Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

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25 dicas para revisar textos acadêmicos (de trás pra frente)

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Pessoal, um post útil pra variar! Reuni as 25 dicas de revisão que mais utilizo. Servem para resenha, livro, artigo, blog, dissertação ou tese de doutorado. São simples, mas funcionam, com a vantagem que você não precisa ser nenhum gênio do português para executar. O segredo é não pular nenhuma, por mais boba que seja. Estão divididas em três blocos, seguindo de trás para frente.

Revisando as Referências Bibliográficas – Como sempre começo a ler um texto acadêmico pela bibliografia, é a partir dela que inicio a revisão também. (Se o texto que você está revendo não tem bibliografia, pule para o item 11.)

1) Ordem alfabética – Verifico se os autores estão em ordem alfabética por sobrenome.

2) Ordem cronológica – Coloco as obras do mesmo autor em ordem de ano (do mais antigo ao mais recente).

3) Repetições – Se há várias obras do mesmo autor, substituo os sobrenomes e nomes repetidos por uma pequena linha (6 traços sublinhados).*

4) Conteúdos – Verifico se todas as referências contém data, título, cidade e editora.

5) Paginação – Volto ao início procurando itens com artigos e capítulos para ver se coloquei o intervalo de páginas específicas de cada um.

6) Links –  Em caso de links, costumo substituir urls imensas por versões reduzidas por um encurtador (tipo Google Shortener).

7) Formato – Releio tudo mais uma vez verificando se todas as informações estão no formato pedido pelo local de publicação (e isso varia muito, tipo modelo Chicago, ABNT etc.).

8) Alinhamentos –  Por último, seleciono tudo e padronizo os espaços entre linhas (1,0), os espaços entre parágrafos (12pt) e os recuos (primeira linha: 1,25).

9) Citações no texto –  Vou ao início do arquivo e faço uma busca por parênteses, isto é, aperto Ctrl-L e digito ( . Isso me ajuda a localizar citações pelo ano. A cada referência encontrada, vejo se a obra está na lista bibliográfica. É útil trabalhar com duas janelas de arquivos lado a lado, uma com o texto, outra com a bibliografia. Dá bastante trabalho, mas compensa. Evito esquecer obras inteiras nas referências e corrijo errinhos de datas (por exemplo, obras citadas como 1996 no texto e como 1997 na bibliografia). Caso existam referências em notas de rodapé ou notas de fim de texto, verifico os autores citados lá também.

10) Referências não citadas – Se for um trabalho grande, verifico tudo ao inverso, isto é, se todas as obras listadas nas referências bibliográficas estão referidas no texto. É um pouco de exagero, eu sei. Mas imaginem que só durante a impressão da minha dissertação de mestrado é que descobri que não se podia colocar autores na bibliografia que não estivessem citados na tese! Foram horas de estresse editando a lista.

Revisando o Texto

11) Limpar excessos – Começo eliminando as palavras-daninhas, aquelas que mais uso sem necessidade, tipo: eu (como em “eu vi”, por exemplo), muito, mas, mesmo, que, também, bastante, meu, minha, sempre, ou seja etc. Tento jogar fora também generalizações sem fundamento, coloquialismos, jargões, chavões e clichês (alguns exemplos aqui).

12) Eliminar repetições – Junto com a primeira limpeza, busco cortar ou substituir palavras repetidas (ou similares) muito próximas. É um desafio escrever um texto sobre objetos, por exemplo, e não escrever “objetos” a cada duas linhas! Haja criatividade. A providência seguinte é reduzir o uso de vocábulos-muleta típicos do texto acadêmico como “questão”, “crucial”, “importante”, “relevante” “etc.” etc.😉

13) Evitar adjetivos e advérbios – Tento eliminar ao máximo o uso de adjetivos (ótimo, excelente, instigante) e advérbios (justamente, claramente, obviamente, desnecessariamente…). Deixo passar alguns quando escrevo resenhas ou comentários mais opinativos.

14) Reduzir frases longas – Outro dia sugeri aos meus alunos que revisassem seus textos com um critério bem simples: todas as frases com mais de 3 linhas deveriam ser redivididas. Foi ótimo! A chance de se enrolar com uma frase longa é bem maior do que com uma frase curta.

15) Rever citações longas – Evito ao máximo incluir extensas citações de autores nos meus textos. Sempre que consigo, traduzo suas ideias em paráfrases (ou seja, explicando o que eles querem dizer com as minhas palavras) ou utilizo citações curtas e conceitos essenciais. É uma preferência minha como leitora. Acho mais agradável ler um texto com um narrador só e não cheio de colagens.

16) Eliminar voz passiva – Frases com sujeito oculto ou indeterminado quase sempre são reflexo de um argumento ou situação de pesquisa mal esclarecidos. Nunca é demais perguntar quem faz o quê, onde, quando e como.

17) Melhorar a precisão – Reviso buscando trocar afirmações vagas, imprecisas e  relativas (como “em geral”, pouco, grande, longo, menor etc.) por informações precisas e, sempre que possível, comparativas.

18) Indicar fontes, datas e locais  – Sempre releio um texto avaliando se citei todas as fontes necessárias. Como leitora, gosto de dados específicos e de saber de onde vieram as informações, frases, imagens etc. Acho tudo mais interessante quando conheço o contexto, as condições de produção, tempo e lugar.

19) Sintetizar a argumentação – Um dos problemas mais comuns nos textos que reviso (e nos meus!) é a repetição de ideias. Já repararam? A gente se apega num argumento e fica repetindo, repetindo, de diferentes maneiras, nem sempre criativas. Pra mim, esse é um dos momentos mais difíceis da revisão: avaliar se realmente estou avançando ou apenas repisando uma ideia já apresentada ao leitor – essa pessoa enjoada e preguiçosa que nos abandona ao primeiro enfado!

20) Assumir as próprias falhas – Nem sempre dá para consertar tudo numa revisão. Aliás, nunca dá para consertar tudo numa revisão! Prefiro deixar claro as falhas que consegui identificar e suas justificativas. Mil vezes um autor consciente de seus problemas do que o arrogante-profeta-sabe-tudo.

21) Apontar caminhos – Uma das falhas de todo bom texto é que ele acaba! Por isso, dar um fechamento é tão difícil quanto começar. Criei uma formulazinha para mim mesma: procuro terminar apontando desdobramentos possíveis, numa espécie de promessa do que eu faria se pudesse pesquisar e escrever mais.

22) Rever a abertura – Depois de todo esse trabalho, ainda falta uma revisão essencial: a do primeiro parágrafo. Nada mais chato do que começar lendo: “esta tese é sobre um assunto que surgiu no tempo em que eu estudava no lugar tal da vila tal da região remota tal onde um dia nasceu a nossa senhora dos começos”.  Um pouco de criatividade, uma epígrafe, uma pergunta, uma imagem… procuro achar algo para começar que não se pareça com um formulário carimbado em três vias.

Revisando Autoria, Título e Resumo

23) Dados biográficos – Erro no nosso próprio nome é uma das piores coisas que podem acontecer numa publicação! Mas acontecem; e com frequência, porque essas informações costumam ser redigitadas. Nas provas de um artigo que publiquei recentemente, meu nome inteiro estava trocado por outro! A mini-biografia veio correta mas eu me chamava Xan-Xin-Ling!  Essa é a parte da revisão que requer maior atenção pois somos mais desatentos com o que é familiar.

24) Revisar o resumo – Taí a melhor coisa que você pode fazer para a vida de seus futuros leitores. Tem que revisar em português e em inglês. Mesmo sem dominar bem a língua estrangeira, já ajuda passar um revisor automático ou usar o tradutor do Google pra verificar errinhos de ortografia.

25) Título – Escolher um título é pra mim a pior parte de todas! Sempre deixo por último para tentar melhorar e para evitar de vir errado. Já vi acontecer até em grandes editoras.

PS1: Faltou dizer que costumo terminar padronizando fontes, espaçamentos e outros detalhes formais, mas achei que “25 dicas” soaria melhor do que 26. Espero que sejam úteis!

PS2:  Nunca é demais lembrar: ao final da revisão, procuro enviar meu texto para um leitor(a) qualificado fazer críticas – e peço que sejam sem piedade! Quando chegam as correções e sugestões, descubro duas coisas: 1) tenho uma amizade verdadeira nesse mundo (só amigo pra fazer isso nos tempos de hoje); e 2) haja força para encarar mais uma – necessária – revisão! (E isso se provou verdadeiro aqui nesse post, conforme vocês podem ler abaixo.)

* Agradeço à Eva Scheliga por avisar que o correto, pela ABNT, é substituir o nome dos autores por 6 traços sublinhados. Agradeço ao Mário Magalhães por me ensinar que a expressão “de trás pra frente” está tecnicamente incorreta.

PS3: Esqueci de escrever aqui (na versão inicial) que o post também é para comemorar duas marcas redondas do blog: 170 mil visitas e 100 mil visitantes \o/

PS4: Listinha de livros para quem gosta do tema da escrita e de ver como os escritores profissionais lidam com as próprias dificuldades:
– “Truques da Escrita”, de Howard S. Becker (ed. Zahar) – mais nesse post.
– “O espírito da prosa”, de Cristovão Tezza (ed. Record) – mais nesse post.
– “Sobre a escrita”, de Stephen King (ed.Suma)
– “Palavra por Palavra”, de Anne Lamott (ed. Sextante)
(Tentando citar apenas quatro para não exagerar nas referências… assim vocês não percebem que sou obcecada pelo tema.)

 

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts sobre brincar de pesquisar, sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre a imagem: Desenho de uma canetinha Derwent (e de seu estojo, que ficou pequeno) que ganhei no encontro dos Urban Sketchers em Manchester. Usei a própria caneta desenhada para fazer as linhas pretas. O papel é a folha de rosto cinza de um caderninho Fabriano que comprei no evento. A parte branca foi feita com lápis de cor e caneta posca. O desenho veio a calhar, pois já estava pronto quando resolvi escrever o post. Nada como uma canetinha preferida na hora de fazer uma revisão, pois sempre que posso trabalho com papel à mão.

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Pequeninas verdades

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Essa semana, Elizabeth Gilbert escreveu sobre o amor que sente por sua melhor amiga e nova companheira, Rayya Elias. Em meio a um emocionado post no Facebook, citou uma frase de Rayya sobre a verdade:

A verdade tem pernas; ela sempre fica de pé. Quando tudo o mais parece explodir ou se dissolver, a única coisa que fica inteira é sempre a verdade. Então, já que é onde você vai acabar de qualquer maneira, você pode muito bem começar por aí.*

Parece tão simples: começar de uma vez pela verdade. No entanto, é um caminho fácil de contestar se você é cientista social ou, pior ainda, antropóloga. Verdade? Qual verdade? Verdade de quem? Aos nossos olhos, o mundo é sempre complexo, cheio de versões, nuances e curvas. Por fora ou por dentro, tudo pode ser.

A frase, porém, ficou martelando na minha cabeça. Lembrou-me de uma vez em que eu estava angustiada e cheia de dúvidas diante de uma situação difícil. Até que minha sobrinha disse:

–Tia, pára de ver o ponto de vista dos outros o tempo todo!

Como? Eu? Parar de relativizar tudo?

Sim, ela tinha razão. Foi de longe o melhor conselho que me deram naquele momento. Tem hora pra tudo, até para deixar a teoria para outra hora.

O problema de aceitar a ideia de que a verdade existe é encontrá-la. Para algumas, levamos a vida inteira nessa busca, na esperança de encontrar uma verdadezinha que seja, de pé em algum lugar. Para outras, entretanto, basta coragem; coragem de perceber quando o coração bate mais rápido, quando o tempo parece não passar, quando o sono vem tranquilo e justo, quando a simples ideia de abraçar algo (ou alguém) te transmite paz .

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Não, não estou cheia de grandes decisões para tomar. Ao contrário, escrevo sobre isso porque ando em busca de pequeninas verdades para o cotidiano: que tipo de desenho amo fazer, o que me traz energia, o que me traz serenidade, o que me faz rir, o que preciso evitar.

As imagens desse post fazem parte dessa busca. Na primeira, uma folha caída de Embaúba que encontrei numa visita ao Parque do Martelo, um oásis perto da minha casa. Eu tinha ido algumas vezes ao local (como vocês podem ver pelas flores desse post) quando, por coincidência, minha amiga Nathalia me chamou para um encontro com suas alunas do curso Desenhos do cotidiano. Foi dificílimo ir num dia de semana. Cheguei atrasada, deixei de dar atenção à Alice e aos Milhões-de-Trabalhos-Importantes para fazer, mas fui. Chegando lá, em pleno universo-das-coisas-inúteis-do-desenho, quem eu encontrei?  A dona-verdade, bem em pé na minha frente, desligando o barulho do mundo e me presenteando com uma hora de paz. Sessenta minutos que tantas vezes já perdi vendo o Nada na tv ou na internet.

No segundo desenho, uma outra história. Achei um assento livre no metrô chinês gelado. Tentava desenhar, mas ao meu lado sentou-se um rapaz com música altíssima nos fones de ouvido. A tal ponto que me movi dali, incomodada. Felizmente, sentei adiante e me reconectei com o personagem desenhado. De repente, o rapaz-dos-fones vem para o meu lado e diz: — Nossa, estava vendo você desenhar, que ótimo! O André Dahmer é meu amigo de infância, você conhece o trabalho dele? Digo que sim. E ele fica animadíssimo, parece criança feliz, e só por encontrar alguém que gosta de desenhar. De meu inimigo a meu amigo, pela varinha mágica da caneta.

Sobre os desenhos: Folha desenhada num caderninho Moleskine pequeno de aquarela que achei semi-usado na estante. Linhas com caneta Pigma Micron 0.2 coloridas com waterbrush (caneta pincel de água) e aquarela no local. Senhor com muleta no metrô desenhado com a mesma caneta, só que num caderninho bem pequeno que carrego na bolsa de ir para o trabalho. Gostei que a página escaneada acabou mostrando um pouco do desenho que tinha atrás.

Versão original da citação de Rayya Elias: “The truth has legs; it always stands. When everything else in the room has blown up or dissolved away, the only thing left standing will always be the truth. Since that’s where you’re gonna end up anyway, you might as well just start there.”

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Setembro/2016!

 

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Sobre o desenho: Flores para o calendário de setembro de 2016, baseadas na estampa de uma camiseta que tenho há muitos anos. Linhas feitas com uma canetinha nova que ganhei na viagem: Graphik line maker 0.1, da Derwent. É ótima, mas demora um pouquinho para secar. Depois colori com apenas três cores de lápis de cor. Ficou uma primavera meio família Addams, mas esse era o espírito.

Um bom mês para nós e feliz aniversário para todos os amigos queridos que nasceram nesse período tão bonito do ano. (Minha vó era do dia dez, então sempre fico um pouco emotiva quando faço o calendário de setembro…)

Para imprimir, clique no arquivo .pdf ou na imagem acima, em formato .jpg .

E já ia me esquecendo: abaixo, deixo o cartão que fiz para agradecer os muitos abraços e beijos de aniversário (21/08) que vocês me enviaram. O pessoal do Facebook já viu, mas sei que muita gente só vê por aqui. Obrigada!

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Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

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“I am not a replacement. I am person.”

Passei a parte londrina da viagem pensando nas mulheres. Nos museus, no metrô, na biblioteca ou nas casas onde fiquei, conheci um monte. No único dia em que fui sozinha a um restaurante de verdade, perto da universidade, ouvi a frase escrita acima (no desenho vermelho). A conversa girava em torno das agruras da vida acadêmica e uma professora dizia para a outra: “Eu não sou uma peça de reposição. Sou uma pessoa!”

Quantas vezes nos sentimos assim? Eu queria levantar e abraçá-la! (Mas me contive.)

A primeira menina à esquerda falava francês com os irmãos e os pais, uma família de pele negra, todos lindos. Ficaram  tão felizes de ver o desenho! Os irmãos mais novos zoaram a irmã adolescente, tipo “ae, ela desenhou você… tá se achando!”, naquele jeito que nem precisamos saber a língua pra entender. Ela só ria, a mãe e o pai babavam as crias.

Nos desenhos azuis à direita, a perna de uma menina muito branca com uma tatuagem abaixo do joelho onde se lia “S U N S H I N E”. Me deu uma dó no coração por ela, pela busca daquele sol que parecia tão distante, mesmo no verão. Enquanto eu prestava atenção em um monte de suas outras tatuagens, ela tirou da bolsa um espelho grande, em formato de concha, verde água. Pareciam todos saídos de um filme preto e branco dos anos 1940 colorizado artificialmente umas décadas depois. Só o espelho e o batom tinham cor…

Numa viagem mais longa, com o trem vazio, desenhei o padrão do tecido do metrô, para não me esquecer do lugar onde passei tantas horas. No cantinho direito, embaixo, a real dos almoços da viagem: sanduíche e chá por 7 libras.

Nas casas onde fiquei, conheci londrinas de origens chinesa, indiana e inglesa. Essa última era a mais jovem e aflita; e tinha a casa mais bagunçada do universo, mesmo com faxineira vindo cuidar várias vezes por semana (financiada pela intensa atividade dela como hospedeira do Airbnb). A bichinha tinha uma bagunça atávica, do tipo com armários e geladeira entupidos de tudo que “um dia vai precisar”, mesmo que seja um molho vencido em 2013. Ela estava ansiosa com uma entrevista de emprego, para a qual treinou quatro dias seguidos, mas cuja resposta foi negativa, infelizmente.

Na moradia anterior, em Machester (oops, essa não é londrina), tive brevíssimos encontros com a chinesa-inglesa e seu marido inglês-inglês: tudo impecavelmente limpo, arrumado, silencioso. Para completar o clichê: um jardim zen ao fundo, também meticulosamente bem cuidado e verdejante. Felizmente, para eu não passar o resto da vida sonhando em ser como ela, na sexta-feira, ao chegar do evento, percebo algo estranho. Um furacão tinha passado por ali? Sem saber a origem da bagunça, vejo roupas pelo chão, ouço música alta, barulho de latas de cerveja, portas batendo, conversas até as 3 da manhã. No domingo, ao me despedir deles, arrisquei: “– Houve um adolescente por aqui?” E o Gary (o marido), muito sem graça: “–Sim… desculpe a bagunça… foi meu filho (do primeiro casamento) que veio passar o final-de-semana conosco…Ele é impossível!”

Na última hospedagem, fiquei os primeiros dias sozinha no apartamento-casa de uma londrina de pai indiano e mãe inglesa. A casa falava tanto da sua dona: no lugar do espelho do banheiro, um texto sobre os valores da vida. Na parede da sala, a linda vista combinava com fotos de paisagens nas paredes. Na escadaria, malas enfiadas num canto e um retrato da dona aventureira enrolada numa cobra. Mas a cozinha era quem mais me contava: aromas, temperos, livros de culinária e vidrinhos com iguarias a perder de vista. Vegetariana, vegana talvez, apaixonada por comida. Foi a única casa em que tinha azeite! (Nem no supermercado tem azeite. Só em restaurante italiano.) Quando ela voltou, na última noite, descobri: trabalhava com terapias nutricionais, algo assim. Deixei um cachinho de uvas de presente.

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Do passado, conheci Charlotte Brontë (1816-1855) e um pouco de suas irmãs, todas escritoras famosas, mas cujos romances não li (ainda). Fiquei encantada com os documentos, cartas e retratos, principalmente os de autoria de Charlotte. Desde criança, ela brincava de escrever, produzir e ilustrar seus próprios livros. Antes de conseguir viver da escrita, aprendeu aquarela e fez carreira como professora, embora detestasse o isolamento e a falta de liberdade criativa da profissão. Foi publicada primeiro com pseudônimo masculino, até lutar para ter seu próprio nome de autora reconhecido.

Sobre os desenhos: Linhas feitas com canetinhas Pigma Micron azul, vermelha e preta num caderninho em formato japonês com papel comum feito pela Laloran para a marca Navigator, apoiadora do evento Urban Sketchers, onde estive em Manchester. Nas páginas de cima, carimbei a rosa vermelha e o buda preto numa loja Muji (que oferecia o mimo para clientes; mas eu não comprei nada e carimbei assim mesmo). Abaixo, no desenho da Charlotte, feito a partir de um retrato dela, colei um adesivo de florzinha que veio na embalagem de uma fita tipo washi tape.

Esse é o quarto post da série sobre a viagem que fiz a trabalho em jul-ago/2016:
Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

 

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A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)

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Agora que vocês já ficaram com pena, posso contar um pouquinho das partes boas da viagem? A imagem acima ilustra um dos melhores momentos que vivi na Inglaterra: a palestra do Nelson Paciência, português, desenhista, pai, marido, arquiteto, gêmeo, voluntário e lindo, pra completar. Me senti numa plateia do TED, daquelas que te enlevam, ora a sorrir, ora a chorar de admiração!

O Nelson estava em busca de um trabalho voluntário para desenvolver com desenhos. Busca daqui, busca dali, acabou na prisão de segurança máxima Monsanto, perto de Lisboa, onde as restrições são imensas. Os presos quase não vêem outras pessoas, tem pouquíssima (ou zero) área de sol, nenhum material de escrita e quase nada de atividade, passando cerca de 21 horas por dia em suas celas individuais.

Ainda assim, Nelson conseguiu aprovação para realizar o trabalho, desde que, lhe disse o supervisor, não conversasse sobre passado, crimes, religião, política e não desenhasse qualquer parte da prisão, nem móveis, salas, cadeiras, nada. Parecia uma missão impossível mas, a cada 15 dias, durante 9 meses, Nelson foi ter com o pequeno grupo (que variou entre 4 a 5 pessoas), levando materiais de desenho e pintura e, sobretudo, levando sua escuta sensível, sua história pessoal, seu interesse por aquelas pessoas que encontrou tão destituídas de humanidade. Começou por se apresentar, dar a conhecer sua família, seus filhos, sua Susana, seus cadernos e, sim, prometendo voltar. Levou fotos, revistas, livros ilustrados, pequenos objetos, brinquedos, super heróis.

Como grande desenhista de observação, Nelson buscava seduzir o grupo para o universo dos urban sketchers. Mas o ponto de virada do trabalho veio de outras bandas: surgiu ao incluir nas sessões a música e os desenhos de imaginação e de memória. (Como tantas vezes acontece no bom trabalho etnográfico, as certezas com que saímos de casa tropeçam e se transformam nos encontros com nossos interlocutores.) Na fala de um dos detentos, os dias de desenho tornaram-se não só os dias felizes na prisão, como os únicos em que se sentia de fato vivo.

Já seria muito tudo isso, mas a dedicação de Nelson ao projeto foi além. Realizou viagens para desenhar os locais que os presos gostariam de visitar, frequentou aulas de modelo vivo para lhes mostrar as imagens, trocou correspondência, pediu permissão para contar suas histórias, já ultrapassadas as proibições de fala iniciais, impossíveis de cumprir.

Como podem existir pessoas sem narrativas, sem nomes, sem projetos? Esqueçam seus passados, afirma a instituição. “Eu sou um número”, lhe diz um preso. Nos retratos abaixo, vemos o “82”, o “112” e o “92”, sem mesa, sem cadeiras, pelos traços fantásticos do Nelson.

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O desenho abre possibilidades para os trabalhadores da prisão e apresenta um novo mundo para os detentos. Nas palavras de um deles: “Primeiro, desenhar não significava nada; depois tornou-se a libertação”.  (“First, drawing was nothing, then it became freedom.”)

Saímos todos — plateia, presos, funcionários da Monsanto e o Nelson — melhores depois dessa experiência. Ele, principalmente, que a viveu, nos diz: “sou uma pessoa melhor de todas as formas, como pessoa, pai, marido, arquiteto, desenhista etc.” Conclui que aprendeu muito sobre os valores da dignidade, do tempo, da auto-estima; e de como são grandes os pequenos gestos de cuidado e amizade que todos nós precisamos para nos sentirmos gente.

Agora Nelson pensa como voltar, exigindo mais liberdade para desenvolver novamente seu projeto cujas marcas, como os nomes e as histórias, são impossíveis de apagar.

Só posso terminar dizendo: “Obrigada, Nelson, por compartilhar tudo isso conosco.”

Vocês podem ver outras imagens da palestra aqui. E o endereço completo do blog do autor para ficar registrado: http://nelsonpaciencia.blogspot.com/

Sobre o desenho inicial do post: Anotações feitas por mim durante a palestra do Nelson (realizada durante o 7o. Simpósio dos Urban Sketchers em Manchester) num caderno feito à mão com papel de aquarela. Acrescentei as cores depois em casa, porque os eventos eram muitos e não tenho (ainda) habilidade de escrever tanto e pintar ao mesmo tempo.

Esse post é o terceiro da série sobre a minha viagem a trabalho de jul/ago-2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

Espero que vocês não se cansem, porque dá para fazer mais uns dez posts sobre a viagem!

 

 

 

 

regentsparkid


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Viagem anti-inveja (Parte 2)

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Continuando a saga anti-inveja-viajante, narro para vocês minhas agruras na terra onde o verão dura alguns dias e é um pouco mais frio do que o inverno carioca. Dá gosto de ver as carinhas felizes das pessoas no parque, aproveitando umas nesguinhas de sol! Como em todo lugar, as almas se dividem entre as sonhadoras, otimistas, com vestidos leves e bermudas, e as realistas e previdentes, enroladas em mantas e lenços, pois a chuva e o vento hão de surgir. Eu estava em qual turma, adivinhem?

Começando pelo fim, porque foi tanta informação, que já não sei se me recordo do início:

* Cuidado quando comprarem passagem barata pela British Airways: vocês podem acabar correndo os 1000 metros rasos no aeroporto de Madri para entrar num avião da Iberia cheio de aeromoças raivosas porque os passageiros não falam espanhol. A comida e o pãozinho são atirados no seu colo, é pegar ou largar. E eu ainda morrendo de sede porque, depois de jogar a garrafinha de água fora para passar no Raio-X, me dei conta de que só tinha libras num mundo de euros. Probleminhas insignificantes quando o principal acontece: pouso seguro, malinha velha carcomida rolando na esteira, ufa.

* Aliás, foi uma aventura feita de ufas, porque meu eu-anti-viagens boicotou meu eu-planejativo. Imaginem que eu ia ficar 4 dias no bem-bom-0800 da casa de uma amiga querida, e na hora de entrar, o que acontece? A chave não funciona. Quem lembrou de testar a chave quando a amiga gentil lhe entregou? Foi pro brejo o meu post onde eu ia ensinar vocês a viajarem em libras com uma conta bancária em reais… Mas viva a internet: arranjei um quarto no Airbnb em menos de  30 minutos, pois era o máximo de tempo que eu podia gastar antes de voltar para a biblioteca. Pelo menos, pensava eu, minha amiga chegaria das suas mini-férias e me mandaria uma mensagem explicando o problema da fechadura. Oops, só que não: com ela, a chave funcionou perfeitamente! Como diria Alice-no-país-das-maravilhas, o coelho passou por aquela portinha, eu não!

* Feliz ou infeliz, a grande vantagem de não entender o que os taxistas estrangeiros-como-você falam é que basta murmurar “ok, ok”, “yes, yes”, Brazil, Rio, Olympics. Encerrada a conversa. Mas no único transporte possível às 3:30 da madrugada, o motorista falava pelos cotovelos, e acabei entendendo que ele tinha 12 filhos, 10 netos e não sei quantos bisnetos; detestava a internet e o Facebook, morou na Holanda muitos anos, mas gostava mesmo era da Inglaterra. Ok, seu moço, obrigada, me deixa quieta, são três e meia da manhã!

* O quarto alugado às pressas até que era legalzinho. Só um detalhe: no alto de uma ladeira! Gente, porque não pintam essas armadilhas de vermelho nos mapas? Nem num super street-Google a gente vê direito quando a rua sobe. E lá vou eu, morro acima, ter um “lovely view” de um bairro na zona 2… Então, aviso-útil para futuros usuários de Airbnb: desconfiem quando um anúncio diz que seu quarto terá uma vista linda. Se não for de frente para a praia… só pode ser porque é morro acima!

É isso por hoje! Foi só o finzinho da viagem mas, se vocês estiverem se divertindo, prometo que continuo a série.

E para alguns que me escreveram preocupados, como dizem os ingleses, numa gramática duvidosa: “no worries!”. Ou, como disse melhor o Caetano, “é tudo só brincadeira e verdade”.

Este é o segundo post da viagem que fiz a trabalho em jul-ago/2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

Sobre o desenho: Aquarela feita num caderninho tipo japonês com papel comum, depois com alguns traços em lápis de cor. Foi uma tarde ensolarada (e cheia de vento) no Regent’s Park, com uma turminha simpática de mulheres que participaram do Simpósio dos Urban Sketchers em Manchester. Pintei sem linhas a lápis ou canetas, tentando sair um pouco do meu jeito habitual.

agosto2016id


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Agosto/2016 em viagem anti-inveja

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Passo o ano inteiro invejando as pessoas felizes do Facebook, com suas fotos de praias, sorrisos e passeios mundo afora, enquanto balanço no metrô, morrendo de preguiça de trabalhar. Agora, sou eu que estou viajando, mas fiquem tranquilos: prometo que está tudo péssimo. Aqui chove fazendo sol, e faz sol quando chove. Ou seja, o guarda-chuva nunca está na sua bolsa quando você precisa.

A comida é tão apimentada que até uma sopa de legumes te faz beber 5 litros d’água. Admito, a água é de graça e potável da torneira, mas os restaurantes não têm comida depois das 21:00 horas e o excesso de tapetes dá alergia até em quem nunca espirrou. Os ônibus têm hora marcada para chegar, mas são tão silenciosos que você se distrai no celular e não percebe que chegaram. Quando nota, já foram, e lá se vão mais 7 minutos e meio até o próximo!

Você economiza ficando num quartinho do Airbnb, mas no dia seguinte descobre que têm passarinhos na janela para te acordar às 5:35 da manhã. A cerveja é quente, as casas são velhas, os sotaques são impossíveis e os eventos têm música tão alta que ninguém consegue conversar. As pessoas te humilham distribuindo cartões coloridos feitos no Japão e ainda por cima ficam naquele vai não vai estranho porque nunca sabem com quantos beijos se despedir. Os patrocinadores te enchem de brindes, você é obrigada a comprar os livros dos amigos e depois acaba com a coluna para arrastar uma bolsa com 19 quilos sabendo que, no final do dia, não haverá farmácia aberta para comprar Dorflex.

Os banheiros públicos têm água quente, a Universidade faz treinamento anti-incêndio e te oferece WiFi gratuita que só termina de funcionar muitos quilômetros depois. Ok, até seria bom se você não se arrependesse da fortuna que gastou colocando um chip importado no celular! Na televisão, mulheres normais, de cabelos brancos e sem maquiagem, apresentam programas sobre arqueologia em horário nobre. Ah, e não falei dos preços… Custa quase meio salário mínimo para ter um Riocard com nome de ostra por uma semana, e são tantas linhas de ônibus, metrô e trem, que você se sente na obrigação de acordar cedo e ir para algum lugar!

Viu, gente, nada de inveja. Se vocês estão no Rio, sofrendo com os estudos para as provas de mestrado ou com os bloqueios olímpicos, fiquem tranquilos pois minhas férias têm sido só trabalho e sacrifício…

Alguém adivinha onde estou?😉

Segue o calendário de agosto! Tive que improvisar fazendo uma montagem no Photoshop com a imagem das bolinhas porque não tenho acesso a scanner daqui.

Vocês podem imprimir a imagem em .jpg ou em .pdf.

Este é o primeiro post da viagem que fiz a trabalho em jul-ago/2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)