Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Caderninho azul

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Página inicial com as canetas que desse caderno: 1 Pigma Micron 0,2 azul, 1 Faber-Castell Pitt artist pen brush amarela (cor 184), 1 Muji 0,38 gel azul, 2 Tombow dual brush (1 azul clara, n.451 e 1 azul média n.526). 

Tenho visto tantas pessoas cansadas nas minhas redes sociais que hoje resolvi fazer um post só de imagens. Há tempos não mostro as páginas dos meus caderninhos do dia-a-dia. Como já mencionei, tenho feito desenhos com cores restritas como uma forma de treino (e também para carregar poucas canetas na bolsa!).

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Desenhando frases do Podcast da Fran Meneses (só da @frannerd) e uma versão psicodélica da Lola, minha gatinha tricolor

Uma das coisas legais do podcast da @frannerd é a sensação de ouvir a real do dia-a-dia de uma ilustradora, sem aquele estilo “olha como sou feliz” das redes sociais. As frases da página são dela: “estou tão cansada e culpada de estar cansada” (acho que todas as pessoas que conheço estão assim); e “estou morrendo de medo mas tentando seguir em frente” (idem).

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Raridade: fomos a um restaurante a pedido da Alice. Arrependimento total: comida ruim, preço caro.  Na volta, fiz esse desenho muito tosco do gatinho Charlie.

Uma das coisas estranhas de desenhar com azul é constatar que tudo fica com um clima melancólico, mesmo uma cena feliz.

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Charlie e Juva lendo num dia de chuva

Outro momento raro: depois de uma consulta médica, resolvi aproveitar o pátio do prédio para desenhar o camelô do outro lado da rua.

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Camelô baixinho com carrinho fofo e mesa com toalha de flores. ♥ 

Concluindo: ainda não cheguei nem na metade e já estou querendo desistir de tanto azul! Preferi mil vezes trabalhar com o rosa e o vermelho. Não deixa de ser um aprendizado sobre mim mesma… Vamos ver se sou persistente (ou teimosa) o suficiente.

Bom final de semana, pessoal! Que seja de sol e descanso! ☼

Sobre o desenho: Além das canetas indicadas no início, os desenhos foram feitos num caderninho Laloran. Foi justamente a capa azul escura, com borda de tecido em padronagem que lembra azulejos portugueses, que me fez instituir o azul como tema. É o caderno do meio na imagem abaixo.

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Três caderninhos Laloran que trouxe de Portugal em janeiro/2017

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Caderninho azul”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3yU. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Amor, necessidades especiais e 4 anos do blog

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Essa semana observei uma cena que me tocou. Fui levar a Alice na dentista do aparelho que fica num prédio cheio de consultórios médicos. Enquanto estávamos na fila do elevador, veio chegando uma família: um rapaz bem alto, grande e forte, com expressão de criança apesar do tamanho, falava repetidamente. A voz era grossa, mas um pouco atrapalhada. Era como um filho de 5 anos ansioso pedindo para a mãe comprar bala. Junto dele, dois adultos (na minha visão, os pais) com um ar sereno, sorridente, sem se incomodar com a atenção provocada. A mãe, bem mais baixa, segurava o rapaz com uma mão e fazia festinhas em sua barriga com a outra. De vez em quando também aproximava a cabeça do seu peito, como quem dá um abracinho. Na sua resposta à cantilena do filho, parecia entoar acalantos assim: “já vai, já vai, já vai…”, “tá tudo bem; tá tudo bem…”

Por um instante, achei que os três entrariam no elevador conosco, mas a porta se fechou. Fiquei com a imagem daquela cena, a voz da mãe se sobrepondo suavemente aos pedidos do filho, o corpo dela tocando o dele, um imenso carinho embrulhando tudo.

Já estava abraçada com a Alice no elevador, mas apertei-a contra mim mais forte, conseguindo sentir a felicidade daquele momento.

Pensei no rapaz e no aprendizado de sua família para amá-lo. E me veio a ideia de que todos nós, com as devidas proporções, temos necessidades especiais que exigem paciência, esforço e aceitação de quem nos ama e de nós mesmos.

Queria comemorar os quatro anos do blog (6/novembro) mandando uma festinha na barriga e um afago virtual sussurrado para vocês:  “já vai, já vai, já vai…”, “tá tudo bem; tá tudo bem…”

Obrigada por me acompanharem nessa jornada. Só enxergamos um post de cada vez, mas olhem o quanto a gente andou!!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota sobre amor e necessidades especiais:

♥ Para criar um coraçãozinho (como esse à esquerda) em qualquer aplicativo no computador, basta apertar Alt-3. Se vocês também são fãs de atalhos de teclado (eu amo!), vejam todos os códigos Alt possíveis aqui.

♥ Um livro maravilhoso sobre o assunto é “O filho eterno”, do Cristóvão Tezza. Falei um pouco sobre o autor aqui, mas nem de longe esgotei o quanto gosto dessa obra e de “O espírito da prosa”.

♥ Outro livro que me emocionou foi Brilhante, de Kristine Barnett, da editora Zahar. Uma marca dessa narrativa é o entrelaçamento de crise familiar e econômica (contexto de classe média baixa em 2008 nos EUA) com uma mãe porreta de criativa! Poderia render um post, mas está emprestado há tempos e ainda não voltou — quem sabe a pessoa capta essa indireta aqui! ;-).

♥ Uma referência que releio, indico e compro de presente para pais (mas que serve para qualquer tipo de relacionamento afetivo) é o “Comunicação entre pais e filhos”, da Maria Tereza Maldonado (ed. Saraiva). Tem dezenas de edições e sai baratinho na Estante Virtual. Se eu tivesse que escolher apenas um livro que me ajudou emocionalmente a ser mãe e me apoiou na busca da segurança afetiva dos meus filhos, seria esse.

♥ Para se emocionar e se deliciar com imagens incríveis, a animação A viagem de Maria  do artista espanhol Miguel Gallardo, sobre sua filha. Conheci o autor num evento dos Urban Sketchers em Barcelona e me apaixonei pela sua forma de desenhar e enxergar o mundo. Tenho também o livro Maria e eu, que inspirou o filme, e é um dos meus quadrinhos preferidos de todos os tempos.

♥ Ainda do Miguel Gallardo, o vídeo Academia de Especialistas, um jeito inovador de falar sobre as crianças e seus potenciais tão singulares.

♥ Para fechar a listinha: lembro que a campanha de doações de fraldas para crianças com necessidades especiais da obra social Dona Meca continua acontecendo! Já temos 800 pacotes, mas a meta é conseguir 1000 — quantidade que eles precisam para o ano de 2018. As informações para doar, com depósito em conta ou cartão de crédito, estão aqui.

 

Sobre o desenho — Aquarela com misturas de tintas rosas e amarelas, sobre um papel de algodão antigo (não sei a marca). Achei que combinavam com a ideia de flores, no clima de aniversário do blog. Andei pintando essas transparências como uma forma de me distrair na recuperação da cirurgia. É um bom treino de paciência pintar a primeira camada, esperar secar bem e só depois voltar a pintar por cima. É assim que surge o efeito de transposição. O original é bem mais sutil do que o digital, mas não tive domínio de edição de imagem suficiente para equiparar os dois. Aliás, se alguém souber de uma aula de digitalização voltada para pintura especificamente, estou aceitando indicações!

Minhas desculpas pelos atrasos dos posts, mas a culpa é da NET. Todos os dias a minha internet cai ou fica instável depois das 16:00 horas. Haja meditação. O blog fica super prejudicado. Apesar de adorar ler e pintar (coisas que posso fazer sem internet), é enervante não poder decidir quando ficar offline. Sei que vocês me entendem… Durante a escrita desse post, a internet caiu umas 37 vezes.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Amor, necessidades especiais e 4 anos do blog”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/s42zgF-amor. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Novembro/2017 e Campanha de doações!

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Novembro chegando!! O tema do calendário é para apoiar a campanha do querido Rodrigo Mello Barbosa para comprar fraldas para crianças com necessidades especiais da Obra Social Dona Meca. Ele conheceu a instituição através de uma das nossas heroínas em comum, a advogada Silvana do Monte Moreira, uma mulher fantástica, que vem trabalhando intensamente para ampliar a adoção de crianças no Brasil.

No ano passado, a Dona Meca avisou ao Rodrigo que não queria presentes no Natal, e sim fraldas geriátricas tamanho P para os jovens que abriga. Ele arrecadou 405 pacotes, além de 35 caixas de luvas. Além desse abrigo para crianças e jovens com muito comprometimento (daí o uso de fraldas), Dona Meca mantém outro com bebês e crianças pequenas em espera de adoção. Além disso, há um centro de tratamento que atende centenas de menores — um espaço muito especial para a população que precisa desse tipo de cuidado.

Qualquer valor é bem vindo!! Vale um pacotinho de fraldas (cerca de R$14 reais) ou o quanto vocês puderem colaborar. Cada doação ajuda muito. Também peço que compartilhem esse post (ou o do Rodrigo), pois muitas pessoas estão com vontade de doar, mas não encontram uma causa séria — essa é a oportunidade perfeita!

No decorrer e ao final da arrecadação, o Rodrigo vai prestar contas e mandar fotos. Quem quiser ir junto no dia da entrega, será muito bem-vindo.

Para conhecer o Rodrigo, vejam a foto abaixo e a página dele no Facebook.

Para conhecer a Obra Social Dona Meca: osdm.org.br.

Vocês podem doar com cartão de crédito pela campanha no Vakinha ou depositar diretamente na conta:

Rodrigo de Mello Pires Barbosa
Bradesco
Ag 1785 Cc 144445-0
CPF 089.590.907-35

rodrigomello

Rodrigo Mello e as fraldas doadas em 2016 para os jovens com necessidades especiais atendidos na Dona Meca — a meta é chegar a 1000 pacotes em 2017!

Sobre o calendário de novembro — Para imprimir o calendário, vocês podem baixar o .pdf (tamanho grande) ou clicar na imagem que abre o post em .jpg (tamanho pequeno). Quis fazer algo que simbolizasse essa corrente de ajuda mútua que estamos tentando construir. As mãoszinhas espalmadas são de todos nós. Também quis remeter ao símbolo Hamsá, que significa boa sorte para muitas culturas do Oriente Médio, um amuleto adotado por muçulmanos, judeus e outros povos. Não custa sonhar!

Sobre o desenho — Fiz as mãos com caneta de nanquim descartável Pigma Micron 0,2. Depois colori com diversos marcadores brush (Faber-Castell Pitt, Koi Coloring Brush e Tombow). Esse tipo de caneta não oferece muito controle de como a cor vai sair; mas compensa pela rapidez e por se manter vibrante num papel de impressora comum, que é o tipo que eu uso nesses calendários.

Obrigada desde já, pessoal — vambora! ♥

Você acabou de ler “Novembro/2017 e Campanha de doações!“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Novembro/2017 e Campanha de doações!”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3t9. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer

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“Eu estava entrando em um meio em que a intimidade é frequentemente profissional, e por isso os limites se confundem. (…) Apesar disso, o incidente com Harvey me deixou desconfortável; eu conseguia explicar e justificar aquilo para mim, e guardá-lo como um momento constrangedor. (…) eu me senti confusa com o desconforto que eu experimentei antes.” (Lupita Nyong’o)

O depoimento de Lupita Nyong’o foi um dos que mais me impactou entre os que li sobre H. Weinstein, homem que perseguia, abusava e estuprava mulheres ao seu redor.

Ao narrar em nuances sua trajetória como objeto de atração e manipulação por parte de um predador, Lupita nos permite entrar em contato com as emoções mais profundas das vítimas de relações abusivas: a vontade de acertar, a credulidade, a desconfiança, a vergonha, a desestabilização do senso de si mesma, a fragilidade e a culpa.

Os abusadores têm como estratégia básica confundir. Ao contrário do ditado popular, eles primeiro assopram, depois batem; e assim sucessivamente. Quando você vê a ferida, eles estão a postos para colocar um curativo por cima. O curativo vem por meio de presentes, cargos, viagens; e de migalhas de sentimentos: “bom-humor”, “carinhos”, “amor” — tudo entre aspas, já que são pseudo-emoções.

Na minha visão leiga, abusador é alguém que não sabe amar, a começar por si mesmo. São pessoas que morrem de medo do que têm por dentro, que não se aceitam, que se odeiam e descontam esse ódio nos outros. Ao agredir a vítima, verbal ou fisicamente, eles projetam sua lama interna.

“Sempre que vocês brigam, de alguma forma muito estranha, que não é explicada, você está sempre errada? Você sempre acaba pedindo desculpas, mesmo quando no início você tinha certeza de que estava certa? (…) Aí você vai ficando presa ali, numa teia de manipulação sem fim… (…) Relacionamento abusivo não é só tapa na cara (…); você pode ser abusada psicologicamente também.” (Jout Jout Prazer)

Milhões de pessoas são abusadas todos os dias. Como as estatísticas mostram, a maioria dos algozes está dentro de casa. São familiares, pais, tios, primos, padrinhos, padrastos, parceiros, pessoas com quem deveríamos ter vínculos amorosos.

O problema é que, em muitos, muitos, desses casos, não temos como simplesmente terminar a relação. Crianças e jovens vítimas de familiares abusivos; orientandos vítimas de orientadores abusivos; mulheres vítimas de casamentos abusivos em situação de dependência; pessoas vítimas de trabalhos abusivos em condições aviltantes; alunos vítimas de sistemas (escolares, médicos e sociais) abusivos, sem subsistência fora dele; grupos religiosos, étnicos, imigrantes, de cor, de gênero… A lista é imensa.

As situações de violência extrema são fáceis de identificar, mas como saber quando a violência se dá no plano de sofrimento psicológico? Inspirada nos depoimentos citados, escrevi quinze critérios para ajudar a identificar relações abusivas violentas, ainda que sem agressão física. Em todas as frases, acrescentem “constantemente”, “insistentemente”, “repetidamente”, pois a maioria dessas coisas se torna abusiva por ser vivida com uma frequência doentia.

1) Quando seus sentimentos mais profundos são negados: isso é abusivo.
2) Quando você é acusada de estar sempre errada: isso é abusivo.
3) Quando seu “não” é desconsiderado e classificado de mimado e egoísta: isso é abusivo.
4) Quando você é levado a se sentir culpada de tudo: isso é abusivo.
5) Quando você nunca sabe se o abusador vai explodir ou sorrir: isso é abusivo.
6) Quando você se sente manipulada e confundida por alguém: isso é abusivo.
7) Quando alguém, numa posição de poder, te faz se sentir inferior por ser quem você é, não importa o quanto você tenta agradar ou corresponder às expectativas: isso é abusivo.
8) Quando alguém te interpela agressivamente querendo saber o que você está pensando, fazendo (ou não) constantes insinuações negativas: isso é abusivo.
9) Quando alguém menospreza ou ridiculariza coisas e pessoas que você ama: isso é abusivo.
10) Quando alguém que deveria te amar te xinga ou berra com você por motivo fútil: isso é abusivo.
11) Quando alguém te chantageia, dizendo que deveria ser amado por você, porque não te bate: isso é abusivo.
12) Quando alguém exige ser amado “porque te dá tudo”: isso é abusivo.
13) Quando alguém é abusador e não reconhece, não se trata (psicologicamente, medicalmente, espiritualmente etc.): isso perpetua relações abusivas com todos à sua volta.
14) Quando você sente que não pode chorar ou se mostrar frágil na frente de uma pessoa que deveria ser próxima afetivamente: isso é um sintoma de um relacionamento abusivo.
15) Quando todas as situações acima acontecem em ambientes sem testemunhas: isso é um sintoma de um relacionamento abusivo.

O que fazer diante dessas situações? Como lidar com a impotência de não poder sair; ou como ajudar uma vítima a lidar (ou sair) de um relacionamento abusivo?

Em seu depoimento, Lupita afirma:

…espero que possamos formar uma comunidade em que mulheres possam falar sobre abuso e não sofrer outro abuso por não serem acreditadas e, pelo contrário, sejam ridicularizadas. É por isso que não nos manifestamos — por medo de sofrer duas vezes, e por medo de ser tachadas e caracterizadas por nosso momento de desempoderamento.  (…) ao falarmos alto, falarmos livres, falarmos juntas, nós recobramos o poder. (…) Eu solto a minha voz para contribuir com o fim da conspiração do silêncio. (Lupita Nyong’o)

Acho que podemos:

Falar alto — Lupita toca num ponto muito importante: precisamos oferecer redes de apoio às vítimas para que elas possam falar e alto! Isso vale para mulheres e para todas as outras pessoas em situação de vulnerabilidade.

Acolher — Precisamos dar acolhimento às vítimas para que elas não sofram duplamente, pelo abuso e pela culpa. Apoiar, abraçar, confortar são formas de mostrar que a pessoa não está sozinha, tentando restaurar o seu abalado senso de pertencimento.

Escutar e reconhecer — Precisamos melhorar nossa escuta, sendo mais pacientes, disponíveis e abertos para ouvir as pessoas — porque a vítima se encontra quase sempre num estado de confusão sobre si mesma. Esse tipo de violência é uma forma de tortura cujo objetivo é desestabilizar, fomentando a insegurança da auto-percepção da vítima como vítima. Por isso, é tão importante reconhecer a situação abusiva.

Fortalecer — Ninguém pode se furtar das dificuldades e frustrações, mas podemos nos fortalecer uns aos outros emocionalmente. Essa força afetiva pode ajudar uma pessoa em uma relação abusiva a identificar a situação em que se encontra, seja para sair dela (quando possível), seja para aprender a lidar, reduzindo os seus danos (quando em situações inevitáveis). Esse fortalecimento também pode (e deve, na minha opinião) ser complementado com um apoio terapêutico profissional.

Sei que há vários aspectos das relações abusivas que não foram tratados nesse texto. É um tema complexo demais para um post. Tentei contribuir com algumas perspectivas possíveis, mas nem de longe pretendi dar conta do debate. Foi uma forma de compartilhar minha emoção com o texto da Lupita Nyong’o, quem sabe ajudando a fortalecer pessoas que estão passando por situações difíceis.

Agradeço a todos leram e faço um pedido: compartilhem! Há muitas vítimas silenciadas ainda.

Queria terminar agradecendo o carinho de vocês.  Não dou conta de responder os comentários, mas reafirmo meu muito obrigada! Sem esse apoio, através de tantas mensagens, likes e e-mails, eu não teria coragem de escrever sobre tudo que escrevo aqui. ♥  Mesmo assim, alguns vão notar que não consegui escrever na primeira pessoa, como sempre procuro fazer no blog. Ainda não tenho a força da Lupita. Um dia eu chego lá.

PS: Estou me recuperando bem da cirurgia (de vesícula). Obrigada pelos desejos de melhoras!

Fontes das citações: O depoimento citado de Lupita Nyong’o  foi uma tradução livre do Rodrigo Torres para o Adoro Cinema. Li pela primeira vez no original, publicado no New York Times em 19/10/2017.

O trecho da Jout Jout Prazer é uma citação extraída do vídeo “Não tira o batom vermelho” sobre relacionamentos abusivos, visto por quase 3 milhões de pessoas desde que foi publicado em 26/2/2015.

Sobre o desenho: Aquarela feita por mim em 2008, na época em que fazia aulas de modelo-vivo na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Nesse dia, nosso professor, Manoel Fernandes, pediu que explorássemos o significado do espaço do papel. Minha escolha pelo canto inferior direito acabou resultando nessa sensação de solidão. No original, o restante do papel em branco é bem maior, reforçando ainda mais a ideia de isolamento. Tive que cortar um pouco (e adicionar um ligeiro tom de rosa à folha) para que o post não parecesse vazio para quem lê no celular. Para a execução, utilizei uma pena de bambu (se não me engano), nanquim e aquarela.

Você acabou de ler “Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-3lF. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Doze dicas de cursos de desenho e aquarela que já fiz (presenciais e online)

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Aquarela feita por mim a partir de tutorial da Anna Mason

Um dos desafios de quem gosta de arte, desenho e aquarela é encontrar um bom curso. Como já passei por vários, resolvi fazer uma listinha de referências. Há muita coisa legal para experimentar, mesmo se você não se acha artista. É uma boa ideia também para curtir nas férias.

Cursos presenciais — Vou iniciar pelos cursos presenciais, pois são os mais legais e significativos para mim. Foi por onde comecei, onde fiz amigos que me incentivaram e onde encontrei professores e colegas que me ensinaram muito.

Aqui no Rio de Janeiro há poucas opções. Os lugares por onde passei (ou que conheço) são os seguintes:

Chiaroscuro Ateliê de Pintura — Fui aluna do curso de aquarela da professora Chiara Bozzetti por dois anos (2015-16), como já escrevi aqui e aqui. É o lugar que mais recomendo a todos que me pedem indicações de onde começar. Pretendo voltar em breve, pois é um ambiente maravilhoso, alegre, criativo, acolhedor, com professores habilidosos, técnicos e dedicados. Além disso, os preços são mega acessíveis, o que gera um ambiente de alunos diverso, com anos de convívio. A Chiara é de uma delicadeza incrível, com um modo de trabalhar baseado na confiança e na capacidade de estimular o que cada um tem de melhor. Além do site, o ateliê tem um Instagram super ativo.

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aquarela que fiz com ajuda da Chiara

Escola de Artes Visuais do Parque Lage – EAV — Entre 2008-2009, fiz aulas de modelo-vivo durante um ano com o professor Manoel Fernandes — um mestre e artista que me marcou muito! Infelizmente, ele não está mais na escola (voltou para São Paulo, sua terra natal). Tentei outros cursos na EAV, mas não deram certo. O lugar é maravilhoso, as opções de aulas são interessantes — só que agora estão bem caras. Comecei no Parque Lage porque o Antônio (meu filho) fez a escolinha de artes de lá por 4 anos, e todas as professoras são excelentes. Tenho um enorme carinho por elas!

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modelo-vivo, meu caderno na época da EAV-Parque Lage

Ilustração Botânica – Jardim Botânico do Rio de Janeiro — Frequentei um curso de aquarela de oito semanas, ministrado por Paulo Ormindo e Malena Barretto, dois mestres da ilustração botânica. O programa completo é bem mais longo, e vale muito a pena para quem quer seguir no caminho da ilustração científica. Além do acesso a dois artistas fantásticos, o Solar da Imperatriz é um local lindo e os preços, na época em que fiz, eram bem acessíveis. Nessa área, uma outra referência importante é a professora Maria Alice Rezende, com quem já tive algumas aulas avulsas. Gostei de ambas as experiências, mas percebi que não queria seguir na ilustração botânica.

Renato Alarcão — Existe também no Rio de Janeiro o ateliê do professor Renato Alarcão, com oficinas de aquarela, diários gráficos e outras. É um artista experiente e talentoso. Já fiz uma aula avulsa lá. Hoje em dia, sigo as páginas dele no Facebook, em especial a do Diário Gráfico, que tem links ótimos.

Nathalia Sá Cavalcante — Outra sugestão é acompanhar o trabalho da Nathalia Sá Cavalcante, ilustradora e professora de design da PUC-Rio. De vez em quando, ela oferece workshops de desenhos do cotidiano, além de promover oficinas ao ar livre, reunindo propostas e pessoas maravilhosas. Conheci a Nathália na EAV-Parque Lage e tenho uma gratidão imensa pelo incentivo que ela sempre me deu para desenhar. Fico super feliz de acompanhar o trabalho lindo que ela está fazendo atualmente.

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Oficina da Nathalia Sá Cavalcante no Parque do Martelo – Humaitá/RJ

Urban Sketchers Rio de Janeiro — Uma opção gratuita é participar do grupo Urban Sketchers Rio de Janeiro que organiza encontros mensais abertos. Não precisa ter nenhuma experiência. O espírito é acolhedor, com compartilhamento de dicas, cadernos e técnicas, que se estendem depois para conversas no Facebook. Pessoalmente, nunca participei do grupo no Rio (muito devido à minha avassaladora preguiça de final de semana!) mas quis deixar aqui a indicação.

Urban Sketchers – Encontros internacionais — Foram nesses eventos que minha visão de desenho, arte e aquarela realmente mudou! Se eu tivesse que eleger uma só dica, seria: participe de um encontro internacional dos Urban Sketchers! Tive a sorte de ir a quatro edições — 2011 (Lisboa), 2013 (Barcelona), 2014 (Parati), 2016 (Manchester) — sendo os dois primeiros como aluna e os dois últimos como palestrante. Em todos tive subsídios de custo devido a eventos acadêmicos paralelos (nos dois primeiros) ou por ter sido selecionada para falar. Como já contei em alguns posts (aqui, aqui e aqui) além de oficinas, demostrações e palestras, os Encontros USK criam um espaço mágico, onde tudo gira em torno de arte, com uma atmosfera super generosa de aprendizado coletivo. Mais do que produzir desenhos e pinturas em si, fiz grandes amizades, conheci projetos e artistas incríveis. Pela primeira vez, percebi que era possível existir um ambiente de criatividade franco, onde a maioria das pessoas não está nem aí para competitividade e egocentrismo.

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Desenho feito por mim no final do USK-Barcelona (2013)

Cursos online de desenho e aquarela — Existem muitos!! Compartilho uma listinha dos que realmente fiz, paguei, experimentei, e gostei. Há basicamente dois modelos de escolas na internet: aquelas onde se compra um curso específico e aquelas onde se faz uma assinatura mensal, com direito a assistir quantos cursos quiser (tipo Netflix). Vou dar alguns exemplos dos dois tipos. (São todos em inglês, pois não conheço em outras línguas, nem no Brasil; mas se vocês souberem de algum legal, me contem nos comentários!)

Anna Mason Art — A escola online da inglesa Anna Mason é voltada para quem ama aquarela de precisão, com tutoriais de botânica, pequenos animais e alguns de temas diversos. Foi onde aprendi a fazer a abelha que ilustra esse post! Parece uma coisa dificílima, mas na verdade requer apenas paciência de seguir os passos dos vídeos, tudo super explicadinho pela simpática Anna. Já entrei e voltei duas vezes, pois é por assinatura mensal (só tem acesso se estiver pagando). Da última vez, optei por um pacote de 6 meses, mas pedi um desconto dizendo que era brasileira e que a libra estava muito cara. Eles me deram 20% de abatimento, resultando num custo de aproximadamente 60 reais por mês. Gosto muito do jeito como ela ensina, das mensagens que ela escreve, das misturas de cores, das técnicas e truques de aquarela. Já os temas das pinturas não me interessam tanto.

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Flor (magnólia) feita por mim a partir de tutorial Anna Mason

Creative Bug — Outra escola de assinatura mensal, voltada para desenho, aquarela, artes e artesanatos em geral. Tem a vantagem de ser baratinha: menos de 20 reais mensais da última vez que assinei (4,99 dólares). Além disso, os vídeos são lindos, as filmagens bem detalhadas e nítidas, com aulas estruturadas de forma simples e rápida. Conheci o site pelos cursos de desenho e aquarela da Lisa Congdon, mas depois assisti também as aulas de Lindsay StriplingYao Cheng e Jennifer Orkin Lewis, além de outras sobre encadernação. Um bônus é que as mensalidades se transformam em créditos que permitem você guardar os cursos na sua biblioteca pessoal. Assim, mesmo interrompendo o pagamento, o acesso a essa lista é garantido pra sempre. Também oferecem mini-cursos gratuitos no site e no Facebook.

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desenho da minha gata Lola inspirado em L. Congdon

Sketchbook Skool — Essa foi a primeira escola online que frequentei, pois já admirava muito os livros e o blog do Danny Gregory, um de seus fundadores. O pagamento é por curso, que inclui 5 ou 6 instrutores, com as aulas liberadas semana a semana, como se fosse uma faculdade de arte. A lista de professores é maravilhosa e os vídeos costumam ser super bem feitos. A filosofia da SBS é inspirar, motivar, dar ideias, mostrar artistas trabalhando e falando sobre seus processos criativos. Há demonstrações de desenhos e pinturas sendo feitos, mas sem ênfase em técnicas passo-a-passo. Em compensação, eles mostram os estúdios, os sketchbooks e os livros preferidos dos artistas, e quase sempre saem para filmagens ao ar livre, enfatizando o desenho/pintura de observação direta. O preço garante acesso permanente aos cursos mas não é baratinho (99 dólares). Já fiz alguns desde que a escola começou e posso dizer que valeram muito à pena! Professores que me marcaram, além do próprio Danny Gregory (que dá aula em quase todos os cursos): Prashant Miranda, Tommy Kane, Roz Stendhal, Jill Weber, Feliz Scheinberger, Lynne Chapman. Algumas dessas aulas foram fundamentais para me encorajar a criar as oficinas dos cursos de antropologia e desenho que comecei a oferecer na UFRJ desde 2013. Vários dos professores da SBS também são pessoas que conheci nos encontros internacionais dos Urban Sketchers, como Miguel Herranz, Lapin, Veronica Lawlor, Nina Johansson, Jason Das… daí eu não destacar tanto as aulas deles online, pois tive a oportunidade de fazer workshops pessoalmente. Incluí a Lynne Chapman (com quem trabalhei em 2016) nos destaques pois acho que fizeram uma filmagem excepcional sobre ela e seus projetos na interface entre ilustração e ciência, que tanto admiro.

magicteatint

pintura/colagem que fiz assistindo uma aula do J.Twingley na Sketchbook Skool

Craftsy — Escola de arte online que cobra por curso. Só fiz os dois da Shari Blaukopf, pois ganhei cupons de desconto dela, que conheci em 2013 e com quem fiz uma oficina em 2016. A Shari é uma pessoa gentilíssima, com um alto nível de conhecimento de aquarela, num estilo bem solto. Gostei de assistir e acho que aprendi bastante sobre cores, camadas e aguadas. As aulas na Craftsy são bem didáticas, tipo passo-a-passo — pena que o estúdio de filmagem seja tão sem graça! Eles têm feito cursos com vários instrutores ligados ao mundo da aquarela e do desenho urbano, como Suhita Shirodkar, James Richards, Marc Taro Holmes, Stephanie Bower, entre outros como vocês podem ver aqui. Recomendo para quem quer aprender o estilo de um artista específico. Ah, e uma dica bem legal é ver as resenhas do Parka Blogs sobre os cursos antes de decidir qual fazer.

Roubadas — Cuidado com cursos que são meras palestras filmadas por Skype! Uma vez cheguei a pagar por uma aula anunciada no Instagram com três ilustradoras que admirava. Na hora de assistir, eram vídeos super mal feitos de telas de computador. Pedi meu dinheiro de volta depois da meia hora. Reclamaram, mas devolveram. Por essas e outras é que costumo pagar tudo online com Paypal, inclusive livros, já que fica mais fácil estornar valores.

Curso milagroso x seu tempo — Assim como na vida acadêmica, no mundo da arte também procuramos pela fórmula mágica que vai nos transformar em artistas da noite para o dia. Isso não existe. Mesmo para pessoas que nascem com talento e criatividade excepcionais, é o trabalho diário, a persistência, a capacidade de recomeçar, enfrentando as dificuldades, que faz com que avancem.

Para nós, simples mortais, o caminho é o mesmo. Considero que retomei essa estrada em 2004 (em cursos da faculdade de design, trancada depois). Continuo dando passinhos de formiga, muitos pra frente, outros pro lado, vários pra trás (meu momento atual!). Em 2008, quando senti que tive um certo desenvolvimento, meu professor Manoel Fernandes me disse: mais do que as aulas, o que está fazendo você se desenvolver é o uso diário do caderno, seus desenhos no metrô; não pare! Ou seja, não adianta frequentar o melhor curso do mundo se você não pratica, se não investe seu tempo e atenção nisso.

É isso, pessoal! Espero que essas dicas sejam úteis. ♥ Eu poderia falar do mundo Youtube, mas vou deixar para um outro dia, se vocês tiverem interesse.

Levei três semanas fazendo esse post porque foram muitos detalhes para lembrar e informações e imagens para organizar.

Nesse meio tempo, fiz uma cirurgia para retirar uma pedra na vesícula. Já passei pela primeira semana de repouso e está tudo indo bem! ☺ Bons desenhos!

Você acabou de ler “Doze dicas de cursos de desenho e aquarela que já fiz (presenciais e online)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Doze dicas de cursos de desenho e aquarela que já fiz (presenciais e online)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-39g. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Outubro/2017 e abraço coletivo

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“I can’t change the way you feel. But I can put my arms around you…” (Protection, Massive Attack)

Não posso mudar a maneira como você se sente, mas posso te abraçar… te aconchegar em meus braços…

Ai, não sei traduzir direito, mas amo essa música! Anotei os versos para compartilhar com vocês faz um tempinho e nunca chegava a hora. Isso de só fazer post sério está acabando comigo!

Por hoje, queria compartilhar essa ideia: que a gente não tente anular os sentimentos dos outros; que a gente possa abraçar e acolher quem estiver precisando.

Mas, cuidado, abraço-alert: não adianta querer abraçar o mundo! É só um abracinho de cada vez.

Ideias? Essa semana, consegui abraçar assim: dei um guardanapo colorido de presente para minha mãe; achei um tempinho para fazer uma receita nova com a Alice; fui aos Correios para o Antônio; comprei frutas para os funcionários do meu prédio; respondi vários Whatsapp atrasados com carinho; liguei para uma amiga que estava precisando; doei reais para duas campanhas solidárias na internet; ajudei alguns alunos que me procuram pelo Facebook. Sim, eu sei, não é muito, não é super relevante, mas foi o meu possível.

Ah, e também fiz o calendário de outubro adiantado! Isso conta?? Aí vai para vocês imprimirem! Tem a versão em melhor qualidade em .pdf ou a menor em .jpg (cliquem na imagem acima). Depois me digam se a impressão em casa ficou boa.

O tema surgiu da leitura da autobiografia da Agatha Christie (para quem não viu, escrevi este post e este). Ao procurar imagens das escavações sobre os Assírios, achei um desenho italiano, inspirado em uma ruína de mais de 2000 anos A.C. Aliás, já encomendei na Estante Virtual o livro dela sobre arqueologia que vocês me indicaram. Quando chegar eu conto mais.

Florzinhas no dia 12: porque é feriado no Brasil. E nunca é demais lembrar: outubro é o mês da prevenção do câncer de mama! Meninas, já fizeram seus exames anuais? Seus auto-exames mensais? Mais informações aqui.

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota para se distrair na internet, sem academês:

* Documentário sobre a Lady Gaga na Netflix. Dá para ver com crianças acima de dez/doze anos.

* Descobrimos Sessão de Terapia, no Now/Net. Só para maiores de 16, pelos temas mais densos e complicados.

* MasterChef Profissionais, Segunda Temporada. Como disse um amigo no Facebook, demorei, mas finalmente descobri a graça desse programa! A Alice insistiu tanto que agora estamos os três viciados, vendo as edições antigas no Youtube.

* Vídeos sobre ilustração, pintura e a vida em geral da chilena Fran Meneses, morando atualmente em Hastings, Inglaterra. Color-alert: só para quem gosta de rosa! (Em inglês, com legendas em espanhol.)

* Vídeos sobre aquarela, vida de ilustradora e veganismo da inglesa Holly Exley. Os vlogs variam muito; alguns super legais, outros nem tanto. (Só em inglês.)

* Solução para não se deprimir no Facebook: colocar estrelinha azul (para ver primeiro) em páginas que só mostram generalidades tipo Artsy, Ted-Ed, Science, The Dodo, Tasty, Brain Pickings, ah, e “Borges, o Gato”! Todas as polêmicas do momento ficam distantes que é uma beleza! De quebra, não dá vontade de entrar lá.

* E a música citada no início, do Massive Attack: Protection.

Esses links vão para as amigas virtuais mais gentis do mundo, Ana Regina Machado e Teresa Ogando, que comentou que sentia falta deles. ♥ Aí estão, querida! ♥ Acho que nunca compartilhei tantas intimidades como hoje! 😉

Sobre o desenho: Linhas feitas no calendário já impresso (em papel comum) com canetinhas de nanquim permanente Pigma Micron números 0,1, 0,4 e 1,0 (quanto mais fina, mais dá para fazer os detalhes internos). Depois colori com marcadores. Utilizei caneta pincel Koi brush da cor Vermillion para as partes vermelhas; e caneta pincel Zig Art, da Kuretake n.63 para as partes azuis (só tenho essa cor dessa marca). A Koi brush está sendo vendida em algumas papelarias brasileiras — a Papelaria Botafogo aqui no Rio está vendendo. As cores são lindas, mas ainda prefiro as Tombow. Pena que todo esse material é tão caro e nunca temos todas as cores que existem lá fora.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Outubro 2017 e abraço coletivo”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-360. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2)

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Em 1962, Agatha Christie foi convidada de honra para a festa de dez anos de encenação de sua peça A Ratoeira, em Londres. Conforme o combinado, chegou ao teatro com antecedência, mas foi barrada na recepção: “Ninguém pode entrar, no momento, minha senhora. Faltam vinte minutos.”

Sua reação surpreende: “Então saí.”, ela conta. Não conseguiu explicar que era a senhora Christie devido à enorme timidez. Ficou vagando pelos corredores até ser salva por uma assistente da direção que riu muito quando a reconheceu, assim como o diretor, que dava gargalhadas. Ela já era, então, a autora mais lida do mundo.

Escrita e insegurança  — Essa pequena história ilustra um aspecto que me parece comum na vida acadêmica e fora dela: mulheres inseguras em ser quem são, especialmente no mundo público. A própria Agatha comenta que não consegue se “comportar como uma escritora”, porque se sente “fingindo ser alguém que na verdade não é”. Ela acha que muitos autores se sentem assim, precisando se reafirmar. Compara essa sensação com o dia em que viu seu neto descendo as escadas dizendo para si mesmo: “Este é o Mathew descendo as escadas!” Na festa no teatro, ela precisou pensar:

“Esta é Agatha, fingindo ser uma escritora renomada, indo para a grande recepção oferecida em sua homenagem. Ela tem que parecer alguém, tem de fazer um discurso que não sabe fazer, tem de ser um personagem que não sabe interpretar.” (Agatha Christie, Autobiografia, p. 523)

Quantas de nós já não nos sentimos assim em salas de aula, eventos, numa defesa de tese ou em qualquer situação em precisamos parecer inteligentes?

Uma das delicadezas da Autobiografia de Agatha Christe é que ela se mostra como uma pessoa comum, cheia dúvidas e incertezas, ao mesmo tempo em que narra feitos extraordinários.

Escrita e coragem — Em 1928, depois da morte de sua mãe e da traumática separação do primeiro marido, a escritora reuniu forças para realizar uma viagem. Mulher, divorciada, com uma filha, escolheu um destino nada óbvio: pegaria o Expresso do Oriente, passando por Turquia, Síria e Iraque. Ela reflete:

“Agora eu estava viajando sozinha. Agora, eu devia descobrir que tipo de pessoa eu era — se me tornara completamente dependente dos outros como eu temia. (…) Às vezes, pensava que minha natureza era como a de um cachorro: cachorros não saem para passear, a não ser que alguém os leve. Talvez eu fosse assim. Esperava que não.” (Agatha Christie, Autobiografia, p. 364)

Esse paradoxo me fascina na narrativa da escritora: humilde, a ponto de se comparar a um cachorro obediente, mas corajosa a ponto de se lançar numa viagem solitária, naquela época e lugar. A despeito de todos os conselhos negativos, maravilhou-se por atravessar desertos e dormir ao relento, relevando desconfortos materiais em nome de conhecer pessoas e paisagens. Dessa e de outras viagens surgiram muitas das suas histórias e o segundo casamento, com o arqueólogo Max Mallowan.

Pensando bem, talvez humildade e coragem não sejam tão paradoxais como escrevi acima. A gente precisa de coragem para ser humilde (“Só sei que nada sei”, disse o audacioso Sócrates). Será que desse patamar não pode florescer uma escrita menos sofrida, mais valente, da nossa parte?

Escrita com diálogos e personagens — Num dia triste de inverno, a mãe da entediada Agatha sugeriu: “Por que não escreve uma história?” A filha achou que não conseguiria, mas a mãe foi insistente: “Você não sabe se pode ou se não pode, porque nunca tentou.”

Ao mandar essa primeira história a um editor, amigo da família, recebeu uma carta com boas críticas e conselhos: “Você tem um grande talento para os diálogos.” Insista naquilo que você faz bem! O mesmo editor escreve um maravilhoso conselho, que vale também para autores de textos etnográficos:

“Experimente eliminar todas as considerações morais de seus romances; (…) não existe coisa mais maçante de se ler. Tente dar liberdade a seus personagens, deixando-os falarem por si próprios, em vez de se apressar para dizer a eles o que deveriam dizer, ou para explicar ao leitor o que eles querem dizer com suas palavras. Cabe ao leitor julgar por si mesmo.” (Eden Philpotts, em carta a Agatha Christie, Autobiografia, p.198)

Escrita, satisfação interior e cotidiano — Para Agatha, a escrita é um impulso criativo, tão valioso quanto qualquer outro, como bordar, costurar, tocar, cozinhar, pintar flores em porcelana. “A satisfação interior do artista é essencialmente a mesma.” A única diferença, ela escreve, “é que algumas dessas ocupações conferem mais status do que outras”.

“O que existe de melhor na carreira de escritor é que podemos trabalhar a sós e dispor de nosso tempo.” Mas escrever também cansa, gera mau humor, ela reconhece. Empacada no meio de um livro, recebeu o conselho de sua mãe: vá para um lugar “sem nada que a perturbe”.

Embora apreciados, esses tempos de foco e reclusão eram raros na vida de Agatha Christie. Sua prática de escrita se deu quase sempre misturada com a vida cotidiana: filha para cuidar, contas a pagar, cartas a responder. Gostava mais de arrumar a casa: “Existe uma monotonia nas tarefas domésticas — e suficiente atividade física, de modo a liberar a mente, permitindo-lhe ganhar espaço e construir seus próprios pensamentos e invenções”.

Escrita e independência — Uma das coisas mais surpreendentes na leitura da Autobiografia de Agatha Christie, para mim, foi a rápida independência financeira que a escrita lhe proporcionou. Após uns poucos livros, por volta de 1924, aos 34 anos, ela recebe uma oferta de 500 libras para uma história a ser publicada em capítulos num periódico. (Para vocês terem uma ideia, o antropólogo Bronislaw Malinowski vivia com um orçamento apertado de 150 libras por ano nos seus tempos de trabalho de campo entre a Austrália e a Papua Nova Guiné.)

Ao contrário de muitos escritores, o trabalho de Agatha vai lhe render uma fortuna, feito notável para uma mulher cuja família havia perdido quase tudo por volta da primeira guerra mundial e que, dali a uns anos, estaria divorciada, com uma filha, sustentando-se sozinha. Aliás, falando sobre a filha, ela nos deixa entrever o quanto aprendeu a valorizar o amor com independência e liberdade:

“Acho que não existe nada de mais empolgante neste mundo do que ter um filho, só seu, e que ainda assim é misteriosamente um estranho. Você é a porta por onde ele ingressa no mundo, e lhe será permitido cuidar dele por um tempo: depois disso, ele vai deixá-la para desabrochar para a liberdade de sua própria vida (…). É como uma semente desconhecida que você trouxe para casa, plantou e mal pode esperar para ver que tipo de planta será.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.333)

Escrita profissional — “Não é um bom começo julgar-se um gênio nato”, aconselha Agata Christie. Ela própria demorou muitos anos para se perceber como escritora profissional, papel que não deixa de ser o de todos os acadêmicos, em especial das áreas de humanas. Ela diz:

“Foi então que assumi o peso de uma profissão, que é escrever mesmo quando não se está com vontade, quando não se está gostando do que se está escrevendo e quando não se está produzindo algo especialmente bom.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.360)

Em vários momentos do livro, ela afirma que foi criada por uma mãe da era vitoriana, aprendendo desde cedo que, diante de uma ordem ou um dever,  “aceitava-se o fato”. Diante das dificuldades (não só emocionais, mas de duas grandes guerras), repetia para si mesma os conselhos de um amigo que considerava como pai: “O que quer que aconteça, aceite-o e siga em frente. Você é forte e corajosa. Ainda tem muito sentido a dar à sua vida.” Aceitar aqui não era passividade, mas encarar os acontecimentos e achar forças para superá-los. Foi a partir desse conselho que decidiu rumar sozinha ao Oriente (história que contei acima).

Escrita e crises — Apesar da progressiva segurança, Agatha também passava por crises de criatividade que às vezes duravam semanas. Nessa hora, ela lembra, precisava aguentar firme:

“É uma angústia inigualável. Sentava-se na sala, mordendo o lápis, olhava para a máquina de escrever, caminhava pelo quarto ou jogava-me em cima de um sofá, com vontade de chorar! Depois saía, interrompia alguém que estava trabalhando (…) e dizia: — É terrível, Max. Acho que esqueci como se escreve um livro! Simplesmente não consigo. Jamais vou escrever um livro novo!” (Autobiografia, Agatha Christie, p.479)

Max, seu marido, respondia: “Ah, claro que vai!” E ela teimava: “desta vez é diferente”, mas não era. Sempre esquecia que já havia sentido antes o “desespero, a infelicidade e o sentimento de impotência para fazer algo com um mínimo de criatividade”. No entanto, conclui que a “crise de infelicidade” precisa ser vivida:

“É como se só depois de muita reviravolta interna, depois de horas de tédio profundo, é que nos sentíssemos normais. (…) Ficamos, enfim, tomados por um sentimento de desesperança paralisante. De repente, por alguma razão desconhecida, uma espécie de fagulha faz com que comecemos a agir. Compreendemos que o livro está começando a nascer, que a neblina está se dissipando.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.480)

Acho que este é (neste momento) o meu trecho favorito da obra! Em agosto de 2017 passei por essa sensação de que jamais iria conseguir escrever algo de bom ou achar um caminho para a minha pesquisa. Que alívio ler uma escritora tão produtiva me ajudando a entender que esse sentimento faz parte.

Livros-tesouros — “A cada ano torna-se mais difícil encarar o futuro. Nada parece valer a pena”, escreve Agatha, referindo-se tanto ao presente (1965, contexto da guerra fria), quanto ao trauma da segunda guerra mundial. No entanto, ela afirma: “A esperança é a virtude que mais deveríamos cultivar hoje e sempre”.

A escritora enfrentou as duas guerras como voluntária em hospitais, onde aprendeu enfermagem e a manipular remédios. Na segunda guerra, além desse serviço, manteve-se escrevendo. A essa altura, seus livros já valiam tanto que ela providenciou um “seguro” para seus familiares. Escreveu uma aventura de Poirot para sua filha Rosalind e uma de Miss Marple para seu marido Max e depositou os dois manuscritos em um cofre num banco, a salvo de destruições por bombardeio!

Agatha considera a “sorte” como principal fator de seu sucesso. Eu acrescentaria a despretensão, a imaginação, a alegria de viver e de escrever:

“De repente, senti que estava me divertindo: o maravilhoso instante na vida de um escritor que, embora seja muito breve, o impele a se entregar totalmente a uma obra tal como ser apalhado por uma boa onda no mar (…). ‘Que maravilha, estou conseguindo! É o meu ofício. O que vem a seguir?’” (Autobiografia, Agatha Christie, p.521)

Obrigada a todos que chegaram até aqui!! Que esse texto traga um pouquinho de esperança para nós, que estamos precisando tanto. ♥

Esse post é uma continuação do anterior: Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 1)

Sobre o livro: Autobiografia, Agatha Christie. Porto Alegre, L&PM, 2015. (Tradução de Bruno Alexander). Queria só avisar a todos que se empolgaram em comprar e ler: é muita responsabilidade indicar um livro tão grande e que tem alguns pontos sensíveis, aos olhos de hoje.

Outros livros: Leitores do post da semana passada me indicaram dois livros que complementam essa autobiografia, ambos com versões em português. “Na Síria” (título original Come, Tell Me How You Live) que narra os tempos de Agatha Christie junto ao projeto de arqueologia de seu marido naquele país; e “Ausência na primavera” (título original Absent in the Spring), publicado sob o pseudônimo de Mary Westmacott, sobre uma mulher que se vê sozinha, questionando sua própria identidade. Ela fala com muito carinho de ambos os livros, especialmente do segundo, do qual os editores não gostaram nem um pouco, mas ela sim:

“Pode até ser que seja bobo, mal escrito, que não preste para nada. Entretanto, foi escrito com integridade, com sinceridade; foi escrito como desejei que fosse escrito, e esse é o maior orgulho que um escritor pode ter.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.506)

Isso deveria valer para todas as nossas teses e artigos, concordam? Podem não ser perfeitos, mas nem por isso devemos valorizá-los menos, principalmente pelo tanto que contribuem para nosso aprendizado.

Sobre o desenho: Na falta de uma ilustração (sem tempo para desenhar!!), utilizei esse carrinho, desenhado no Museu da Ciência em Manchester, Inglaterra, em agosto de 2016, porque ele se parece muito com o Morris-Cowley, primeiro carro que Agatha Christie comprou e que a fez se sentir livre e independente. O desenho foi feito num caderno com papel de aquarela, desenhado com canetinha de nanquim permanente descartável (não me lembro o número) e colorido com aquarela (aumentei o contraste com Photoshop depois de escanear). A proposta do workshop era deixar algumas partes sem terminar mesmo, do tipo “menos é mais”.

Você acabou de ler “Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-agatha2. Acesso em [dd/mm/aaaa].