Karina Kuschnir

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Mini paleta de aquarela

minipaletap

Alguns pesquisadores acreditam que a aquarela existe desde 800 a.c., quando os egípcios coloriam seus papiros com pigmentos naturais misturados com goma arábica, clara de ovo e água. É incrível pensar que essas tintas eram utilizadas nas miniaturas pintadas à mão em livros por gregos, romanos, sírios e bizantinos até o século 9 d.c. Quase todos os livros de história da aquarela dizem que o pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528) foi o primeiro artista (ocidental) a realizar pinturas em aquarela, embora naquele tempo esse material fosse considerado menor, sendo utilizado apenas para croquis, estudos e diários de viagem, por ser de fácil transporte e secagem rápida. Do século 19 em diante, os estojos de aquarela para amadores se tornaram cada vez mais populares e acho que agora, nos anos 2010, estamos vivendo uma valorização enorme dessa mídia.

Todo esse preâmbulo foi para apresentar a vocês o estojinho miniatura que comprei no ano passado no evento dos Urban Sketchers em Manchester, Inglaterra. Numa caixinha igual a um porta-cartão-de-visitas, a empresa Expeditionary Art conseguiu colocar uma base de ímã, uma base branca e 14 recipientes de metal para as tintas. Tive a sorte de ver uma pessoalmente, porque só vendo para acreditar em quão pequena é essa paleta. Não foi barata. Se não me engano, paguei 25 pounds (cerca de 100 reais) na versão vazia, e 35 numa versão já com as tintas, pois queria trazer uma de presente de aniversário para uma amiga.

Foi um investimento maravilhoso. Alguns colegas disseram que iria enferrujar, mas já tenho há quase um ano e não vejo o menor sinal de desgaste. A grande maravilha dessa paleta é poder levá-la para todos os lados sem aquela neura de ficar com a bolsa muito pesada.

Há tempos estava querendo atualizar a seção Materiais aqui do blog. Portanto, aí vai um dos meus itens preferidos!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Minha fonte para essa pequena historinha da aquarela foi o livro The big book of watercolor, do Jose M. Parramón. Gosto da parte histórica inicial, mas não recomendo para quem quer começar na técnica. É um daqueles volumes mais para olhar do que aprender, com um jeito meio tradicional de “como fazer” o céu, o mar etc. Para ver uma aquarela do Dürer de pertinho, achei esse vídeo da Kahn Academy.

* A mini-paleta de aquarela pode ser vista em mais detalhes no site da Expeditionary Art ou nessa resenha com filminho no final do Parka Blogs.

* Continuo lendo artigos ótimos no site da Revista da Fapesp e, embora eu seja super defensora da inbox mínima, recomendo muito que vocês assinem o boletim deles por e-mail.

* Foi justamente dessa fonte que descobri o excelente artigo Bororo na Tela, contando porque o filme “Rituais e festas Bororo”, do major Luiz Thomaz Reis (1879-1940), deve ser considerado o primeiro documentário etnográfico de que se tem conhecimento.

* Outra leitura interessante foi o artigo no blog do Instituto Moreira Salles sobre a fotografia de Antonio Luiz Ferreira, que registrou, em 17 de maio de 1888, a missa campal realizada no Rio de Janeiro para celebrar a Abolição da Escravatura. Só de saber que essa foto existe e que há uma coleção imensa de imagens dessa qualidade disponíveis online já é uma maravilha.

* Outra lindeza foi seguir a dica da Julia O’Donnell e revisitar a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, onde se pode ler online milhares de páginas de jornais históricos brasileiros e de outros países. Só nos últimos 30 dias o site teve mais de 3 milhões e 800 mil páginas visitadas! Esse número nos dá esperança de que nem tudo está perdido , concordam?

* Finalmente, queria compartilhar com vocês que a melhor coisa dessa semana foi receber uma mensagem de uma ex-aluna agradecendo por minhas aulas. Eu que agradeço, querida. Inspirada em você, lembrei de sorrir mais, de me manter forte e determinada, sem esquecer da gentileza. Que seu caminho seja de aprendizado positivo e construtivo. Obrigada por existir, resistir e insistir!

Sobre o desenho: Aquarelinha feita em três etapas. Linhas com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron (0.1) e uma primeira mão de tinta com as próprias aquarelas do kit. No dia seguinte, pintei novamente para dar mais intensidade. E ainda num outro dia (esqueci de escrever a data), reforcei algumas áreas mais escuras e a sombra do objeto no papel. O caderninho é um Hahnemühle A6 chamado Sketch & Note, com um papel comum, mas de gramatura um pouco superior (125gr) à média, que aguenta uma aquarela leve. Descobri esse caderno na Casa do Artista em São Paulo e depois comprei novamente na estadia em Lisboa, na maravilhosa Ponto das Artes do Chiado. É super leve para ter na bolsa. Utilizei vários pincéis, pois fiz o desenho em casa, mas costumo ter no estojo da bolsa uma caneta pincel de água (waterbrush) da Kuretake.

Sobre as tintas: Como comprei o kit com algumas pecinhas já cheias de tinta e outras vazias, não sei todas as marcas, mas vou especificar os nomes, da direita para a esquerda, começando na fileira de cima: 1-Espremi duas cores: Vandyke Brown e Indigo, 2-Ultramarine, 3-Cobalt blue; 4-Violet; 5- Permanent magenta e Opera Rose; 6-Rose de Potter e Ruby Red; 7-Scarlet Red. Na segunda fileira: 8-Turquoise; 9-Cerulean; 10-Perylene Green e Terre verte; 11-Sap Green; 12-Burnt Sienna e Pure Orange; 13-Quinacridone Gold e Raw Sienna; 14-Pure yellow e Lemon yellon. A maioria é da marca Winsor & Newton (algumas artísticas, outras da linha estudante, da Cotman), mas o Pure yellow e o Ruby red são da Schmincke.  Se quiserem mais informações sobre as tintas e cores me avisem! Fico meio preguiçosa de escrever sobre esses detalhes porque acho que a maioria dos leitores que vêm aqui são do meio acadêmico e não estão nem ligando para os materiais de pintura! 😉

Espero que todos estejam aproveitando esse feriado prolongado para descansar ou produzir mais.

Até semana que vem!

Você acabou de ler “Mini paleta de aquarela“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Mini paleta de aquarela”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2gJ. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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O quebra-cabeça do artista

agostopuzzle
Resolvi me dedicar ao calendário do mês porque estou numa semana de férias (com tempo!) e meu aniversário tá chegando (não que eu ligue, hehehe). Lembrei que amo quebra-cabeças e que tenho uma caixa de 250 peças de madeira com o tema da chuva na ponte do artista japonês Ando Hiroshige. O recorte das peças é uma lindeza, como vocês podem ver acima (ou na versão inteira, abaixo): todas são diferentes umas das outras e várias homenageiam as artes plásticas, como o potinho de pincéis, a paleta, o pincel e o vidro de nanquim… Adoro desenho e também adoro chuva: é uma combinação irresistível. Espero que vocês também gostem!

(No dia 21, coloquei a pecinha que traz o chapéu do barqueiro na chuva… É uma delicadeza infinita.)

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Leitores do post da semana passada me escreveram mensagens super gentis, dando força, elogiando os desenhos e me incentivando. Mil vezes obrigada a tod@s!! Como expliquei no Facebook, não estou desanimada não! Só quis compartilhar a montanha russa negativa-positiva que povooa a nossa (ou a minha? rs) cabeça no processo de aprender uma atividade nova. Devia ter enfatizado que, apesar das dúvidas, é justamente o *desafio* que me motiva, e muito! Meu maior prazer é estar sempre aprendendo, não me acomodar! Obrigada por compartilharem comigo essa jornada.

Algumas frases legais que surgiram sobre o assunto:

* “A vida é um desenho feito de múltiplas camadas. Não importa a ordem!”, escreveu a querida Yoko Nishio.

* “Acho que a gente sempre acha que está aquém do que pensamos que deveríamos ser ou fazer, mas na verdade estamos sempre além quando conseguimos seguir em frente e tentar e fazer, superar as auto sabotagens.”, comentário muito bacana e bem-vindo da Isadora Zuza.

* “One day, in retrospect, the years of struggle will stryke you as the most beautiful.”, por Sigmund Freud — Citação que me chegou pelo blog da ultra-plus-simpática-e-talentosa Lisa Congdon.

* “O artista tem que se autorizar e partir, sem culpa.  Acreditar no caminho.” Assim disse a escultora Denise Milan, num documentário do canal Arte 1.

* Uma amiga me escreveu: “Para certas atividades, só a longo prazo conseguimos ver algum resultado. Mas isso é o máximo. E uma ótima notícia. Pode demorar, mas uma hora ele aparece. E quando ele aparece ele é seu para sempre.

* A mesma amiga contou que o Chico Buarque errou uma letra de música em pleno programa ao vivo na Rede Globo. Depois de um breve silêncio, olhou para a platéia e docemente disse: “Não sei porque eu insisto nessa profissão?”. O público derreteu literalmente e aplaudiu com vontade. Veja aqui(Muito obrigada à Suzana pelo envio do link.)

* Sobre o desenho, abaixo: Minha vida (de desenhadora) mudou depois que tomei coragem e comprei um bloco de papel Arches (300 g., Hot press, que em artês quer dizer um papel bem liso, sem textura). Além de ser uma delícia de pintar, a página “desaparece” no scanner, deixando que as imagens se sobressaiam. Para as pecinhas do quebra-cabeças, usei canetinhas Unipin (0.05, 0.1 e 0.2), tintas aquarela Winsor & Newton e pincéis WN da linha University 000, 0 e 1. Foi um desenho que levou horas para ficar pronto… Cada vez mais percebo a importância de pintar em camadas finas sobrepostas. E isso leva tempo. Cada pecinha foi feita a lápis primeiro, em seguida a nanquim (contorno e imagens internas) e depois ainda pintei de duas a cinco camadas de aquarela em cada uma. É isso que permite chegar nas cores sutis do Hiroshige com alguma segurança. Na hora de fazer a borda de madeira, eu já estava exausta… Então parti para a “ignorância” e fui de marcador Pitt-brush da Faber-Castell, em dois tons de marrom. Nas primeiras tentativas achei que tinha estragado o trabalho, mas até que não! A perspectiva não é meu forte, como vocês podem ver, mas as Pitts não fizeram feio e se misturaram bem. Aprendi mais essa!

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