Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Razões para sorrir

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Essa semana voltei à rotina de desenhar no metrô, prática que iniciei em 2008 e que foi minha maior escola de desenho de observação. Na época, eu fazia um curso de “modelo vivo” — que é como se chamam as aulas em que uma pessoa posa nua para os estudantes desenharem. Apesar de amar esses exercícios, sentia que alguns modelos estavam ali meio mortos, engessados nas poses. Como amo gente (e influenciada pelo treinamento como antropóloga, não posso negar), passei a observar os passageiros do metrô como modelos vivos de verdade: cansados, animados, distraídos, entretidos, apaixonados, preocupados… Eles são uma aula grátis de desenho de observação, todos os dias, bem na nossa frente!

Um dos motivos para retomar o caderno foi o início de mais um curso de Antropologia e Desenho no IFCS/UFRJ. Na página à esquerda, fiz o exercício de “procurar desenhos onde aparentemente não os vemos”: estampas, tatuagens, logomarcas de produtos, texturas… Há um mundo de coisas simples e desenháveis à nossa volta. O interessante é viver o processo de descobertas que a observação gera. Por exemplo: ao desenhar uma flor branca bordada num vestido preto, percebi a originalidade da roupa (cortada com detalhes diferentes do que costumo observar). Desenhei o modelinho e, ao fazer isso, só então reparei numa tatuagem no ombro da moça. Achei que era um padrão floral, mas não: tratava-se de um pequenino manequim de modelagem rodeado por ramos e folhas. Seria uma profissional da moda? Que surpresa boa ser levada, de desenho em desenho, ao amor daquela pessoa por seu ofício. ♥

No meu trajeto até a Uruguaiana desde 2008, algumas coisas são rotineiras: homens do dia vestem roupas lisas, ou no máximo listras e xadrez, constrastando com as mulheres cheias de estampas. Sapatilhas com lacinhos e bolsas de marca descem na estação Carioca 99% das vezes. À noite isso se modifica: há menos ternos e mais camisetas de bandas e tatuagens. Meus modelos favoritos: famílias, pessoas lendo, mães com bebês.

Dois dias depois, peguei novamente o caderno, mesmo apertada nos bancos indecentes do metrô chinês. Foquei em dois homens dormindo (sempre bons modelos), começando o exercício pelos pés de ambos, de modo a experimentar aquilo que falei para a turma: escolham uma “forma” e não um “significado” para iniciar a traçar. Isso ajuda a desconstruir a ideia (assustadora) de desenhar pessoas. Precisamos esquecer quem são e perceber apenas linhas, espaços, sombras, curvas, vazios e cheios… Nossa inspiração da semana foi a simplificação de Steimberg. Comecei pelo senhor à direita, que parece ter sentido meu olhar, o que me fez parar. Retomei com o da esquerda, desligadão de tudo, ao ponto de eu ter conseguido detalhar sua bolsa estilosa que contrastava com a roupa sóbria.

Mas o melhor veio ao final: a moça ao meu lado abriu um sorriso lindo e falou antes de se levantar: “nossa, como você desenha bem, parabéns!” E ainda me deu um tchau sorridente da porta. Uma mulher trabalhadora, cheia de pacotes, que parou um segundinho do seu dia para me incentivar com gentilezas! ♥

A delicadeza do gesto me lembrou as dezenas de mensagens no Twitter de @Nicole_Cliffe. Ela pediu que as pessoas contassem a coisa mais gentil que um estranho já falou ou fez para elas. São tantas histórias bonitas… Resumo algumas para vocês aqui:

• O vendedor de uma livraria LGBT que recebeu um telefonema de um rapaz gay pensando em se matar: ele não só atendeu e começou a conversar, como uma cliente da loja e depois outras e outros fizeram uma fila e se revezaram no atendimento da ligação.

• A aeromoça que deu uma calça de yoga da sua própria mala para uma mãe se trocar (pois estava toda molhada pelo vômito de seu bebê).

• Uma família que parou para ajudar uma pessoa presa com seu carro na neve e ainda ofereceu sopa quente.

• Uma moça que ouviu um comentário ofensivo sobre sua aparência de sua própria mãe, em seguida foi abordada por um estranho que lhe disse: “eu só queria que você soubesse: acho você linda”.

• A mulher que sofreu um aborto espontâneo em um emprego novo e teve todo apoio (e discrição) de seu chefe.

• Uma jovem com problemas de depressão que olhava fixamente para um poster com informações de um serviço de ajuda, quando foi abordada por um homem que lhe perguntou com a voz mais gentil do mundo: “você está bem? precisa de algo? quer conversar?”

• O caminhoneiro que buzinou para um carro sair da frente, sem ver que ele estava parado para deixar uma senhora atravessar. Depois foi pessoalmente pedir desculpas pelo incômodo da buzina.

• Uma pessoa sofrendo um ataque de pânico silencioso no saguão de um aeroporto foi acudida por um cachorro de serviço (de outro passageiro) que detectou seu problema e ficou com a cabeça no seu colo por 20 minutos.

• E uma história dessa semana (que não está na thread) que tocou todas as pessoas que têm um mínimo de senso de humanidade: acompanhar as ações da primeira ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, ao acolher, chorar e se eguer para agir proibindo acesso a armas de assalto em seu país.

• Queria também dizer que eu mesma, quase todos os dias, sou tocada pelo carinho enorme dos comentários, mensagens e e-mails de vocês. Recebam meu abraço apertado por cada palavra delicada e generosa. ♥ ♥ ♥ Estou mil vezes melhor das sensações de ansiedade pois, como costuma acontecer comigo, escrever e desenhar sobre um problema é o meu melhor caminho.

As desigualdades que geram as faltas de oportunidades são profundas. Vamos combatê-las!

• Há muitas opções para sermos nós as desconhecidas que ajudam o próximo: saiba como auxiliar as vítimas do ciclone em Moçambique, Zimbabue e Malaui. Ajudei pela ActionAid, que fez um projeto bem específico.

Aqui uma campanha  bonita para financiar o livro do jornalista (e historiador) Alê Santos, Rastros de Resistência – Histórias de luta e liberdade do povo negro.

• E esta semana, na quinta, teremos um evento maravilhoso no IFCS/UFRJ. Segue abaixo o convite para todos que estiverem no Rio. Será uma mesa de mulheres incríveis, tratando de um tema urgente:

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CONVITE PARA AULA INAUGURAL IFCS 2019-1

PREVENÇÃO E COMBATE AOS ASSÉDIOS DE GÊNERO, RAÇA E CLASSE NO IFCS / UFRJ  • Data: 28/03/2019 • Horário: 17:00h •  Local: Salão Nobre

Composição da Mesa:
Direção do IFCS – Susana de Castro (IFCS/UFRJ)
Comissão “Diretrizes para prevenir e combater o assédio moral e sexual no IFCS/UFRJ” – Aparecida Moraes (IFCS/UFRJ)
Centro de Referência das Mulheres da UFRJ – Emmanuela Neves (CRMM e CRM/UFRJ)
Comissão de Direitos Humanos e combate ás Violências da UFRJ – Luciene Lacerda, (CDHCV/UFRJ; NUBEA)
Câmara de Políticas Raciais da UFRJ – Cecília Izidoro (EEAN/UFRJ; DEN/HUCFF; CPR/UFRJ
Coordenação de Políticas de Saúde do Trabalhador da UFRJ – Vânia Glória Alves (CPST/UFRJ)

Resumo da Mesa:  Apresentação dos princípios de prevenção e combate aos diferentes tipos de assédio no IFCS/UFRJ. Reafirmação dos compromissos institucionais das Ciências Sociais, da Filosofia e da UFRJ, de modo mais amplo, na promoção do respeito, igualdade e cidadania em todas as esferas da comunidade universitária. Manifestação da Direção do IFCS e colaboradores pelo repúdio e pelo enfrentamento institucional a quaisquer formas de desrespeito, discriminação, constrangimento, intimidação, entre outras ofensas. Apresentação dos documentos e canais da UFRJ e do IFCS que buscam a garantia desses princípios.

Sobre as Participantes:
Susana de Castro — Diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ), Professora do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPGF), Coordenadora do ANTÍGONA – Laboratório de Filosofia e Gênero (IFCS/UFRJ).

Aparecida Moraes — Professora associada do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ/IFCS. Co-coordenadora do Núcleo de Estudos de Sexualidade e Gênero (NESEG/PPGSA/IFCS)

Luciene Lacerda — Psicóloga (UFRJ), Coordenadora do Laboratório de Ética nas Relações de Trabalho e Ensino (NUBEA) e Coordenadora da Comissão de Direitos Humanos e combate ás Violências da UFRJ. Doutoranda em Educação na UFRJ.

Emmanuela Neves — Psicóloga, Técnica em assuntos educacionais no Centro de Referência de Mulheres da Maré (CRMM). Serei a representante do CRMM e do CRM na apresentação dos serviços de atendimento às mulheres em situação de violência da UFRJ. Mestre em Psicologia na UFRJ e doutoranda no Dpto de Medicina Preventiva na USP.

Cecília Izidoro — Professora associada do Departamento de Enfermagem médico cirúrgico da EEAN/UFRJ, Diretora acadêmica adjunta da DEN/HUCFF, representante da Câmara de Políticas Raciais da UFRJ.

Vânia Glória Alves — Enfermeira do trabalho, Metre em Artes e Ciências Sociais na Unigranrio, Chefe da Seção de Atenção Psicossocial da Coordenação de Políticas de Saúde do Trabalhador da UFRJ.

Sobre o desenho: Caderninho Muji tamanho A5 (aproximadamente) que ganhei de uma ex-aluna querida. Desenhos feitos com canetas esferográficas hexagonais também da Muji, 0,25, que ganhei de presente. Escaneei e editei no Photoshop para dar mais limpeza e fiz um pequeno destaque, aumentando o desenho da tatuagem no canto inferior esquerdo. No mais, já expliquei tudo no próprio post!

 

 

 

 

 


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Outubro/2018 — #δενπρέπειναυπάρχει

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#δενπρέπειναυπάρχει — Porque lutar contra a violência, o racismo, a homofobia e a misoginia não é uma opção — é um dever, uma questão de justiça contra crimes hediondos.

#δενπρέπειναυπάρχει — Porque é preciso rejeitar um candidato e seus apoiadores que glorificam as armas, a tortura, o estupro e o extermínio de pessoas, manifestando seu ódio a negros, gays, lgbtis, mulheres e indígenas.

#δενπρέπειναυπάρχει — Para que a democracia não volte a ser ditatura; para que o holocausto e os crimes contra a vida não sejam negados; para que o jornalismo resista; para que as parcas conquistas dos direitos humanos no Brasil não retrocedam.

Na minha opinião, todas as escolhas nessa eleição são legítimas exceto quando o candidato apregoa as ideias acima. Basta uma pesquisa rápida para comprovar, através de vídeos, documentos e declarações oficiais, que temos um caso assim nas eleições presidenciais. Há um candidato com discurso criminoso, que deseja a morte (até de seu próprio filho, caso se torne gay ou case com uma mulher negra; e de sua ex-mulher), que apregoa o estupro e o extermínio de pessoas e de direitos.

Sei que a maioria das pessoas queridas que lêem esse blog concordam comigo. Obrigada por vocês existirem! ♥

Meu manifesto é para sensibilizar aquelas que estão indecisas. Não há dúvida possível nesse caso. Escolha qualquer candidato, mesmo que não tenha chances. Isso é legítimo. Deixe de votar, anule seu voto, vote em branco. Qualquer opção é melhor do que entregar sua representação cívica a um sujeito que defende tamanhas atrocidades em público — imaginem o que ele diz quando não está sendo gravado ou filmado!

Que as deusas nos protejam.

Para imprimir o calendário de outubro, aqui vai o .pdf em tamanho A4.

Para compartilhar o manifesto no Instagram:

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7 Coisas impossivelmente-sérias-relevantes-interessantes-e-dignas-de-nota sobre os assuntos em pauta:

♥ A frase que abre esse post foi inspirada numa citação de Nelson Mandela: “Superar a pobreza não é um gesto de caridade. É um ato de justiça”. (Discurso na Praça Mary Fitzgerald de Johanesburgo, em 2 de julho de 2005). No original: “Overcoming poverty is not a gesture of charity. It is an act of justice“.

♥ Em 2000, a Unesco e vários ganhadores do prêmio Nobel da Paz divulgaram um  manifesto reforçando seu compromisso em: 1) Respeitar a vida; 2) Rejeitar a violência; 3) Ser generoso; 4) Ouvir para compreender; 5) Preservar o planeta; 6) Redescobrir a solidariedade. Estamos num bom momento para reler o texto completo.

♥ Para entender a profundidade do racismo no Brasil, recomendo navegar pelo site Geledés. Entre as recentes estatísticas divulgadas, fica claro que a população negra é a mais afetada pela desigualdade e pela violência. Os negros são os que têm mais chances de serem asssassinados e presos; os que ganham os menores salários; a maioria dos desempregados; e a população mais subrepresentada politica e culturalmente. As mulheres negras são as maiores vítimas do feminicídio, da violência doméstica e obstétrica; do isolamento social e afetivo.

♥ No Brasil, a cada 19 horas, um LGBTI é assassinado ou se suicida devido à homotransfobia. Há um trabalho importantíssimo sendo feito e divulgado pelo site Homofobia Mata. Já são vários registros de ataques a gays realizados nessas eleições por apoiadores contrários ao #elenão.

♥ Somos o quinto país em número de assassinatos de mulheres no mundo. O Instituto Patrícia Galvão e a Fundação Rosa Luxemburgo lançaram em 2017 o livro Feminicídio #InvisibilidadeMata que pode ser baixado na íntegra. O site também disponibiliza um Dossiê sobre Feminicídio online. Também se multiplicam perseguições, ameaças e ataques a mulheres organizadoras de manifestos e marchas pelo #elenão.

♥ Por tudo isso, dia 29/09, milhões de pessoas sairão às ruas para gritar #elenão — veja aqui a lista de eventos em mais de 78 cidades brasileiras.

♥ Sobre os símbolos utilizados nesse calendário de Outubro/2018: as cores, as bandeiras e as setas são inspiradas no movimento Lgbti. Desenhei também signos do feminismo, da paz, assim como adaptações de símbolos dos direitos humanos (mãozinha) e dos animais (pegadas de patas).

Sobre o desenho: Fiz os símbolos primeiro com uma lapiseira grafite 0,5 (Pentel). Depois colori com várias canetinhas da Staedtler (triplus color e triplus fineliner) e da Sakura (Koi brush e Soufflé). Sobre as canetas, desenhei a maioria nesse post e lembrei de um desenho de 2015 com todas as cores das Sakuras:

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Você acabou de ler “Outubro/2018 — #δενπρέπειναυπάρχει“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Outubro/2018 — #δενπρέπειναυπάρχει”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Ia. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Abril/2018, Frágil

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“Tem horas que é caco de vidro
Meses que é feito um grito
Tem horas que eu nem duvido
Tem dias que eu acredito.”
(Paulo Leminski)

Como criar nesse mar de sangue que vivemos no Brasil? Pensei na vida e lembrei do vidro, da beleza e da fragilidade desse material que vem da areia e vira tudo. Fiz o calendário e reencontrei o poema do Leminski. Caco, grito, dúvida, acredito.

Que dor esse país despedaçado, em que a vida da maioria da população não vale nada… Temos que seguir acreditando, protestando, achando um jeito de nos engajar, por todos que ainda estão vivos, pelas crianças que não pediram para nascer, pelos idosos que nos deram a vida, pela natureza, pelos animais, por nós. As lutas justas são muitas. Desdenhar dos que estão lutando ou ficar parado assistindo é que não dá.

Por falar nisso, hoje, dia 2/04/2018, tem o evento “Luzes para Marielle e Anderson”, às 19h. Onde você estiver, acenda uma vela ou luz, sinalizando às autoridades que não esqueceremos. Para confirmar ou se engajar em algum evento presencial, veja as opções na página Marielle Franco e compartilhe imagens e mensagens com a hashtag #LuzesParaMarielleEAnderson.

E para os pós-graduandos e professores que me escrevem, duvidando de suas escolhas: nosso trabalho tem valor sim. Fazer pesquisa, ensino e extensão com consciência, seriedade e ética para com seus interlocutores e a sociedade em geral é uma forma de contribuir para um mundo melhor, mesmo que os resultados sejam a longo prazo. Vamos continuar comparecendo, lendo, escrevendo, desenhando, pesquisando, publicando, produzindo, compartilhando — só não esqueçamos de respirar, nos abraçar e nos cuidar pelo caminho.

Força pra todos nós. Bom abril: tem feriado no Rio de Janeiro dias 21 e 23. ♥

Sobre o calendário:  Foi um desafio criar algo leve como vidro e ao mesmo tempo colorido o suficiente para escanear e imprimir. Espero que tenha dado certo. Para imprimir, abram o .pdf aqui. Desculpem o atraso!

Outros posts: Fiquei com vontade de indicar os posts “Um Matisse para Maria Eduarda” e “Mortos pelo Rio“, algumas das homenagens que escrevi às vítimas da violência na história do blog, tão atuais e antigas, sobre tudo isso.

Sobre o poema: O trecho citado é do poema “Passe a expressão“, do livro Distraídos venceremos, republicado na coletânea Toda Poesia — Paulo Leminski, pela Companhia das Letras, p.183.

Sobre o desenho: Desenhei as coisas de vidro com canetinha Pigma Micron 0,05; depois colori com lápis de cor Polychromos, da Faber-Castell e alguns Prismalo da Caran D’Ache; tudo em papel comum A4 90gr. Comecei com cores individuais, mas depois cheguei a essa mistura de verde, amarelo e rosa para dar uma certa unidade ao conjunto. No final, utilizei uma caneta pincel cinza quente (warm grey) Pitt Faber Castell para fazer as sombras embaixo dos objetos.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Abril/2018, Frágil”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3DN. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer

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“Eu estava entrando em um meio em que a intimidade é frequentemente profissional, e por isso os limites se confundem. (…) Apesar disso, o incidente com Harvey me deixou desconfortável; eu conseguia explicar e justificar aquilo para mim, e guardá-lo como um momento constrangedor. (…) eu me senti confusa com o desconforto que eu experimentei antes.” (Lupita Nyong’o)

O depoimento de Lupita Nyong’o foi um dos que mais me impactou entre os que li sobre H. Weinstein, homem que perseguia, abusava e estuprava mulheres ao seu redor.

Ao narrar em nuances sua trajetória como objeto de atração e manipulação por parte de um predador, Lupita nos permite entrar em contato com as emoções mais profundas das vítimas de relações abusivas: a vontade de acertar, a credulidade, a desconfiança, a vergonha, a desestabilização do senso de si mesma, a fragilidade e a culpa.

Os abusadores têm como estratégia básica confundir. Ao contrário do ditado popular, eles primeiro assopram, depois batem; e assim sucessivamente. Quando você vê a ferida, eles estão a postos para colocar um curativo por cima. O curativo vem por meio de presentes, cargos, viagens; e de migalhas de sentimentos: “bom-humor”, “carinhos”, “amor” — tudo entre aspas, já que são pseudo-emoções.

Na minha visão leiga, abusador é alguém que não sabe amar, a começar por si mesmo. São pessoas que morrem de medo do que têm por dentro, que não se aceitam, que se odeiam e descontam esse ódio nos outros. Ao agredir a vítima, verbal ou fisicamente, eles projetam sua lama interna.

“Sempre que vocês brigam, de alguma forma muito estranha, que não é explicada, você está sempre errada? Você sempre acaba pedindo desculpas, mesmo quando no início você tinha certeza de que estava certa? (…) Aí você vai ficando presa ali, numa teia de manipulação sem fim… (…) Relacionamento abusivo não é só tapa na cara (…); você pode ser abusada psicologicamente também.” (Jout Jout Prazer)

Milhões de pessoas são abusadas todos os dias. Como as estatísticas mostram, a maioria dos algozes está dentro de casa. São familiares, pais, tios, primos, padrinhos, padrastos, parceiros, pessoas com quem deveríamos ter vínculos amorosos.

O problema é que, em muitos, muitos, desses casos, não temos como simplesmente terminar a relação. Crianças e jovens vítimas de familiares abusivos; orientandos vítimas de orientadores abusivos; mulheres vítimas de casamentos abusivos em situação de dependência; pessoas vítimas de trabalhos abusivos em condições aviltantes; alunos vítimas de sistemas (escolares, médicos e sociais) abusivos, sem subsistência fora dele; grupos religiosos, étnicos, imigrantes, de cor, de gênero… A lista é imensa.

As situações de violência extrema são fáceis de identificar, mas como saber quando a violência se dá no plano de sofrimento psicológico? Inspirada nos depoimentos citados, escrevi quinze critérios para ajudar a identificar relações abusivas violentas, ainda que sem agressão física. Em todas as frases, acrescentem “constantemente”, “insistentemente”, “repetidamente”, pois a maioria dessas coisas se torna abusiva por ser vivida com uma frequência doentia.

1) Quando seus sentimentos mais profundos são negados: isso é abusivo.
2) Quando você é acusada de estar sempre errada: isso é abusivo.
3) Quando seu “não” é desconsiderado e classificado de mimado e egoísta: isso é abusivo.
4) Quando você é levado a se sentir culpada de tudo: isso é abusivo.
5) Quando você nunca sabe se o abusador vai explodir ou sorrir: isso é abusivo.
6) Quando você se sente manipulada e confundida por alguém: isso é abusivo.
7) Quando alguém, numa posição de poder, te faz se sentir inferior por ser quem você é, não importa o quanto você tenta agradar ou corresponder às expectativas: isso é abusivo.
8) Quando alguém te interpela agressivamente querendo saber o que você está pensando, fazendo (ou não) constantes insinuações negativas: isso é abusivo.
9) Quando alguém menospreza ou ridiculariza coisas e pessoas que você ama: isso é abusivo.
10) Quando alguém que deveria te amar te xinga ou berra com você por motivo fútil: isso é abusivo.
11) Quando alguém te chantageia, dizendo que deveria ser amado por você, porque não te bate: isso é abusivo.
12) Quando alguém exige ser amado “porque te dá tudo”: isso é abusivo.
13) Quando alguém é abusador e não reconhece, não se trata (psicologicamente, medicalmente, espiritualmente etc.): isso perpetua relações abusivas com todos à sua volta.
14) Quando você sente que não pode chorar ou se mostrar frágil na frente de uma pessoa que deveria ser próxima afetivamente: isso é um sintoma de um relacionamento abusivo.
15) Quando todas as situações acima acontecem em ambientes sem testemunhas: isso é um sintoma de um relacionamento abusivo.

O que fazer diante dessas situações? Como lidar com a impotência de não poder sair; ou como ajudar uma vítima a lidar (ou sair) de um relacionamento abusivo?

Em seu depoimento, Lupita afirma:

…espero que possamos formar uma comunidade em que mulheres possam falar sobre abuso e não sofrer outro abuso por não serem acreditadas e, pelo contrário, sejam ridicularizadas. É por isso que não nos manifestamos — por medo de sofrer duas vezes, e por medo de ser tachadas e caracterizadas por nosso momento de desempoderamento.  (…) ao falarmos alto, falarmos livres, falarmos juntas, nós recobramos o poder. (…) Eu solto a minha voz para contribuir com o fim da conspiração do silêncio. (Lupita Nyong’o)

Acho que podemos:

Falar alto — Lupita toca num ponto muito importante: precisamos oferecer redes de apoio às vítimas para que elas possam falar e alto! Isso vale para mulheres e para todas as outras pessoas em situação de vulnerabilidade.

Acolher — Precisamos dar acolhimento às vítimas para que elas não sofram duplamente, pelo abuso e pela culpa. Apoiar, abraçar, confortar são formas de mostrar que a pessoa não está sozinha, tentando restaurar o seu abalado senso de pertencimento.

Escutar e reconhecer — Precisamos melhorar nossa escuta, sendo mais pacientes, disponíveis e abertos para ouvir as pessoas — porque a vítima se encontra quase sempre num estado de confusão sobre si mesma. Esse tipo de violência é uma forma de tortura cujo objetivo é desestabilizar, fomentando a insegurança da auto-percepção da vítima como vítima. Por isso, é tão importante reconhecer a situação abusiva.

Fortalecer — Ninguém pode se furtar das dificuldades e frustrações, mas podemos nos fortalecer uns aos outros emocionalmente. Essa força afetiva pode ajudar uma pessoa em uma relação abusiva a identificar a situação em que se encontra, seja para sair dela (quando possível), seja para aprender a lidar, reduzindo os seus danos (quando em situações inevitáveis). Esse fortalecimento também pode (e deve, na minha opinião) ser complementado com um apoio terapêutico profissional.

Sei que há vários aspectos das relações abusivas que não foram tratados nesse texto. É um tema complexo demais para um post. Tentei contribuir com algumas perspectivas possíveis, mas nem de longe pretendi dar conta do debate. Foi uma forma de compartilhar minha emoção com o texto da Lupita Nyong’o, quem sabe ajudando a fortalecer pessoas que estão passando por situações difíceis.

Agradeço a todos leram e faço um pedido: compartilhem! Há muitas vítimas silenciadas ainda.

Queria terminar agradecendo o carinho de vocês.  Não dou conta de responder os comentários, mas reafirmo meu muito obrigada! Sem esse apoio, através de tantas mensagens, likes e e-mails, eu não teria coragem de escrever sobre tudo que escrevo aqui. ♥  Mesmo assim, alguns vão notar que não consegui escrever na primeira pessoa, como sempre procuro fazer no blog. Ainda não tenho a força da Lupita. Um dia eu chego lá.

PS: Estou me recuperando bem da cirurgia (de vesícula). Obrigada pelos desejos de melhoras!

Fontes das citações: O depoimento citado de Lupita Nyong’o  foi uma tradução livre do Rodrigo Torres para o Adoro Cinema. Li pela primeira vez no original, publicado no New York Times em 19/10/2017.

O trecho da Jout Jout Prazer é uma citação extraída do vídeo “Não tira o batom vermelho” sobre relacionamentos abusivos, visto por quase 3 milhões de pessoas desde que foi publicado em 26/2/2015.

Sobre o desenho: Aquarela feita por mim em 2008, na época em que fazia aulas de modelo-vivo na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Nesse dia, nosso professor, Manoel Fernandes, pediu que explorássemos o significado do espaço do papel. Minha escolha pelo canto inferior direito acabou resultando nessa sensação de solidão. No original, o restante do papel em branco é bem maior, reforçando ainda mais a ideia de isolamento. Tive que cortar um pouco (e adicionar um ligeiro tom de rosa à folha) para que o post não parecesse vazio para quem lê no celular. Para a execução, utilizei uma pena de bambu (se não me engano), nanquim e aquarela.

Você acabou de ler “Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-3lF. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Um Matisse para Maria Eduarda

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“A dor passa, Matisse, mas a beleza fica” disse o idoso Auguste Renoir para o angustiado amigo. O contexto é o final da primeira guerra mundial. A Europa chorava seus mortos e os críticos desprezavam as cores e os temas que Matisse pintava naqueles anos sombrios. Como ele podia encher as telas de tanta vitalidade de tons, mulheres e padronagens enquanto o mundo desabava?

Foi nessa contradição que pensei quando terminei o desenho desse post. Como posso criar uma praia de guarda-sóis alinhados e coloridos com estampas como se estivessem em um desfile de moda? Como?, se nesse mesmo dia morria assassinada a menininha Maria Eduarda, de onze anos, vítima de uma bala “perdida” em sua casa no Irajá, Rio de Janeiro. Diz o aviso no muro: “não existe tiro acidental em bairro nobre”.

Eu devia estar fazendo algo. Não posso pintar em Nice enquanto os soldados morrem de fome nas aldeias do norte. Ou posso?

Arte ou política; ou arte política? Não, não vou propor uma solução messiânica para esse debate (até porque detesto as soluções messiânicas, infelizmente tão populares nas ciências sociais hoje em dia). Vou só contar mais uma história.

A vida de Matisse tem todos os ingredientes da trajetória do herói: No final do século XIX, menino pobre começa a pintar para se distrair enquanto convalesce. Vai para Paris, mas é rejeitado pelo mundo da arte, pelos pais e conterrâneos. Sem recursos, encontra na mulher e na filha o apoio incondicional para lutar por uma busca: o encontro perfeito da cor e da forma. Seu corpo, sua vida pessoal e pública desmoronam enquanto sua obra se afirma, se desafia e se reinventa até o fim. Do pintor, cujos quadros eram alvo de saraivadas de tomates, ao artista que “reinventou a arte no século XX”, como dizem no jargão da crítica.

Em 1900, vivendo num apartamento minúsculo no quinto andar de um prédio decadente em Paris, Matisse gastou o equivalente a metade da sua renda anual para adquirir a pintura Três banhistas, de Cézanne. Décadas mais tarde, quando doou a obra à prefeitura da cidade, escreveu:

“Nos trinta e sete anos que fiquei com esse quadro, vim a conhecê-lo razoavelmente bem, ainda que sem esgotá-lo. Ele me proporcionou apoio moral em momentos críticos de minha trajetória como artista; dele extraí a minha fé e a minha perseverança.”

Nenhuma resposta vai trazer de volta a vida da Maria Eduarda. Mas todos que choram a sua morte vão precisar da arte para suportá-la.

Sobre o desenho: Os guarda-sóis são inspirados em fotos de praias portuguesas que venho guardando no meu computador desde 2011. Usei canetas de nanquim Pigma Micron 0.05, aquarela, lápis de cor e ainda as canetinhas coloridas mais maravilhosas do planeta: Staedler triplus fineliner. O objetivo era ilustrar o calendário do mês de janeiro de 2014 em homenagem ao aniversário da minha amiga Mariela, que ama o sol. Depois escaneei a imagem e montei uma versão sem a grade do mês no meu velhinho Photoshop 7, de 2002, que é o que eu sei usar — por si só uma obra de arte do mundo do software.

Sobre Matisse: As citações estão na biografia Matisse, de Hilary Spurling (tradução de Claudio Alves Marcondes, ed. Cosac Naify, 2012). A frase sobre Cézanne está na p. 82 e a citação de Renoir na página 313. A edição traz um caderno de imagens colorido mas muito modesto perto do que é a obra de Matisse. Uma excelente fonte de imagens pode ser encontrada na WikiPaintings. Outro ponto que me irritou neste volume foi descobrir que suprimiram (tanto no Brasil quando na reedição americana) milhares de notas com as fontes e outros detalhes da pesquisa original. Para a versão completa, só comprando no mercado de livros usados nos EUA.