Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Fevereiro/2019 – Enfrentando medos

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Pessoas queridas, aí vai o calendário de fevereiro, com o PDF para imprimir (em maior resolução).

Sei que estou publicando pouco aqui no blog, mas não foi dificuldade de escrever, desenhar ou de ter assunto… Foi medo.

Para muitas pessoas, sentir medo se traduz em raiva e autoritarismo — aposto que vocês conhecem gente assim… Pra mim não. Tenho pesadelos e vontade de ficar quietinha, remoendo as maldades do mundo. E são tantas!

Quero superar essa fase. Foi pra isso que criei esse blog. Foi pra criar coragem! É pra seguir em frente que venho desenhando e escrevendo há quatro anos, um clique de cada vez. Vambora?

Não se preocupem.

Quando escrevo sobre um sentimento, ele mais ou menos já está passando. A verdade é que, em janeiro, superei muitos medos! Vendi meu carrinho antigo sozinha, encarei uma descupinização dos armários da casa, fiquei firme numa fotocoagulação a laser na retina, fiz todos os exames anuais meus e das crianças, acompanhei as primeiras aulas de surf da Alice, aprendi a comprar ingresso pra São Januário, enfrentamos juntos os 50 graus na renovação (e no resgate) das novas carteiras de identidade, fiz minhas primeiras aulas de Photoshop profissional, terminei a revisão técnica da tradução de um livro, marquei uma biópsia, aprendi umas 269 siglas do sistema administrativo da UFRJ,  apertei forte a mão do meu filho no dia do resultado do Sisu e consegui deixar minha filha andar pela primeira vez de ônibus e metrô sozinha nessa cidade que mata Marielles, Douglas e Maria Eduardas…

Alguns foram medos grandes, outros bem pequenos, mas fomos nos encarando. De vez em quando, me pego pensando que são aflições tão idiotas perto das que passam as pessoas. Mas hoje não vou reforçar essa ladainha.

Queria dizer pra vocês (e pra mim): nossos medos são legítimos. Podem parecer bobos, porém não surgiram do nada. Tem uma parte imensa da sociedade que nos quer com medo, para que a gente tenha vontade de ficar em silêncio, num canto.

Tem dias de se esconder, sim, e tem dias de encarar. Que a gente possa se apoiar para que, cada um, na sua medida, no seu tamanho, no seu tempo, enfrente seus medos e tome as decisões que achar melhor. Que o respeito e a humildade prevaleçam.

Muita força para todos que estão nesse momento dando seus passinhos de formiga ou grandes pulos de canguru para enfrentar o que temem.

E meu abraço muito muito apertado para dois amigos queridos nesse mês que começa. Um deles acaba de perder a mãe para um câncer, e ainda lembra de ser doce e cuidadoso com todos; o outro acabou de contar aos pais (religiosos) que é gay — um imenso passo de aprender a se amar, amar e ser amado.

Obrigada a vocês dois por, mesmo sem saber, me ajudar tanto a lidar com os meus próprios medos.

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Sobre o desenho: O calendário de fevereiro/2019 foi feito a partir de algumas aquarelas que, depois de escaneadas, viraram um “padrão” (pattern, no Photoshop). Os desenhos e o rapport (nome do conjunto básico de uma estampa) foram produzidos num Workshop que fiz em janeiro no Atelier Chiaroscuro (Chiara Bozzetti), em parceria com a Estampaholic (Patrícia Capella). Seriam páginas e páginas para explicar como faz — fica para um outro post. Estou aprendendo bastante (com aulas extras da Patrícia) e espero ir compartilhando com vocês em breve! Minha pintura preferida foi essa do galhinho de eucalipto, feita a partir da observação, no verso de um papel Canson Aquarelle, com rascunho a lápis, depois colorido com as tintas da minha paleta.


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Janeiro/2019 – Viva o macarrão!

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Pessoas queridas, aí vai o calendário de janeiro/2019 com minha homenagem ao macarrão, esse incrível invento da humanidade. É a comida preferida dos meus filhos, de longe! Aqui em casa, toda quarta e domingo tem alguma massa no jantar — e ai de mim se mudar o cardápio. Se deixar pelo Antônio, comeríamos só espaguete a vida inteira, mas eu e a Alice forçamos umas variações de vez em quando.

Simples, econômico, quente, festivo, solidário, amoroso, inclusivo: esse é meu desejo para todos nós no ano que se inicia.

Aqui vai o PDF para imprimir (em alta resolução).

O calendário anual segue abaixo ou em PDF.

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Abaixo, reproduzo a homenagem que o Antônio fez ao aniversário do Matisse, em 31/12:

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Henri Matisse – 1941

Todo ano eu faço um post aqui sobre o aniversário do Matisse, que nasceu dia 31/12/1869. Hoje ele teria 149 anos. Eu sempre posto um quadro dele junto, pra ilustrar o meu obrigado a ele por ter mudado a minha vida, e esse ano eu escolhi essa pintura que parece tão calma, simples, despreocupada, mas que foi feita no período mais difícil da sua vida. Isolado em uma França destruída ocupada pelos nazistas, em plena Segunda Guerra Mundial, sem notícia alguma da sua filha mais velha, que tinha entrado na Resistência, sido presa, torturada e levada a um campo de concentração e de sua mulher, já idosa, que tinha sido presa também por apoiar a oposição. No mesmo ano ele fez uma cirurgia extremamente invasiva que o impossibilitou de andar bem pro resto da vida, não podia ficar mais em pé nem pra pintar. Suas pinturas foram banidas como arte degenerada pelos fascistas e várias foram saqueadas e perdidas durante esses anos.
E mesmo com todo esse sofrimento ele pintou quadros como esse. Que muitos na época diziam parecer ter sido feitos por crianças. Longe de conformismo, alienação ou indiferença. justamente nos momentos mais difíceis, em tempos de guerra e de morte ele pintava para se lembrar do que é a beleza, o amor, a tranquilidade. para não esquecer. (Antônio Kuschnir)

Sobre o desenho: Linhas feitas com canetinha de nanquim descartável Pigma Micron 0.05, depois coloridas com lápis de cor Polychromos. O original está com mais nuances de amarelo e laranja, que o scanner não captou. Foi um desenho que levou horas e horas para ficar pronto, daí o atraso, desculpem!

Você acabou de ler “Janeiro/2019 – Viva o macarrão!“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2019. “Janeiro/2019 – Viva o macarrão!”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Jc. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Dezembro/2018 em cubos

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Sempre fui apaixonada por quebra-cabeças — seja de peças recortadas, de labirinto, de lógica ou até lego. Por volta dos 13 ou 14 anos, ganhei um cubo mágico. Consegui fazer a primeira fileira, mas não avançava além disso. Um dia, de tanto pensar e tentar, sonhei com a solução para a camada do meio! Acordei de madrugada com o coração batendo: testei a sequência e deu certo!

Dali em diante, porém, não teve jeito. Acabei apelando para um manual que ensinava as etapas finais: fazer a cruz na base, colocar os cantos no lugar, rodar esses cantos e, quando menos se espera: o cubo fica pronto. Parece mágica!

Ao longo dos anos, nunca me esqueci das primeiras partes, mas sempre preciso da cola para terminar.

Antônio herdou meu amor pelos quebra-cabeças (imaginem que delícia ter filho pequeno que fica horas montando quadros de 300 a 1000 peças!). Quando cresceu, ficou fascinado pelo cubo. Como já estávamos na era da internet, aprendeu as séries finais no Youtube. Hoje em dia, faz tudo de olho fechado em 1 minuto e meio! Ao contrário de mim, o bichinho nunca esquece a série inteira.

Achei que o cubo embaralhado seria uma boa metáfora para a fase que estamos passando: um desafio que parece impossível de desvendar! Ao contrário do brinquedo, porém, ninguém tem o manual para os próximos movimentos.

Aí vai o calendário do mês de dezembro para imprimir em .pdf (em alta resolução).

Desculpem o atraso de alguns dias. Foi uma semana puxada no trabalho e a minha internet de casa anda uma verdadeira catástofre (assinatura NET cara e ruim… grrr).

O blog completou 5 anos em 6/11/2018 — portanto, estamos começando a 6ª sequência anual nesse mês de dezembro! Em 2019, vou tentar postar com mais antecedência (me cobrem).

Bom dezembro pra todos nós! Vamos tentar pensar em pequena escala? Que venham sonhos e soluções ao menos para a próxima fase.

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Sobre o desenho: Fiz desenhos de cubos em três posições diferentes utilizando caneta de nanquim descartável preta (Pigma Micron 0.2). Depois escaneei, copiei e colei um monte deles no calendário ainda em preto e branco, variando as posições. Imprimi todo o conjunto e colori à mão com lápis de cor Polychromos. Ficou tão bonitinho… Pena que, ao escanear novamente (a versão colorida), o laranja quase não se diferenciou do vermelho! Ajustei um pouco as cores no Photoshop, mas ainda assim não ficou como no original. Espero que vocês gostem mesmo assim!

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Dezembro/2018 em cubos”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3J2. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Resiliência

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Uma das coisas mais difíceis na vida é recomeçar — cair, levantar, insistir, fazer, mesmo quando o corpo dói e a tristeza invade.

Mergulhei numa espiral de desalento e apatia, alternada com breves momentos de energia e ação. Começou com o incêndio do Museu Nacional e veio se arrastando. Não sei vocês, mas meu desânimo costuma gerar medos, pesadelos, noites insones e um vício amargo pela tela do celular.

Não recomendo.

Tive forças por saber que já fui e já voltei algumas vezes desse labirinto.

Aprendi tarde que existia uma palavra pra isso: resiliência. É aquela capacidade do boneco João-Teimoso de voltar a ficar de pé mesmo quando o empurramos ao chão.

A diferença é que, ao contrário dos seres humanos, o João-Teimoso é construído pra isso. E nós? Como voltamos a sorrir e a acreditar? Como retomamos o trabalho de ter ideias, escrever, publicar, estudar, ensinar?

Pra mim, está sendo um processo. Tem o tempo. Tem as mãos e os abraços dos meus amores. Tem a força e a cumplicidade dos estudantes. Os áudios dos amigos no zap. Tem a aquarela e o trabalho. Tem medicação para os momentos de emergência.

Ainda estou desconcentrada para leituras longas; e ainda estou insegura com um monte de coisas.

O que me ajudou a sair da inércia e vir aqui hoje foi pensar em todos que estão angustiados tentando escrever trabalhos de curso, TCCs, dissertações, teses, artigos e até relatórios pra Fapesp…

Amores, eu precisava vir aqui dar um abraço em vocês, e receber esse abraço também.

Como nos diz lindamente a artista Lisa Congdon:

“Compareça, respire, faça o seu melhor, seja gentil, aprenda, repita.”

Prometo voltar, prometo não desistir, prometo que vamos rir disso tudo um dia. Combinado?

Sobre o desenho: Aquarela sobre o verso de uma amostra de papel Hahnemühle (Expression). A imagem foi feita a partir de lembranças daquelas paisagens que vemos do avião quando estamos prestes a pousar em alguma cidade bonita. Sempre tirei fotos dessas vistas, principalmente quando são campos e plantações. É um tipo de pintura bem terapêutica, sem regras, sem pensar muito.

Sobre resiliência: Na Wikipedia tem um verbete interessante na área da psicologia:

“A resiliência é a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas – choque, estresse, algum tipo de evento traumático, etc. – sem entrar em surto psicológico, emocional ou físico, por encontrar soluções estratégicas para enfrentar e superar as adversidades.”

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Resiliência”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3IT. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Novembro/2018 – Girassóis

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Os girassóis são flores incríveis, conhecidas por se movimentar como se estivessem olhando para o sol. Em dias nublados, se viram uns para os outros, buscando energia. Mesmo quando não há luz, se fortalecem por estarem juntos.

Retomo o blog com essa metáfora, agradecendo a força que emana de vocês. Cada clique, visualização, download, mensagem e, sobretudo, cada sorriso e abraço recebidos na vida real ou virtual é uma fonte de energia para seguir em frente.

Sintam-se acolhidos e abraçados de volta! Estamos juntos e somos resistentes!

Nesse mundo da pós-verdade, precisamos reafirmar o básico. Quais valores defendemos, quais princípios consideramos inegociáveis? Como diria uma criança de cinco anos: — Qual é o sentido da vida?

Que os girassóis nos respondam por hoje: — O sentido da vida está na cooperação, no compartilhamento e na luz.

Nesse mês, coloquei uma flor extra no dia 20, feriado que marca a homenagem a Zumbi dos Palmares, transformado recentemente no Dia da Consciência Negra. Os 388 anos de escravidão de negros e indígenas no Brasil não podem ser esquecidos. A liberdade é um dos pilares da Constituição de 1988, um bom livro de cabeceira para ler e reler sempre.

Aqui vai o calendário do mês de novembro para imprimir em .pdf (em alta resolução).

Que tenhamos um mês de foco e concentração. Meus objetivos de novembro: ler, escrever, estudar, ser a melhor funcionária pública que eu puder, contribuir para projetos sociais, fortalecer meus valores, abraçar meus amores e amigos.

E os objetivos de vocês, quais são?

Sobre o desenho: Fiz um girassol com base em fotos do Google. Desenhei um original de cerca de 3 cm numa folha A4 90gr, com contorno de canetinha 0.05 Pigma Micron, colorido com lápis-de-cor Polychromos. Escaneei a folha do mês e o desenho, copiando a flor em vários tamanhos, e depois juntando tudo no Photoshop.

Sobre girassóis: Recomendo muito a leitura de Van Gogh, Digitalis e a verdade sobres os girassóis, capítulo disponível online do livro maravilhoso de Luiz Mors Cabral que já comentei aqui.

O texto do post é inspirado na mensagem (abaixo) que recebi e também na imagem que minha querida professora de aquarela Chiara Bozzetti me enviou:

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Novembro/2018 – Girassóis”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3IH. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Precisamos escutar δενπρέπειναυπάρχει

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Desenho de Saul Steinberg, 1942

“Sou capitão do Exército, minha missão é matar.” | “O erro da ditadura foi torturar e não matar.” | “No período da ditadura, deviam ter fuzilado uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique.” | “Sou a favor da tortura.” (δενπρέπειναυπάρχει)

“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.” | “Sou preconceituoso, com muito orgulho.” (δενπρέπειναυπάρχει)

“Eu não corro esse risco [de meus filhos namorarem uma negra], meus filhos foram muito bem educados.” | “Fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Nem pra procriador ele serve mais.” (δενπρέπειναυπάρχει)

“Não te estupro porque você não merece.” | “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida.” (δενπρέπειναυπάρχει)

Pessoas que apoiam ou cogitam votar no δενπρέπειναυπάρχει estão abraçando todas as frases acima, exemplos bem documentados de sua ideologia fascista. Apoiar o fascismo porque “odeia o pt” e os “esquerdopatas” não é desculpa. Existem 13 candidatos à presidência e só um ultrapassa a fronteira da barbárie.

Mesmo perdendo — e ele vai perder, mais cedo ou mais tarde –, jamais esqueceremos o que δενπρέπειναυπάρχει representa. Pior do que os convictos é o voto disfarçado sob a ideia de “mal menor” ou “ódio ao pt”. As ideias por trás desse voto estão aí em cima, bem claras. Não há desculpa de “não li direito” ou “fui enganada” por “fake news”.

Sei que a maioria dos que me lêem concorda comigo. Escrevo para as pessoas que estão votando nele com o nariz tapado, olhando para o outro lado, enquanto deixam que apoiadores de δενπρέπειναυπάρχει façam o “trabalho sujo”, como tão bem analisou Everett Hughes sobre a Alemanha nazista.

Oitenta por cento de meus ancestrais morreram perseguidos ou em campos de concentração. Hitler foi eleito em nome de “salvar o país”, “melhorar a economia” e se livrar dos “corruptos”, exatamente como δενπρέπειναυπάρχει pretende. Uma vez eleito, Hitler mandou exterminar os “sujos” e “impuros”, matando pelo menos 6 milhões de pessoas.

Bloqueei ou desfiz amizade com todos os apoiadores de δενπρέπειναυπάρχει que identifiquei no meu perfil do Facebook. Ainda tive engulhos vendo a imagem da placa em homenagem à vereadora Marielle Franco rasgada por dois de seus apoiadores próximos. É um desafio continuar acreditando na humanidade.

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Desenho de Bruce MacKinnon

Não sei como vamos sobreviver a essa experiência, sinceramente… A cada relato de violência publicado, sinto-me novamente jogada no chão, como a mulher-justiça do desenho de Bruce MacKinnon. Uma ideia sufocada pela força bruta, prestes a sofrer um estupro ou uma sessão de tortura, impedida de ver, falar e respirar.

Que isso exista nas páginas policiais, onde as vítimas são majoritariamente negras, jovens, mulheres, lgbts, indígenas, lideranças comunitárias, já é bastante devastador.

Que isso exista como plataforma eleitoral, embrulhada com papel que promete acabar com a corrupção pelas mãos de um corrupto, é a tortura em estado bruto.

A todos que tinham essas informações e mesmo assim votaram em δενπρέπειναυπάρχει: não esqueceremos! Um dia, seu voto, seu silêncio, seu apoio, seus posts, suas declarações de ódio, suas mentiras, serão julgadas e condenadas.

“A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento. (…) Mas nada se poderá conseguir procurando garantir a segurança de uma parte da humanidade à custa de outra (…). Somente a justiça pode conferir segurança; e por ‘justiça’ me refiro ao reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os seres humanos.”  (Bertrand Russell, No que acredito, 1925.)

Steinberg — a imagem que abre o post e outras estão na Saul Steinberg Foundation.

MacKinnon — imagem feita em denúncia à nomeação de B. Kavannaugh, juiz indicado à suprema corte por Trump, apesar de acusado de estupro e assédio por várias mulheres nos EUA. Fonte aqui.

Everett C. Hughes — O texto a que me refiro é “Good people, dirty work”, capítulo do livro Sociological Eye. Fiz um PDF para quem tiver interesse.

Collor e seu discurso final em 1989 – as semelhanças são óbvias demais: aqui.

 

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Precisamos escutar δενπρέπειναυπάρχει”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Ir. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Outubro/2018 — #δενπρέπειναυπάρχει

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#δενπρέπειναυπάρχει — Porque lutar contra a violência, o racismo, a homofobia e a misoginia não é uma opção — é um dever, uma questão de justiça contra crimes hediondos.

#δενπρέπειναυπάρχει — Porque é preciso rejeitar um candidato e seus apoiadores que glorificam as armas, a tortura, o estupro e o extermínio de pessoas, manifestando seu ódio a negros, gays, lgbtis, mulheres e indígenas.

#δενπρέπειναυπάρχει — Para que a democracia não volte a ser ditatura; para que o holocausto e os crimes contra a vida não sejam negados; para que o jornalismo resista; para que as parcas conquistas dos direitos humanos no Brasil não retrocedam.

Na minha opinião, todas as escolhas nessa eleição são legítimas exceto quando o candidato apregoa as ideias acima. Basta uma pesquisa rápida para comprovar, através de vídeos, documentos e declarações oficiais, que temos um caso assim nas eleições presidenciais. Há um candidato com discurso criminoso, que deseja a morte (até de seu próprio filho, caso se torne gay ou case com uma mulher negra; e de sua ex-mulher), que apregoa o estupro e o extermínio de pessoas e de direitos.

Sei que a maioria das pessoas queridas que lêem esse blog concordam comigo. Obrigada por vocês existirem! ♥

Meu manifesto é para sensibilizar aquelas que estão indecisas. Não há dúvida possível nesse caso. Escolha qualquer candidato, mesmo que não tenha chances. Isso é legítimo. Deixe de votar, anule seu voto, vote em branco. Qualquer opção é melhor do que entregar sua representação cívica a um sujeito que defende tamanhas atrocidades em público — imaginem o que ele diz quando não está sendo gravado ou filmado!

Que as deusas nos protejam.

Para imprimir o calendário de outubro, aqui vai o .pdf em tamanho A4.

Para compartilhar o manifesto no Instagram:

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7 Coisas impossivelmente-sérias-relevantes-interessantes-e-dignas-de-nota sobre os assuntos em pauta:

♥ A frase que abre esse post foi inspirada numa citação de Nelson Mandela: “Superar a pobreza não é um gesto de caridade. É um ato de justiça”. (Discurso na Praça Mary Fitzgerald de Johanesburgo, em 2 de julho de 2005). No original: “Overcoming poverty is not a gesture of charity. It is an act of justice“.

♥ Em 2000, a Unesco e vários ganhadores do prêmio Nobel da Paz divulgaram um  manifesto reforçando seu compromisso em: 1) Respeitar a vida; 2) Rejeitar a violência; 3) Ser generoso; 4) Ouvir para compreender; 5) Preservar o planeta; 6) Redescobrir a solidariedade. Estamos num bom momento para reler o texto completo.

♥ Para entender a profundidade do racismo no Brasil, recomendo navegar pelo site Geledés. Entre as recentes estatísticas divulgadas, fica claro que a população negra é a mais afetada pela desigualdade e pela violência. Os negros são os que têm mais chances de serem asssassinados e presos; os que ganham os menores salários; a maioria dos desempregados; e a população mais subrepresentada politica e culturalmente. As mulheres negras são as maiores vítimas do feminicídio, da violência doméstica e obstétrica; do isolamento social e afetivo.

♥ No Brasil, a cada 19 horas, um LGBTI é assassinado ou se suicida devido à homotransfobia. Há um trabalho importantíssimo sendo feito e divulgado pelo site Homofobia Mata. Já são vários registros de ataques a gays realizados nessas eleições por apoiadores contrários ao #elenão.

♥ Somos o quinto país em número de assassinatos de mulheres no mundo. O Instituto Patrícia Galvão e a Fundação Rosa Luxemburgo lançaram em 2017 o livro Feminicídio #InvisibilidadeMata que pode ser baixado na íntegra. O site também disponibiliza um Dossiê sobre Feminicídio online. Também se multiplicam perseguições, ameaças e ataques a mulheres organizadoras de manifestos e marchas pelo #elenão.

♥ Por tudo isso, dia 29/09, milhões de pessoas sairão às ruas para gritar #elenão — veja aqui a lista de eventos em mais de 78 cidades brasileiras.

♥ Sobre os símbolos utilizados nesse calendário de Outubro/2018: as cores, as bandeiras e as setas são inspiradas no movimento Lgbti. Desenhei também signos do feminismo, da paz, assim como adaptações de símbolos dos direitos humanos (mãozinha) e dos animais (pegadas de patas).

Sobre o desenho: Fiz os símbolos primeiro com uma lapiseira grafite 0,5 (Pentel). Depois colori com várias canetinhas da Staedtler (triplus color e triplus fineliner) e da Sakura (Koi brush e Soufflé). Sobre as canetas, desenhei a maioria nesse post e lembrei de um desenho de 2015 com todas as cores das Sakuras:

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Você acabou de ler “Outubro/2018 — #δενπρέπειναυπάρχει“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Outubro/2018 — #δενπρέπειναυπάρχει”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Ia. Acesso em [dd/mm/aaaa].