Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

A vida dos outros

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Quando fui parar na antropologia, minha mãe ficou muito preocupada. Eu tinha carteira assinada como jornalista e ia virar “antropo-o-quê”? Mas eu não; achei lindo escrever “antropóloga” em formulários de hotéis ou em documentos tipo-procuração que só servem para coisa chata. (A profissão melhora bastante o desgosto de encarar a burocracia.)

Bem, é um pouco mentira isso de ser antropóloga. Porque a atividade de professora é a que realmente ocupa o meu tempo. E, como as chances de realizar trabalho de campo são raras, faço de tudo para aproveitar a sala de aula para pesquisar. Afinal, tem um monte de alunos ali na minha frente, várias vezes por semana! Vou ficar falando o tempo todo? Nem pensar.

Meu objetivo número um como professora é dar um jeito de saber mais da vida dos alunos. Não estou interessada se eles decoraram os conceitos de Marcel Mauss. Estou é constantemente curiosa para saber o que pensam, qual presente gostariam de ganhar, como vêm e vão da faculdade, e como posso dar um jeito de metê-los numa pesquisa etnográfica (para obrigá-los a me contar tudo sobre a experiência, claro).

Um dos truques que inventei para pesquisar em sala numa disciplina de Metodologia foi pedir para os alunos escreverem uma redação com o título “Minha vida” em uma página. É bem cafona esse nome, eu sei, mas gera um tipo de material que adoro ler. Com uma boa análise, dá para mostrar aos alunos-que-se-acham-tão-singulares-e-únicos com são parecidos! Os padrões estão sempre lá: os desejos de consumo, os temas recorrentes, os sonhos de viagens, as pessoas da família.

Essa redaçãozinha simples serve para lembrá-los que uma pesquisa também é feita dos silêncios que provoca. Imaginem, naquela turma de jovens de 18 a 21 anos ninguém bebe, nem usa drogas, nem pensa em namorar! Como uma pesquisa pode enganar tanto assim, gente? Eles quase sempre morrem de rir de si mesmos; e constatam na prática que todo “dado” é construído, feito para alguém, variando segundo hora, lugar, contexto etc. Eu finjo que o objetivo é ensinar Ciências Sociais. Mas o lucro é que saio dali sabendo um pouquinho mais de cada um. Histórias tão lindas que já li: menina adotada, dançarina, mãe; menino perdido, outro poeta e até um que era da equipe olímpica de polo aquático!

Hoje em dia, quando não tenho tempo de analisar redações inteiras, faço em sala de aula uma versão mais curtinha. Peço que escrevam num papel o que fariam se ganhassem na loteria… a) 100 reais?; b) 10 mil reais?; c) 1 milhão de reais? Depois fazemos coletivamente a compilação e a análise das respostas. Todo mundo se diverte; e se arrepende; e quer começar tudo de novo. Não é fácil se ver objetificado numa tabela.

Contei tudo isso porque essa semana achei no meu computador uma adaptação do “Questionário Proust” — uma série de perguntas associada ao escritor francês que (supostamente) adorava esse jogo de salão. A partir de várias fontes na internet, criamos a nossa própria lista de perguntas, com a participação das crianças. (A Alice acrescentou uma pergunta sobre surf!) Depois, colocamos cada questão em um papel dobradinho, dentro de um chapéu, para ser sorteada. Foi a brincadeira certa para quebrar o gelo durante um reencontro de parentes que não se viam há muitos anos. Dá para saber um pouco mais de cada um com um pouco de humor. Aí vai a lista:

O que é mais importante em uma pessoa? Com qual figura histórica você se identifica? Como você gostaria de morrer? Qual a sua heroína favorita? O que seria a maior das tragédias? Onde gostaria de viver? Quais são os artistas que você mais gosta? Quais são os poetas de que mais gosta? Quem são seus heróis? Qual é o seu maior defeito? O que lamenta não ter feito? O que mais valoriza nos amigos? O que você mais detesta? Onde e quando foi mais feliz? Quais são os seus escritores favoritos? Quais são os seus heróis de ficção preferidos? Quais são os personagens históricos que você mais despreza? Quais são os seus heróis na vida real? Qual a característica que mais deplora nos outros? Qual é a pessoa que mais admira? Qual é a sua característica mais deplorável? Qual é a sua característica mais marcante? Qual é a sua ideia de felicidade perfeita? Qual é a sua maior extravagância? Qual foi a sua maior realização? Qual foi a sua viagem predileta? Qual é o lema da sua vida? Quem você gostaria de conhecer melhor? Que lugar você gostaria de conhecer? Qual é sua ideia de felicidade? Qual é sua maior qualidade? Qual é sua palavra favorita? Qual é o móvel da sua casa favorito? Qual é o maior amor da sua vida? Qual é seu atual estado de espírito? Qual é sua cor favorita? Que defeito é mais fácil perdoar? Quem são suas heroínas na vida real? Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo(a)? Se pudesse voltar à vida como outra pessoa, quem seria? Seu compositor favorito é… Seus autores preferidos? Sua atividade favorita é… Qual é a sua parte do dia favorita? Qual é a sua bebida favorita? Qual é o seu estilo musical favorito? Se você pudesse mudar alguma coisa no seu passado, o que você mudaria? Qual é o último filme que você viu? Qual foi o último livro que você leu? Qual é a sua fruta favorita? Qual é o seu sabor de sorvete favorito? O que você gostaria de aprender que você ainda não aprendeu? Você prefere frio ou calor? Bicicleta, carro ou prancha de surf? Qual é a sua lembrança mais antiga? Gato ou cachorro? Café da manha, almoço ou jantar?

Sobre o desenho: Desenhei alguns livros aqui de casa inspirada pelo tema do post da semana passada (e para ilustrar o calendário de abril/2014). O bonequinho à frente foi feito a partir de um Gaston Lagaffe que tenho em miniatura. Acrescentei o Garfield porque era o meu personagem favorito na adolescência. Os materiais foram os de sempre: canetinhas nanquim 0.3, lápis de cor e aquarela.

 

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19 pensamentos sobre “A vida dos outros

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  13. Adorei! me identifiquei muito com o trabalho do “o que eu faria se ganhasse um milhão…” , fiz isso com crianças de uma escola municipal… Sou aluna da graduação de História mas pretendo enveredar pela Antropologia, me apaixonei desde os primeiros contatos. Seu blog me faz querer cada vez mais prosseguir.

  14. Parabéns! Esse trecho é incrível: ”..uma pesquisa também é feita dos silêncios que provoca. ” Muitas vezes na correria diária e na ânsia de se produzir resultados imediados,esquecemos desse detalhe que faz toda a diferença no campo

  15. Ao contrário do que algumas pessoas pensam a profissão de professor é muito criativa. Diversificar as estratégias é uma tarefa complicada e divertida ao mesmo tempo. Como essa…

  16. KARINA, MARAVILHOOOOOOOSO. Poderia escrever horas sobre a qualidade dos seu desenho; a qualidade e a graça do seu texto mas seria chover no molhado pois sabes que te admiro dos tempos em que vc nem sabia para que serve um lápis. Parabéns, portanto, não pare, principalmente de desenhar, experimente aquarelas tb. Lí uma vez que “no fim da tarde o sol dava uma osciladinha no horizonte com se tivesse dando um beijinho de até amanhã na terra…”, vc me lembra este sol.
    Grandiosíssimos beijos
    By the way: aguardo os calendários de Maio, Junho, Julho……….

  17. Bem interessante essa sua abordagem, Karina. Não parece ser alguém em uma posição “fria” querendo “extrair” o que há nos outros, pelo contrário, você se mostra atenta na interação, de maneira que pude sentir o seu prazer nesses diálogos com a vida dos outros. Parabéns pelo trabalho e pelas ótimas ideias. 😉

  18. Adorei! Vou copiar a ideia, meu curso desse semestre é ‘trabalho de campo’ e já estava discutindo com estudantes várias ‘questões’ similares.
    Beijo.

    • Que bom, Clarice, obrigada! Estou sempre tentando achar um jeito de tornar as aulas menos burocráticas… Depois me conte como foi por lá? bjs

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