Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

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Power Up em Maio/2016!

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Vamos fugir | Pr’outro lugar | Baby! | Vamos fugir | Pr’onde haja um tobogã | Onde a gente escorregue | Todo dia de manhã | Flores que a gente regue | Uma banda de maçã | Outra banda de reggae… (Gilberto Gil, Vamos Fugir)

Fizemos tantos planos em abril mas, como diria o Garrincha, esquecemos de “combinar com os russos”! No caso aqui de casa, os “russos” foram nossos corpos e anticorpos… Nas últimas semanas, nós três tivemos duas amidalites, duas contusões, algumas alergias e uma gastroenterite de derrubar, com direito a dois hospitais, várias picadas de agulha e uma tipóia (pra Alice, claro). Nem sei se o pior foram os incômodos físicos ou as horas e horas de espera nas clínicas dos planos de saúde e os gastos com remédios e médicos particulares… Foi um período de aceitar nossos limites. E de agradecer por termos ficado todos bem (eu ainda-quase).

Ausente aqui do blog por conta de tudo isso, pensei muito em vocês que programaram abril para se dedicar a escrever um capítulo da tese ou terminar a qualificação ou escrever um projeto. Secretamente desejei que todos estivessem sãos e fortes! Pior do que se sentir mal é a culpa de se achar incapaz de cumprir as próprias promessas! Sou a primeira dessa fila.

A inspiração para o calendário de maio veio de um vídeo inusitado sobre Corita Kent, uma freira que virou artista! Lá no fim do mini documentário, vi uma imagem criada por ela com a mensagem: “POWER UP” em cores próximas a essas que utilizei. Nas traduções da internet, achei um monte de significados legais para a expressão: energizar, dar força, recarregar, abastecer, ativar! Comecei o calendário por aí e fui atrás de um livrinho que li há uns anos sobre tipografia (Esse é meu tipo: um livro sobre fontes, de Simon Garfield, da Zahar). Me inspirei na Johnston, a primeira fonte considerada popular e de uso cotidiano, famosa por ter sido feita para o metrô de Londres. Minha versão está longe de correta, mas tenho certeza de que o deus-das-fontes-perfeitas me perdoa, só por hoje. Que maio traga um power up e tudo que o Gil fala na música: mais reggae, maçã e tobogã pra todos nós!

Sobre o desenho:  Utilizei canetinha Pigma Micron 0.2 para os contornos, colori com hidrocor Staedtler triplus color (canetinhas amadas vivendo seus últimos dias… chuinf), e fiz sombras com uma ponta pincel da Tombow n.79 (cinza claro quente).

Para o calendário: clique na imagem acima para imprimir em .jpg ou nesse arquivo .pdf

Links: A música do Gil tá aqui. O mini-doc sobre Corita Kent aqui (a imagem Power Up está em 3:33′). Cheguei nele através das dicas sempre ótimas da página Diário Gráfico. Para ver muitos significados de palavras, adoro esse dicionário online. E o livro sobre as fontes — acabei de descobrir — está praticamente de graça no site da editora!

(Por recomendação médica, as coisas-impossíveis ficam para um próximo post!)

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No que acredito

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“A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento.”

“Duas pessoas entre as quais haja amor perseveram ou fracassam juntas, mas quando dois indivíduos se odeiam, o êxito de um constitui o fracasso do outro.”

“Não há atalho para uma vida virtuosa, seja ela individual ou social. Para construir uma vida virtuosa, precisamos erigir a inteligência, o autocontrole e a solidariedade.”

“Mas nada se poderá conseguir procurando garantir a segurança de uma parte da humanidade à custa de outra (…). Somente a justiça pode conferir segurança; e por ‘justiça’ me refiro ao reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os seres humanos.”

Bertrand Russell, No que acredito, 1925

Essas frases saíram de um livrinho que caiu no meu colo essa semana. Ia dar só uma olhada, mas acabei lendo o pequeno volume inteiro! Que sabedoria a desse filósofo que escreve sobre temas complexos de uma forma tão clara e fácil.

3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Começou o primeiro semestre da UFRJ, e tenho duas turmas. Senti as mesmas apreensões de sempre: não vou dar conta, estou muito cansada, não tenho mais nada para dizer… Mas o encontro com os alunos e alunas reais foi ótimo. Propus exercícios novos em sala de aula (tanto para a Antropologia II quanto para a turma de Antropologia e Desenho) e acho que deu para nos divertirmos bastante! Depois conto mais aqui, se vocês quiserem — será que alguém tem esse interesse?

* Alice foi eleita representante de turma, junto com uma amiga. Fiquei feliz por ela. Por experiência (Antônio também já foi representante), sei que vai ser um caminho de muito aprendizado. Não é fácil.

* Antônio se apresentou com a peça Vida Severina, do grupo de teatro da escola. Foi lindo, emocionante, surpreendente! E claro que sou totalmente isenta para elogiar. No palco ele nem parecia meu filho!

Sobre o livro: Bertrand Russell, No que acredito, LP&M Pocket (tradução de André Godoy Vieira). Depois fiz uma rápida pesquisa no blog Brain Pickings e achei vários posts legais sobre o autor.

Sobre o desenho: Aquarela feita a partir de uma foto que tirei numa rua perto de casa. A árvore estava linda, toda colorida nesses tons. Estou tentando ser mais consistente no uso do meu diário gráfico, fazendo pelo menos um desenho por dia. Para não ficar de cerimônia, comecei essa nova série no final de um caderno Laloran antigo, detonado, pois tinha sido encharcado de água pelas patinhas do Ulisses… Assim não tem como ter pena de errar ou gastar.  A data no canto direito foi feita com um carimbo muito legal: “mini dater”. Não lembro de onde é o meu, mas consegui comprar com facilidade o refil da almofada de tinta. Para as flores, pintei direto com caneta pincel waterbrush e tintas Winsor & Newton. Estou tentando ser mais solta do que nos meus últimos desenhos com contorno. Aproveitei o momento de uma conversa telefônica matinal para pintar, e acho que a leveza refletiu as palavras sábias da minha amiga parteira: “penso, logo existo; penso demais, logo desisto”!

 

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Entrando em foco para Abril/2016

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Estou ficando uma pessoa insuportável que não come açúcar e acorda todos os dias às 6:00 da manhã, por motivo de idade e de colégio de filha. Quando o Antônio era pequeno, eu até levantava cedo, mas voltava pra cama correndo! (E a Alice me denunciava pra todo mundo, como já escrevi aqui.) Agora, às 7:15 já estou trabalhando e lendo sites tipo My Morning Routine, cheio de personagens horrivelmente certinhos. Escrevi para um amigo ontem: — Me ajuda, o máximo de rebeldia na minha vida está sendo acordar às 8:00 no sábado e entregar o calendário do blog atrasado!

Sem saber, a Andréa Cordeiro, que faz um trabalho lindo no grupo Bonequeiras sem Fronteiras, foi quem deu o empurrãozinho para essa vibe de produtividade. Ela me lembrou de  um blog que eu costumava ler há uns anos atrás chamado Vida Organizada, escrito pela Thais Godinho. Os assuntos são ótimos para quem está precisando de ajuda para gerenciar as mil demandas da vida.

Uma ideia simpática que importei de lá foi começar o mês fazendo uma listinha das coisas em que realmente preciso focar e me dedicar nos próximos 30 dias. Tento não escrever mais do que oito itens, pra ser uma lista de prioridades e não mais uma inbox abarrotada.

Comprei umas fichinhas na papelaria (5 reais o cento!), colei uns adesivos e comecei. Para vocês terem uma ideia, em março, listei sete objetivos: 3 pessoais, 1 do blog e 3 de trabalho. Depois acrescentei mais 3 de trabalho e os 4 aniversariantes do mês para quem eu queria comprar presentinhos. Ou seja, 14 itens. Parece pouco? Mas experimentem fazer… O resultado foi: completei 7, comecei 3, e ainda não cheguei em 4! Ou seja, para abril, vou tentar focar mais.

Para que serve tudo isso? Pra mim, essa listinha tem sido a bússola que me coloca de volta no caminho toda vez que as demandas externas me puxam pro lado (e isso vai desde navegar a esmo na internet até aceitar mais um parecer acadêmico). Fica mais fácil dizer “não” e, por mais paradoxal que pareça, também fica mais fácil dizer “sim” pra surpresas e boas oportunidades.

Bom final de semana, bom mês de abril!

6 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Sabe aquele dia em que você sai de casa certa de que vai enfrentar trânsito, filas e atendentes de má vontade? Pois na quarta-feira, tive uma manhã feliz: ruas livres, banco sem fila, funcionários públicos de bom humor e, para completar, gatinhos fofos sendo bem cuidados por uma idosa no jardim da prefeitura!

* Dica de Netflix da minha dentista e amiga Lúcia Deluiz: a série inglesa Bletchley Circle, toda protagonizada por mulheres que trabalharam como decifradoras de código na Segunda Guerra Mundial. São só três ou quatro capítulos por temporada. Vi a primeira e achei bem simpática.

* Da organização da biblioteca do Gilberto Velho, a qual estou me dedicando algumas horas por semana: achei uma pequena coleção da obra do antropólogo Thales de Azevedo, com todos os volumes dedicados e autografados, cada um mais bonitinho que o outro. (Link para uma bibliografia completa do autor.)

* Graças ao Mauro Ventura, descobri o Facebook do jornalista Tom Cardoso, com histórias de morrer de rir! (Link)

* Essa semana vi um filminho com a história do ponto de exclamação! Muita gente do mundo das letras desdenha desse sinal, mas eu amo e adorei a homenagem! (Link)

* Quinta-feira estive na banca de doutorado do Ricardo Barbieri, com colegas muito especiais. Foi um momento de aprendizado e cordialidade, daquelas ocasiões em que nos sentimos felizes por escolher a profissão. Para completar, ainda soube que o blog tinha ajudado o casal — sim, porque a Taynah foi fotógrafa oficial da pesquisa!– a atravessar a tese com um pouquinho menos de estresse. Viva vocês, leitores!

Sobre o desenho: Calendário de abril em .jpg  e em .pdf. As imagens desse mês são inspiradas em estampas da marca de tecidos inglesa Liberty, que acho lindas! Desenhei primeiro com canetinha de nanquim 0.05 Pigma Micron. Depois colori com lápis CaranD’ache aquarelável e, em algumas cores, com pincel hidrocor Tombow, uma delícia de usar! Andei estudando para melhorar a qualidade da imagem no Photoshop. Me digam se está imprimindo melhor (isto é, com fundo mais branco e linhas mais nítidas por favor)!

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Tese sem CEP. Será que dá tempo? (Parte 2/2 – Cronograma)

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“Quase tudo é muito interessante se você for fundo o suficiente.”  (Richard Feynman)

Há duas semanas escrevi aqui sobre a dificuldade de terminar a tese a tempo. Quem não passou por isso levanta a mão! Desvios no caminho, distrações externas, estradas laterais. Tudo acontece. E muitas vezes a culpa é do mundo lá fora mesmo.

Mas existe um tipo de atraso da tese que é interno, que está nas nossas mãos resolver. Não que eu soubesse disso na época em que fiz o doutorado ou o mestrado… Estava mergulhada demais nos meus problemas para olhá-los com perspectiva.

Logo que comecei a orientar, porém, percebi o drama. Sabem aqueles cronogramas bonitinhos que um dia copiamos de um amigo, que copiou de uma amiga, que copiou de outro amigo, que tirou sabe-se lá de onde? Aquele em que fazemos uma tabelinha contendo projeto-leitura-pesquisa-qualificação-análise-redação-defesa? Pois é.

Vamos analisar de trás pra frente? A defesa leva um dia, ok. Preparar o trabalho para imprimir e entregar para a banca leva dois meses (dois — não um, tá?). A “redação” é que nem reforma de casa: se você colocou 6 meses, ponha 12.

Pausa para os mitos da nossa área. Um professor super metido me disse uma vez que escreveu a tese de mais de 500 páginas em três meses. Vamos fingir que acreditamos que foi um ato de sabedoria suprema? Que ele não terminou um casamento, nem tomou antidepressivos e que tudo se passou na mais absoluta e iluminada criação? Não vamos não.

E chegamos ao ponto principal: o Grande Erro da maioria dos cronogramas (o meu incluído) é o pouco tempo previsto para a análise. Esse é o coração da tese. É nessa hora que nos tornamos autores, onde fazemos os dados conversarem com a teoria, onde construímos as fundações para a redação.  Se eu pudesse voltar no tempo, reformularia o meu cronograma separando um ano para análise e interpretação — isto é, uma conversa séria entre autor-dados-teoria-e-bibliografia. É o momento de desacelerar para poder aprofundar, como diz o Feynman na epígrafe do post.

Continuando nosso caminho de trás pra frente, restaram os dois anos iniciais do doutorado para incluir disciplinas, pesquisa, leituras e qualificação. Tá ótimo. Se for com foco, dá tempo sim. Leituras ou dados complementares sempre podem ser agregados na etapa da análise (apenas os realmente necessários!). A vantagem de reduzir o tempo inicial é que se chega muito mais rápido aonde realmente importa. Afinal, para que entramos numa pós-graduação tão difícil? Para nos tornarmos pesquisadores-autores ou para continuarmos o resto da vida repetindo o que já sabemos (ou o que os outros já disseram)?

E pra que serve essa conversa se não estou fazendo doutorado e nem pretendo fazer? Serve muito! Toda hora reincidimos nesse problema do cronograma-mal-feito. Por exemplo: quero escrever o post do blog, mas começo a parte livre do meu dia vendo vídeos de aquarela na Internet. Isso vai me ajudar ou me atrapalhar a terminar o texto? Por mais desculpas que eu invente… é óbvio que vai me atrasar. Se eu quero escrever o post, preciso escrever o post — primeiro. Simples assim.

Sei que é um exemplo bobo, mas era só pra dizer que os problemas de mal planejamento não começam nem terminam na pós-graduação. E a culpa não é da Internet. Da Vinci, Beethoven, Darwin e Mark Twain faziam listas para não esquecerem as suas prioridades. Quem somos nós para não planejarmos as nossas?

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts sobre o tempo pra fazer a tese (parte 1 do post de hoje), como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, em projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

2 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota da semana:

* Adorei o artigo da Rosana Pinheiro-Machado “Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica”. Recomendo!

* Eu e Alice sentamos para tomar um sorvete num shopping. Senta ao nosso lado uma senhora de uns 75 anos que desliga o celular e começa a praguejar e reclamar do marido para mim.
Eu retruco: — Por que a senhora não se separa?
E ela: — Ah, não dá mais; já conheço os defeitos; agora já estou com o pé na cova; e meus filhos iam me matar; temos netos lindos!
Ela faz uma pausa, mas continua: — E olha que ele já me chifrou muito! Quando foi fazer um trabalho em outra cidade por vários anos, eu ligava e atendia a quenga dele! Até hoje fica babando quando vê mulher bonita. [E imita o homem de boca aberta e olhar vidrado].
De repente, ela se dirige à Alice e diz: — Vai se preparando, hein, homem é tudo igual!
Eu só consegui dizer: — Que isso minha senhora? Ela é uma menina de dez anos!
E a mulher: — Ah, e você prefere que ela fique solteirona?
Dessa vez, eu e Alice respondemos ao mesmo tempo, indignadas: — Qual o problema?
E saímos dali conversando sobre essa triste senhora, com sua visão preconceituosa e machista, que reproduz os mesmos valores de que é vítima.
Conclusão da Alice: — Mãe, acho que dá uma boa história para o blog!

Sobre o desenho: Ampulheta de brinquedo que temos aqui em casa. Só de brincadeira, fiz várias medições para saber quanto tempo a areia demora para cair de um lado pro outro: varia de 1:11′ a 1:14′. Deve ter vindo com algum jogo de tabuleiro que se perdeu. Desenhei primeiro com canetinha descartável 0.1 no caderninho Laloran e depois pintei com aquarela Winsor & Newton. Para não ficar muito sem graça, incluí as palavras e as bolinhas (essas, por inspiração no artista indiano-canadense Prashant Miranda).

Sobre a citação inicial: Tradução bem livre do original “Nearly everything is really interesting if you go into it deeply enough.” Peguei numa página sobre o Richard Feynman, físico e autor que adoro de livros muito inspiradores sobre vida e ciência.

 

 

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Fup: amor, diferenças e defeitos

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“Suas diferenças, apesar de numerosas, eram superficiais; suas semelhanças eram poucas, mas tinham um alicerce: eram ligados pelo espantoso amor que tinham um pelo outro, uma amabilidade que ia além da mera tolerância, uma compreensão sanguínea daquilo que movia seus corações.” (Jim Dodge)

Era uma vez um avô imortal (Jake), um neto órfão (Miúdo) e uma pata gorda (Fup). Esse é o trio de personagens improváveis de um dos meus livros preferidos: Fup, de Jim Dodge. A cada vez que releio essa pequena obra, mais acredito na possibilidade desse “espantoso amor”, com a ternura de cada um poder ser o que é, de estar sozinho mas também acompanhado.

Vovô Jake é imortal, dado a excessos e vícios. Miúdo é um tranquilo construtor de cercas; Fup é uma pata esfomeada como um “aspirador empenado”, que gosta de uísque e de perseguir porcos. Os três se espezinham e se amam, na mesma medida. São poços de defeitos que o autor nos apresenta de forma sutil e bem humorada, como nesse trecho em que Fup reage à tentativa de ser educada por Jake:

“Se abrisse o bico sem fazer som algum, gesto mais ou menos entre um bocejo entediado e uma tentativa de vômito, significava discordância profunda; se isso fosse acompanhado de um som baixo e sibilante, com a cabeça abaixada e as asas levemente abertas, indicava discordância profunda e ataque iminente. Se enfiasse a cabeça debaixo da asa, você, o assunto e o resto do mundo enfadonho estavam dispensados.” (p.58)

As razões das coisas são complicadas, sente Jake. Às vezes só nos resta aceitar. Um de seus amigos nos emociona quando explica que mantém seu nome feio (escolhido por ele próprio em outra época da vida; como alguém que faz uma tatuagem e se arrepende depois) porque… “mantenho para me lembrar que a gente precisa viver com os próprios erros”. (p.73)

Pra seguir em frente sem saber direito o que está fazendo, Jake aconselha: intuição, razão, desespero. A intuição falha muito, mas quando funciona economiza um tempo enorme, dá um salto no espírito! A razão é “fidedigna, mas lenta”, há que ter paciência. (E o desespero?, deixo para quando vocês lerem a história.)

São três personagens doces e potentes, capazes de jogar damas 999 vezes; de serem ao mesmo tempo imortais e desimportantes — como nós!

3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota da semana:

* Meu Photoshop é vintage, ano 2002. Instalei num notebook novo e continua funcionando!

* Comecei a abrir as 65 caixas da biblioteca do Gilberto Velho que herdei em 2012, mas que levei dois anos para reunir no seu local de destino: a linda sala-reserva da biblioteca do IFCS/UFRJ. Preciso da sorte e da imortalidade do vovô Jake. É muita emoção. Estou fazendo um diário para contar mais pra vocês.

* Ontem, último dia de aula do semestre 2015-2, os alunos se despediram de mim desejando “Feliz Natal, Feliz Ano Novo”. Vou sentir saudades dessa turminha de tão longa e boa convivência!

Sobre o desenho: Minha tentativa de desenhar as aventuras da Fup aprendendo a voar! Desenho com canetinha descartável 0.1, aquarelado com tintas Winsor & Newton em papel Canson Aquarelle 300gr.

Sobre o livro: Fup, de Jim Dodge, com tradução de Melany Laterman, publicado pela José Olympio (2007, 2ª edição), com apresentação de Marçal Aquino, na linda coleção Sabor Literário.

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Tese sem CEP. Será que dá tempo? (Parte 1/2)

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“Não é preciso muita força para fazer coisas, mas é necessária uma grande dose de força para decidir o que fazer.” Elbert Hubbard

Volta e meia alguém me pergunta:

— Será que dá tempo de terminar minha tese até o final do ano? ou …de fazer uma pesquisa em 6 meses? ou …de escrever a qualificação de doutorado até julho?

Penso muito sobre esses tempos, de vocês e os meus. Tenho chegado à conclusão de que o primeiro passo para se ter tempo (e fazer as coisas no tempo que queremos) é decidir primeiro pra onde vamos caminhar, qual é o nosso destino — no sentido de ponto de chegada.

Gosto de começar os exercícios etnográficos com os alunos pedindo para eles me dizerem qual é o CEP do local de pesquisa. Cep é ótimo: é específico, é preciso, é um código, é um espaço onde se chega num certo tempo por algum meio.

O problema é que a gente decide, digamos, ir à casa da Maria, em Maricá. É longe e no meio do caminho vamos parando na padaria, onde encontramos um amigo querido; depois passamos na farmácia… Às vezes nos distraímos tanto que até esquecemos que estávamos indo pra casa da Maria.

Com a tese, ou com qualquer projeto de médio/longo prazo, acontece muito isso! A vida cotidiana vai entrando no meio do nosso mapa e, quando nos damos conta… Qual era mesmo o nosso destino? Como o tempo passou tão rápido?

Nossa tese não tem CEP, né? A minha pelo menos não tinha. Era um pontinho lá longe depois de quatro — que pareciam longos — anos. E de repente esses “longos” já não existiam. O prazo ficou apertado! Várias vezes eu peguei estradas laterais que saíam do roteiro.

É muito difícil se manter fiel a um destino que leva tanto tempo para chegar e que exige tanto empenho para acontecer. Hoje em dia não tenho mais tese para terminar, mas continuo achando um grande desafio saber para onde quero ir e me manter nesse caminho, isto é, investir meu tempo nesse projeto.

Por isso, concordo tanto com a frase que abre esse post: o segredo é decidir pra onde queremos ir. Essa decisão por si só é uma fonte geradora de tempo, que nos mantém na rota do nosso desejo, seja ele qual for.

[…continua!]

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico, o blog tem posts sobre como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiências… nos truques da escrita, na elaboração de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Aprendi uma comidinha nova: semente de girassol crua (ou pode ser torrada) para colocar na salada ou para comer de lanche. É uma delícia e saudável.

* Ainda com energia para organizar a casa: pendurei quadros que estavam há mais de um ano no chão e coloquei um monte de ganchinhos na parede, finalmente estreando a furadeira que ganhei em 2015 — um sonho antigo!

* Escrevi um parecer de um artigo ótimo! É tão raro isso.

* Li um artigo muito bacana sobre Checklists, publicado na New Yorker.

* Vi um vídeo super criativo sobre como posicionar pessoas num desenho.

* E a melhor de todas: hoje estou voltando a publicar um post no dia certo, quarta-feira!

Sobre o desenho: Há tempos eu queria mostrar aqui como ficam lindos os pedaços de papel toalha depois de servirem de apoio para limpar os pincéis durante uma pintura em aquarela. Esse é o que estou usando no momento! É um papel toalha especial, um pouco mais resistente, que parece um tecido e dura bastante. Só comprei uma vez, e tenho o mesmo rolo até hoje. Acho que essa imagem vai para a página de Materiais aqui do blog. Como diz o Becker, mesmo uma peça aparentemente insignificante é essencial para uma quebra-cabeça ficar completo. Sem um paninho, a pintura não existiria. Achei que era uma boa ilustração para esse tema do tempo e do caminho.

 

 

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Prazeres secretos e Março/2016

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Alice está com uma nova rotina em 2016. Agora as aulas começam às 7:20 da manhã. Voltando para casa da escola, ela me disse: “Mãe, só agora entendi porque as pessoas ficam felizes quando chega a sexta-feira. A gente comemora porque pode acordar tarde no dia seguinte!”

Semana passada ela também estreou o uso do armário na escola — um locker de metal, desses que a gente vê em filme de adolescente americano. E pela primeira vez na vida, ela me pediu: “Mãe, cadê aquela sua coleção de adesivos?” Fiquei tão feliz de sentarmos juntas para ela escolher os que quisesse colar no armário novo.

Tenho uma caixinha onde guardo adesivos desde os doze anos. Com desenhos do Snoopy (Peanuts), a caixa está se desfazendo, mas é um dos meus objetos preferidos de memória da adolescência. Meus primeiros desenhos eram imitações desses adesivos, das coleções de amigas ou de personagens de revistinhas que eu mais gostava. Depois de desenhar, era só colar um contact transparente por cima e criar um adesivo novo. Assim, eu fazia de graça os “colantes”, como chamávamos, pois os originais eram caros e importados.

Durante a infância do Antônio e da Alice, começaram a aparecer no Brasil livros inteiros com dezenas, até centenas de adesivos. Imagina a minha felicidade! Antônio chegou a brincar muito com eles, mas a Alice nunca curtiu. Então fui esquecendo desse mundo.

Nesse mês de fevereiro, com volta à escola, e mais horário novo das aulas, entrei numa onda de reorganizar nossa vida e a da casa. Limpamos armários e estantes, doamos muitas roupas, brinquedos e livros, e providenciamos consertos que estavam pendentes desde o final de 2014. Tudo no espírito zen: manter apenas o que realmente usamos ou amamos.

No meio das arrumações, achei um livro de 1000 adesivos praticamente nunca usado! A Alice foi logo dizendo, meio marota: “Pode ficar pra você, mãe!”

Então cá estou, curtindo e compartilhando esse pequeno prazer secreto com vocês no calendário de março, cheio de adesivos do livrinho que a Alice me doou. É o único mês com desenhos que não são meus. Também estou usando os bichinhos para alegrar as minhas listas de tarefas do dia. Pela primeira vez na vida, estou “gastando” adesivos sem economizar! Vai entender, é um amor.

Uma das coisas mais legais de ser criança é que a gente pode gostar do que gosta sem dar explicações. Quando viramos adultos, tudo tem que ter justificativa. E se não tiver? E se pudermos aceitar?

* 7 Números impossivelmente-legais-interessantes-inúteis-ou-dignos-do-Lattes de fevereiro:

. Meu filho Antônio fez 15 anos!

. Atingi a marca de 32 mil e-mails enviados pelo Gmail, desde 2005.

. Levei três dias para agendar, mas apenas 12 minutos para fazer a vistoria do carro velhinho no Detran-RJ.

. Dois defeitos da casa que nos incomodavam por um ano custaram apenas R$25,00 cada para serem resolvidos (acendedor do fogão e fechadura da porta).

. 3 alunas novas fofas começaram a trabalhar como bolsistas no LAU.

. O blog chegou a 134 mil visitas e 80 mil visitantes.

. Hoje cortei 30 unhas humanas e 54 unhas felinas!

* Sobre o desenho: Como pode o mês mais curto do ano não acabar nunca? Meu fevereiro está assim! E o de vocês? Para ajudar, aí vai o calendário de março em .jpg  e em .pdf. As imagens desse mês não são minhas! São adesivos retirados do livro “1000 Bichos Adesivos”, da editora Usborne. O site da editora tem uma versão em português que traz um catálogo em PDF de todos os seus livros de adesivos disponíveis no Brasil.

Sobre o blog: Estou com algumas ideias e metas para o blog em 2016. Uma delas é voltar à pontualidade dos posts de quarta-feira (ou no máximo quinta de manhã, que não sou de prometer ser perfeita). Outra é melhorar a organização, criando um sumário de assuntos, livros e nomes citados. Também queria atualizar com mais frequência as respostas aos comentários e até responder perguntas de vocês em novos posts. O que acham? Têm alguma pergunta para me mandar? Podem enviar por e-mail se não quiserem ser identificados: karinakuschnir [at] gmail.

 

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