Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


Deixe um comentário

Vivendo sem borracha

rascunho2.bmp-001

Quando passo horas fazendo um desenho que sai certinho, como no calendário de julho, tenho uma sensação de conquista boa. Só que dura uns cinco minutos. Logo vem a irritação-avaliativa: tá cafona; tá igual ao guardanapo que a titia usa no Natal; tá parecendo uma sacola de supermercado; tá com cara de papelaria da Disney dos anos 1980. Tá certinho demais!

— Mas certinho é tão bonito…

— Né, não. Certinho é chato.

Difícil é ser irreverente como o Millôr, que dizia: “Viver é desenhar sem borracha”. Ou engraçada como a fada-fofa que fica nua e desafia: “se não gostares, a culpa é tua!” (Sylvia Orthof).

Ainda procuro o desenho com a imperfeição-que-saia-perfeita. Algo que não seja nem tão fruta-etiqueta, nem tão folha-de-teste-de-aquarela.

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* No caminho do post da semana passada tinha um apêndice. E dentro do apêndice tinha uma pedra. Como disse o poeta:

“Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”

Carlos Drummond de Andrade – Alguma poesia (1930)

* Em resumo-resumidíssimo: filhote com dor, filhote operado, filhote sarado!

* Durante o caminho da pedra para fora da barriga, sua única preocupação era: “Meu cabelo tá direito?”

* Já sem pedra, mas antes da alta, ele perguntava: “Quando vou poder comer pipoca? E bolo de chocolate?”

* No meio do caminho, passei uma semana enganando minha mãe no Whatsapp. Ela estava viajando a trabalho, meio doente ainda por cima, e não merecia saber que o neto estava no hospital. E enganada ficou até domingo… O mundo pelo celular é uma ilusão.

* Antes da pedra, a vida parecia tranquila. Na árvore em frente à janela do meu quarto tinha uma família de bem-te-vis, com dois adultos e dois filhotes fofos. O Google me fez achar que eram Cambacicas, mas não eram. Minha carreira de ornitóloga-de-araque foi pro brejo. Depois da pedra, não os vi mais.

* Ainda antes da pedra: acordei às 7:15 da manhã para assistir uma aula-aberta de História da Arte como parte de ser a super-mãe de um aluno do 9o. ano do Colégio Andrews. Foi linda: aprendi que a música Starry starry night é uma homenagem a Van Gogh. Valeu o sacrifício de acordar tão cedo.

Sobre o desenho: Tirinha de papel com pinceladas de aquarela para testar as cores dos desenhos de frutas que fiz para o calendário de julho/2015. A intensidade dos desenhos (do calendário) se deve muito ao fato de que pintei em papel próprio para aquarela (meu primeiro Arches, hot press!), e não no papel comum. As tintas foram quase todas Winsor & Newton e os pincéis usados foram entre os tamanhos 00 e 2. As linhas foram feitas sem lápis e borracha. Desenhei com a canetinha Copic 0.05 (que está fina demais, mesmo trocando o refil do cartucho de tinta. Acho que não valeu o custo.) Depois de tudo pronto, escaneei, acertei os tamanhos das frutas e “colei” na folha do calendário com ajuda do Photoshop. Abaixo vai a imagem (reduzida) da página inicial, do jeito que estava antes da edição!

frutas pequeno

 


8 Comentários

Artista, bicho, jardim

vangogh

“O artista é um bicho assim: a dor dá cor ao seu jardim…” (Juva Batella, em Do gato Ulisses as sete histórias, p.38)

Pela coragem de atravessar a cidade, pela paciência de encarar a fila, pelos sorrisos, pelos abraços, pelas flores, pelos carinhos, pelos compartilhamentos, pelas mensagens dos que não puderam ir, e pelos quase 150 Ulisses que vocês levaram para passear… muito obrigada!

Queria escrever sobre os livros que estou lendo, mas não terminei nenhum dos dois ainda… Também estou em crise de decidir o que quero desenhar, mas tanto os diários da Margaret Mee quanto as cartas do Van Gogh me levam em direção às plantas. Na falta de um jardim de verdade, fui para um imaginado (acima) e para um pequeno parque perto de casa (abaixo).

Sempre leio que o artista cria a partir das suas “referências de infância”. Tipo José Lins do Rego escrevendo sobre a vida no sítio do pai — história aliás lindamente transformada no livro “O menino que virou escritor” de Ana Maria Machado (ilustrada por Ciro Fernandes, ed. José Olympio).

Mas menina urbana tem lá referência?

Pensa daqui, pensa dali, chego à conclusão de que tenho umas memórias de coisa verde sim. As plantas da escola onde estudei até os 12 anos ocupavam a nossa falta-do-que-fazer nos anos 1970. Na hora do recreio, uma das minhas atividades preferidas era arrancar essa florzinha vermelha do pé, despetalar e sugar o miolo! É uma eca, eu sei… mas não tinha celular nem mp3 naquele tempo. E o ser humano gosta de fazer besteira.

hibiscos

Uma coisa divertida dessa busca pelo jardim perdido é usar o Google para descobrir o nome das plantas. Essa aí de cima é uma “Malvaviscus arboreus”, também chamada de hibisco-colibri pelos especialistas (porque não acredito em “nome popular” de planta).

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Uma amiga leu o post sobre os 3 Ps (paixão, paciência e prática) e me mandou de presente a linda ideia dos três Cs: Coragem, Coração e Consciência!

* Apesar da resistência, reli com a Alice “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof, e ela teve que admitir que achou muito engraçado.

* Um tio-cunhado leu o post sobre as críticas e me mandou de presente a história de quando ele entrou para a família. Depois de se hospedar na casa da minha tia-avó, ele ouviu-a ligar sorrateiramente para a futura sogra: — “Dida, tu sabes que ele tomou banho e deixou tudo impecável, como se o banheiro não tivesse sido usado!”

* A Cora Rónai fez uma foto incrível e escreveu um perfil muito simpático de um dos meus heróis no Rio de Janeiro: o Tony, que resgata, protege e doa animais abandonados, com a ajuda da Marluce, sua companheira.

* Participei a convite da Daniela Manica e da Marina Nucci de uma roda de conversa emocionante no IFCS com alunos e funcionários, sobre gênero, corpo e trabalho. Foi um momento marcante nesses quase dez anos de UFRJ, que me lembrou o amor por tudo que aprendi na escola das Amigas do Peito.

* Achei por acaso (e comprei por um preço ótimo!) o lindíssimo livro “Usos e circulação de plantas no Brasil”, organizado pela Lorelai Kury (ed. Andrea Jakobson).

* Três crianças disseram que leram de uma vez e adoraram o nosso “Do gato Ulisses as sete histórias”!

* Sobre os desenhos: Desenhos feitos no caderninho Laloran com aquarelas Winsor & Newton e lápis de cor Carand’Ache aquarelável. No primeiro, o jardim foi de imaginação, exceto pelo passarinho inspirado numa imagem do livro-fofo The Summer Book, da Susan Branch, que ganhei de presente há seculos da Dri. A frase à direita é de uma das cartas de Van Gogh para seu irmão Theo. Para o segundo desenho, colhi algumas flores de verdade caídas no chão, já bem murchas, coitadas, pois não tive coragem de arrancar do pé onde um beija-florzinho tomava seu café-da-manhã.


8 Comentários

Faz logo o meu autógrafo!

aliceulisseslendo

Alice, ontem à noite: — Mãe,  me dá o livro. Vou ler. Não posso chegar no lançamento sem ter lido né? ?

Eu: — Ok, filha, claro, tá aqui.

Alice, na página 42: — Mãe, adorei o Gatovsky. Ele é bem legal. Estão querendo comprar ele. Mas porque o Juva usa aspas ao invés de travessão?

Eu: — Os dois são certos… Ele preferiu aspas por causa das rimas.

03 Gatovski-007

Alice, aos prantos, invade meu quarto: — Mãe!!! A Babi morreu… a Babi morreu…

Eu, tentando consolá-la: — Eu sei, filha… Mas, pensa bem, agora a Babizinha que você tanto ama está para sempre no livro…

05 Fugaz-006

Alice, ao terminar: — Mãe, adorei!

Eu: — Que bom, querida!! De qual parte você mais gostou?

Alice: — De quando o Ulisses conheceu a Penélope!

Eu: — Esse também é meu capítulo preferido, filha!

05 Fugaz-003

 

Alice: — Gostei do livro, é bem legal. E é melhor do que “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof. [Implicando, porque ela sabe que eu amo esse livro.]

Eu: — Ai, filha, não fala isso! Eu adoro o livro do Ulisses, mas a Sylvia é imbatível!

Alice: — Mãe, pára de ser velha. Os desenhos dos bichos desse livro [da Sylvia] são horríveis. E faz logo o meu autógrafo!

[E mais não falei; porque os desenhos do Gê Orthof são maravilhosos… É só a minha filha sendo filha… heart]

06 Oz-006

Sobre os desenhos: Fiz a imagem que abre o post a partir de uma foto da Alice que tirei ontem mesmo. Desenhei com canetinha 0.05 e fiz umas aguadas de aquarela sobre papel A4 comum. O gatinho é o Charlie, que toda a noite faz companhia para a Alice ler. Depois de pronto, fui no Photoshop e encaixei no desenho uma imagem escaneada da capa do livro! Todas as outras imagens são ilustrações do livro novo. Abaixo, mostro pra vocês algumas ideias que tive antes de resolver qual seria o tipo de ilustração final — e isso levou mais de um ano!

2013 10 17 Desenhos Gato Ulisses esboços-001

Sobre o livro: O lançamento é quinta-feira, 11/junho, na livraria Argumento, a partir das 19h. Para quem não puder ir ou estiver fora do Rio, todas as informações estão no site da editora Vieira & Lent. Na semana passada, esqueci de publicar pelo menos um pequeno trecho da quarta capa:

“Ulisses viajou o mundo inteiro, um mundo de aventura, um mundo de cheiro. Foi bailarino, músico e marinheiro; foi artista de rua e gato em cativeiro. Também se apaixonou, e o nome dela é bonito. A fera se chama Penélope — como no mito.

Viaje com este gato, ao longo de sua estrada. Vamos repensar a vida, esta grande, grande charada.”

ulissesconvite

 

 

 


6 Comentários

O gato que virou livro

junho2015

Imaginem uma família crítica, agora multipliquem e elevem ao quadrado… É mais ou menos de onde eu vim. A tia mais fofinha era do tipo que olhava seus dentes antes de te dar bom dia. A avó pegava no colo e contava histórias, mas ai se você estivesse mais gorda. A redação da escola vinha com nota dez, ufa, parabéns; mas o filho da fulana escreveu uma com 60 linhas — quantas linhas tinha a sua mesmo?

A pessoa não sai ilesa vivendo 20 anos nessa espécie de bancada-Roda-Viva constante. Vira crítica também; ao cubo, três vezes. Isso não garante que vai ser boa em alguma coisa, mas até que favorece a profissão acadêmica… Adquire-se uma imaginação infinita para antecipar críticas.

Agora, joguem essa pessoa no mundo da arte? Ferrou. Num universo de parâmetros tão subjetivos, de mestres tão obsessivos, de imagens tão encantadoras… Como a pessoa pode se achar no direito de bater à porta? Não, de jeito nenhum. Me deixem aqui no meu cantinho rabiscando no caderno, que é melhor. Assim eu pensava.

Mas uma rede de amigos e até muitos da família (!) me empurraram porta adentro… Manoel, Nathalia, Arthur, Manya, Mário, Gilberto, Eduardo S., Clau, Bel, Mari, Ale, Robs, Joana, Malu, Sofia, Susi, Andrea, Hanny, Dady, Ronald, Elisa, Celina, Antônio, Alice, Vera, Cilene e, claro, o Juva, que escreveu, esperou, ouviu, aturou, incentivou, acolheu, elogiou, amou… Taí a coragem que vocês me ajudaram a ter! Meus agradecimentos infinitos também para os leitores desse blog, e aos amigos do Facebook, por tantas gentilezas, incentivos e apoios, principalmente em 2014, um dos anos mais difíceis da minha vida.

E um pote de sachê para o Charlie, a Lola e o Ulisses, meus gatos amados que aceitaram virar livro-de-verdade! (E não levem atum, porque a Lola é membro dos Atumhólicos Anônimos.)

ulissesconvite

Se estiverem fora do Rio, podem pedir online na Vieira & Lent !


7 Comentários

Um projeto todo seu

gatoautorp

“…se tivermos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos… (…) Trabalhar assim, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a pena.” (Virginia Woolf, Um teto todo seu)

Para milhares de pessoas, maio não é o mês do outono, dos taurinos, da crise… é o auge da temporada da série Preciso-Escrever-Meu-Projeto-de-Doutorado-Perfeito. Na maioria das áreas de ciências humanas, está todo mundo tentando finalizar um projeto estruturado, redondo, consistente, se-deus-quiser-aprovado-com-bolsa!

Como não tenho como ajudar a todos que me procuram, resolvi contar aqui algumas experiências nesse front. São episódios que me ajudaram (e ainda ajudam) a pensar o que é realmente essencial para criar um projeto.

* Paixão — Imaginem que logo nos primeiros meses da minha vida acadêmica descobri que a escolha de um tema de pesquisa era um caso de vida ou morte. Ok, não exatamente morte-morrida, mas aquela morte social básica, em que você é banido, ie, morre para o mundo, como nos ensinaram o Elias, o Dumont, o Geertz e tantos outros. Pois lá estava eu no final do primeiro ano de mestrado, já “escolhida” pelo orientador, mas sem tema de pesquisa. (Sim, bons tempos… nem falem.)

Pensa daqui, pensa dali, resolvi que queria ser útil para a sociedade estudando os parlamentares municipais (um tema bem estranho na antropologia da época, que surgiu do meu trabalho de jornalista). Ao saber da minha escolha, o Gilberto (Velho) reagiu horrorizado. Fez uma cara de nojo e disse que não, não poderia me orientar de jeito nenhum! Senti o sangue descendo, o coração parando, o exílio chegando. Mas, para minha surpresa, consegui murmurar: “– Que pena. Vou ter que procurar outro orientador.” 

É verdade, tenho testemunha. Uma amiga estava pelos corredores do Museu e me amparou. Graças à nossa conversa, me dei conta de que estava no caminho certo: eu tinha um projeto em que acreditava, e estava até pronta para “morrer” por ele. E não é que, no dia seguinte, o Gilberto me ligou dizendo que ia me “aceitar” de volta, com parlamentares e tudo? Lamentava que eu não desse continuidade à pesquisa que ele tinha pensado… E eu precisava entender que ele tinha aversão a surpresas etc. Mas, cá entre nós, acredito que o projeto se salvou mesmo pela paixão com que me dispus a defendê-lo.

* Paciência — Um ano e meio depois, ao invés de navegar nas primeiras ondas da passagem-direta mestrado-doutorado, optei por terminar a dissertação. Defesa feita, entrei no melhor dos mundos: dava aulas, trabalhava como pesquisadora e ainda podia assistir Seinfeld sem culpa! Mas quando chegou a hora de fazer o projeto de doutorado: cadê a ideia? Sem paixão, mas convencida de que já dominava os truques do ofício, costurei um projeto juntando alguns temas que sobraram do mestrado com autores que eu lia para dar aula. Nem precisava me preocupar com o quesito “orientador”, certo?

Errado. Projeto entregue. Projeto lido: “– Karina, vem cá, que projeto é esse? De onde você tirou isso? Cadê a antropologia?” Cadê isso, cadê aquilo…? Ooops. Foi mal. Tem razão. Dessa vez, não tinha nada a ver com escolha de tema. Era projeto-preguiça mesmo.

Bora fazer tudo de novo. Porque certa vez um terapeuta me disse que eu era uma sobrevivente. Pra quê! Me apeguei a essa ideia. Se tem um naufrágio, eu nado, até sem saber nadar. E, pra quem sobrevive a afogamento, projeto-de-doutorado-ruim tá mais para quatro-pneus-furados ao mesmo tempo… É chato, é trabalhoso, mas dá para consertar.

A solução? Muita, muita paciência. Paciência com os próprios erros e paciência para recomeçar… Teve que ser paixão construída… Revi o material de pesquisa do mestrado, escutei novamente as arguições da defesa, vasculhei todos os autores que pude e lá fui enfrentar a página vazia, de domingo a domingo — naquela fórmula chata-de-tão-verdadeira: uma palavrinha de cada vez.

* Prática — Tive a sorte de praticar num “laboratório” no Museu Nacional onde encontrava exatamente a mesma cena todos os dias de manhã: meu orientador lendo. Lendo, relendo, revisando, escrevendo sobre o que lia, reescrevendo. Da mesma forma, quando frequentei a biblioteca da professora Cleonice Berardinelli, frequentemente a encontrava concentrada com um livro nas mãos. Uma vez o título era o clássico “A cidade e as serras”, de Eça de Queirós — autor sobre o qual ela é uma grande especialista. E perguntei: “Dona Cleo, a senhora precisa reler esse livro para dar aula?” E ela me respondeu com toda humildade: “Sim, querida. Releio, e sempre aprendo coisa novas.”

Aprendi com eles que a prática essencial na nossa área é assim, muito simples: ler e escrever. Ler, ler, ler, ler, ler muito, é equivalente a um aluno de violão tocar “Let it be” mil vezes. É um trabalho individual, solitário, onde se aprende a lidar com o tédio, a perceber as nuances das palavras/acordes, a criar novos pensamentos e perguntas a partir daqueles. Escrever, escrever, escrever, escrever muito. Idem, ibidem.

Sim, dá para treinar algumas etapas de pesquisa na sala de aula. Mas, como dizia o meu amado professor Wagner Teixeira: “A prática se aprende na prática; o importante [na faculdade] é aprender a pensar.” Ou seja, pesquisa de verdade só se faz fazendo. Um trabalho de fôlego exige circunstâncias demais, impossíveis de repetir em laboratório.

É para isso que servem os livros: milhões de páginas já foram escritas sobre milhões de pesquisas. Um bom levantamento bibliográfico, quando lido, te leva a centenas de práticas e reflexões sobre essas práticas. É a nossa escala musical diária, sem a qual não desenvolvemos projeto nenhum.

* Um projeto todo seu — Nos mais de vinte anos depois daquela primeira experiência, muitas vezes tive dúvidas. Será que está bom? Será que vão gostar? Será que já não escreveram isso antes? Será que serve para alguma coisa? Essas dúvidas nunca se dissolvem totalmente…

“Desde que vocês escrevam o que desejarem escrever, isso é tudo que importa; e se vai importar por séculos ou apenas horas, ninguém pode dizer.” (Virgina Woolf, Um teto todo seu)

E para não terminar sem nenhum conselho prático de verdade, aí vai: a melhor coisa que já li sobre montagem de projetos é o clássico Como fazer uma tese, de Umberto Eco — baita de um livrinho perfeito, atualíssimo em toda a sua antiguidade.

Ufa, e se chegaram até aqui: meus votos de sucesso aos novos projetos! Estou torcendo por vocês!

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Eu — Alice, qual o sentido da vida?
Alice — Não sei, mãe.
Eu — Se vc pudesse fazer algo, o que você faria?
Alice — Salvar o país, mãe.
* No metrô, uma senhora dá lugar a outra senhora, aparentemente mais velhinha. A senhora que senta tira um cartão do metrô da bolsa e oferece de presente para aquela que levantou. A cena me comove.
* Reli um livro infantil do Antônio só para encontrar um verso que amo: “O menino diz: — Gosto de você, aranha. Porque você não pica nem arranha.”
* Resolvi reler nas horas em que estou no transporte o “Cartas a Theo”, de Van Gogh ao irmão. É de doer de tão lindo. É meu antídoto pessoal contra a crise.
* Presente maravilhoso: ganhei o catálogo do IV Encontro Nacional de Ilustradores Científicos, organizado pelo professor, artista e ilustrador científico Paulo Ormindo.
* Por conta do Ulisses, fui à pequena loja veterinária do Jóquei Clube na semana passada. Passar pelas baias dos cavalos é mágico… e me lembra do meu sonho impossível de ter um cavalo quando era pequena.
* A melhor definição do Rio de Janeiro esta semana: “A cidade mais feia do mundo que por acaso ficava num lugar maravilhoso” (de Carolina Massote)

* Sobre o desenho: Dizem os profissionais do livro ilustrado que a boa imagem deve acrescentar algo ao texto… Então vou deixar para vocês interpretarem… Os gatinhos foram feitos com aquarela Winsor & Newton em papel Strathmore, e depois desenhados com canetinha nanquim Muji 0.38.

* Sobre o livro: Já fiz um post só sobre Um teto todo seu da Virginia Woolf, um livro que marcou a minha vida pra sempre.

* Sobre Paixão, paciência e prática: Minha inspiração para escrever sobre esses “três Ps” foi da aula online do artista indiano Prashant Miranda, na Sketchbook Skool (infelizmente é só para alunos pagantes… )


8 Comentários

Se hoje fosse hoje

70 anos001

 

Alice — Mãe, tô em dúvida de coisas muito difíceis…

Eu — Sobre o quê, filha?

Alice — Do que eu vou ser quando eu crescer… Porque são coisas muito difíceis. Não é assim fácil como ser antropóloga ou desenhista…

Eu — Hããã…?

Alice — É, mãe, isso que você faz é fácil: é só ficar falando sobre o passado… Eu tô em dúvida dos meus sonhos. Se eu quero ser o tipo de pessoa que mexe em máquinas, tipo assim, criar um Iphone 7! E tem o meu sonho de ser atriz. E, se nada disso der certo, vou ser youtuber.

E, se hoje fosse hoje, se fosse mesmo o 15 de maio que deveria ser, eu não estaria escrevendo no blog. Estaria comemorando o aniversário de 70 anos do Gilberto [Velho], contando pra ele essa história engraçada da Alice sobre como é fácil ser antropóloga desenhista.

Profissão é fácil sim, filha. O difícil é ser adulta e manter o bom humor! Nisso, o Gilberto também era mestre. Para matar as saudades, remeto ao texto que escrevi em sua homenagem em 2012 (e aos de várias outras pessoas), porque hoje não estou conseguindo ser adulta direito.

Sobre o desenho: Fiz essa imagem a partir de um quadro do Gilberto que ganhei da Ana. É provavelmente um artesanato peruano, com muitas cores fluorescentes (que não saíram direito no scanner, pra variar), do qual ele gostava muito. O original é bem maior e mais elaborado. Resolvi desenhar o cavaleiro de chapéu, porque usar chapéus exóticos era uma de suas brincadeiras favoritas. Já montar a cavalo… talvez só nos de chumbo! (Linhas feitas com canetinhas 0.05 e 0.2 e cores com hidrocores diversos.)

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 342 outros seguidores