e o Facebook, morou na Holanda muitos anos, mas gostava mesmo era da Inglaterra. Ok, seu moço, obrigada, me deixa quieta, são três e meia da manhã!

* O quarto alugado às pressas até que era legalzinho. Só um detalhe: no alto de uma ladeira! Gente, porque não pintam essas armadilhas de vermelho nos mapas? Nem num super street-Google a gente vê direito quando a rua sobe. E lá vou eu, morro acima, ter um “lovely view” de um bairro na zona 2… Então, aviso-útil para futuros usuários de Airbnb: desconfiem quando um anúncio diz que seu quarto terá uma vista linda. Se não for de frente para a praia… só pode ser porque é morro acima!

É isso por hoje! Foi só o finzinho da viagem mas, se vocês estiverem se divertindo, prometo que continuo a série.

E para alguns que me escreveram preocupados, como dizem os ingleses, numa gramática duvidosa: “no worries!”. Ou, como disse melhor o Caetano, “é tudo só brincadeira e verdade”.

Este é o segundo post da viagem que fiz a trabalho em jul-ago/2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

Sobre o desenho: Aquarela feita num caderninho tipo japonês com papel comum, depois com alguns traços em lápis de cor. Foi uma tarde ensolarada (e cheia de vento) no Regent’s Park, com uma turminha simpática de mulheres que participaram do Simpósio dos Urban Sketchers em Manchester. Pintei sem linhas a lápis ou canetas, tentando sair um pouco do meu jeito habitual.


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Agosto/2016 em viagem anti-inveja

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Passo o ano inteiro invejando as pessoas felizes do Facebook, com suas fotos de praias, sorrisos e passeios mundo afora, enquanto balanço no metrô, morrendo de preguiça de trabalhar. Agora, sou eu que estou viajando, mas fiquem tranquilos: prometo que está tudo péssimo. Aqui chove fazendo sol, e faz sol quando chove. Ou seja, o guarda-chuva nunca está na sua bolsa quando você precisa.

A comida é tão apimentada que até uma sopa de legumes te faz beber 5 litros d’água. Admito, a água é de graça e potável da torneira, mas os restaurantes não têm comida depois das 21:00 horas e o excesso de tapetes dá alergia até em quem nunca espirrou. Os ônibus têm hora marcada para chegar, mas são tão silenciosos que você se distrai no celular e não percebe que chegaram. Quando nota, já foram, e lá se vão mais 7 minutos e meio até o próximo!

Você economiza ficando num quartinho do Airbnb, mas no dia seguinte descobre que têm passarinhos na janela para te acordar às 5:35 da manhã. A cerveja é quente, as casas são velhas, os sotaques são impossíveis e os eventos têm música tão alta que ninguém consegue conversar. As pessoas te humilham distribuindo cartões coloridos feitos no Japão e ainda por cima ficam naquele vai não vai estranho porque nunca sabem com quantos beijos se despedir. Os patrocinadores te enchem de brindes, você é obrigada a comprar os livros dos amigos e depois acaba com a coluna para arrastar uma bolsa com 19 quilos sabendo que, no final do dia, não haverá farmácia aberta para comprar Dorflex.

Os banheiros públicos têm água quente, a Universidade faz treinamento anti-incêndio e te oferece WiFi gratuita que só termina de funcionar muitos quilômetros depois. Ok, até seria bom se você não se arrependesse da fortuna que gastou colocando um chip importado no celular! Na televisão, mulheres normais, de cabelos brancos e sem maquiagem, apresentam programas sobre arqueologia em horário nobre. Ah, e não falei dos preços… Custa quase meio salário mínimo para ter um Riocard com nome de ostra por uma semana, e são tantas linhas de ônibus, metrô e trem, que você se sente na obrigação de acordar cedo e ir para algum lugar!

Viu, gente, nada de inveja. Se vocês estão no Rio, sofrendo com os estudos para as provas de mestrado ou com os bloqueios olímpicos, fiquem tranquilos pois minhas férias têm sido só trabalho e sacrifício…

Alguém adivinha onde estou? 😉

Segue o calendário de agosto! Tive que improvisar fazendo uma montagem no Photoshop com a imagem das bolinhas porque não tenho acesso a scanner daqui.

Vocês podem imprimir a imagem em .jpg ou em .pdf.

Este é o primeiro post da viagem que fiz a trabalho em jul-ago/2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)


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As quinze vidas de Margaret Mee

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A vida de algumas pessoas dá filme, livro, carta, obra de arte, video-game, história em quadrinhos e até app de celular. A de Margaret Mee é assim! Desafia a imaginação, encanta, surpreende, e ainda serve de antídoto para quem pensa ser velho-demais-para-fazer-qualquer-coisa.

Não, não vou contar das vidas pregressas, em que ela escapou da polícia de Hitler, em que foi uma dirigente sindical inflamada na Inglaterra ou em que fugiu da França ocupada pelos nazistas… As quinze vidas do título (desse post) vieram depois!

Vamos pular para quando ela já tinha 47 anos e resolveu fazer uma visitinha ao Rio Amazonas para descobrir e desenhar plantas…  É dessa época que tratam as 300 páginas do livro “Margaret Mee: em busca das flores da amazônia”. É daquelas leituras que mudam o parâmetro de coragem de uma pessoa. Devia vir no dicionário: “Destemida — adjetivo feminino, ie. Margaret Mee”.

Para compartilhar com vocês meu encanto, narro a seguir alguns episódios das quinze excursões amazônicas de Margaret (realizadas entre 1956 e 1988). Vou poupá-los das coragens corriqueiras de enfrentar insetos, calor sufocante, barcos precários e lotados, tempestades, sujeira e falta de comida– são problemas crônicos em todas as suas viagens.

Para ela, vale a pena enfrentar tudo isso para percorrer rios e florestas conhecendo pessoas, colhendo e desenhando plantas. Não era apenas a produção de arte que a interessava, mas também o registro científico (ela descobriu espécies novas; e achou várias apenas descritas) e a denúncia dos danos ambientais, causa que foi se tornando cada vez mais forte na sua trajetória.

O livro tem muitos temas, mas escolhi o da superação dos obstáculos porque me fascinam as mulheres admiráveis, apaixonadas, persistentes e sensíveis como Margaret Mee.

1956 Rio Gurupi. M. e sua amiga Rita passam por aranhas gigantes, moradores com surtos de febre e catapora, seu barco quase afunda e é tomado por carrapatos. Assistem a maus-tratos de pessoas e animais. As duas passam fome e Rita tem febre. Comentário de M.: “Murutucum é um abrigo de paz verde … eu sabia que voltaria”.

1961 — Mato Grosso. M. tem que enrolar as mãos em plástico porque os piuns [insetos] não a deixam pintar. Sofre ameaças de seringueiros armados, ataques de onças, formigas, desinteria e malária. Seu barco bate numa pedra e toda a bagagem cai na água (mas se salva). Comentário de M.: “Essas ilhas do rio são um paraíso.” 

[Depois dessa viagem, ela teve um ataque sério de malária que exigiu meses de recuperação.]

1964 — Rio Negro e adjacências. Sozinha numa cabana cercada por três garimpeiros, M. enfrenta o grupo com seu revólver, tornando-se admirada na região. É picada por um escorpião vermelho e o avião em que voava sofre uma pane no trem de pouso.  Na Serra de Içana, fica totalmente perdida, sozinha na floresta. Seu comentário: “O crepúsulo de ontem foi inacreditalvemente belo, ouro puro.”

1967 – Pico da Neblina — Muitas tempestades, lama e mordidas de insetos depois, M. se perde novamente na floresta. O grupo seguia e ela parava para desenhar, fascinada pelas árvores e plantas. O tempo ruim impediu a excursão de prosseguir, para desespero de M. que, ao final, comenta: “Fiquei triste de ter de deixar aquela gente bonita, habitante de outro mundo, o mundo da natureza esplêndida — mas por quanto tempo?”

1967 – Rio Marauiá — O chefe dos índios tuxaua, seu anfitrão na região, quer cortar o longo cabelo de Margaret, mas ela o convence de que não seria “aceita em casa” sem as madeixas. M. conta que os índios não se deixavam fotografar, mas desenhar sim. Ela volta para casa com uma hepatite grave, mas escreve: “Era um lugar encantado.”

1970 – Alto Amazonas — M. cai do barco no meio da noite e se salva graças a um índio que houve seus gritos: “A minha tristeza pelo ocorrido logo passou ao apreciar a vista esplêndida das magens do rio…”

1971 – Rio Maués — Os acompanhantes de M. roubam tudo que ela levava de valor (exceto desenhos e o revólver, bem escondido). Mas é nessa viagem que ela descobre uma espécie nova e comenta: “Fiquei exultante. Aquela descoberta compensava todos os pesadelos da viagem anterior.”

1972 – Deserto Vermelho — M. amarra o barco ao lado de uma surucucu, uma das serpentes mais agressivas da Amazônia, mas consegue sair ilesa. Minutos depois, já está envolvida na pintura das plantas. Ao chegar a uma pequena cidade, ela e seu barqueiro são confundidos com ladrões. Em seu relato, há cada vez mais miséria humana e florestal. Apesar de uma queda grave, escorpiões e malária, no Maués, M. escreve: “Os beija-flores encontravam ali seu paraíso… os zumbidos se mesclavam, transformando-se num incessante murmúrio de vida.”

Nessa viagem, ela narra o encontro com dois meninos índios taritana. Um deles falava português e lhe disse que não se considerava índio. Diante dos elogios de M. aos índigenas [na contramão dos fazendeiros que os depreciavam], o menino reconsidera: “Talvez eu seja índio.”

1974/1975 – a partir de Manaus — M. e seus companheiros naufragam na Baía de Sapucaia: bote, motor, tudo debaixo dágua, mas nada se perdeu. Logo adiante, M. enfrenta um bêbado que a ameaçava com um facão. Aos 65 anos, ela se maravilha com o rio Unini, mesmo fugindo de uma nuvem de vespas: “Aquilo era um paraíso.”

de 1977 a 1988 – Nesse período, Margaret realiza ainda mais cinco viagens ao Amazonas, todas com desventuras e descobertas. Seus diários tratam cada vez mais no tema da devastação e dos problemas decorrentes da urbanização. Por outro lado, agências de proteção se tornam atuantes na área, inclusive, a partir de 1984, proibindo-a de coletar plantas e restringindo visitantes em áreas de reservas indígenas. Em maio de 1988, Margaret faz sua última viagem, depois de se recuperar de problemas no quadril. Aos 79 anos, vai em busca de ver e desenhar a Flor-da-lua, uma flor que só abre uma vez ao ano e à noite. Adivinhem se ela consegue?

E depois de escrever tudo isso, não falei do principal: as aquarelas! O livro é um tesouro de imagens indescritivelmente lindas, precisas, fortes e delicadas. Há esboços feitos por Margaret na Amazônia mas também dezenas de aquarelas completas, feitas em estúdio e depois expostas mundo afora. E ainda há muitas fotografias de todas as expedições.

Sobre o livro: Como contei nesse post, soube da existência desse livro por uma aluna querida. A referência completa é: “Margaret Mee – Em busca das flores da floresta amazônica”, Ed. Salamandra, 1989. (Dei sorte de comprar na estante virtual por 150,00 reais). O único problema do livro é que não há créditos detalhados nas imagens. Vários desenhos e fotos aparecem fora do contexto ou sem explicação de autoria (como no caso da fauna principalmente).

Quem se interessar pela personagem pode também ver o documentário “Margaret Mee e a Flor da Lua” (só em locadoras ou no site da Livraria Cultura).

Sobre os desenhos: No caderninho Laloran, desenhei algumas flores que aparecem no livro da M. Mee com canetinhas de nanquim descartável Unipin 0,05 e 0,1 (eu prefiro as canetinhas Pigma Micron, mas descobri que duram menos). Depois das linhas fui acrescentando a aquarela em camadas, sempre da mais clara para a mais escura. As sombras das flores fiz num outro dia (para a primeira parte secar bem) com uma misturinha de cinza que sempre dá certo: Payne’s grey (ou outro tom azul) com Burnt Sienna. O desenho do lado direito foi feito a partir de uma fotografia de Margaret sentada no seu bote na expedição de 1971 ao Rio Negro. As linhas e cores foram feitas da mesma forma que as flores. Nos dois casos, além dos contornos usei as canetinhas de nanquim para fazer linhas horizontais e verticais de sombreado, pois ando apaixonada pelo trabalho do ilustrador britânico Tom Gauld.

Ps: As coisas impossíveis ficam para a semana que vem pois o post já está imenso!

Ps2: Agradeço a Debby Toomey Stander pela leitura atenta: já corrigi a idade da última expedição da M.Mee. Foi aos 79 anos e não 89 como estava na versão inicial.


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Paraty em quadrinhos

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Era uma vez um professor discreto, tímido, amável e talentoso: William Cordero. Antes de Paraty eu nunca tinha ouvido falar dele. Mas bastou uns poucos minutos ao seu lado, e diante de seus desenhos, para me apaixonar! (Paixão artística, pessoal.) Ele é daquelas pessoas que parecem fazer tudo sem esforço, num raro encontro de delicadeza de personalidade e obra. E ainda tem o charme de ser recém-casado, morar numa casa feita por ele próprio, na Costa Rica, e gostar de cachorros! No penúltimo dia do evento, passou quatro horas trabalhando num desenho, como se não existisse mais nada no mundo para fazer, e o resultado foi um arraso… Linhas leves como se tivessem sido feitas em poucos minutos… Quero ser assim quando eu crescer.

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Foi no seu workshop que fiz esses desenhos-em-quadrinhos. A proposta era narrar o dia-a-dia misturando diferentes escalas. A sugestão dele foi que trabalhássemos com “caixas” feitas de linhas para enquadrar pessoas, coisas, falas e movimentos. Os trabalhos dos colegas ficaram incríveis!

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No meu caso, levei um tempo para achar que esses desenhos tinham um destino melhor que o fundo da gaveta… Nesse dia, eu tinha acabado de dar minha segunda palestra — estava feliz, mas exausta! Só quando voltei para casa (oopss… que casa?) é que tive coragem de adicionar as cores. Tudo começou como um grande pretexto para tentar imitar o céu do Tommy Kane. 🙂 No fundo, o que me diverte mesmo é copiar o desenho dos outros! (Pelo menos, dou as fontes para vocês conferirem.)

100 anos! Hoje, 10/09/2014, minha avó querida faria 100 anos… Passei o dia pensando em desenhar esse bolinho para ela (abaixo), que acabou saindo mais com cara de chapéu do que de bolo! Mas ela nem ia ligar. Acharia lindo!! Ela adorava amarelo, adorava rosas e todas as flores. Adorava viver bem e com festa. Gosto de lembrar de como às vezes eu tinha medo de contar alguma coisa pra ela, tipo uma decisão arriscada ou difícil na minha vida. Receava que ela fosse me dizer (por ser mais velha): “fique onde está, permaneça, conserve.” Mas ela quase sempre dizia: “Que bom, isso mesmo, vá em frente! Viver empacada não vale a pena!” E é desse espírito de coragem que gosto de lembrar. “Que você nos inspire e viva pra sempre na nossa memória, vó.”

 

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Sobre os desenhos: Utilizei os mesmos materiais de sempre: canetinhas de nanquim descartável Unipin e Pigma Micron 1.0, 0.1 e 0.05. A cor foi feita com aquarela Winsor & Newton e um pincel Pentel waterbrush. No primeiro desenho, o céu dos quadradinhos ficou pesado (com waterbrush); daí troquei para um pincel de pelo (no quadro maior do lado direito) e achei que funcionou melhor. Meu sonho era fazer aquarelas leves mas com cores intensas. Ô coisa difícil!  Daqui a alguns anos a gente conversa…

Leitura da semana: Não levei livro pra Paraty, mas li uma crônica do Arthur Dapieve que lavou a alma: “Saudades do Rio“. É daqueles textos pessoais e ao mesmo tempo universais para todos nós, cariocas, do tempo em que domingo era dia de passear de carro com a família…

 

 


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Continua, Nora!

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Noralóide querida,

bons ventos trouxeram teu livro às minhas mãos na semana passada. E já vou dizendo que adorei, amei, casei! Todos os livros autobiográficos deveriam ser assim: com história, humor, emoção, aventura e um bem-vindo bom-senso. Concordo com tudo, Nora. Você me devolveu a esperança de que o humanismo faz sim muito sentido.

Meu avô também achava a maior bobagem esse papo de ser melhor do que os outros porque nasceu na Europa. Como você bem escreveu: por que se orgulhar de algo que “não passa de um acidente biológico-geográfico”? Ele adorava mesmo era ser brasileiro.

Quando eu era pequena, mas já grande o suficiente para saber do Holocausto, não entendia porque as famílias judias (ou apontadas como judias) não tinham simplesmente ido embora. Levou um tempo para o meu avô me contar que teve que fugir deixando para trás seus pais, seu irmão e muitas pessoas queridas. No caso dele, foi a única fuga possível. Não havia rota, transporte nem vistos, como você contou tão bem. Fugiram apenas os que tiveram sorte e, mais raramente, algum dinheiro.

Foi com muita emoção que li sobre a sua chegada solitária em Lisboa. Que linda imagem a das calçadas de pedras portuguesas iluminadas pelos candeeiros em contraste com o mundo escuro e bombardeado que ficou pra trás. E foi com mais emoção ainda que imaginei o navio te trazendo para a Baía de Guanabara, onde meu avô aportava dois anos antes. Quando vocês chegaram, em 1941, veja só, ele já tinha arranjado uma namorada brasileira e casado! Pode ser que, no caminho para a pensão, vocês tenham cruzado com minha vó passeando grávida da minha mãe.

Adorei cada pedacinho do seu texto — dos primeiros tempos às terras cariocas. Vi um toque gostoso de Mário de Andrade, um não-sei-o-quê que escreve rindo, sem medo das próprias fraquezas e forças. A cena da estufa explodindo é quase uma versão feliz de “O Peru de Natal”:

“Mamãe trouxe a sopa, serviu e, de repente, pum! A estufa caprichou mesmo. Lá estávamos nós que nem fantasmas após a erupção do Vesúvio de Pompéia, todos cobertos de cinzas. As sopas e o resto da mesa também, tudo em volta era um cinzume só. // Pela primeira vez, mamãe desandou a rir toda contente porque finalmente papai havia tido uma demonstração prática do que vinha acontecendo há tempos.”

E seguimos com vocês, do riso ao choro… Mesmo no meio da tragédia, nos encantamos com suas dúvidas sobre estar ou não “autorizada a se considerar adulta”. E veja a coincidência: enquanto você escrevia para a Rainha da Inglaterra pedindo ajuda, minha avó escrevia para o Getúlio Vargas para salvar a família do seu marido que não conseguia sair de Berlim. Ela até subiu de joelhos a escadaria do Palácio do Catete para pedir uma audiência! Minha bisavó alemã era como você: obstinada. Rapidinho aprendeu português, a ponto de escrever cartas lindas que hoje são um tesouro na nossa família. Infelizmente eles não conseguiram dinheiro suficiente para os vistos e “tudo-o-mais”, como você explicou tão bem.

Termino esta carta te dizendo, Nora: foi pouco! Vamos lá, você mesma admitiu no final. Tem muito mais história para escrever. Em nome de todos os seus leitores, te imploro que continue! A Zélia Gattai começou assim, lembra? Do divertido “Anarquistas Graças a Deus” para uma prateleira cheia.

Um abraço muito abraçado,

Karina

Sobre o livro: Lindo volume, numa edição caprichada, com muitas fotos e delicados desenhos da autora, além de posfácios escritos por suas filhas Laura e Cora. E tudo isso impresso em papéis criativos e fonte legível! Corram pra ler: Memórias de um lugar chamado onde, de Nora Rónai, ed. Casa da Palavra, 2014. A citação do caso da estufa está na página 85. A abertura e o final desta carta foram copiadas do Mário, claro, de Andrade, por causa de um volume que me caiu nas mãos há poucos dias: Cartas a Murilo Miranda (1934-1945), ed. Nova Fronteira, 1981. Como disse-me um amigo, ser fã de Mário exige cuidado. É um vício e não há estante que chegue… “O Peru de Natal” é um conto de Mário incluído no livro Contos Novos, de 1946. Eu ia escrever que o livro é maravilhoso e tal. Mas fica desde já definido nesse blog que Mário-de-Andrade e maravilhoso são sinônimos.

Sobre o desenho: Ilustração feita a partir de fotos do livro, com canetinha Bamboo na App Procreate no Ipad. Depois organizei no Photoshop. Quando já estava quase pronto, senti falta de algo branco. Daí surgiu a ideia do barco se sobrepondo na imagem. Achei que encaixava na travessia oceânica narrada no livro e no intenso amor da Nora pela água… (As cores foram inspiradas numa imagem que achei há tempos no Pinterest, mas, infelizmente, perdi a referência à fonte original.)