Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

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Biblioteca sonora

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“Meu coração é um pórtico partido | Dando excessivamente para o mar. | Vejo em minha alma as velas vãs passar | E cada vela passa num sentido.” (Fernando Pessoa)

Esses versos me acompanham desde a escola, porque eu e uma amiga fazíamos coleções de poesias e de trechos de livros. Os sons de certas frases parecem se acumular na nossa memória, como livros de uma biblioteca sonora.

Nem sempre é questão de escolha, e muito menos são apenas os bons sons que ficam. Quem não tem dificuldade para esquecer palavras duras, críticas, despedidas; uma voz ameaçadora, uma arma sendo engatilhada? Até hoje lembro do som das vozes que me deram as notícias, pelo telefone, das mortes de duas pessoas muito amadas. Sons e sensações que ecoam juntas pra sempre.

Mas é nos tesouros que quero pensar. A primeira vez que o Antônio me disse que eu estava bonita, com aquela vozinha de criança aprendendo a falar. As risadas da Alice ainda bebê e, mais tarde, ela cantando Asa Branca. Os vários momentos em que a vida acadêmica me disse passou, aprovada. As risadas de uma platéia querida; o momento em que escutei “meu sol, minha flor”.

De vez em quando gosto de sonhar com bibliotecas alheias também. Nunca vou me esquecer do Stephen King contando em sua biografia que, diante de suas fracassadas tentativas de escrever, sua mãe sempre lhe dizia: “Escreve outro, escreve mais.” E tomei emprestada essa mãe, como se a voz dela existisse na minha memória.

São palavras que me vêm à mente quando preciso de ânimo para enfrentar o que considero a pior forma de stress: — Qual o sentido disso tudo? Trabalhar, ser professora, estudar, dar aula, educar… pra quê, se nada do que faço parece consertar o mundo nem um pouquinho?

Talvez, como diz o poeta, sejam vários sentidos, indo e vindo. Cabe a nós escutar; cultivar a biblioteca que nos cultiva.

Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana: 

. O blog foi inundado com milhares de visitantes em busca das dicas de doutorado essa semana. Obrigada, sejam bem-vindos, boas defesas! Espero ter ajudado. ♥

. Uma das melhores coisas da semana foi entrar rapidinho no Facebook e me deparar com a aula de poesia sempre aberta na timeline do Carlito Azevedo (sobre quem já derramei elogios aqui). Dessa vez foi esse poema de Wislawa Szymborska::

DE CADA CEM PESSOAS,

as que sabem de tudo:
cinquenta e duas;

as sempre inseguras:
quase todo o resto,

as prontas pra ajudar
(desde que não demore muito):
no máximo quarenta e nove,

as sempre boazinhas
(porque não conseguem agir de outro modo):
quatro, talvez cinco,

as dispostas a admirar sem inveja:
dezoito,

as que vivem continuamente angustiadas
por alguma coisa ou alguma pessoa:
setenta e sete,

as capazes de serem felizes:
quando muito, vinte e poucas,

as inofensivas quando sós
mas selvagens quando em bando:
mais da metade, tranquilamente

as cruéis
quando as circunstâncias obrigam:
isso é melhor nem saber
nem mesmo aproximadamente,

as que depois já sabiam de tudo:
não muitas mais
que as que já sabiam de tudo antes,

as que da vida só querem coisas:
quarenta,
mas preferia estar errada,

as encurvadas, doloridas
e sem lanterna no escuro:
oitenta e três,
mais cedo ou mais tarde

as dignas de compaixão:
noventa e nove,

as que vão morrer:
cem, entre cem,
número que até hoje não sofreu qualquer alteração

Sobre o desenho: Dando asas ao meu amor pelas cores misturadas, pelas possibilidades de aprender mais sobre os tons, fui fazendo essas bolinhas ao longo de dois ou três dias da semana passada. Usei um pincel n. 3 que adoro da linha Anna Mason, da Rosemary & co. inglesa (são baratinhos se alguém comprar lá!) e aquarelas de várias marcas, no caderninho feito por mim com restos de um bloco Fabriano já amarelado pelo tempo. Pensando bem, não deixam de ser mini círculos sonoros em várias vibrações.

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Travessias

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Travessia, fuga, passagem, mar, transporte, morte, saudades, espera…  Se eu encontrasse o gênio da lâmpada, teria um só pedido: teletransporte universal. Que todas as pessoas pudessem se deslocar num segundo para os braços de seus amores, familiares, lares e terras. Acabariam as guerras, as lonjuras, a concentração das cidades.Seria possível viver no interior e trabalhar no litoral, ensinar na floresta, aprender no rio, levar comida, esperança e sol para quem precisa. (E não pediria amor, porque é sabido que os gênios podem tudo, menos implantar o amor no coração das pessoas. Se pudessem, não haveria necessidade de gênios, né?)

Lembrei do meu apreço pelos lugares de passagem — das pontes aos envelopes — vendo essa semana as imagens emocionantes de Eduardo Salavisa sobre refugiados em Portugal, iluminando um texto de Catarina Fernandes Martins e um vídeo de Frederico Batista para o jornal Público.

Desenhador imperfeito, como ele gosta de se denominar, Eduardo Salavisa é um dos artistas que mais admiro, por seus livros, seu blog, suas viagens, pelas redes que movimenta, pela pessoa que é. Seus traços e cores nos transportam… Seu afeto pelas coisas que desenha nos faz afetados por elas, promessa que muitas vezes a antropologia não consegue cumprir.

Vejam por vocês mesmos no vídeo acima de Frederico Batista (4:30′) ou leiam a matéria ilustrada Saudade de ti, quando vai chegar?

Sobre o desenho: Fiz o desenho que abre o post na plataforma da estação Uruguaiana do metrô do Rio com canetinha de nanquim permanente 0,2. Em casa, recortei e colei algumas imagens: o adesivo a-travessa (pedaço de uma etiqueta da Livraria da Travessa), a malinha (do folheto da exposição sobre as cartas de Augusto Boal do IMS) e pedacinhos de pacotes de chá que colei ou redesenhei. O bichinho no canto esquerdo é um carimbo de gato que botei numa nuvem. As cores foram pintadas em casa com aquarela e pincel de água Kuretake.

Links: Além do blog de Eduardo Salavisa, remeto a um dos posts preferidos que já escrevi: Não passei. E já ia me esquecendo: impossível não citar a travessia da Genifer Gerhardt no Tempo, com quem tive a honra de colaborar, como contei aqui.

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Julho/2016!

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Queridos, antes que o mês acabe, aí vai o calendário em .jpg e em .pdf!  Tubinhos de tinta para nos lembrar que a arte salva o espírito, sempre.

Sobre o desenho: Tubinhos de tinta inspirados em várias marcas que tenho aqui. Linhas desenhadas com canetinha Faber-Castell Pit XS (equivalente a 0,1) e canetinha Unipin 0,05. Cores feitas com lápis de cor aquarelável Caran D’Ache e canetinhas tipo pincél da Tombow (para os tons de cinza e azul bem claro).

(Post de verdade só semana que vem.😉 )

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Os bichos do meu pai e o talento de Roberto Negreiros

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Quando nasci, meu avô gritou pela janela de um prédio da Rua Buenos Aires: — É menina! Em frente trabalhava meu pai, já cansado de ter filhos e dos alarmes falsos do bebê. Eu estava dividida: será que valia a pena vir para esse mundo? Até que não pude hesitar mais, vocês sabem como é.

Minha primeira lembrança é a de morder a minha amiga Adriana e ficar de castigo, chorando e tentando fazer um som alto que pudesse ser ouvido tanto como “mãããe” ou “pãããe”: quem sabe um dos dois vinha? Graças a esse dia, aprendi que era melhor não gritar, não morder e ir cuidar da minha vida.

Não me lembro de brinquedos preferidos: o que eu mais gostava era de bicho. Tinha um cachorro maior do que eu no apartamento. O amor pelo cão era do meu pai, mas quem cuidava era minha mãe. Taí a metáfora do casamento patriarcal. Que bom que a minha mãe se separou. A culpa não era do animal, mas sua presença deixou sequelas: nunca mais minha mãe aceitou bicho em casa. Até hoje tenho o sonho de ter um cachorro grande. Em 2009, aplaquei um pouco a vontade adotando dois gatos.

Depois de separado, meu pai continuou insistindo em ter bichos, e para isso precisava achar mulheres para cuidar deles. Ou era ao contrário? Foram vários: gatos estrangeiros, cachorros histéricos, gigantes, minúsculos, todos com problemas de comportamento vocês-sabem-porque. Minha favorita foi a gatinha Nívea, importada junto com a namorada americana que gostava de andar pelada pela casa (anos 1970, perdoem a moça). A falta de roupa era compensada por cílios postiços imensos (imaginem meu susto a primeira vez que vi a mulher puxando os olhos com uma pinça!) e o excesso de pelos da gatinha, uma persa que precisava ser escovada duas vezes por dia e cuja pelagem a dona usava para cobrir as partes.

Um dia, essa namorada foi embora e abandonou os gatos lá com meu pai, coitados. Caíam da janela (por sorte um segundo andar), passavam fome (acostumados com ração de primeira) e os pelos embolavam tanto que tinham que ser tosados por falta de escova. Decidido a mudar e ser responsável, meu pai arranjou outra namorada. Ela até gostava de bichos — disso não podemos acusá-la — mas cuidar dos gatos da americana plastificada? Aí já era demais.

Sabendo do coração mole do parceiro, a moça veio com um (ou dois?) cachorros a tiracolo, os “seus”, naturalmente — ou foram adotados como símbolo do enlace, sei lá. O caso é que os gatos passaram do semi-abandono ao purgatório. Nívea tentou fugir tanto que conseguiu e morreu atropelada. Fuzi, seu par lindo e gigante, vivia apavorado e escondido, ao ponto que não se notava mais sua existência. Acabou sendo doado para a moça da faxina, com certeza a melhor coisa que aconteceu na sua vidinha sofrida.

Essas lembranças foram inspiradas num livrinho delicioso que li essa semana: “Com a palavra o ilustrador Roberto Negreiros” (editora Mandacaru, SP). É um pequeno volume (62 páginas) de uma coleção de três, com imagens e textos autobiográficos de ilustradores. Além dos traços leves e divertidos (a la Sempé), Roberto Negreiros é um narrador fantástico, desses que te levam, de sorriso em sorriso, até a última página, onde a única tristeza é que a história acabou…

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Da origem como “artista egípcio” aos domingos como “oficial arrancador de pelos das orelhas” do tio Ruy, o autor desfia uma coleção de personagens da sua infância, sempre com aquela mistura de humor e compaixão que tanta falta fazem na internet de hoje. Meu capítulo favorito é o da bicicleta que o menino não queria saber de aprender. Com a desculpa de embelezá-la, dava seguidas mãos de tinta na bichinha, alegando que precisavam de uma semana para secar bem.

De pintor de bicicletas a aluno do Externato Paulista, cujo lema ele diz que era “entra burro e sai artista”, o pequeno Roberto já se fazia admirado pelo talento com que desenhava em calçadas, murais e cadernos. Que bom que não se tornou farmacêutico, como seu pai queria. Sorte nossa e da arte! Sua obra pode não solucionar, mas certamente torna a realidade menos “rude, injusta e aborrecida”, como um dia ele a julgou, apaixonado diante de uma tela de cinema.

* Sobre a imagem inicial do post: Não tem muito a ver com o tema do texto, mas foi uma mistura de desenho, pintura e colagem que fiz nos últimos dias. Começou com dois passageiros observados no metrô (canetinha Pitt S Faber-Castell). Depois colei o pássaro, recortado de um folheto do Jardim Botânico. Por último, catei folhas no Parque Lage para inspirar as pinturas (contorno a lápis primeiro, seguido de água e aquarela). Estava melhor (e mais leve) com menos folhas, mas isso eu só descobri quando coloquei as outras! O suporte foi um caderninho novo (15 x 15 cm) que fiz com costura simples a partir de folhas de papel Fabriano antigas. Agora, pensando bem, o pombo olhando o casal separado até que se encaixa na primeira parte do post; as folhas parecem o tempo e, viajando um pouco, tudo lembra a vida rude e aborrecida da qual Roberto Negreiros nos ajuda a escapar.

* Links e coisas dignas-de-nota da semana:

. O livrinho mencionado vem numa caixinha chamada “Com a palavra, os ilustradores”. É difícil de achar, mas tem aqui e na estante virtual tinha também.

. Para ver um pouquinho do Roberto Negreiros, tem uma página no Facebook e um blog, (ambos sem atualização recente, já vou avisando).

. Para quem quer dar um passeio pela obra de Sempé, achei dois pequenos vídeos: um com o artista no seu estúdio desenhando; outro com uma coleção de imagens. É pena que não exista um site a altura da sua obra (se existe, não achei).

. Ainda para deixar a vida menos chata, um texto do Umberto Eco, “Por que as universidades?”, traduzido por Marco A. Nogueira. De 2014, é leitura indispensável nesses tempos difíceis por que passamos, não só os colegas professores das universidades estaduais do Rio de Janeiro, mas todos que acreditam que só a educação muda o mundo pra melhor.

. Sobre a promessa de dieta eletrônica do post da semana passada, me dou nota 6,0. O critério de autocorreção foi o seguinte: perdi quatro pontos porque, em vários momentos, peguei o celular (ou abri o notebook) achando que ia encontrar ali alguma resposta; mas ganhei seis pontos porque lembrei de ler, desenhar, escrever, conversar e até de tocar um pouco de violão com a Alice.

. Queria terminar agradecendo as mensagens de incentivo de vocês! Não estou dando conta de responder com calma, desculpem. Mas cada comentário e likes me alegram e me animam a continuar. Obrigada! ♥

 

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Dieta eletrônica

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“Letting go is one of the most difficult of actions, and yet, letting go is one of the great tasks of adulthood, especially as we age.” (Tara Rodden Robinson)

Fugir de todas as tarefas para desenhar e pintar por duas horas: essa tem sido a escolha mais sábia das minhas últimas semanas. No final de maio, fui ao Cactário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro para fazer esse desenho no caderno de uma amiga que mora em Munique, na Alemanha (daí a dedicatória do lado esquerdo). A paz e a lindeza desse espaço são muito maiores do que consegui captar, mas valeu ter enfrentado meus medos e fazer. Desenhei e pintei lá mesmo, só deixando alguns retoques para terminar em casa.

Escrever sobre essa pausa me lembra do meu maior desafio atualmente: estancar o fluxo de informações, demandas, vídeos e junk-coisas que têm inundado meu dia-a-dia eletrônico. Toda vez que salvo um conteúdo novo no Facebook, ele me lembra, irritante: “você tem 11 links salvos e não abertos essa semana”. De que adianta salvar mais e mais coisas interessantes se não as aproveitamos de fato depois?

Montaigne tinha 300 e poucos livros. Quem sou eu para precisar de milhares de links? Taí, depois de 8 meses fiel à minha opção de vida-sem-açúcar (embora ainda sinta falta, não vou mentir), preciso entrar numa dieta de conteúdo. Tenho alma de pessoa-que-se-vicia-em-tudo e por isso minha sobrevivência depende de um eterno esforço auto-disciplinar. Não quero sair do Facebook, pois lá fiz amizades maravilhosas, muitas virtuais e várias que se expandiram para a vida offline. A dieta seria só de navegar “menos”, justamente o equilíbrio de tomar “pequenas doses” que as almas viciadas têm tanta dificuldade para lidar… Bora tentar, que vida sem desafio não tem graça.

Sobre a epígrafe: O texto é desse livro aqui, que li recentemente na app do Kindle para celular. Apesar do título meio cafoninha e enganoso (não, não há nada de sexo no livro), é uma leitura ótima para mulheres em busca de uma vida mais equilibrada e criativa. Recomendei para tantas amigas que vai agora para todas as leitoras do blog. É uma obra simpática para quem está precisando de um incentivo à produtividade, mas o foco é mais no auto-conhecimento e na busca-de-um-caminho-próprio do que no alcance de metas e resultados. Depois me contem o que acharam!

Sobre o desenho: A imagem que ilustra o post foi feita pela observação no cactário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (R$ 10,00 reais a entrada), num domingo, durante cerca de duas horas e meia. Linhas feitas com canetinha Pigma Micron 0,2 num caderno feito à mão pela minha amiga (provavelmente papel 140gr cold press para aquarela). Aquarelas pintadas com vários pincéis e tintas, tendo bastante paciência para deixar secar uma camada antes de começar outra.

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Passageiros do metrô (2)

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Quando estou meio confusa, aprendi que a melhor coisa é voltar ao básico, às coisas simples que me fazem bem. Desenhar é uma delas, vocês sabem. Então, hoje é post de volta aos personagens que me fizeram entrar no caminho da observação gráfica. Eles estão na origem do blog (posts 1, 2, 3 e 4; e que expliquei aqui). Mas o melhor que eu poderia dizer sobre eles, escrevi no post Irmãos e irmãs de Shakespeare, um dos meus preferidos até hoje.

A todos nós, um final de semana com boas doses de descanso, tranquilidade, produção, energia e amor. ♥

E para a Fabiana (e todos os doutorandos desanimados), que me escreveu lá da Austrália uma mensagem linda, um abraço apertado de acolhimento, carinho e energias positivas. Sim, você disse tudo: para criar a gente precisa se cuidar. Acrescento, pensando alto: criar devia ser uma forma de se cuidar — no sentido de se cultivar — também, não acha? Então, quem sabe, fosse bom a gente se perguntar: para quem escrevo essa tese? Por que cheguei até aqui? E lembrar dos dias em que esse desejo era fresco e bom! Você tem sim o direito de botar sua palavra no imenso livro do mundo. Tem sim.

Sobre o desenho: Passageiros do metrô carioca, que tenho desenhado com caneta Pigma Micron 0.2 num caderno bem baratinho, de folha de jornal. Pintei com aquarela em casa, explorando aguadas bem finas e transparências, que é a habilidade que mais busco nos meus estudos de pintura atualmente. Respeitei os tamanhos das figuras conforme foram desenhadas, mas tirei as manchas e rugas das páginas no Photoshop, onde também montei essa imagem geral. O caderninho é tamanho A6 (metade da metade de uma folha A4).

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Sentido no caos em Junho/2016!

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Quando eu era pequena, adorava um programa de tevê chamado Vila Sésamo. Lembro vivamente do meu quadro favorito: Ênio e Beto pegavam um pote cheio de meias e brincavam de achar os pares. Eu ficava hipnotizada e feliz de ver os dois juntando as formas e cores que combinavam.

Buscar sentido no caos me traz conforto, desde sempre. Acho que vem daí o meu senso de organização e, bem depois, o fascínio pela antropologia — que não por acaso começou nas aulas da Maria Claudia (Coelho) ensinando análise estrutural dos mitos. Que lindeza aquilo: servia para os gregos, para os índios e para os filmes de James Bond!

Esse amor pela lógica me faz insistir no otimismo, sempre. Há crianças no mundo, há idosos, há milhões de pessoas vulneráveis. Temos muitos pares de meias para formar. Há muito que fazer, pra ontem, por muitos caminhos possíveis. Tenho uma amiga querida que vai todo sábado trabalhar com jovens na periferia, anônima. Não é para divulgação, é o estar dela no mundo: trocar, agir, viver.

Bem-vindas as meias e bem-vindo o mês de junho!

4 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota das últimas semanas:

♥ Alice, que já usava óculos para astigmatismo, começou a reclamar que não estava enxergando o quadro na escola. Ainda tentei argumentar que ela tinha feito exame há poucos meses. — Mãe, estou dizendo que piorou! Dito e feito: diagnóstico de 0.5 graus de miopia em cada olho. Sorte nossa que ela gosta de usar óculos (e que temos uma oftalmologista ótima do plano!).

♥ Tem coisa mais deliciosa do que receber um presente de verdade pelo correio, com direito a dedicatória e florzinha? Obrigada, querido tímido amigo, pelo exemplar que será lido em breve de De Olinda a Holanda: o gabinete de curiosidades de Nassau, de Mariana de Campos Françozo (Ed. Unicamp).

♥ O desastre com o Césio 137, em Goiânia, foi proposto como tema de trabalho aos alunos do ensino médio na escola do Antônio. A peça de teatro que ele montou com um grupo de amigos tocou tanto as pessoas que foi apresentada em várias turmas. E a atividade valeu nota para disciplinas de áreas diversas como química, português, história, sociologia. Como o mundo seria melhor com um ensino assim para todos, universidades inclusive…

♥ Meu novo bebê queridinho é o Francisco, um pequeno humano que teve a sorte de nascer irmão do gato-escritor Borges. Fui visitar o carequinha da família, apertei e beijei, mas o dono da casa nem veio falar comigo! Agora ele desatou a escrever, tentando processar a novidade de dividir a vida com mais um ser estranho. Sorte nossa, que lemos o blog dele!

Sobre o desenho: Meias desenhadas com canetinha Pigma Micron Sakura 0.2 e coloridas com canetinhas diversas: Tombow brush, Koi coloring brush pen (Sakura) e Staedtler triplus color. Tentei formar uma paleta “outono”, usando só umas poucas cores para todos os desenhos. Agora podem brincar de achar os pares!

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